sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Zênite da juventude

Quero ver o que há debaixo

do vestido dessa moça.

Ela me tira do sério,

já sendo uma senhora.


Como me arrasta o olhar,

um rabo de saia!

Eu não posso acabar

assim com essa tara.


Como arde essa pulsão,

tão óbvia e súbita, de jovem,

embriaguez de perder a noção

no brilho da mulher, tal qual clarão.


Esse desejo agudo de viver

faz invejar os deuses pela sede

de beber do próprio querer

e se extasiar do desejo sem fim.


De querer mergulhar no corpo,

de sentir o gosto da mulher.

Eis a lei e a ordem, o jugo,

para se obedecer com gosto.


Ponto alto da idade de moço,

desejo que me aquece os olhos,

morada do corpo inquieto

que só encontra paz no alvoroço.


Costume


Acostumado a deitar no chão 

A mastigar comida fria

Me escondo aos cantos para ler

Local do qual tu riria 

Pois sujo, de poeira e lama

Em que me deito na faculdade

Trata-se do costume

Que trago das construções

De tragar cigarro

Em lugares alternados 

Como fazem os peões 

Eis o meu costume 

Tem a ver com o inconsciente 

A força do hábito, não percebido

Está a mover a gente 

A me fazer deitar 

No corredor de um labirinto

Vazia de gente, cheia de significado 

Leio crime e castigo 

Sem me sentir castigado 

Mas livre, enquanto crime

Não flagrado 

Mas que fica registrado

Na poeira de minhas costas 

Que reparam as moças 

A comentar em corredores 

Cheios de gente, sem significados 

A eles, nem beijos nem abraços 

Pois é do meu costume 

Me manter calado

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Dialética do senhor e escravo


Estou a ver navios, confesso 

Minha condição, meu lugar 

Nasci, não em berço de ouro

Por ele, não posso esperar 


Diante disso, não vou me queixar

A vida dá as cartas, nós jogamos

A par disso, elaborei meus planos

De todos os barcos incendiar 


Sobreviver requer inteligência 

Se sobrevivo sou um tanto isso

Constato, e abro um sorriso

O que mais tenho é paciência 


A correr em círculos 

Frequento um labirinto 

Sou um tanto astuto

Estou assim, é isto.


A ver navios e a queimá-los todos 

No fim, você não gostará de mim

Mas sua filha sim

Terás então desgosto?


Beijarás seu rosto

A ouvir sobre mim

Cruel, tirano estorvo


E a consentir assim

Beijarás também a mim

Como quem rói um osso


E te beijarei de volta 

A bater à tua porta

E levar teu tesouro 


Comigo, estás a sonhar

Enfim, pesadelos sem fim

Estaremos então, no mesmo lugar


Você a chorar, eu a rir

Você a chegar 

Eu a ir

Mil e uma noites


Não pretendo prender-te 
Nem em uma noite, dia ou tarde
Menos ainda mil e uma noites
Como fizeram a Sherazade

Nem tê-la em posse debaixo do mar
Nem em uma gaiola te acorrentar
Quero a noite eterna, conciliada 
Em recíproco desejo de amar

Não quero causar lhe dor
Não pretendo fazê-la chorar
Desejo o mais puro amor 
Que é livre no seu amar

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Mercadante toma posse no BNDES


    Durante a posse nesta segunda-feira (06), o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, disse que será feito um debate para tornar a taxa de juros praticada pelo banco mais competitiva, especialmente para as micro e pequenas empresas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o vice-presidente, Geraldo Alckmin (PSD), participam da cerimônia de posse do presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, e da diretoria. O evento será na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro. A reforma tributária e acordos internacionais foram assuntos da pauta.


Antes da mulher

 Antes, noutro tempo atrás

No qual não havia mulher

Tudo era sem luz, sem graça

Não havia dor sequer

Nem mesmo pecado qualquer

Nenhuma mentira ou trapaça


Foi essa criatura audaz

Senhora, fêmea, mulher

Que pariu tamanha audácia

Do excelso crime suceder

Contra o qual não há poder

Nenhuma fúria ou pirraça


Nenhum acordo, tratado de paz

Que convença homem qualquer

De abandonar a delícia

e viver assim de viés

Não podendo ser mulher

Pode apenas desejá-la


Sendo um tanto perspicaz

Qualquer um deve saber

E evitará tamanha desgraça

Se assim, evitar proceder

de intentar domar esse ser

Noutros aspectos além da cama


Perto da fêmea, homem é rapaz

e fazem do rapaz o que quiser

O homem que não nota a arapuca

Cai nela fácil, sem perceber

E ainda que objetive retroceder

Tem a carne frágil inebriada


Engana-se quem se acha capaz

De ter nas mãos esse ser

Tem de saber curtir a festa

Sabendo que vai perder

Comer da maçã, beber da fonte

E então vender a alma


Pois, noutro tempo atrás

No qual não havia mulher

Tudo era sem luz, sem graça

Não havia dor sequer

Nem mesmo pecado qualquer

Nenhuma mentira ou trapaça

Contra Bertoche (sobre a liberdade de expressão e democracia)


Aqui nos trópicos as coisas andam mal

Já é verão e o calor derrete a gente

Bem que fizeste em ir a Portugal

Onde o fado acalenta triste e contente


Também temos o samba, a bossa, o choro

Mas aí de nós! e mais ainda dos artistas!

