quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A Vida Como Ela É

A sala posta, o véu rendado,

a mão que treme, o olhar de aço,

no vão da porta um vulto alado,

o coração batendo em falso.


Sorrisos gastos, gestos frios,

peçonha oculta sob a flor,

no vinho há fel, na noite, estios,

na jura doce, um dissabor.


O amor? Um crime sem castigo,

um fogo em febre, em sombra ardente,

um laço feito em nó antigo,

que se desfaz, fatalmente.


No lar perfeito, o pranto tomba,

na missa há risos de ironia,

o bem é máscara que assombra,

o mal também tem lá sua poesia.


E assim se vai, sem redenção,

entre traições e hipocrisia,

quem muito sonha perde o chão,

quem muito enxerga, a luz esfria.


E assim se vai, na contramão,

entre a margem e a esquina,

quem muito sonha perde a mão,

quem muito enxerga, vive a melancolia.

Força da Imanência

Nos veios ocultos do real concreto,

onde o tempo não dobra nem suplica,

pulsa a matéria em seu lume inquieto,

forjando o mundo que a si se explica.


Nada se aparta, nada se evade,

tudo ressoa no mesmo fulgor:

a luz que tomba, a sombra que invade,

o caos em dança, no deserto, o clamor.


Não há um fôlego além do corpo,

nem verbo antes do sopro infindo,

pois ser é força sem molde

no eterno embate do irrestrito.


Toda potência se faz presença,

toda ausência é ingênua ilusão,

o que fulgura, o que é essência,

se ergue desse mesmo chão.


Nenhuma mão move as marés,

nenhum sopro é sem raiz,

somos matéria, sonho e revés,

somos do abismo a divina matriz.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Crise

Não tenho ninguém para conversar

da forma em que costumávamos.

Mas, nesse sentir confuso,

não percebemos o quanto temos.


São fases, crises, da idade—

aos vinte, aos trinta, e por aí vai—

sem compreender, apenas,

apenas caminhando.


Diante das incertezas,

das crises, erros e angústias,

impossível dizer o que é certo

quando toda decisão parece erro.


Do sujeito que sou,

diante do "meu" não-lugar

no mundo.


Debaixo da apatia dos astros,

diante da vista dos meus olhos,

que anseiam a felicidade de todas e todos,

mas como se a felicidade me fosse negada.


E se emocionam, nessa incapacidade,

incapacidade de merecer tal lugar

no mundo.


Então, caminho e reparo o caminho,

como ele é: a se fazer,

e, diante dele, abro um sorriso—

dos mais angustiantes e confusos.


Pois perdido nessa imensidão,

na qual toda rua, instante,

todo rosto, esboço, emoção

poderia ser uma vida—e é.


Para todas e todos, mas não para mim.

Pois perdido, muito embora sorrindo,

no mundo.

A apatia das estrelas

Elas, tão silentes, tão cintilantes,

que, mesmo exuberantes, tão apáticas,

flutuam, pairam, espectros solares...

Será que, de volta, nos olham?


Para estas, a vida é outra,

difícil falar sobre suas conjunturas,

mas difícil julgar-lhes a indiferença;

entre nós e elas, sonha a vã filosofia.


Logo eu, vão filósofo, me deito

na beira de um rio, a namorá-las,

para que de mim não se esqueçam,

ainda que sejam, de fato, apáticas.


Talvez, um dia, me guiem, então

a um destino perfeito, quem sabe,

e, mesmo nesse caos e confusão,

paz eu encontre ao fim de uma tarde.

Beladona

Teu gosto me atrai,

teu sabor me acompanha.


Justamente, pois o sonho trai

e o futuro contra mim trama.


Mais uma noite e um conhaque,

e uma bela mulher que interessa,


salva-me, liberta do ataque

que contra mim se desfere.


Ai de ti, fantasmagórica ideia,

de inibir-me o porvir!


Ainda que perversa a sina,

não beberei a cicuta heroína.


Prefiro apaziguar a angústia

no seio de belas companhias.





E aguardar o que há de haver,

no mistério que o tempo encerra,


e entre copos e corpos a se entreter,

se recorde da graça da vida.


