segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Dialética do senhor e do escravo

 


Tom: E
E                                               B7
Perguntei ao preto velho: por que chora meu herói
                                          E
Preto velho respondeu: É meu coração que dói!

                                             B7
Eu já fui bom candeeiro, fui carreiro e fui peão,
                          A                E
Já derrubei muito mato e já lavrei muito chão
                 E7                        A
Com carinho carreguei os filhos do meu patrão
                 E      B7            E
Em troca do que fiz só recebi ingratidão!

[Refrão]
                                             B7
Sempre chamei de senhor quem me tratou a chicote
                               A             E
Livrei o patrão de cobra, na hora de dar o bote
                  E7                         A
Eu sempre fui a madeira e o patrão foi o serrote
                       E        B7             E
Sofri mais do que boi velho com a canga no cangote!

[Refrão]
                                               B7
Da terra eu tirei o ouro e o patrão fez o seu anel
                          A                E
Mas agora estou velho, e meu patrão mais cruel
                    E7                       A
Esta me mandando embora vou viver de léu em léu,
                      E     B7            E
O que me resta é esperar a recompensa do céu!
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Pós verso, por mim mesmo: 
         B7 
Foi pra permitir a miséria, que a ilusão do céu se fez
                           A                E
E agora afirmo, romper com esse destino, é preciso de uma vez
                    E7                       A
Fazer ver, senhor e senhora, arrancar de todos o véu
                     E     B7            E
Pra libertar toda gente, de um juízo final tão cruel

       B7 
Tomar as rédeas da vida, e o destino por sua vez
                           A                E
todos os pobres unidos, contra o chicote e a lei
                    E7                       A
E impor, senhor e senhora, na terra um pouco do céu 
                     E     B7            E
Pois para não perder os dedos, é mior perder o anel


terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A magnitude de Luizinho Lopes

 

"Como Seria Explodir Um Amor Tão Concreto Duro De Partir?”. Não faço ideia, mas eis, de fato, um artista fora da curva, que mudou o tom e está à altura dessa questão. Conheci-o através do Mestre Nildo Ouriques que não recomenda nada à toa e apresentou essa obra de forma apologética.

Luizinho Lopes originário de Pirapora-MG, radicado em Juiz de Fora-MG, graduou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Em 2007, concluiu a pós-graduação na primeira turma de Cinema Documentário da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Iniciou sua carreira musical no final dos anos 70, integrando o grupo Vértice de Juiz de Fora.

O artista carrega uma história que justifica seus méritos. As composições de Luizinho transcendem a trivialidade dos dias contemporâneos, coqueteando com a essência refinada da nossa música popular, sem sucumbir a mera imitação ou repetição. Outro álbum que me arrebatou foi "Dossiê40 (Ao vivo)". A genialidade encontra suporte em arranjos que conferem um movimento dançante às palavras.

Reconheci diversas referências que ele deixou no ar - ou aos pés da dona - para quem for capaz, e imagino que deva haver outras tantas que deixei passar. Isso escancara a dimensão de sua cultura, vocabulário, ou seja, o tamanho de seu mundo, a ser apresentado. Dos joelhos de deus ao enigma da esfinge, dos faróis das avenidas engolindo as trevas ao sertão do coração, Luizinho é um instrumentista, cantador e filósofo, direciona aporias, charadas, questões para as quais não há respostas, nessa contradição que faz doer o peito em um ritmo que convida a dançar. Mas, como disse o poeta, o remédio está no verso, vide bula.

Estou profundamente encantado.

A recomendação permanece.

Caravana de São João

Eis a Mulher, o Muro e o Mundo,

E eis-me eu, diante de tudo,

Eis o aleatório, o absurdo.


A palavra a ser burilada,

E o verbo a se fazer carne,

Cartas dadas.


Segue um Pau de Arara,

Carro de Boi, carroça e cavalos,

Segue uma Caravana.


Com eles me vou,

Rumo ao desconhecido,

Ao devir e ao perecer.


Na Caravana de São João,

Na fuga do criador,

Em busca do ser.


Caravana feito diáspora,

De todo um povo comum,

Em gênero e gênese.


De melancólica calma,

Sem líder algum,

Guiados pela natureza.


Segue os passantes,

Com sede e fome,

Mas sem apetites.


Cabeças baixas,

Olhos atentos,

Rostos tristes.


Braços para trás,

E as mãos, muito calejadas,

Se cumprimentam nas costas.


Segue a pequena multidão,

Entoando a oração

De São Francisco.


Desde menino eu procuro,

E muito cedo tive a visão,

Ainda míope, de longe avisto.


Suba logo quem vier,

Pois, eis o tempo

Dos cativos.


Esses que carregam

A alma consigo,

Para onde vão.


Segue então

A Caravana de São João,

Rumo ao sertão.