A política daqui, produz cruel desgosto

Faz falta um presidente culto e socialista


Claro que a liberdade guia o povo

E claro que é lindo esse discurso

Mas demos ele a nosso algoz

E agora assistimos o absurdo


O ridículo tomou o poder

Enquanto o culto é espectador

Como o filósofo não deseja ser rei

Debatemos a luta entre ódio e amor


Por isso que não concordo com que dizes

“Liberdade para todos, e para tudo;

Deixe ao povo impor seus limites”

E viva então o próprio fim do mundo


Há de ser imposto os limites da virtude

Senão dos vícios seremos todos reféns

Do contrário não há ordem nem progresso

Onde tudo é permitido, mas nada convém


Portanto creio na lógica da retórica

Que fixe critérios éticos e morais

Sem os quais não há dialética

Só começos soltos, sem finais


É preciso atrelar a consciência

E tornar orgânico as conclusões

Do contrário não haverá ciência

Apenas tristes e histéricas ilusões

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Ode a Ishtar

A mãe das putas,

estrela matutina,

pétalas da flor,

flor de tangerina.


Deusa dos templos,

anti-virgem Maria,

em carruagem de leões,

administra o céu.


Paraíso dos homens,

êxtase da matéria,

nos jardins suspensos

da Babilônia.


Não tem vergonha,

nem se dá o respeito.

Dá para todos,

de todos os jeitos.


Gênese de Afrodite,

Gaia, e tantas outras,

mulheres e seus artifícios

de deusas e moças.


Estátuas, sem orifícios,

Ainda sim cativam a luxúria.

Ante a lúgubre pele nua,

cativa o macho a seu ofício.



Ao cio da terra,

a sina dos homens,

a paz pela guerra,

aos erros de Eros.


Antes mesmo dos acádios e sumérios,

se pretende na mulher encontrar

de todas as dores, o santo remédio,

do sabor da fruta proibida, desfrutar.


No corpo da mulher, o paraíso,

perdido do Éden, encontrado no fruto,

que embriaga e faz perder o juízo,

sendo a fonte do desejo absoluto.


O fruto, flor e jardim das delícias terrenas,

é perfeito remédio, calmante e excitante,

para pretensiosas noites inquietas e serenas,

que não findam, nem deixam dormir um instante.


Quando chá, é afável e quente,

dá sede à boca e faz transbordar calor.

Beber da fonte tão vertente

faz querer nela se afogar pelo sabor.


O fruto do pecado e do amor

é, sem dúvidas, do jardim o mais lindo.

Faz esquecer qualquer dor,

esquecendo também o juízo.


Todo ser, inevitavelmente, se inebria,

encontrando também amparo e carinho.

Por fim, todo mal, angústia e ruína,

se apazigua no seio feminino.


Segunda opção


Você me disse que a gente devia

ser a nossa segunda opção

Pra viver como amigos,

Não machucar o coração


Transar sem compromisso,

Pois somos apenas amigos,

de tempos antigos

quase irmãos.


Você me disse que a gente devia

Deixar o coração de lado, junto da roupa

No lado da cama, como quem se engana

Acreditando amar, sem se amar


Diz que eu não presto, me nega

Mas não nega os carinhos meus

Diz que não pode ser minha

Pois eu não posso ser teu


Você me diz pra gente não se ver

Todo final de semana, e se engana

Até eu aparecer de manhã na tua casa

Feito o sol, ao nascer na varanda


Subir bêbado a tua escada de caracol

Ao quinto andar, em maus lençóis

Fazendo barulho as quatro horas

Com as minhas botas de cowboy


Você me evita, e quer que te evite

Para evitar viver um romance

Entre dois corações

que estão fora de alcance


Quer só um lance, mais um lance

não encontra ninguém melhor do que eu

E vive a procura, mas é loucura

Se entrega a alguém como eu


Diz que eu não presto, me nega

Mas não nega os carinhos meus

Diz que não pode ser minha

Pois eu não posso ser teu


Diz que me conhece, melhor do que todos

E é verdade, não posso negar

Conhece meus defeitos, vícios e jeitos

E promete que a mim, não vai se entregar


Afirma, me olhando na cama

Nos meus braços a me beijar

Conta-me tudo que não podemos fazer

Como se estivesse a me enfeitiçar


Ela me olha como minha mulher

E eu como se fosse seu homem, mas

quer que lhe trate como uma qualquer

Dessas mulheres de uma noite ou mais


que a gente transe sem compromisso,

Pois somos apenas amigos,

de tempos antigos,

quase irmãos.