Se adie a ideia da morte

Em favor de outro anoitecer.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

E agora, José?

A esquerda acabou? Estamos de volta ao "fim da história" de Fukuyama ou à "derrota da dialética" de Leandro Konder? O que há de novo na crítica intempestiva da ausência do novo? Essas indagações ressoam em um cenário onde a esquerda, segundo Vladimir Safatle, encontra-se em estado terminal, incapaz de propor um horizonte transformador diante do avanço de forças conservadoras e da consolidação de um neoliberalismo que devora até mesmo as expressões de resistência. Em meio a esse impasse, debates sobre a centralidade do identitarismo e a fragmentação dos movimentos progressistas desafiam qualquer tentativa de resgatar a unidade e o potencial revolucionário. Será que a política atual, marcada por sua resignação estrutural, ainda pode oferecer algo além da repetição de formas esgotadas, ou estaríamos realmente diante do colapso da dialética? É nesse panorama que se faz urgente repensar as bases ideológicas, históricas e estratégicas da esquerda, na busca por respostas à altura das contradições do nosso tempo.

1) A conjuntura

Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP e autor do livro Alfabeto das Colisões, expõe uma visão contundente sobre o cenário político brasileiro atual, com uma análise que não poupa a esquerda e critica as falhas da política brasileira em lidar com os desafios estruturais do país. Para Safatle, a vitória de Lula nas eleições de 2022 não representa uma solução definitiva, mas apenas uma pausa temporária na ascensão da extrema direita, que continua a dominar o debate político e se configura como a única força capaz de ruptura no Brasil. Em seu diagnóstico, a esquerda, que ele considera ter "morrido como esquerda", se transformou em uma "constelação de progressismos" sem a ambição de uma transformação estrutural que abrace valores fundamentais como a igualdade radical e a soberania popular.

A análise de Safatle vai além de uma simples crítica à ineficiência da esquerda, atingindo uma reflexão mais profunda sobre a perda da "gramática" política que definia o campo progressista. A linguagem, segundo ele, desempenha um papel crucial na construção de uma identidade política, e a incorporação de termos como "empreendedorismo periférico" pela esquerda é um exemplo de como a ideologia tradicional foi diluída e transformada. Para o filósofo, o enfraquecimento da esquerda se reflete na incapacidade de propor soluções estruturais para os problemas do Brasil e no encolhimento de uma agenda política que já não se articula em torno da transformação social.

No entanto, Safatle não se limita a fazer críticas. Ele também aponta que, no contexto atual, a extrema direita se aproveita da ausência de propostas alternativas significativas. A sua análise sugere que a aproximação de polos ideológicos, como se observa nas tentativas de negociação do governo Lula com setores conservadores, pode ser uma "forma de suicídio político", que enfraquece a esquerda e lhe retira qualquer possibilidade de renovação genuína. O autor também aborda a crise epistêmica que o Brasil atravessa. Em Alfabeto das Colisões, livro lançado em 2024, ele propõe uma escrita fragmentada e experimental, distante da rigidez acadêmica, para captar e expressar as contradições do momento histórico. A obra não se restringe a debates sobre política, mas também questiona conceitos como identidade e opressão, ampliando o olhar para um campo mais amplo de reflexões sobre a sociedade.

Safatle faz uma crítica ao papel da intelectualidade pública, apontando a falha da classe intelectual em oferecer soluções eficazes e genéricas para os problemas do país. Em vez de buscar soluções prontas, ele sugere que o mais honesto seria compartilhar e debater as colisões ideológicas e políticas que atravessam a realidade brasileira.

Em contraposição à análise proposta por Vladimir Safatle, que afirma que a esquerda está "morta" ou em crise profunda, é possível argumentar que, embora a esquerda esteja enfrentando desafios significativos, ela ainda possui um papel vital a desempenhar na sociedade brasileira. Safatle, ao afirmar a "morte" da esquerda, parece desconsiderar as complexidades e as condições que envolvem a luta política em um contexto de grande desigualdade e adversidade. A visão de que a esquerda abandonou princípios fundamentais como igualdade radical e soberania popular não leva em consideração que esses ideais continuam sendo discutidos e defendidos, ainda que em um cenário de fragmentação e adaptação. A crise apontada por Safatle pode ser mais bem compreendida como um processo de adaptação às condições contemporâneas, e não uma falência definitiva.

