segunda-feira, 28 de abril de 2025

Nala e Lucie

No canto da aula, em traço sem propósito,

eu e Nala desenhávamos o professor.

Surgiu no tédio um pacto silencioso —

foi assim que nos conhecemos, no humor.


Lucie sentava ao lado, tão discreta.

Tinha um colar azul — delicadeza.

Notei que se falavam com afeto

e, num segundo, havia uma certeza.


Andávamos sem rumo e sem relógio,

por ruas onde o tempo se escondia.

Três sombras numa tarde sem litígio,

em cada passo, um riso que surgia.


Nos cafés, partilhamos a demora

de um mundo em suspensão, quase irreal.

Falávamos de tudo, e embora agora,

a vida ali cabia no banal.


Debruçados sobre livros e pesquisas,

entre os limites do real e o sonhar da ficção,

vivíamos as conversas e experiências

como se a vida coubesse na palma da mão.


Perdidos na tradução, tentávamos

traduzir de nós o intraduzível —

ver que tudo é sutil, mas filosófico,

e terminarmos no simples, no risível.


Há coisas que não cabem nas palavras,

havendo um dicionário intraduzível,

é pelo que se escapa, e nunca lavra

o mundo muito além do tangível.


Nem tudo que se sente se declara:

o som primeiro antes da voz precisa,

o olhar que, de tão cheio, já desliza,

e o silêncio que canta e não se aclara.


Assim também, naquela noite antiga,

como a dança de Nala em seu catarse,

e o burburinho das moças e a medida

das estratégias do segredo e do disfarce,


as pausas dizem mais que as palavras,

bordam no ar um fio que nos embriaga;

nascia o que nenhuma fala abriga:

a língua impossível encontra a alma.


A filosofia, em nós, ganhava corpo,

não mais em tom solene ou vertical —

mas no calor de um gesto e da amizade,

de uma palavra dita ao natural.


Recados do intraduzível sentido,

do gesto que se perde e se descobre,

do rumor, da dança, do não-dito,

da poesia que só existe no impossível.


Foi nos primeiros dias, quase aos ventos,

que o mundo enfim fez parte do momento.

Que a amizade é refúgio do absurdo,

e o acaso tem também os seus encontros.

Elogio da Tradução

Há coisas que não cabem no idioma,

no sentimento, a alma é sem fronteira.

O que há de mais real nunca se doma:

foge à palavra, signo e bandeira.


Assim, nas bocas, dança o que não toma;

rumores leves, pausas, a primeira

fagulha do que em nós acende o aroma

do amor que nasce sem razão inteira.


A moça que me encanta nem pressente

por que me inflama a fala que não diz;

e, bêbado, colhi — rindo, inocente —

flores que a parte sóbria viu feliz:


são vestígios de um sentir irreverente,

de poesia feita por um triz.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Antropoceno, Capitaloceno e o que interessa?

Alguns se assustam com o termo "Antropoceno", considerando-o exagerado ou tentando se esquivar da responsabilidade humana diante de um futuro que parece irreversível, atribuindo a catástrofe ambiental a forças naturais ou fenômenos externos. Outros, no entanto, buscam entender a fundo a conjuntura atual e suas raízes, reconhecendo que as transformações profundas que estamos presenciando não são apenas um produto da ação humana genérica, mas de uma estrutura histórica e econômica específica que tem moldado nosso relacionamento com o planeta.

Um exemplo dessa investigação crítica é o livro Antropoceno ou Capitaloceno?, coletânea organizada por Jason W. Moore, que propõe uma inflexão crítica e radical ao conceito amplamente difundido de "Antropoceno", reivindicando, em seu lugar, a adoção do termo "Capitaloceno". Ambos os conceitos pretendem nomear a era geológica atual, marcada por transformações profundas na biosfera provocadas por ações humanas. No entanto, diferenciam-se profundamente em suas implicações epistemológicas, ontológicas e políticas. O termo “Antropoceno”, cunhado por Paul Crutzen e Eugene Stoermer no início dos anos 2000, propõe que a espécie humana se tornou uma força geológica, alterando de forma irreversível os sistemas da Terra. Essa narrativa, embora poderosa, é questionada por Moore e outros autores do livro por obscurecer as relações desiguais e estruturais que determinaram essas transformações. Ao falar em "humanidade" de modo homogêneo e abstrato, o conceito de Antropoceno despolitiza a crise ambiental, desconsiderando a centralidade histórica do capitalismo como modo de organização da vida que extrai, degrada e subordina tanto naturezas humanas quanto extra-humanas.

Ao propor o conceito de Capitaloceno, Moore desloca o foco da crítica ambiental da figura genérica do ser humano para a lógica específica de um sistema histórico: o capitalismo. O Capitaloceno designa não apenas uma era, mas um modo de relação entre capital, poder e natureza, estruturado a partir da colonização, da escravidão, da exploração do trabalho, do racismo e do patriarcado. Esse sistema, segundo Moore, é uma “ecologia-mundo” — uma configuração histórica que integra seres humanos e não humanos em uma rede dialética de (re)produção, dominação e acumulação. Diferente da abordagem dualista do Antropoceno — que separa sociedade e natureza — o Capitaloceno compreende ambos como co-constitutivos. A modernidade capitalista não apenas interfere na natureza, mas se constitui através dela, colocando a “natureza para trabalhar” como força produtiva fundamental. A "Natureza Barata", expressão desenvolvida por Moore, revela a tática capitalista de desvalorizar e tornar invisível o trabalho das mulheres, dos povos colonizados, das comunidades tradicionais, dos animais e dos ecossistemas, para transformá-los em insumos produtivos a baixo custo.

No decorrer do livro, diversos autores aprofundam essa crítica e ampliam os horizontes conceituais. Donna Haraway, por exemplo, propõe o “Chthuluceno” como uma alternativa ao Antropoceno e ao Capitaloceno. Em sua visão, trata-se de uma era baseada na simpoiese — ou seja, na criação conjunta da vida, numa lógica não hierárquica e multiespécie. Essa perspectiva ecoa uma crítica à visão moderna de mundo como algo ordenável, administrável e previsível, propondo, em vez disso, uma imaginação política que valorize o cuidado, a interdependência e a criação comum. Justin McBrien, por sua vez, elabora o conceito de “Necroceno” para descrever o capitalismo como um regime de acumulação baseado não apenas na produção, mas na extinção sistemática — de espécies, culturas, línguas, modos de vida. A extinção, segundo McBrien, é mais do que uma consequência colateral do capitalismo; é parte de sua engrenagem de expansão contínua, um modo de reprodução que acumula a morte para sustentar a vida mercantilizada.

Outros capítulos, como os de Elmar Altvater e Christian Parenti, trazem à tona a crítica ao papel do Estado moderno no Capitaloceno. Longe de ser apenas um regulador externo da destruição ambiental, o Estado é compreendido como um agente ativo na criação de ambientes, organizando o território segundo os imperativos do valor e da mercadoria. O Estado moderno, afirma Parenti, é um produtor de natureza, um organizador da extração e um distribuidor dos custos ambientais. Essa análise revela que não apenas as empresas, mas também os sistemas de governança política estão enredados na lógica da valorização capitalista, o que limita severamente suas capacidades de oferecer respostas transformadoras frente à crise ecológica.

O livro, portanto, não apenas contrapõe o Antropoceno ao Capitaloceno; ele também busca fundar uma nova ontologia crítica, que supere os dualismos herdados da modernidade ocidental — especialmente o binarismo entre Natureza e Sociedade. Essa crítica se alinha com a emergência de movimentos sociais que desafiam não só a distribuição desigual da riqueza, mas também os modos capitalistas de atribuição de valor à vida e à matéria. Lutas por justiça climática, soberania alimentar e o direito à cidade são interpretadas pelos autores como expressões de uma “nova política ontológica” que reimagina as relações entre humanos e a teia da vida. Ao articular essas práticas com uma crítica radical ao capitalismo, o livro aponta para a possibilidade de uma ecologia-mundo socialista — uma reorganização sistêmica da produção e reprodução da vida, orientada não pela acumulação, mas pelo cuidado, pela sustentabilidade e pela justiça interespécie.