Amiga


1


Amiga, tenho um amigo

E tudo que ele fala, eu ouço

Me visita, bebe comigo

e depois me come gostoso


Ninguém sabe de nada

É nosso segredo delicioso

Quando ele me olha deitada

Despida, sinto que o deixo louco


O sexo nos embebeda feito vinho

Faz passarmos noites em claro

Até ver o dia amanhecer cedinho


E me obriga a gemer mais baixo

Embora, já tendo acordado os vizinhos

Sei que os deixei também excitados


2


A gente se encontra de vez enquanto

Mas transamos feito dois apaixonados

Há algo de vício, que evita o fim

Portanto, há apenas breves intervalos


Quando vejo tudo começou de novo

Sento nele vendo o sol raiar

Começo gemendo baixinho

Não demora muito, passo a gritar


Ele gosta de me ver gozando

me faz gemer como um padre reza missa

Feito espectador de uma performance artística


Adora mulheres, tem por elas devoção

Com a boca na minha buceta

tenta alcançar com a mão meu coração


3


Beija meu corpo inteiro com vontade

Me pega do jeito que eu gosto

Somos como diabo e maldade

Me adora feito deusa, aposto


Adoro o jeito que me come de lado

Também o jeito que me beija a boca

Por cima, por baixo, em pé e de quatro

De todo jeito eu amo, me deixa louca


Só pinta mulheres, quando artista

E sinto que me deseja toda hora

Em todo olhar ele flerta comigo


Confesso, é mesmo um perigo

Tem minh’alma por objetivo. Mas amiga!

Lhe prometo, somos apenas amigos..

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Ordem e progresso

 Doutô,

Só quero uma casa pra morar

E decorar as paredes

Em que animal eu devo jogar?

Já que deus não ajuda

Que bicho fará?


Não tenho terras, paredes nem teto

Não sou herdeiro e quero ser correto

Não vou roubar, nem matar

Mas o dinheiro não dá

Pra ter um lugar pra morar


Eu mesmo faria com as minhas mãos

Só precisava mesmo de um chão

Para fazer as paredes e decorá-las

Com quadros pintados por mim

e fotos de Frida Kahlo


Se eu jogar no bicho

Ou na mega-sena

Será que vai valer a pena?

Pois o trabalho não dá dinheiro não

Tenho de estudar, virar artista


Ah, Doutô

Mas quão pobres são os cientistas

Sábios dessa profissão..


Deveria então virar ladrão

Político de carreira 

Abandonar a consciência

Minha lei, minha sentença

Minha crença


Serei o todo da lei

Os escravos me obedecerão

Mal a todos, para meu bem

Como fazem esses cidadãos


Independência ou morte para quem?

Reforma agrária agora

Contra aqueles, sem demora

Pseudos cidadãos de bem

Esses, Doutô..


Engolirão a história amarga

De sua meritocracia suja

Abandonarão os palácios

Experimentarão as ruas


Quando o Zumbi voltar

A revolução vai vingar

Doutô,


Chame logo a polícia

A vingança nua e crua

Também carrega o nome

Da verdade e da justiça


Só queria uma casa

Vou morar na cadeia

E decorar as paredes

Com centenas de poemas

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

UMA CRÍTICA AO DIREITO COMO ESTAMENTO BUROCRÁTICO DA MANUTENÇÃO DO PODER E DA PROPRIEDADE PRIVADA NO BRASIL: OBSERVAÇÕES A PARTIR DA OBRA DE EVGUIÉNI PACHUKANIS.

    




A presente pesquisa teve como problema norteador a instauração principiológica da função do direito. A hipótese inicial foi de que o direito atua como instrumento de manutenção do poder e da propriedade privada. Para tanto, utilizou-se da metodologia dialética. Nesse sentido, de acordo com o método materialista histórico dialético, caracterizado pela análise do movimento do pensamento através da materialidade histórica, o estudo se voltou à gênese da Lei de Terras no Brasil e suas reverberações. Concluiu-se que, conforme a crítica estabelecida por Evguiéni Pachukanis ao direito aplicada ao Brasil, por meio da obra de Caio Prado Júnior, que o direito é contra-emancipatório no sentido de que se legitima assegurando a segurança jurídica e a propriedade privada estabelecida historicamente em injustiças sociais.

PALAVRAS-CHAVES: Direito. Propriedade Privada. Lei de terras. Desigualdade. Contra emancipação. Direito e marxismo.

Acesse aqui

Lacan: uma linguagem para o real, por Christian Dunker

    O século XXI descobriu a importância da linguagem como condição e meio de produção de sujeitos, relações de poder, formas de ideologia e modalidades de desejo. Pela linguagem nos definimos e nos constituímos. Mas será que toda a gramática de uma língua seria suficiente para traduzir a complexa realidade do mundo em que vivemos e o de nossos processos psíquicos? Esta inquietude, essa tensão entre o que é o real e o que a linguagem tenta capturar do real é questão fundamental na obra do psicanalista Jacques Lacan e é isso que Christian Dunker irá discutir neste programa.