Jones Manoel e Safatle podem ter razão ao identificar uma crise nas práticas da esquerda, mas a caracterização da "morte" da esquerda ignora o fato de que, historicamente, os movimentos de transformação social não se dão de forma linear ou imediata. A crítica ao enfraquecimento da ação política da esquerda, especialmente nas universidades e centros acadêmicos, se conecta à observação de que a academia, longe de ser um espaço de morte política, tem se tornado um ambiente de intensa reflexão e produção crítica. No entanto, é inegável que a prática acadêmica se distanciou de um compromisso direto com a transformação social. O que pode ser descrito não é a morte, mas uma reconfiguração das formas de engajamento, que exige novos caminhos para conectar a teoria com a ação política.

A crítica à academia como um espaço elitizado que perde sua função crítica, embora válida em muitos aspectos, também não deve obscurecer a importância do saber acadêmico e das diversas formas de resistência que continuam a emergir nesse ambiente. A transformação da intelectualidade da esquerda em um espaço mais profissionalizado, como destacado no texto, é reflexo das transformações da sociedade globalizada, mas isso não significa a incapacidade de influenciar a política de maneira eficaz. Pelo contrário, a crítica ao domínio acadêmico pode ser um convite para um renascimento da ação intelectual fora das paredes da universidade, mas nunca como um fechamento definitivo da academia como campo de resistência.

No que diz respeito à questão racial, embora seja evidente que a classe trabalhadora negra desempenha um papel crucial na luta de classes, a esquerda, de fato, tem falhado em integrar de forma eficaz a questão racial em sua agenda. No entanto, isso não é razão para a morte da esquerda, mas um sinal da necessidade urgente de revisão das práticas políticas e da criação de uma aliança mais sólida entre a teoria e as demandas sociais contemporâneas. A crítica ao movimento negro por não discutir questões como o identitarismo de forma honesta, e a proposição de um marxismo negro mais robusto, é uma chamada à ação para que os intelectuais e militantes negros se empoderem de um discurso mais radical, que articule as diversas dimensões da opressão.

Assim, a intenção do texto não deve ser vista como um desafio ao legado histórico da esquerda, mas como um convite à reflexão sobre suas estratégias e práticas. Embora a crise da esquerda seja real, ela não é uma sentença de morte, mas um ponto de partida para uma reconfiguração das suas práticas. A esquerda precisa, de fato, aprender com seus erros, mas nunca subestimar seu potencial de renovação e reinvenção, buscando novos pontos de articulação com as classes subalternas e com os movimentos sociais, incluindo os negros e as novas formas de resistência cultural e política. O que está em jogo não é a morte da esquerda, mas a sua transformação para os tempos atuais.

A atual dinâmica da esquerda brasileira, em grande parte absorvida por movimentos identitários, distante dos mais eloquentes, como o “woke”, apresentando uma série de limitações que merecem uma crítica cuidadosa e profunda. Embora seja inegável que as questões de identidade, como gênero, raça e orientação sexual, são fundamentais no combate às opressões contemporâneas, a ênfase excessiva em tais questões tem conduzido parte da esquerda para um terreno cada vez mais afastado de uma crítica estrutural radical e da luta por uma transformação profunda da sociedade. O movimento “woke”, com sua ênfase na conscientização individual sobre questões de opressão, muitas vezes se esgota em práticas performativas que, em lugar de questionar a estrutura capitalista e suas relações de poder, acabam reforçando um tipo de política de identidades fragmentadas e isoladas.

Essa ênfase nos identitarismos, longe de promover uma coalizão efetiva de classes subalternas, tem dividido ainda mais as forças progressistas, enfraquecendo a possibilidade de um movimento coletivo, capaz de articular um programa revolucionário claro. Ao invés de focar nas causas estruturais da desigualdade – como a exploração capitalista, o imperialismo e a opressão de classe –, o identitarismo muitas vezes desvia o debate para questões que, embora legítimas, não desafiam de forma concreta as estruturas de poder que sustentam o sistema econômico global. Em lugar de uma crítica radical do capitalismo, temos uma "politização da subjetividade" que, sem questionar o poder econômico, apenas reforça as dinâmicas de vitimização e fragmentação social.