A proposta do Capitaloceno, portanto, visa mais do que uma renomeação; mas uma reconfiguração epistemológica e política que questiona profundamente as premissas do pensamento ambiental dominante. Enquanto o Antropoceno sinaliza um diagnóstico, o Capitaloceno propõe um horizonte de transformação. É um convite para repensar não só o que nos trouxe até aqui, mas sobretudo o que estamos dispostos a imaginar, abandonar e reconstruir para continuar habitando este planeta.

Nessa mesma direção, os estudos do economista francês Thomas Piketty sobre desigualdade social causaram um impacto significativo no debate contemporâneo sobre o funcionamento do capitalismo e seus efeitos sobre a economia, o meio ambiente e a democracia. Sua análise histórica e empírica, baseada em dados de mais de vinte países ao longo de várias décadas, desafiou a visão convencional de que o capitalismo seria, por si só, um motor de igualdade e mobilidade social. Pelo contrário, Piketty demonstra que a dinâmica do capitalismo contemporâneo tende a gerar uma concentração crescente de riqueza e poder, favorecendo uma elite econômica cujas fortunas são passadas de geração em geração, sem depender de mérito ou inovação.

A chave para entender essa concentração de riqueza está na relação entre o retorno do capital (r) e o crescimento econômico (g), onde, historicamente, o retorno sobre o capital tem superado o crescimento da economia, o que leva a um acúmulo cada vez maior de patrimônio nas mãos de uma minoria. Esse fenômeno, identificado por Piketty como r > g, aponta para a inevitabilidade da concentração de riqueza em um sistema sem intervenções fiscais ou redistributivas eficazes. A partir desse diagnóstico, Piketty coloca em questão o funcionamento das democracias modernas, argumentando que a extrema desigualdade econômica compromete o próprio exercício da soberania popular. Quando os mais ricos concentram uma parte substancial da renda, eles adquiriram também uma influência desproporcional sobre as decisões políticas, os meios de comunicação e as campanhas eleitorais. Isso gera uma distorção nos processos democráticos, pois as políticas públicas acabam atendendo principalmente aos interesses de uma elite econômica, o que enfraquece a confiança nas instituições e alimenta o descontentamento popular, muitas vezes explorado por movimentos populistas ou autoritários.

Além de suas análises sobre desigualdade social e política, Piketty amplia seu foco para a questão ambiental, estabelecendo uma conexão entre as disparidades econômicas e a crise climática. O economista observa que os mais ricos produzem um dano ecológico significativamente maior, contribuindo de forma desproporcional para os danos ambientais, enquanto as populações mais pobres, que menos impactam o meio ambiente, são as que mais sofrem com suas consequências. Ou seja os capitalistas são o problema.

No entanto, é interessante recordar o capítulo 4 do Livro I d'O Capital, no qual Marx apresenta a transformação do dinheiro em capital, expondo a fórmula geral do capital sob a forma D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-dinheiro aumentado), que ilustra a lógica interna do processo de valorização no capitalismo. Aqui, o capitalista aparece não como figura autônoma e controladora, mas como personificação de uma lógica que o ultrapassa: ele é meio, e não fim. O sujeito do processo passa a ser o próprio valor, que se autonomiza e se torna sujeito automático da reprodução ampliada de si mesmo. Segundo Marx, “o valor se torna, aqui, o sujeito de um processo em que ele, por debaixo de sua constante variação de forma, aparecendo ora como dinheiro, ora como mercadoria, altera sua própria grandeza e, como mais-valor, repele a si mesmo como valor originário – valoriza a si mesmo” (MARX, 2017, p. 186)​

Na fórmula D-M-D’, o capital não está interessado no valor de uso das mercadorias, mas sim em transformá-las em mais dinheiro, ou seja, em mais-valor. Diferente do ciclo M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria), que visa à satisfação de uma necessidade concreta, o ciclo D-M-D’ parte do dinheiro e retorna ao dinheiro, mas em quantidade aumentada, o que implica que o fim da circulação capitalista é o próprio crescimento do valor. Como aponta Marx, “o valor passa constantemente de uma forma a outra, sem se perder nesse movimento, e, com isso, transforma-se no sujeito automático do processo” (MARX, 2017, p. 186)​

Dessa forma, pode-se argumentar que os capitalistas não controlam o capital em sentido pleno, pois, no próprio exercício de suas funções, são compelidos pelas determinações internas da lógica capitalista, como a concorrência e a necessidade de valorização contínua. Como diz Marx, o capitalista “só é respeitável como personificação do capital. [...] no capitalista, [essa lógica] é efeito do mecanismo social, no qual ele não é mais que uma engrenagem” (MARX, 2017, p. 657)​. O capitalista, portanto, é controlado pelas leis imanentes do capital e atua, nesse sistema, como um meio pelo qual o capital se autovaloriza.

Nesses termos, o conceito de Capitaloceno revela-se não apenas mais apropriado do que o de Antropoceno, mas absolutamente necessário para compreender a crise ecológica e social contemporânea em sua raiz estrutural. A substituição do foco genérico na "humanidade" por uma crítica situada das formas históricas de dominação permite elucidar com mais precisão a lógica interna do sistema capitalista — e é justamente essa lógica que torna o Capitaloceno uma época em que não o ser humano enquanto espécie, mas o capital como forma social autonomizada, é o verdadeiro sujeito da história.

A partir dessa perspectiva, impõe-se uma pergunta decisiva: quem controla o capital? A resposta, à luz da crítica marxiana e da leitura de autores como Jason Moore, parece ser inquietantemente clara: ninguém. O capital, uma vez posto em movimento, opera como uma estrutura automatizada de reprodução e expansão, cuja força coercitiva não reside em uma vontade individual ou coletiva, mas na compulsoriedade sistêmica de sua autovalorização. Como já apontava Marx, o capital "adquire uma existência automática" (MARX, 2017, p. 186), funcionando como um “sujeito automático” que subjuga tudo — natureza, trabalho humano, instituições políticas — à sua dinâmica expansiva.

Nesse sentido, o capitalista individual não é o senhor do capital, mas seu funcionário — uma engrenagem cuja existência está subordinada à lei da acumulação. O capital, enquanto valor em movimento, operara à revelia; seu comando é estrutural, impessoal, e irresistível dentro de sua lógica interna. Os próprios capitalistas são compelidos a reinvestir, explorar mais, acumular mais, sob pena de serem expulsos do jogo. Trata-se de uma coação silenciosa, mas absoluta, que confere ao capital um caráter quase metafísico: um fetiche social que subordina os seres à aquilo que eles mesmos criaram.

Assim, o Capitaloceno não não se reduz a apenas uma denominação crítica, mas uma chave interpretativa para compreender como a crise ambiental e a crise de reprodução da vida derivam de uma lógica histórica determinada — e não de uma essência humana abstrata. Nesse contexto, explicita a inversão entre sujeito e objeto: não é o capital controlado pelos homens, mas são os homens — e com eles a Terra — que são controlados pelas exigências cegas do capital, cujo principio é a própria acumulação, e não a vida humana. Como consequência, essa lógica transforma as relações de produção e também a forma de vida, as subjetividades e os próprios limites ecológicos do planeta.

Essa inversão sujeito/objeto é um marco paradigmático, que remete à famosa questão hegeliana, de que a consciência que molda o mundo e o mundo que molda a consciência, no qual se compreende uma relação dialética. A resposta de Marx é prática e materialista: se a realidade forma a consciência, então deve-se transformá-la por meio da práxis revolucionária. Como escreveu em A Sagrada Família, “se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente” (MARX; ENGELS, 2002, p. 145)​. Esta afirmação desloca o ponto de partida da crítica idealista para a crítica materialista da realidade, fundamentando a possibilidade da transformação histórica como prática emancipadora.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Sonho de Páscoa

Flor vermelha na lapela

com ternura carregara,

como fosse o coração

à vista de todo sonho vão.


Andara pleno na memória,

sem perguntar sobre o tempo.

Assim me vi no espelho

ao comprar jornal e cigarro.