Rumo ao inferno

Delicioso

Da solidão.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Comentário sobre Althusser e o materialismo aleatório

Há pessoas que nascem sob determinada lua, ao cair de um cometa ou asteroide, e que, justamente por isso, são diferentes. Não sei se é precisamente por conta disso, mas pretendo dizer, por um fator desconhecido, que as torna sentimentais, sagazes, geniais e fora da curva. Pode não ser a lua, o signo, o temperamento ou o que valha. No entanto, seria uma determinação social, ontológica ou altamente metafísica? Esse julgamento parece fora de questão. A esse respeito, o materialismo aleatório de Althusser me parece apontar horizontes significativamente sensatos para se pensar.

O materialismo aleatório de Althusser é uma abordagem que reinterpreta o materialismo histórico, destacando a complexidade das relações sociais, que reconhece a importância da economia na estruturação da sociedade, mas argumenta que outras instâncias sociais também exercem influência, resultando em interações imprevisíveis e contingentes. Essa abordagem enfatiza a aleatoriedade dos eventos históricos e rejeita uma visão determinista e mecânica da história.

Em um café qualquer, dois estranhos se cruzam. Seus olhares se encontram por um instante fugaz, mas é o suficiente para desencadear uma série de eventos que mudarão o rumo de suas vidas. Em um mundo regido pelo caos, onde cada escolha desencadeia uma miríade de possibilidades, o imprevisível é o fio condutor que entrelaça as existências. Um deles poderia vir a ser, quem sabe, um novo Napoleão.

Logo, sem fantasias, sobre o lugar de onde provém a materialidade concreta dos gênios, suas biografias podem fornecer diretrizes comuns, que idicam o caminho que o fez se distanciar da "massa", de onde provém suas virtudes. Estamos diante de eventos que agem de forma determinante, podendo ser concebidos como verdadeiros motores da personalidade. Isso remete à ideia do Absoluto, como conjecturado por Hegel, e historicamente desidealizado por Marx. Recordo inevitavelmente da sentença de Balzac em Illusions perdues que li recentemente, de que "A lenta realização das obras de um gênio exige uma fortuna considerável já existente, ou o sublime cinismo de uma vida pobre." De fato, isso determina tanto sua realização como encaminha o sujeito ao suicídio. No entanto, sempre restará o aleatório a estabelecer seu império soberano. A consciência para pensar a respeito também é (e já foi) determinada nesses intervalos materiais que historicamente se desmancham no ar.

O sucesso de um jogador de futebol depende mais de seu contexto histórico do que de seu talento com a bola. O que faria um Messi na Idade Média? Nesse contexto, inteligência é capacidade de adaptação. Assim, a história gira como numa roleta-russa de um revólver 38, de forma que levar um tiro poderá ser a maior dádiva de sua época, a depender de circunstâncias - dadas aleatóriamente - como cartas cortadas pelo destino e distribuidas pelo acaso. Vale o clichê de Auguste Comte, de que a vida dos vivos já foi determinada pela vida dos mortos, claro. E que, talvez por isso mesmo, tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Mas ainda mais valioso é pensar, como Vinicius de Moraes, que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Assim, vale encontrar-se e, para tanto, se perder.


Roda mundo, roda-gigante

Rodamoinho, roda pião

O tempo rodou num instante

Nas voltas do meu coração.

Quem éramos

Encontrei direção ao norte,

Para escapar da morte,

E ser então feliz.

Tal foi a minha sorte,

De não temer a morte,

Que da ilusão me desfiz.


Estive a me apaixonar,

Pois, ao amá-la no chão,

Vi o coração transbordar,

E ao precipitar, despedir,

Ponha a mala no chão,

Fique, e não vá, ela diz.


Pensei em viajar, ver o mar,

Sou cantador, canto a dor,

Foi por um triz, por acaso.

Coloque as flores no vaso,

E me faça feliz como te faço.


Escolhi ficar para amar,

E ela também me quis,

Em dedicar a vida ao causo,

O destino será o juiz.


Mesmo assim, desmedido,

O poema narra a trama,

De um amor entre distraídos,

Que se achou depois na cama.


Sentimento que nos acompanhava,

De alguma forma próximo,

E mesmo assim não sabíamos,

Até que enfim, um dia.


O amor descobrimos,

Ao nos despir da roupa,

E encontrarmos então:

Quem éramos.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Escrutínio do Papai Noel

Por seguir o calendário juliano, eu comemoraria o Natal ontem, mas, por motivos de agenda, como praia, e por não celebrar o Natal, não consegui. De qualquer forma, essas divergências entre os calendários são muito problemáticas. O Ano Novo está chegando, e ninguém sabe dizer que dia será. Assim, um revolucionário francês não sobreviveria à rotina dos calendários gregorianos, não teria agendas a comprar, e um marxista pode não saber que o 18 Brumário de Luís Bonaparte equivale a 9 de novembro do calendário gregoriano. Já o liberal confunde, pela incultura - tão típica deles - Napoleão com Luís. Nesse contexto, o Papai Noel (que não existe, claro) se existisse ficaria confuso ao ponto de querer não existir. Brincadeiras à parte, a realidade é bem maior que nossos sonhos, e é até divertido ver como nosso imaginário é ficcionalmente construído para sermos exatamente o que somos.