Além disso, a esquerda contemporânea parece cada vez mais limitada a um movimento de massas muito ingênuo e centrista, que se nega a adotar uma postura verdadeiramente revolucionária. O foco em pautas de inclusão e direitos individuais, embora importantes, não é suficiente para promover as mudanças estruturais necessárias em uma sociedade profundamente desigual. O movimento, ao se limitar a reformas superficiais e ao apelo por maior representatividade dentro das mesmas estruturas dominantes, ignora a necessidade de uma ruptura profunda com o sistema capitalista e com as ideologias que sustentam a exploração das massas.

Ao observar o cenário atual, é possível perceber a ausência de referências políticas revolucionárias capazes de galvanizar as massas de forma clara e objetiva. O discurso revolucionário, que antes era ancorado em teorias marxistas e em uma crítica radical ao capitalismo, parece ter se diluído nas demandas por "inovadorismo", como se a simples atualização de terminologias ou de abordagens fosse suficiente para transformar a sociedade. O que antes era um movimento voltado para a tomada do poder e a transformação das estruturas sociais, agora se dispersa em ações simbólicas e protestos que não levam a uma mudança real nas condições materiais de vida das grandes maiorias.

A disputa pelo "inovadorismo", muitas vezes, se traduz em uma corrida para adotar as últimas tendências ideológicas, em vez de um esforço genuíno para enfrentar as contradições do capitalismo e construir alternativas concretas. A busca por inovações, por sua vez, se traduz em uma tentativa de marcar território no campo das ideias, muitas vezes sem qualquer substância prática ou revolucionária. Em lugar de uma estratégia de ação concreta, o que se vê são iniciativas que, embora carregadas de boas intenções, não conseguem ameaçar de fato o sistema que produziu as desigualdades e opressões que eles tanto criticam.

A ausência de uma proposta revolucionária clara não é um simples erro de estratégia, mas uma questão fundamental. O movimento de esquerda contemporâneo, especialmente na sua vertente mais liberal e identitária, parece se acomodar nas margens do sistema, sem nunca desafiar efetivamente as suas bases. Em vez de uma luta por um novo modelo de sociedade, assistimos a uma luta por um espaço dentro de um sistema que, por sua própria natureza, perpetua a desigualdade e a exploração. As ideias revolucionárias, que no passado eram centrais para os movimentos progressistas, hoje se encontram em um estado de inércia, sem a força e a clareza necessárias para desafiar a hegemonia do capital.

Nesse contexto, a crítica à esquerda não é apenas uma crítica às suas falhas atuais, mas também uma convocação à ação. Se a esquerda pretende se reerguer, ela deve superar o individualismo dos identitarismos e se voltar para uma agenda coletiva e estruturante, que tenha como objetivo a transformação das relações sociais e econômicas fundamentais. Sem uma perspectiva clara de mudança revolucionária, sem a luta pela destruição das estruturas de poder que sustentam o capitalismo, a esquerda se tornará cada vez mais irrelevante, marcada por gestos vazios e por um "inovadorismo" que pouco contribui para o avanço de uma verdadeira justiça social. A política de massas não pode ser substituída por uma política de identidades fragmentadas, e a busca por inovação deve ser acompanhada de uma análise profunda das forças sociais e políticas que moldam o nosso mundo. A radicalidade da esquerda deve ser reestabelecida, não em gestos simbólicos, mas em uma ação concreta que desafie as raízes do poder econômico e político que hoje dominam a sociedade global.