O jornaleiro me disse:

“Hoje os peixes são de vidro,

e o céu mudou de estação —

agora chove por dentro.”


Fitei as nuvens do gesto

que fazia ao dar-me o troco:

um pássaro me escapava

do bolso feito de vento.


Na calçada um velho cofre

abria-se em mil relógios

que dançavam com formigas

vestidas de carnaval.


Dei um trago na saudade,

a fumaça desenhou

um rosto que me sorria

com dentes de girassol.


E eu, tonto da claridade

que brota dos absurdos,

segui florindo concreto

com passos de saltimbanco.


A cidade era um espelho

onde o tempo se despia —

e a ternura da lapela

me sangrava poesia.

A Loucura como Jardim Suspenso

A cada novo dia, o tédio — esse velho carcereiro sem rosto — arrasta suas correntes pelo assoalho da minha alma. Ele tem o hálito morno das repartições públicas, a cor desbotada dos relógios de parede, e o som repetitivo do gotejar que não se cala. Ele diz: “Sente-se, produza, não sonhe”. Ele exige documentos, senhas, metas, justificativas. Sua moeda é a rotina; sua moral, a repetição.

Mas há uma janela escondida — sempre há — atrás das estantes de livros não lidos e das pilhas de contas vencidas. Essa janela não dá para o mundo: dá para dentro. E ali mora Ela: a Loucura.

Ah, bendita sejas, Loucura, mãe dos visionários, irmã dos poetas, amante dos que perderam o mapa! És o único antídoto contra o insuportável cinza dos dias úteis. Em teus braços, não há mais calendário — há constelações de palavras, tempestades de imagens, sinfonias compostas por animais imaginários.

Em teus domínios, vesti a pele de um leão que lê Schopenhauer nas manhãs de domingo; dancei com fantasmas em becos iluminados por candelabros flutuantes; conversei com anjos bêbados e gargalhei diante de um espelho que me devolvia como palhaço, profeta e criança — tudo ao mesmo tempo.

Chamam-te delírio, desequilíbrio, desvio. Mas és liberdade, és chama, és o grito que nos resta quando todas as canções viraram jingle e toda paixão virou plano de celular.

Não quero a lucidez que faz filas e escreve relatórios. Quero a loucura que pinta no ar e sussurra segredos de planetas mortos. Como o Elogio à ela de Erasmo. Quero fugir para teus braços cada vez que o tédio vier com suas promessas de estabilidade.

Afinal, se viver é repetir o mesmo gesto até a morte, que ao menos eu o repita dançando — com um papagaio no ombro e meu brinco de ouro, feito pirata, um cravo vermelho no peito e um poema nos olhos, que ardem como trovões.

Vodu Vodu

De linho escuro é feito o meu semblante,

bordado à mão com fio de pensamento.

Um gesto estranho guia-me adiante,

sem que eu conheça o rumo ou fundamento.


A cada passo, espetam minha carne

agulhas que não vejo, mas obedeço.

No fundo sei: não há quem mais desarme

meus próprios nós, senão o que padeço.


Não fui criado só por mãos alheias,

pois trago em mim o traço do artesão.

Entre as costuras, vozes são correias

de uma razão que dobra a contramão.


E sigo, sim, com garbo de guerreiro,

mesmo que os passos já estejam traçados.

Sou forma viva, espectro e feiticeiro,

meu corpo e alma andam amarrados.


Se penso, é pensamento que me guia,

mas sou também o fogo que o consome.

Sou mais que voz — sou verbo e sincronia,

sou nó, sou lâmina, sou o que me some.


Não nego os deuses, nem os seus caminhos,

mas nas veredas planto o que carrego.

Se sou destino, escrevo-o com espinhos,

e em cada dor que sinto, me navego.


Mas danço. E danço bem. Se sou cativo,

o sou de mim — do mito que escolhi.

E mesmo que o futuro seja escrito,

sou eu que vou, sorrindo, até ali.


Nas Florestas Simbólicas

Caminho só por árvores em chamas,

mas não se queimam: brilham como o sal.

Um corvo prega amor em folhas mansas

e o chão respira, lento, vegetal.


As sombras dançam valsa com as raízes,

de cada tronco escorre um verbo azul.

Sibilam línguas mortas — cicatrizes

que abrem-se em flor num gesto tão sutil.


Há veados que rezam com seus olhos,

e orquídeas cospem vinho ao entardecer.

As nuvens descem, vestem os cipós,

e o tempo é bicho: morde sem doer.


Um rio fala em códigos de estrela,

seus peixes cantam fados em latim.

Brotam no ar relógios sem cautela

que marcam horas fora do jardim.


E eu, perdido, quase não respiro —

tenho pulmões de musgo e de cristal.

Meu nome? Esqueci num galho antigo,

no qual dormia um anjo do mal.


Mas sigo, pois um lobo me conduz

com voz de avô e dentes de marfim.

Ele me diz: “Teu mundo é uma cruz,

mas há perdão no sonho do jasmim”.

O Reino do Imaginário

No fundo da noite, quando os ponteiros param e os ruídos do mundo se recolhem em suas próprias conchas, sou visitado por um rei. Ele não veste mantos, nem carrega coroa. Seus olhos são poços de miragem, e seus dedos, longas penas que escrevem no ar as fábulas que jamais ousamos viver.

Esse rei é meu hóspede. Ou sou eu o hóspede de seu reino? Ele me oferece vinhos inexistentes que embriagam mais do que qualquer absinto — vinhos destilados dos sonhos de crianças adormecidas e das promessas não cumpridas dos amantes.

Lá, no trono do Imaginário, não há governo senão o das nuvens, nem lei senão a da metamorfose. As pedras choram, os perfumes falam, e os espelhos não refletem: conduzem. Conduzem a terras onde as palavras se fazem carne e os silêncios têm cor.

Ah! Quantas vezes, nesse império sem mapa, me tornei herói de epopeias sem espada! Quantas vezes fui traído por ideias que criaram asas e voaram para longe, rindo de minha vã tentativa de contê-las no papel!

Mas o Imaginário também castiga. Ele sussurra mentiras doces como o pecado e me prende em jardins onde as flores devoram os que ousam colhê-las. Ele me faz amar sombras, desejar estátuas, acariciar quimeras que ruem em pó ao amanhecer.

E no entanto, todas as manhãs eu volto. Eu rastejo de volta ao palácio das fábulas, implorando ao rei que me deixe ficar mais um instante, mesmo que isso me custe a sanidade.

Pois, entre a dura pedra do real e o véu de seda do impossível, escolho o corte. Escolho o abismo revestido de poesia. Escolho o Imaginário.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Solilóquio de uma árvore em cena

Sou a árvore em cena

de sua peça de teatro,

da sua vida, quase nada,

algo perdido no tempo.


quem me dera te ver

por um momento qualquer —

um sorriso, um olhar —

é tudo que posso querer.


me faz falta, e é quase como

uma dor de ausência,

um sufrágio impossível,

uma ferida aberta ao mundo.


bebo uma água, penso um pouco.

não resolve. ocupo a cabeça

com leituras ao acaso, outras nem tanto,

mas gostaria de saber como está.


o tempo passa, e o mundo gira,

para mim, em torno de você.

ainda, nesse instante, o teatro

em que sou a árvore em cena.


queria lhe dizer coisas,

contar tudo o que me aconteceu.

mas árvores não têm falas:

fico apenas a sentir o vento.


queria lhe dizer coisas,

protagonizar ao menos uma cena —

um café, um vinho ou uma cerveja...

fico apenas a sentir o vento.


protagonizar ao menos uma cena:

eu e você, falando sobre a vida,

como fazíamos — e era bonito.

vejo os passantes, as luzes noturnas, sinto o vento.


vento, vento, noite adentro,

é como se passasse por dentro de mim,

nesse vazio imenso por onde o vento

pode passear — e passeia.


ao menos não me falta ar.

a noite é fria,

e a minha sina —

qual será?


domingo, 20 de abril de 2025

Saudade do Antigo Amor

Partiste como a brisa ao fim do entardecer,

deixando o céu da alma em vasto desalinho.

Ficou-me a solidão, a hábito e dever:

lembrar de ti nas horas sem qualquer caminho.


