segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Que lindos somos

Que lindos somos nós, no espelho vivo

Do amor que em dois se aprende a respirar:

Teu gesto em mim descansa, e eu, cativo,

Me vejo em ti — mais perfeito a te amar.


Na alma, a mesma luz; no sensitivo,

O mesmo fio oculto a nos ligar;

No corpo, a harmonia do motivo

Que a carne apaixonada sabe entoar.


Beleza é este acordo tão distinto

De ser em dois sem nunca dividir-se,

Um duplo incêndio manso e rigoroso.


Pois quando a forma ao sonho enfim se alia,

O tempo, lento, faz-se generoso

E em nós se perde, manso, à revelia.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

ruge ó fera

Não te esqueces que és selvagem, ruge, ó fera!

Não permitas à ordem que lhe impera,

De alienar-te aos moldes da rotina tua razão;

Que seja o ímpeto, e não a lei, a guiar tua mão.


Não sejas a ordem e o progresso o teu lema,

Mas o amor por base e sem promessa;

Assim és como Deus, nem bom nem mal,

Mas homem e fogo, em olhos de animal.


Forje teu sangue com a cor mais rubra;

Rasga o medo antigo e ancestral;

Recusa o jugo vil da norma obscura,


E lança-te livre fera sobre o fatal;

Escreve em sangue o teu poema,

Sê quem és e o mundo atravessa.

Se eu morrer não me abandones

Se eu morrer, não me abandones, minha amada;

Cara ama, em caros laços de esplendor.

Pois de ti sou feito inteiro e, na jornada,

Sou substância do infinito criador.


Se eu morrer da motocicleta em pleno voo,

Se afogar-me no profundo do meu ser,

Se o meu corpo não contiver o que ressoo,

Se eu findar noutro desengano, acaso ter;


Guarda-me vivo no gesto e na palavra,

No silêncio fiel que nunca perde,

Na lembrança que a ausência se transforma.


Que a morte, ao ver no amor gravado o nome,

Saiba em vão sua lâmina mais brava:

O amor torna eterno o que consome.



sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

éon imortal de barbelo

eu, materialista, o real observo

não desprezo os assuntos sagrados;

ouço-os com a mesma atenção que reservo

àquilo que me cerca, do qual fui engendrado.


Mas sei que tudo é maior no infinito,

abismo em torno ao globo terrestre,

sobre o qual lançamos olhar telescópico

para ver-nos pequenos diante o celeste.


Quero dizer que o infinito convida

àquilo que é chamado divinal;

se divino ou não, não interessa.

Nem sacerdotes ou templos, afinal,


Mas a curiosidade assim legada, que é

como o universo, infindo mistério celestial.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Odisseia

Quando partires rumo à ilha prometida,

Deseja longa a rota e dilatada;

Que seja a travessia iluminada

Por risco, engenho e busca esclarecida.


Não temas monstros, sombras ou quimera

Que surjam pela estrada dilacerada:

Nada haverá em preocupar-se na jornada

Se o ânimo a conduz em justa medida.


Pois quem eleva o pensamento ao alto

E deixa ao corpo a rara comoção

Não vê no mundo obstáculo ou assalto.


O mal não vive fora da razão:

Só toca aquele espírito já incauto

Que ao medo cede ante a primeira ação.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

À medida de todas as coisas

Ínfima forma ante o abismo estrelado,

Mede o olhar o esplendor do firmamento;

Do caos do céu ao mármore do tempo,

Vê-se o limite humano ali gravado.


Na vasta abóbada, em lume ordenado,

Cada astro cumpre o eterno movimento;

Nada há de vago, inútil ou violento

No pulso exato do cosmo alinhado.


Que resta, pois, à matéria pensante,

Frente ao desígnio eterno e soberano?

Curvar-se ao peso da lei fulgurante.


Pois grande é quem, no cálculo arcano,

Sabe medir-se, lúcido e constante,

E aceita a forma exata do humano.

Cartografia sentimental

Desenham-se em mim / sentimentos que ampliam, Num vago horizonte / onde os fins se extraviam. São cores de todo / o matiz, se as visses, Em fortes rompantes / de luzes felizes.

Atravessam linhas / de atrozes tormentos, Que em mim declinam / os meus pensamentos. E as dores e as cores, / sem que eu possa ver, Nesta ausência viva / fazem-me sofrer.

Refém desta imagem, / colorida e ausente, O peito se entrega / ao que a alma sente. A dor se mistura / num traço sem fim,

Pois tudo o que vejo / transborda de mim. Num quadro de angústia, / de luz e de além, Sou desta aquarela / o eterno refém.