2) A novidade

A relação entre a contracultura dos anos 60 e 70 e o neoliberalismo, como articulado pelo pensador britânico que atuou como escritor, crítico, teórico cultural, filósofo marxista e professor no Departamento de Cultura Visual em Goldsmiths, Mark Fisher, é profundamente paradoxal, pois embora o neoliberalismo tenha surgido em resposta direta a muitas das inovações ideológicas e culturais da época, ele incorporou uma série de seus aspectos, transformando-os em elementos de seu próprio discurso hegemônico. A contracultura, em sua essência, buscava uma ruptura com os paradigmas rígidos da sociedade industrial, promovendo a liberdade individual, a experimentação estética, e a crítica ao trabalho alienante. Esses ideais de liberdade e de questionamento da ordem estabelecida ressoam de maneira estranha dentro da ascensão do neoliberalismo, que, ao mesmo tempo, se define como a antítese de qualquer projeto socialista ou comunista.

O conceito de Comunismo Ácido, conforme desenvolvido por Fisher, se refere à tentativa de criar um novo tipo de desejo revolucionário que rejeita o trabalho como valor central e busca uma transformação radical da sociedade por meio da ação estética e política. Em certo sentido, o Comunismo Ácido é uma fusão entre os movimentos sociais de vanguarda e as tendências mais experimentais da contracultura, que priorizam a liberdade criativa e a reinvenção do desejo humano fora da lógica capitalista. Essa “estetização sem precedentes da vida cotidiana” foi uma tentativa de criar uma forma de organização social que não estivesse subordinada à ética do trabalho, à moral capitalista ou à subordinação das pessoas a uma produção incessante.

Porém, o neoliberalismo, em sua busca incessante pela manutenção da ordem capitalista, reagiu a esse espectro de liberdade e desejo com a criação de uma nova versão do capitalismo que se utiliza de elementos da contracultura, mas de maneira a servir à reprodução das relações de produção e consumo. A estética da novidade, a ênfase na autoexpressão e a criação de desejos que emulam os valores libertários da contracultura, mas dentro de um mercado neoliberal, configuram o que Fisher chamou de uma carapaça “moderna” do neoliberalismo. O design do iPhone, os comerciais da Coca-Cola, e o estilo de vida promovido por empresas como Google e Apple são exemplos de como os ideais da contracultura foram apropriados e remodelados para impulsionar a lógica de consumo e trabalho em um novo formato, onde o “novo” é consumido não como uma revolução social, mas como um produto de mercado que pode ser adquirido, consumido e descartado.

Essa fusão entre o neoliberalismo e elementos da contracultura dos anos 60 e 70 é reveladora da flexibilidade do capitalismo em absorver, e até mesmo promover, a ideia de liberdade individual desde que ela não ameace as estruturas de poder existentes. Ao contrário do comunismo ácido, que imagina uma sociedade onde a abundância e a solidariedade criam condições para um novo tipo de desejo e de organização social, o neoliberalismo constrói um mundo onde o desejo é formatado pelas lógicas de mercado, e a liberdade é limitada pela capacidade de consumo individual.

No entanto, o neoliberalismo não se contenta apenas em absorver a estética da contracultura; ele também se posiciona como um combate direto contra qualquer movimento que realmente ameace a lógica do capitalismo. Como Fisher aponta, o neoliberalismo não é apenas uma continuação do capitalismo, mas uma resposta direta ao espectro do comunismo ácido. Ele não se limita a desqualificar politicamente as alternativas socialistas, mas, ao contrário, busca torná-las irrelevantes ao transformá-las em formas de consumo ou em subculturas que possam ser digeridas pelo mercado. A estética da rebeldia, a excentricidade, e a experimentação cultural, todas características da contracultura, são agora produtos a serem consumidos.

Em última instância, a batalha entre Comunismo Ácido e neoliberalismo revela uma luta profunda sobre os sentidos do desejo e da liberdade. Enquanto o primeiro busca uma revolução que transcenda a lógica do trabalho e do mercado, o segundo se reinventa através da comercialização do desejo e da adaptação das formas culturais à necessidade de perpetuar o sistema econômico existente. A verdadeira questão está em como essas dinâmicas de consumo e individualismo são manipuladas para garantir que as lutas de classes não ameacem as estruturas de poder, e como o neoliberalismo usa a liberdade e a inovação como ferramentas para garantir a continuidade da dominação econômica.