Teu nome, quando dito, é brando de dizer,

mas corta-me a garganta em lâmina e espinho.

E a tua voz, remota, insiste em renascer

nos sonhos que me vêm à noite, de mansinho.


Bilhetes que escreveste — outrora, teu fulgor —

são hoje relíquias trêmulas do tempo.

Leio-as como um monge em cisma e fervor,

sorvendo o que sobrou de beijo ou contratempo.


Ah, se o destino, em jogo, ousasse ser menor,

deixar-me-ia ao menos o teu último alento.

As Atrizes

As atrizes me atraem pela performance,

presença de palco, na pista ou calçada;

tocam meu corpo e derretem,

gozam em cena encarnada.


Fazem da cama o proscênio,

fazem de mim qualquer coisa;

beijam-me o corpo inteiro:

esse é o intuito da peça.


Esse é o intuito da peça, sua sorte,

para o grand finale destinado a elas:

encarnar uma petit mort

nos braços de quem se adora.


No gozo há algo divino,

como um vinho consagrado:

corpos dançam nesse destino

para um novo ciclo interminado.


É Dionysus que assina

cada ato, cada tese —

e a luxúria feminina

nesse palco é puro êxtase.


Transcendem a quarta parede, entre quatro paredes,

como selvagem, modesta, santa e profana;

são todas essas figuras, as atrizes,

a transubstanciar-se em cena.


As atrizes me atraem pela performance,

presença de palco, em igrejas e baladas;

promovem a perfeita catarse

que figura suas calcinhas molhadas.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Mímesis e Póiesis

Todo ser, ao se criar,

Começa a imitar alguém.

Como espelho a se formar,

Copia o gesto que tem.


Observa o mundo a girar,

Vê que tudo vai também.

Tudo passa sem parar,

Nada ali se firma bem.


Nasce o ego na infância,

Morre no sábio ao refletir.

Pois a tal da "verdade"

Faz o ser se dividir.


Muda o ver e a substância,

Muda o ser sem resistir.

Surge nova caminhância

Que proíbe de fugir.


É pecado olhar pra trás —

Pois se volta ao velho inferno:

Como Orfeu, que viu demais,

Como o olhar de um moderno.


Como a mulher de Ló,

Que hesita ante o que foi,

Quem se apega ao pó do pó

Não verá o que constrói.


Mas se o mundo faz o olhar

E o olhar vê o que é mundo,

Eis que o ser pode mudar

O vazio mais profundo.


Primeiro, tudo é reflexo,

Sombra, gesto, repetição.

Mas depois, o que era anexo

Torna-se criação.


Quando o ser se reconhece

Já não vive só por ver.

Com o mundo se tece e cresce

Pra no fim o refazer.


Tudo é cópia, é tradição,

Vem de algum lugar maior.

Mas não é essa a questão:

Há um novo mundo em flor.


Pois da mímesis primeira

Brota a aurora do pensar,

Onde a vida, verdadeira,

É o que ousa se inventar.

Flor do Lácio

Flor do Lácio, que ao verbo deu corpo e sentido,

Tu és chama que arde em silêncio e paixão.

Na lavoura da fala és o trigo moído,

És do povo a canção, és do rei o sermão.


Tens o tom do trovão e o soprar do latim,

Eco antigo que pulsa em nova harmonia.

Fala errante que corre sem rumo e sem fim,

Mas que guarda o vigor da mais doce elegia.


Voz do exílio, da pátria, da prece e do amor,

És espada, punhal, és abrigo e calor.

De Camões herdeira, és maré sem destino.


No teu seio ressoa um império de sons,

Cada sílaba tua é um poema de dons:

Flor que em lodo floresce e perfuma o caminho.

Hegel Materialista, Marx Idealista: Uma Nova Inversão Dialética em Visiting Hegel at Dusk, de Slavoj Žižek

A famosa provocação de Slavoj Žižek — “Hegel é um materialista e Marx é um idealista” — pode parecer, à primeira vista, um paradoxo. Mas, à luz do pensamento dialético de Žižek, essa inversão revela-se profundamente filosófica. O que ele propõe é uma reinterpretação radical dos conceitos de idealismo e materialismo, deslocando-os do senso comum (ou mesmo do uso ortodoxo marxista) para o campo da retroatividade hegeliana e da contingência histórica.

1. Hegel como materialista

Žižek insiste que Hegel, apesar de amplamente considerado um “idealista absoluto”, é, em essência, um pensador profundamente materialista — desde que se compreenda materialismo não como a primazia da matéria sobre o espírito, mas como a aceitação da contingência, da negatividade e da abertura radical do real. Hegel não parte de uma substância dada, nem de uma finalidade histórica (teleologia) fixa. Ao contrário, em sua lógica dialética, o sujeito só existe enquanto efeito de sua própria exteriorização, e a história se constitui por meio de contradições e fracassos.

No artigo Visiting Hegel at Dusk (2020), Žižek afirma que Hegel é o verdadeiro pensador do fracasso dos grandes projetos revolucionários: ele não acredita em um fim predestinado da história. Ele entende a realidade como estruturada por uma lógica retroativa — aquilo que parece uma causa é, na verdade, um efeito de seus efeitos. Essa noção, que Žižek chama de “absolute recoil” (recuo absoluto), é profundamente materialista porque recusa qualquer origem transcendental: o sujeito, o sentido, a história — tudo emerge de processos contingentes e autocontratuais​

2. Marx como idealista

Ao chamar Marx de idealista, Žižek não está dizendo que Marx acredita em ideias puras. Pelo contrário: ele está apontando que, mesmo em sua crítica radical da ideologia, Marx ainda conserva certa confiança teleológica de que a história caminha — ainda que por meio da luta — rumo à emancipação comunista. Ou seja, a história teria um sentido: a superação do capitalismo pelo proletariado. Para Žižek, isso representa uma forma de idealismo histórico, uma fé no “futuro melhor”.

Na entrevista, Žižek pontua que Hegel jamais teria aceitado a ideia de que a história aponta necessariamente para o comunismo. Para Hegel, qualquer projeto político — por mais emancipador — pode falhar tragicamente, como a Revolução Francesa que termina no Terror. Assim, a teleologia marxista, mesmo que crítica, ainda é idealista: deposita fé em um telos (fim histórico)​.

3. A inversão e sua força crítica

A inversão proposta por Žižek é, portanto, uma estratégia crítica. Ela nos força a reexaminar nossas categorias filosóficas e políticas. Se Marx é o idealista — no sentido de confiar em um “plano histórico” — e Hegel o materialista — no sentido de pensar a negatividade, o fracasso, a contingência como estruturantes — então talvez a verdadeira superação do idealismo esteja em Hegel e não em Marx. Para Žižek, compreender essa estrutura retroativa da realidade é essencial para formular uma nova forma de materialismo dialético, capaz de lidar com os impasses do século XXI.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Vida Adulta

Meu carro pifou na descida da serra,

uma curva e pronto: silêncio parado.

Nisso a conta do mês passou do limite

e o banco sorriu:

“Você está pré-aprovado para o fracasso.”


A geladeira parou,

a luz piscou,

o chuveiro queimou.

Tudo em mim entrou em curto

menos a paciência,

que já se foi faz tempo.


Sinto saudade de ser menino,

de cair e rolar sem boletos,

de correr sem destino,

de saber que alguém faria o jantar.


Sinto saudade de ser menino,

de repara o mundo em curiosidade,

acompanhando meu pai nas construções,

como pintor de rodapé.


A vida me empurra

num carrinho de supermercado torto.

Tento dar direção, ladeira abaixo

mas as rodas têm vontade própria.


Há dias em que penso:

“Hoje, ninguém morre.”

E ganho o direito de seguir.


Também há os momentos bons —

o café quentinho, a brisa da manhã,

quando o ônibus vem vazio,

quando alguém diz meu nome

com alguma ternura.


Então penso, quando tudo dá errado:

Calma, rapaz,

Tudo passa —

Inclusive você,

Como a sua infância.

Até os sonhos que você esqueceu de sonhar.