Mas a história se impõe sobre a ficção. Assim, calendários, contos, tradições e costumes, ou seja, nossa forma de ser, têm seus motivos costumeiramente curiosos. No entanto, a graça não está em observar ou justificar, por exemplo, as razões pelas quais as crianças gostam do Papai Noel, e sim as razões pelas quais os adultos o inventaram. Há um texto de Claude Lévi-Strauss (O Suplício do Papai Noel) que explora esse tema, a partir de uma notícia relativamente trágica (pois cômica) e sugere que esses cuidados que temos com o Papai Noel são cultivados pela persistência nos sujeitos de uma vontade de acreditar, por pouco que seja, numa generosidade irrestrita, numa gentileza desinteressada, num breve instante em que se suspende qualquer receio, qualquer inveja e qualquer amargura. Na crença de um ser, acima de todos (e sob um trenó), que confere sentido às coisas e os presenteia quando chega a hora.

No caso em questão, Lévi-Strauss explorou um incidente peculiar envolvendo o Papai Noel em 1951, na França, conforme relatado pelo jornal France-Soir. Nessa ocasião, o Papai Noel foi submetido a um enforcamento seguido de queima no átrio da Catedral de Dijon, diante de crianças de orfanatos, com a aprovação da Igreja (pra variar), que o rotulou como usurpador e herege. Esse episódio gerou controvérsia, dividindo a opinião pública entre apoiadores e críticos do Papai Noel. O que Lévi-Strauss destacou como paradoxal foi a postura inesperada dos anticlericais, que defendiam o Papai Noel, enquanto a Igreja adotava uma posição mais racional e crítica, opondo-se à representação fictícia desse bom velhinho, que buscava ocupar o lugar do "verdadeiro bom velhinho". Esse cenário revelou uma complexidade cultural e simbólica, incitando uma reflexão mais profunda sobre as origens e significados dessa tradição, que levou a publicação da obra.

No contexto natalino, historicamente, elementos antigos são mesclados e renovados, introduzindo-se novos elementos e criando fórmulas inéditas para preservar, transformar ou reviver práticas antigas. A origem histórica do Papai Noel está diretamente relacionada com São Nicolau de Mira. No entanto, facilmente se verifica que os aspectos não-cristãos do Natal assemelham-se aos Saturnais, e que a escolha da data de 25 de dezembro pela Igreja para o Natal sugere a intenção de substituir festas pagãs que originalmente ocorriam, mantendo características semelhantes ao longo da Antiguidade até a Idade Média. Certamente, não compartilhamos totalmente a ilusão; no entanto, a justificativa para nossos esforços é que, ao cultivá-la nos outros, encontramos uma oportunidade (na fantasia) de aquecer a chama viva nessas jovens mentes. A crença que ensinamos a nossos filhos, de que os brinquedos vêm de um lugar especial chamado "Além", serve como uma desculpa para o movimento secreto que nos leva a oferecê-los a esse "Além", sob o disfarce de dá-los às crianças. Dessa maneira, ao menos para Lévi-Strauss, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrifício à vida, que consiste, em primeiro lugar, dar outro sentido a ela e, assim, escapar da morte.

Então, quem sabe, um feliz natal. 

The Pirate Bay

Life is a misfortune for the poor,

No opportunities for those without capital.

Life is a foot in the ass out the door,

Away from the fun, to the other side of the wall.


Life under capitalism is a pyramid scheme,

The world in the form of a caste society.

The slavery of generations, stolen dreams,

For the glory of the bourgeoisie.


On the other side of the wall, Pirates Bay,

Stolen dreams have a new way.

“Don’t cry, don’t pray, and claim!”


At Pirate Bay, dreams come true again,

In steel and fire, in strength, choices, and changes.

In the sky, pirates like Dimas will find their place.



quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Há 88 anos, Leandro Konder via a luz do mundo.


Há 88 anos, Leandro Konder via a luz do mundo. Um autor que me direcionou diversos horizontes. Faço registro da sorte desse privilégio e da mais recente leitura de sua obra, cujo cerne é a derrota de um horizonte, ou melhor, a derrota da condição de todos outros horizontes que não este. Essencialmente da derrota que desencadeou o Realismo, delineado por Mark Fisher. Ou seja, da causa geral, que entedia esse triste século. Diante disso, pode-se dizer que todos aqueles que apontaram a questão, sem sucesso em superá-la socialmente, fracassaram. Poderia dizer também que, nesse contexto, trata-se de um autor mal acompanhado, mas justamente por se localizar a frente de seu tempo (e ainda do nosso). Entretanto, deve-se concluir, como fez Darcy Ribeiro, que os fracassos são suas vitórias, e que ele detestaria estar noutro lugar, que não  o seu. A esse respeito, insisto em acreditar que a grandiosidade das pessoas se mede pela amplitude de sua consciência e pela virtude, termos em que José Paulo Netto melhor lhe define como amorável, a partir de sua generosidade e gentileza (com o antagônico, inclusive, como Merquior). Em 2014, aos 78 anos tornou-se luz do mundo. Por essas e outras tantas razões, trata-se de alguém a se recordar, bem como para influir o horizonte por ele preconizado.