A relação entre neoliberalismo e contracultura não é um simples determinismo, mas um processo complexo de luta e assimilação. Alguns aspectos da contracultura foram apropriados e adaptados como precursoras do "novo espírito do capitalismo", enquanto outros, incompatíveis com o excesso de trabalho, foram rejeitados como tolices. Essa análise desafia a visão determinista, sugerindo que é possível separar neoliberalismo e a ideia de novidade, permitindo um diálogo entre socialismo e modernidade. Porém, há equívocos a serem evitados. A chamada "folk politics", uma tendência que emerge nas esquerdas, propõe que, para combater o capital, se deve retornar ao "tradicional" e ao "primitivo", buscando um estado bucólico de natureza. Embora se valorize as culturas não ocidentais, essas ideias, na realidade, exotizam e isolam as diferenças, negando a conexão entre sociedades tradicionais e o capitalismo.

O neoliberalismo isolou a contracultura da classe trabalhadora, tornando-a funcional ao capital. Para desafiar isso, é necessário reativar os sonhos de transformação em escala mundial, como uma economia descarbonizada ou a exploração espacial. Sendo assim, é necessário explorar a consolidação do neoliberalismo sem se prender a contextos específicos, refletindo sobre um momento no qual o capitalismo se sentiu ameaçado, e o neoliberalismo ainda era uma luta, não uma realidade. O objetivo é resgatar a ideia de um futuro livre, uma utopia que poderia ter sido.

Nesse contexto, o conceito de "Comunismo Ácido" de Mark Fisher permanece indefinido e provocador, refletindo uma ideia de política de esquerda experimental e além do princípio do prazer. O termo "ácido" traz conotações de produtos químicos, psicodelia e subgêneros musicais, e ao mesmo tempo sugere uma política que visa não apenas recuperar a utopia contracultural, mas também criar um movimento revolucionário contra a hegemonia sociopolítica. Fisher destaca que a verdadeira mudança não reside em restaurar uma identidade perdida, mas em se mover em direção ao "radicalmente Outro", algo não concretizado, mas desejado. Esse desejo, como formulado por Deleuze, não tem um objeto fixo, sendo um fluxo revolucionário que desafia a ordem e busca novas conexões. Assim, o "ácido" no Comunismo Ácido representa um desejo corrosivo e multiplicador, capaz de desnaturalizar e reconfigurar as políticas existentes, trazendo uma nova instância para o comunismo.

No contexto atual, a direita tem se mostrado ainda mais "ácida" em devesa de um retrocesso como ideologia do avanço, pois, ao adotar uma postura radical e destrutiva das instituições tradicionais, tem se apropriado da linguagem da crise, da ruptura e da subversão, desconstruindo as normas estabelecidas e desafiando os fundamentos do sistema político e econômico vigente. Essa "ácidez" da direita é evidente em sua capacidade de explorar as fragilidades do sistema, questionando e desestabilizando continuamente a ordem, o que, paradoxalmente, garante sua vigência.

Enquanto a esquerda tenta se manter dentro dos limites de um discurso em defesa da ordem, que, muitas vezes, acaba se tornando complacente e previsível, a direita tem utilizado a "ácidez" como uma força que cria novas conexões e redefine o campo político. Por isso, é fundamental que a esquerda se aproprie desse conceito de "Comunismo Ácido", pois ele oferece uma ferramenta de resistência e renovação, permitindo que a esquerda se renove e mantenha sua relevância. Caso contrário, ela corre o risco de se tornar irrelevante, incapaz de responder adequadamente aos desafios do presente e de ser reconhecida como uma força verdadeira de transformação social. No cenário atual, são os que ousam desestabilizar e corroer as velhas formas de política que têm se destacado. Portanto, é necessário que a esquerda adote a "ácidez" como um princípio de ação, se renovando e desafiando as estruturas dominantes para não desaparecer ou ser reduzida a uma mera caricatura do que deveria ser.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

A tragicomédia do cotidiano

I

Num palco imundo, a peça se desenrola,

Figuras vãs desfilam tolas certezas,

A mente rasa no discurso se amola,

E o riso escorre em meio às asperezas.