E então concluo:

Carpe diem, como disse o poeta

mas leve o guarda-chuva.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Palestina sob Escombros

Debaixo do céu cinzento e mutilado,

jaz Gaza, exangue, em brasa e desespero —

o berço antigo em sangue sepultado,

nas garras sujas de um império austero.


A bomba cai, não escolhe o inocente,

não poupa o riso, o leite, o pão, o canto.

Um corpo de criança, transparente,

vira poeira, misto de silêncio e pranto.


Os olhos fundos fitam ruínas mansas,

onde um lar foi, agora é sepultura.

Milhões de fantasmas — sonhos, esperanças —

jazem nas praças sob a noite escura.


Israel lança o fogo “cirúrgico”, preciso,

com tanques, drones, muros e cercados.

Mas que bisturi mira o peito indeciso

de um menino indefeso entre os destroçados.


Chama-se isso “guerra”? Não: massacre.

Genocídio à luz de um mundo ausente.

Mas o grito de um pai que no pó se empaca

ecoará no deserto eternamente.


E o Hamas, produto da opressão,

filho do medo, do muro e do castigo,

ergueu-se à sombra da ocupação,

criado por quem hoje o tem por inimigo.


Um monstro forjado no cárcere e na fome,

alimentado em décadas de desprezo —

cada bomba pariu um novo nome

no ciclo infindo de rancor aceso.


Mas não há pecado maior que o do forte,

quando com ferro julga e mata o fraco.

Não há Deus que tolere tal sorte:

crucificar a infância em cada ato.


Palestina, teu nome é resistência,

teu sangue clama, tua dor é chama.

Por cada ruína, brota uma sentença,

por cada bebê, ergue-se uma alma.


E quando o mundo acordar da indiferença,

verá que a paz não brota do abandono.

Que liberdade exige resistência

e que justiça não veste farda ou trono.


Netanyahu, tirano de um Estado racista,

sionista herdeiro de regimes de opressão,

teu nome arderá, marcado na lista

dos algozes que mancharam uma nação.


Libertem Gaza! Rompam o cerco e a grade!

Não em nosso nome, nem com nosso silêncio!

Clamem por vidas — não pela falsa verdade

de um exército que mata em nome do consenso.


Ergam-se os povos! Que cesse o jugo infame!

Que o chão se abra e engula o opressor!

Libertem Gaza, libertem cada nome

que dorme sob os escombros e o terror.


quinta-feira, 10 de abril de 2025

Matar a Flor em Botão, Eu Digo que Não: O Dever Moral de Salvaguardar o Futuro em Mobilizing Hope de Darrel Moellendorf

A questão climática é, antes de tudo, uma questão moral. Muito além de estatísticas sobre aquecimento global e projeções de emissões de carbono, está em jogo o destino da vida humana em sua forma mais fundamental: a possibilidade de existência digna para as futuras gerações. Darrel Moellendorf, em Mobilizing Hope (2022), sustenta que o enfrentamento das mudanças climáticas deve ser orientado por um princípio ético robusto, que compreenda a interdependência entre justiça climática, erradicação da pobreza e o direito ao futuro. Ao abordar a moralidade do clima, o autor argumenta que o desafio ambiental deve ser compreendido como um dever ético transgeracional, cuja negligência compromete os fundamentos da justiça global.

No centro de sua proposta está o chamado Princípio Anti-Pobreza (Anti-Poverty Principle), que identifica como “perigosa” qualquer política climática que imponha ou prolongue a pobreza involuntária, sobretudo quando evitável (MOELLENDORF, 2022, p. 29). Essa concepção redefine os critérios morais pelos quais se avalia o perigo climático, afastando-se de meros cálculos técnicos e assumindo a centralidade da dignidade humana. Nesse contexto, a mitigação das mudanças climáticas é também um projeto de justiça social global, pois evitar o agravamento da pobreza nas próximas décadas implica impedir que milhões de pessoas sejam lançadas em um ciclo de miséria e vulnerabilidade agravado pelo colapso climático.

A justiça entre gerações é, nesse sentido, inseparável da ação moral presente. Moellendorf é enfático ao afirmar que o aquecimento global já observado — mais de 1°C acima dos níveis pré-industriais — compromete não apenas o agora, mas o amanhã: “Mesmo que nenhum outro CO₂ fosse emitido, o aquecimento continuaria por séculos devido à inércia térmica dos oceanos” (MOELLENDORF, 2022, p. 17). Tal constatação introduz um princípio de responsabilidade retroativa e prospectiva: cada tonelada emitida hoje não apenas contribui para eventos climáticos extremos imediatos, mas se torna uma herança tóxica para as futuras gerações, que terão de arcar com seus efeitos por séculos.

Negligenciar a ação climática imediata, portanto, equivale a violar o princípio ético da prevenção do dano evitável, comprometendo os meios de vida daqueles que ainda não nasceram. Como afirma o autor, “a identificação de políticas climáticas perigosas é, em última instância, um juízo moral” (MOELLENDORF, 2022, p. 29). Tal juízo exige não apenas um olhar científico sobre os riscos ambientais, mas sobretudo uma compreensão normativa sobre o que temos razão para evitar. A justiça intergeracional emerge, então, como uma extensão lógica da ética do cuidado: se temos obrigações morais com os que coexistem conosco no presente, temos ainda mais com aqueles cuja existência depende diretamente de nossas decisões agora.

A defesa da meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C encontra aí sua justificação ética mais urgente. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), citado por Moellendorf, a diferença entre limitar o aquecimento a 1,5°C em vez de 2°C pode significar que “centenas de milhões de pessoas escapem da pobreza até 2050” (MOELLENDORF, 2022, p. 26). Esse dado revela que os impactos da mudança climática são desproporcionalmente sentidos pelos mais pobres e que, ao contrário do que afirmam certos discursos desenvolvimentistas — como o de Bjørn Lomborg —, adiar a mitigação em nome do crescimento econômico apenas agravará os próprios problemas que alega querer resolver.

O argumento do autor, nesse ponto, é contundente: políticas que priorizam o crescimento econômico baseado em combustíveis fósseis, com a promessa de resolver o problema climático no futuro por meio de adaptação, são autoderrotantes. “A priorização da erradicação da pobreza global sem mitigação climática é uma estratégia fadada ao fracasso, pois o aquecimento não contido criará novas armadilhas de pobreza e comprometerá a adaptação” (MOELLENDORF, 2022, p. 25).

Ao problematizar os fundamentos da justiça climática, Moellendorf recupera a noção de esperança mobilizadora, inspirada por Ernst Bloch. Essa esperança, diferente do otimismo ingênuo, é racional e ancorada em possibilidades reais de transformação. Esperar por um futuro melhor, segundo o autor, é também um ato político: “A esperança é tanto causa quanto efeito de um certo tipo de política” (MOELLENDORF, 2022, p. 10). Ao alimentar uma visão de mundo sustentável, igualitária e solidária, mobiliza-se a sociedade para exigir de seus líderes o compromisso ético com o futuro comum.

Por fim, a moralidade do clima exige que repensemos a natureza de nossas obrigações. Proteger as futuras gerações não é apenas um gesto de altruísmo abstrato, mas um imperativo moral concreto que exige, agora, ação decidida e transformadora. Ao reconhecer o elo entre justiça climática, justiça social e justiça intergeracional, Moellendorf nos convoca a agir com a consciência de que esperança, neste caso, é sinônimo de responsabilidade.

Arguição Crítica I: O Silêncio Estrutural em Mobilizing Hope

A leitura de Mobilizing Hope (2022), de Darrel Moellendorf, suscita tanto admiração quanto inquietação. Trata-se de uma obra rigorosa, intelectualmente honesta e dotada de um nobre impulso: mobilizar a esperança política diante do desafio climático, especialmente no que tange à erradicação da pobreza e à proteção das gerações futuras. No entanto, não se pode ignorar uma insuficiência nítida em sua crítica às causas estruturais mais profundas da crise climática.

