terça-feira, 8 de abril de 2025

As Cidades Invisíveis

Voltei, enfim, ao sítio onde fui outro,

mas tudo o que encontrei já era ausente:

a rua se perdeu no riso morto

das casas que mudaram de repente.


O tempo fez ruína do conforto,

cavou nos muros traços de um demente,

e aquilo que era abrigo ou era porto

só resta agora em mim, feito semente.


Não era o mesmo sol que ali brilhava,

nem a calçada antiga me cabia.

Quem passa não suspeita que ali andava

meu sonho, a se apagar em nostalgia.


Ficaram só vestígios, quase nada—

um cheiro, um som, um nome, uma janela—

de uma cidade oculta, encantada,

que só em mim persiste, que é só dela.


As pedras já não guardam meu segredo.

O banco onde esperei, já não espera.

A fonte seca encena o próprio medo

de ser lembrança, e não mais primavera.


E entendo, então, que tudo é transitório:

que o corpo fica e o nome vira brisa,

que a morte é só outro repertório

no palco dessa breve e eterna vista.


Não posso mais viver o que se fora.

Mas algo em mim resiste e recomeça:

a cidade invisível que, agora,

só vive em mim — e eu nela.


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