Voltei, enfim, ao sítio onde fui outro,
mas tudo o que encontrei já era ausente:
a rua se perdeu no riso morto
das casas que mudaram de repente.
O tempo fez ruína do conforto,
cavou nos muros traços de um demente,
e aquilo que era abrigo ou era porto
só resta agora em mim, feito semente.
Não era o mesmo sol que ali brilhava,
nem a calçada antiga me cabia.
Quem passa não suspeita que ali andava
meu sonho, a se apagar em nostalgia.
Ficaram só vestígios, quase nada—
um cheiro, um som, um nome, uma janela—
de uma cidade oculta, encantada,
que só em mim persiste, que é só dela.
As pedras já não guardam meu segredo.
O banco onde esperei, já não espera.
A fonte seca encena o próprio medo
de ser lembrança, e não mais primavera.
E entendo, então, que tudo é transitório:
que o corpo fica e o nome vira brisa,
que a morte é só outro repertório
no palco dessa breve e eterna vista.
Não posso mais viver o que se fora.
Mas algo em mim resiste e recomeça:
a cidade invisível que, agora,
só vive em mim — e eu nela.
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