Moellendorf, ainda que demonstre simpatia por ideais progressistas e por uma ética redistributiva internacional, parece deliberadamente evitar enfrentamentos mais diretos com temas polêmicos, como as responsabilidades históricas do colonialismo, o papel do capitalismo como sistema produtor da catástrofe ambiental, ou a lógica de acumulação que naturaliza a exploração ilimitada de recursos e corpos. Seu foco, como o próprio título sugere, está em mobilizar esperança, o que o leva a adotar uma estratégia discursiva moderada, orientada à construção de consensos mínimos entre atores sociais e políticos diversos, inclusive contraditórios entre si.

É possível compreender essa escolha como uma tática de engajamento pragmático, pensada para catalisar alianças políticas mais amplas — especialmente diante da urgência da crise climática. Como o autor mesmo sugere, “a esperança é tanto causa quanto efeito de um certo tipo de política” (MOELLENDORF, 2022, p. 10), e, nesse sentido, sua escrita se orienta a não provocar rupturas discursivas que poderiam inviabilizar o diálogo com setores mais conservadores ou economicamente centristas.

Contudo, esse caminho mobilizador por meio do consenso também impõe limites significativos. O autor, por exemplo, não enfrenta as origens históricas da pobreza global dentro de uma perspectiva crítica do sistema-mundo. A pobreza não é apenas uma consequência contingente da desigualdade de acesso à energia ou de políticas climáticas mal calibradas — como o livro muitas vezes dá a entender —, mas resultado direto de séculos de espoliação colonial, financeirização global e subordinação de economias inteiras à lógica extrativista do capital. Ao omitir essas dimensões, Moellendorf reduz o debate climático à gestão técnica de riscos, enfraquecendo a potência de uma crítica mais transformadora.

A mesma lógica se aplica ao modo como o capitalismo é tratado na obra: praticamente como uma estrutura neutra, a ser corrigida pontualmente por meio de políticas de precificação de carbono, incentivo a tecnologias limpas ou mecanismos de compensação. Ainda que o autor reconheça os interesses do setor fóssil como entraves políticos centrais (MOELLENDORF, 2022, p. 13), ele não problematiza o fato de que o modelo de crescimento econômico contínuo, sobre o qual repousa o próprio capitalismo global, é estruturalmente incompatível com a preservação dos limites planetários.

Trata-se, portanto, de um projeto paliativo e adaptativo, voltado à mitigação de danos dentro da moldura do possível — e não à reimaginação radical do mundo. A crítica aqui não se dá por desprezo à relevância dos objetivos defendidos por Moellendorf — como a justiça intergeracional ou o princípio anti-pobreza —, mas sim por apontar que tais objetivos talvez sejam inalcançáveis sem uma transformação sistêmica mais profunda, cujos contornos o autor prefere não traçar.

A esse respeito, é oportuno retomar a crítica de Kohei Saito, que, em sua interpretação ecológica de Marx, insiste que a transição ecológica não poderá ocorrer dentro dos marcos do capitalismo. Para Saito (2023), a esperança de uma reforma verde dentro do sistema ignora a natureza estruturalmente destrutiva da lógica da acumulação. Ao priorizar o lucro sobre a vida, o capitalismo tende, inevitavelmente, a sabotar qualquer tentativa de coordenação ecológica de longo prazo. Dessa forma, quando Moellendorf propõe políticas climáticas baseadas em consensos morais e redistribuição mitigada, negligencia o fato de que tais propostas são rapidamente absorvidas e neutralizadas pelas dinâmicas de mercado.

Saito vai além ao propor que o colapso ambiental é, antes de tudo, o colapso da imaginação política sob a hegemonia neoliberal. A alternativa, para ele, não está em moralizar o capital, mas em construir uma sociedade pós-capitalista fundada na suficiência, na redução da jornada de trabalho e no restabelecimento de vínculos metabólicos sustentáveis entre humanidade e natureza. Nesse sentido, Mobilizing Hope, apesar de seus méritos normativos, permanece aquém do necessário porque se recusa a enfrentar a tarefa radical do século: superar o capitalismo, ou ser destruído com ele (SAITO, 2023).

Em suma, Mobilizing Hope é uma obra valiosa, que cumpre seu papel ao fornecer argumentos ético-políticos poderosos para o engajamento climático. Mas sua escolha metodológica — evitar o confronto com temas estruturantes como o colonialismo, o extrativismo e o capitalismo como modo de produção — sinaliza mais os limites da política possível no presente do que os horizontes de uma justiça climática real e emancipadora.

Arguição Crítica II: A Moralidade Como Ilusão no Capitalismo Tardio

O projeto filosófico e político de Darrel Moellendorf, apresentado em Mobilizing Hope (2022), é ambicioso e admirável. Ao articular os dilemas das mudanças climáticas com os desafios da pobreza global e da justiça intergeracional, o autor reivindica uma ação moral global, enraizada no dever de proteger os mais vulneráveis — tanto os vivos quanto os que ainda virão. Contudo, a proposta de Moellendorf se vê profundamente limitada quando confrontada com a realidade concreta do sistema econômico que molda e regula o mundo contemporâneo: o capitalismo.

O problema de fundo reside na suposição de que seria possível mobilizar uma política moral contra as mudanças climáticas dentro de um sistema que, estruturalmente, opera à revelia de qualquer consideração moral. Como afirma André Comte-Sponville, em sua obra O Capitalismo É Moral? (2005), o capitalismo “não é moral nem imoral: é amoral” (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 21). O sistema capitalista não visa o bem comum, tampouco a justiça ou a sustentabilidade — ele visa, antes de tudo, o lucro e a acumulação. Seu critério é a rentabilidade; sua bússola, o mercado. Esperar que a lógica capitalista se submeta espontaneamente à moralidade, especialmente no que se refere ao enfrentamento das mudanças climáticas, é incorrer em uma espécie de idealismo político — que, embora bem-intencionado, não encontra amparo na realidade.

Essa lógica aparece de forma evidente quando se observa que os únicos mecanismos climáticos realmente adotados em larga escala por governos e corporações são aqueles que transformam o carbono em mercadoria. É o caso da economia dos créditos de carbono, que converte o direito de poluir em ativo financeiro, negociável em bolsas de valores. Trata-se, portanto, não de uma superação do problema, mas de sua subordinação à mesma lógica de mercado que o produziu. A emissão de gases de efeito estufa torna-se mais um dado na planilha de lucros — contornável por compensações, parcerias “verdes” e mecanismos contábeis, sem qualquer transformação estrutural.

É nesse ponto que a crítica de Mark Fisher torna-se particularmente relevante. Em Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo (2009), Fisher argumenta que vivemos em um regime de naturalização do capitalismo, onde toda alternativa fora do modelo vigente é considerada impossível, impensável ou utópica. O capitalismo não se apresenta apenas como uma forma de organização econômica, mas como um horizonte total de sentido, que captura inclusive as tentativas de resistir a ele. Como afirma o autor: “O realismo capitalista não consiste apenas na crença de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também na crença de que mesmo os problemas mais profundos do capitalismo não têm solução” (FISHER, 2009, p. 2).

A obra de Moellendorf, nesse sentido, embora valiosa, não rompe com os limites impostos por esse realismo capitalista. Ao propor soluções que operam inteiramente dentro do quadro institucional e econômico existente — como a precificação do carbono, a mobilização ética cidadã, ou o investimento em tecnologias “verdes” —, o autor aceita, ainda que tacitamente, as premissas estruturantes de um sistema que transforma toda crise em oportunidade de mercado. Ao evitar uma crítica mais frontal à lógica de acumulação, à financeirização da natureza ou à colonização do futuro pelo presente, Moellendorf parece reproduzir o próprio mecanismo que diz combater.

Talvez seja exatamente por isso que seu apelo à moralidade — por mais sincero que seja — soe impotente diante da magnitude da crise. Como é possível mobilizar uma moral universal dentro de um sistema global que opera de maneira sistêmica contra qualquer universalidade? Como falar em justiça climática num mundo em que as soluções são constantemente recodificadas como produtos e os direitos das futuras gerações são traduzidos em “ativos de risco”? Nesse contexto, a esperança torna-se uma moeda simbólica — inspiradora, sim, mas ainda submetida à lógica do capital.

Dessa forma, se a obra Mobilizing Hope tem o mérito de propor um horizonte normativo poderoso e necessário, também encontra seus maiores limites justamente por não problematizar a base estrutural do sistema que pretende reformar. O capitalismo, como lembra Comte-Sponville, pode até tolerar valores morais como adorno — mas “não é seu papel promovê-los; isso cabe à política e à ética” (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 65). Porém, quando a política está refém do capital — como bem diagnosticou Mark Fisher —, resta apenas a simulação de moralidade, esvaziada de força transformadora.

Arguição Crítica III: A Inutilidade da Moral e a Eficácia do Capital — Por Uma Estratégia Climática Realista

Embora o projeto ético de Darrel Moellendorf em Mobilizing Hope (2022) tenha como mérito recolocar a moralidade no centro das decisões sobre o clima, é preciso reconhecer que sua proposta se apoia em uma ferramenta fraca demais para enfrentar um sistema estruturalmente insensível à ética. O apelo à responsabilidade moral, ao dever de justiça intergeracional ou à solidariedade global, ainda que nobre e coerente, não possui eficácia real diante de uma ordem regida pela lógica da acumulação ilimitada, da competição desenfreada e da instrumentalização de todas as esferas da vida em função do lucro.

Como afirma André Comte-Sponville, o capitalismo “não é moral nem imoral: é amoral” (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 21). As instituições que orbitam esse sistema compartilham da mesma natureza, operando não por valores éticos, mas por interesses econômicos e geoestratégicos. Logo, esperar que tais instituições priorizem a moralidade — especialmente em detrimento da rentabilidade — é um gesto de fé mais do que uma estratégia política eficaz.

Nesse cenário, talvez a aposta de Moellendorf na mobilização ética de cidadãos e governos seja, se não ingênua, pouco pragmática diante das formas reais de ação do sistema vigente. Dado que o capital não responde à moralidade, uma estratégia mais eficaz talvez fosse pensar a preservação ambiental como um ativo econômico e simbólico, operando exatamente como o capitalismo já opera: por meio de incentivos fiscais, sanções diretas, engenharia institucional e, sobretudo, doutrinação simbólica via cultura de massa.

É nesse ponto que os filmes hollywoodianos desempenham um papel crucial. Eles não apenas refletem o espírito do tempo, mas ensinam como desejar. Já se pode observar, por exemplo, uma reconfiguração dos símbolos de luxo: não mais o carro esportivo movido a gasolina, mas o veículo elétrico silencioso e tecnológico; não mais a mansão ostentadora de consumo, mas a casa autossuficiente, coberta de painéis solares e revestida de consciência ecológica. Hollywood não ensina moral — ensina estilo. E ao fazê-lo, doutrina o público a consumir de novas formas, sob a mesma lógica de distinção de classe e prestígio que sempre moveu o capital.

Filmes como Pantera Negra (2018), ao retratar Wakanda como uma utopia tecnológica integrada à natureza, transformam a sustentabilidade em símbolo de civilização e sofisticação. Outros, como Elysium (2013), mesmo ao criticar a segregação ecológica, acabam por reforçar a noção de que o futuro "verde" é privilégio de poucos. Já Não Olhe Para Cima (2021) satiriza a inação política e, paradoxalmente, mostra que as saídas para o colapso são capturadas por elites que compram o futuro.

Essa doutrinação estética e simbólica funciona de modo mais eficaz que qualquer apelo ético, pois molda o desejo de consumo e prestigiação. A preservação ambiental torna-se desejável não por ser moral, mas por ser “cool”, moderna, futurista — e, portanto, comercializável. Essa reprogramação da libido social — o redirecionamento do desejo — é muito mais eficaz em larga escala do que a apelação à racionalidade ética, sobretudo quando se trata de massas.

Nesse ponto, A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset (1930), oferece uma chave valiosa: as massas não se mobilizam por ideias complexas ou compromissos abstratos — elas seguem modelos, tendências, hábitos impostos de cima para baixo. Portanto, tentar engajá-las moralmente pode ser um erro de diagnóstico. O capitalismo, ao contrário, já doutrina cotidianamente, moldando gostos, padrões de consumo e imaginários de pertencimento — e é por isso que tem tanto sucesso. Se quisermos ser eficazes em termos de mobilização climática, talvez devamos agir como o próprio sistema: reprogramar desejos, doutrinar pela estética, premiar financeiramente e sancionar socialmente.

Já se observa, aqui e ali, uma tentativa de reconfigurar os símbolos de luxo: em vez do carro esportivo movido a gasolina, ganha prestígio o veículo elétrico, silencioso, limpo e repleto de tecnologia embarcada; em lugar das mansões ostentatórias, despontam casas autossuficientes, equipadas com painéis solares e design sustentável. No entanto, essa estética da sustentabilidade ainda não está consolidada: trata-se de um projeto em curso, restrito às camadas mais altas e progressistas da sociedade, e frequentemente capturado como nicho de mercado. Por isso, a tarefa não é apenas descrever essa mudança — é promovê-la ativamente. A preservação ambiental precisa ser reposicionada, não como sacrifício moral, mas como símbolo de distinção, modernidade e poder, transformando o consumo consciente em objeto de desejo. O capitalismo, que sabe como moldar os sonhos das massas, pode — e deve — ser forçado a operar nesse sentido, inclusive por meio de políticas públicas, incentivos fiscais e uma cultura midiática orientada.

Contudo, essa reconfiguração simbólica e material do desejo social — que visa transformar a sustentabilidade em um novo vetor de sofisticação e prestígio — não pode se realizar espontaneamente nem por força exclusiva do mercado. Ela exige um projeto de desenvolvimento nacional articulado e soberano, capaz de combinar política industrial, incentivos fiscais, regulação cultural e educação simbólica de massas. No entanto, tais projetos são raros em tempos de globalização neoliberal e desmonte do Estado planejador. Ainda mais difícil é fazê-los prosperar de forma isolada: para funcionar em escala planetária, essa transformação exige conexão entre múltiplos projetos nacionais, ancorados em objetivos comuns de justiça climática, reindustrialização verde e combate à desigualdade. Em outras palavras, não se trata apenas de reformar o consumo, mas de imaginar uma nova pactuação civilizatória, cujo motor esteja nas alianças entre Estados, movimentos e blocos regionais comprometidos com um futuro viável — econômica, social e ambientalmente.

Moellendorf reconhece que “a política climática depende da mobilização de grandes coalizões” (MOELLENDORF, 2022, p. 10), mas parece não perceber que tais coalizões não se formam pela moralidade, mas por conveniência, prestígio, medo ou desejo moldado por símbolos. Se a preservação ambiental quiser competir com o capital fóssil, ela precisa aprender com seu adversário: não com ética, mas com estética; não com valores, mas com marketing; não com princípios, mas com propaganda e incentivos.

Diante do impasse ecológico e civilizacional, impõe-se uma pergunta decisiva: o capitalismo será capaz de se superar por si mesmo — ou caminhará, em sua rigidez sistêmica, rumo à própria destruição? Essa pergunta ultrapassa o debate econômico tradicional e toca o coração de um dilema existencial: estamos diante da possibilidade concreta do fim da vida humana tal como a conhecemos. A catástrofe climática, ao contrário de uma distopia literária, é uma curva já traçada, alimentada por um sistema que depende da expansão permanente, do consumo ilimitado e da extração contínua de recursos — naturais e humanos. A contradição é evidente: ou o capitalismo se transforma estruturalmente, subvertendo sua lógica de acumulação infinita e de captura total da vida, ou seguirá operando como um motor suicida, levando consigo as bases mínimas da habitabilidade planetária. O paradoxo, contudo, é que não há hoje um “fora” visível ao capitalismo, como observa Mark Fisher (2020): o sistema totalizou o horizonte do possível e colonizou até mesmo os projetos de sua crítica. Portanto, talvez a única chance realista de superação esteja em forçá-lo a inverter a si mesmo, valendo-se de suas ferramentas — mercado, desejo, consumo, propaganda — para produzir novas formas de organização da vida, mais racionais, equitativas e sustentáveis. Se falhar nesse esforço, a alternativa não será outra ordem — mas a desordem definitiva, a desintegração climática, social e política. A história, neste ponto, não perdoará indecisões.

Referência:

COMTE-SPONVILLE, André. O Capitalismo É Moral?. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

FISHER, Mark. Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

GASSET, José Ortega y. A Rebelião das Massas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

SAITO, Kohei. O ecossocialismo de Karl Marx: capital, natureza e a crítica inacabada da economia política. Tradução de Alexandre Martins. São Paulo: Boitempo, 2022.

MOELLENDORF, Darrel. Mobilizing Hope: Climate Change and Global Poverty. New York: Oxford University Press, 2022.

Brandura

Branda, ó vida, em sua dureza,

como brisa qualquer vinda do norte,

a passar pela minha semiaberta janela —

noto ainda suave beleza na austeridade,

enquanto aguardo o horário do almoço.


Ontem encontrei um casal

apaixonado, senhor e senhora,

que conheço da universidade:

vi-os dançar Dancing Days nessa noite,

e os acompanhei, bêbados, de volta pra casa.


Acompanhei-os, bêbados, de volta pra casa,

como quem deseja proteger um sonho,

como quem deseja resguardar a brandura —

essas cores bonitas da vida,

encontradas ao acaso.


Encontradas ao acaso,

como essa brisa, estrela da manhã,

que brinda a vida, em sua austeridade,

a passar pelo meu coração em janela,

que abrange a beleza em poema.



Amanheci assim, numa quinta-feira qualquer, assim como qualquer é a vida.


 

terça-feira, 8 de abril de 2025

Desejo de Devir

As pulsões,

como ondas de um mar,

me carregam.


O mar — de meu interior —

me afoga,

e meu íntimo

se exterioriza

em busca da Outra,

de fora de mim.


E volta

ao que habita

meu ser — que é nada

além do devir,

das pulsões que,

como ondas do mar,

me negam,

me transformam,

me enlevam,

me carregam.


No arrepio da noite veloz

Dentro da noite veloz,

Tudo passa tão devagar:

No suar dos corpos,

No beber dos copos,

No olhar atroz

Que carrega o desejo.


Debaixo desse mesmo luar,

Apaixonam-se, no mundo inteiro.

Celebra-se a vida de tantas formas:

Unem-se os corpos,

Brindam-se os copos.


Sob o mesmo céu noturno,

Infinito.

Diante do mesmo desejo —

Sem fundo.

As Cidades Invisíveis

Voltei, enfim, ao sítio onde fui outro,

mas tudo o que encontrei já era ausente:

a rua se perdeu no riso morto

das casas que mudaram de repente.


O tempo fez ruína do conforto,

cavou nos muros traços de um demente,

e aquilo que era abrigo ou era porto

só resta agora em mim, feito semente.


Não era o mesmo sol que ali brilhava,

nem a calçada antiga me cabia.

Quem passa não suspeita que ali andava

meu sonho, a se apagar em nostalgia.


Ficaram só vestígios, quase nada—

um cheiro, um som, um nome, uma janela—

de uma cidade oculta, encantada,

que só em mim persiste, que é só dela.


As pedras já não guardam meu segredo.

O banco onde esperei, já não espera.

A fonte seca encena o próprio medo

de ser lembrança, e não mais primavera.


E entendo, então, que tudo é transitório:

que o corpo fica e o nome vira brisa,

que a morte é só outro repertório

no palco dessa breve e eterna vista.


Não posso mais viver o que se fora.

Mas algo em mim resiste e recomeça:

a cidade invisível que, agora,

só vive em mim — e eu nela.


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Gênese da Linguagem

No instante em que explodiu o firmamento,

o som primeiro foi total ruína:

um brado nu, sem nome ou fundamento,

que fez do tempo a mais cruel doutrina.


O som do início — eco do sem fundo —

vibrava em tudo, em pedra, bicho, gente.

Lembrava ao ser que o centro deste mundo

é só silêncio, errante e persistente.


E foi por medo — medo do estampido —

que os seres, juntos, forjaram a linguagem.

Pra não ouvir o abismo repetido,

cercaram-no de verbo e de miragem.


Cercaram a radiação cósmica com a palavra,

pra significar tudo — que veio do nada.

E assim, à sua imagem e semelhança,

ergueu-se deus no verbo que o retrata.


Criaram nomes: "árvore", "abrigo",

"amor", "destino", "vida", "fé", "cordão"...

Mas cada termo, ao vir, traz consigo

a angústia do vazio da imensidão.


A linguagem foi trincheira contra o nada,

um modo de esquecer que tudo cessa.

Por isso a voz é tanta e desvairada:

se cala, escuta a morte em sua pressa.


No fundo, o que se diz é só disfarce,

um som bordado em torno do terror.

Mas quem repara o abismo e não treme,

fala baixinho, e emudece de pavor.


Ainda assim, do medo faz-se abrigo,

e a fala, antes muralha, é travessia.

Pois nomear a dor é estar consigo,

e dar à solidão certa companhia.


Dizer "ternura" é já quebrar o gelo,

"saudade" acende o tempo que nos resta.

"Afeto" é o pão da noite em seu desterro,

"gentileza", a chama humilde de uma festa.


A linguagem foi morada para o nada,

um modo de viver onde tudo cessa.

Todos nós e inclusive a palavra,

quem sabe até a primeira causa originária.


Talvez não deus, mas o fulgor do espanto,

um sopro atônito entre o ser e o abismo,

primeira luz que acendeu, no infinito,

o verbo e o desejo de estar vivo.


Não era lei, nem dogma, nem resposta,

mas só o grito nu que se queria, som e fúria

eco — na pedra, no corpo, na voz posta —

como se o som bastasse à travessia.

A Valsa

Sob o chão recai o teu vestido,

e teu olhar entrega o teu intento.

Se te ignoro, perco o paraíso;

se obedeço a ele, me condeno.


Então penso em minha vã filosofia,

enquanto já a tenho nua em minhas mãos,

e o pensamento já não mais me auxilia,

pois, no teu corpo, me desvisto da razão.


Em teu cheiro encontro o meu destino,

em tua pele, o fogo do desejo.

E então adentro logo o teu mais íntimo,

no anseio de que, enquanto dure, seja infindo.


E do soar de tua voz, em teus gemidos,

que impõem o compasso dos atos,

no ideal de dois seres refletidos,

no espelho, em fulgor, embriagados.


Ao elevar-se em graça tão plena,

os amantes, de substância tão una,

se encaixam e, um no outro, se encarnam,

tendo as almas ao alcance da pele nua.


E quando, em fogo, arqueias meu peito,

no espasmo que te faz temer a morte,

teu ventre se derrama em gozo perfeito,

e em êxtase me prendes a tua sorte.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Apesar de minha cara, minha cara

Apesar de minha cara de vampiro,

também pulsa o sangue em minhas veias mortas.

Também me perco em sombras, e suspiro,

como alma presa às tuas mãos absortas.


Também me assombro com amores defuntos,

com olhos teus que já brilharam nos meus.

Hoje são cinza, são ecos, são pontos

perdidos no escuro — esquecidos por Deus.


Se o rosto é pálido e o corpo sem chama,

no peito ainda arde o clamor do deserto.

Mas tudo em redor se dissolve na lama:

silêncio, saudade e o abismo por perto.


O tempo me leva, me apaga, me embaraça —

sou sombra que vaga sem cor nem destino.

Apesar de minha cara, minha cara...

me torno o fantasma do teu desatino.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Pupilas Dilatadas

Dizem que em meus olhos há luz e vertigem,

que a íris translúcida entrega a paixão,

pois brilham seus astros em fogo e fuligem,

em pulsão insaciável e melancólica tensão.


Talvez seja a cor, azul em tom celeste,

reflexo do abismo que em mim jaz,

ou talvez seja a sede, o sopro, o agreste,

o instinto que busca e não cessa jamais.


Se veem na pupila um ardor desmedido,

não é delírio que a dilata, nem ocasião,

mas janela d'alma, que reflete o seio

de um peito que opera em combustão.


Sou todo desejo, sou todo voragem,

meus olhos dilatam por sede de vida,

por ânsia de algo, por fome e vontade,

por tudo que há de sonho e utopia.