São reis grotescos que ao trono se assentam,

Coroados por vozes sem consciência;

Dos cegos olhos, mil juízos inventam,

E erguem em trono a pura incompetência.


A falsidade veste a máscara mais bela,

Na pantomima aplaudem vil histeria,

Pois vale a pose, e não o que se revela.


E o mundo gira nessa volta sombria,

A estupidez, senhora de sua tela,

Encena o caos como obra de harmonia.


II

 

Este geoide perdido no espaço escuro,

Onde ninguém deixa de olhar pro umbigo,

Vagueia só num universo absurdo,

E cada qual só cuida do seu abrigo.


Uns bilionários sonham em ir pra Marte,

Enquanto outros nem têm o que comer;

Todos dividem o mesmo chão, sua parte,

Mesmo planeta, mesma trama a sofrer.


Uns riem, outros choram, todos na cena,

Aplaudem algozes, erguem capitólios,

Adoram farsas, vivem na plateia.


Eu só penso que, se Deus existisse,

Extinguir-nos seria sua prova mais célebre.

O Perfume

Voltei ontem pra buscar o que ainda era meu,

no apartamento nu, sem um eco ou calor teu.

Só o vazio dos móveis, feito um velho torpor,

e a lembrança crua do que já foi nosso amor.


Levou quase tudo, mas deixou um enredo:

uma camisola de cetim, como você tão macia,

junto de uma calcinha, perto da cama esquecida,

guardando o lascivo cheiro do teu segredo.


Seria vingança, descuido ou então castigo?

Teu perfume ainda arde, me queima o sentido,

e a ausência murmura teu nome em meu ouvido.


Deixaste a sentença, intencional ou descuidada,

pois a peça ali deixada me trouxe um pecado:

despir teu corpo em memória num amor solitário.

Uma vez Flamengo, Flamengo pra viver

Uma vez Flamengo,

Sempre Flamengo,

Flamengo sempre eu hei de ser.

É sempre um prazer

Vê-lo brilhar,

Seja no campo,

Ou em Jorge Ben,

Cantar, sonhar, viver.


Na verdade, eu nem entendo

De zagueiro ou de artilheiro,

Mas meu pai, ao assistir,

Disse: “Filho, vem sentir

O que é que é ser Flamengo.”


Sei que Zico é uma lenda,

Mesmo sendo leigo assim.

Vi que o Flamengo é pra mim!

Consagrado no gramado,

Sempre amado, idolatrado,

O Urubu de Tom Jobim.


A regata é bandeira,

Estandarte de glória,

Pois ele é hexa-campeão!

Consagrado no gramado,

Sempre amado e celebrado,

Como um samba em comunhão.


Eu teria um desgosto profundo

Se faltasse o Flamengo no mundo.

Ele vibra, ele é vida,

Muita coisa já passou,

Flamengo pra viver eu sou!


Tendo em vista os versos de Lamartine de Azeredo Babo

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Summa Culicidae (ou da razão de deus ter criado os mosquitos)

Em sete dias, diz-se, Deus tudo criou,

fez luz, estrelas, montanhas e mar,

e no sexto, o homem, que Ele amou,

mas, ao que parece, sobrou pra atazanar.


Entre flores e bichos, na obra acabada,

surgiu o mosquito, vil criatura.

Seria um erro? Uma ideia mal pensada?

Ou prova divina de Sua ironia pura?


Ah, Senhor, onipotente e bondoso,

que vê tudo e sabe o que virá,

como explicar um plano tão jocoso,

que põe no mosquito vilã astúcia?


Ele zune à noite, na escuridão,

ferindo a carne com sede ardente.

Se és amor, Senhor, e perfeição,

por que tal praga no meio da gente?


O Paradoxo de Epicuro me provoca:

se és tão bom, por que não o evitaste?

Se tudo podes, por que não o desfaz?

Ou será, no fundo, sua obra maligna?


Talvez o mosquito seja a penitência,

pequeno flagelo para nos lembrar,

de que a perfeição é pura aparência,

e nem na Criação se pode confiar.


Ou talvez, quem sabe, seja uma piada,

um teste de paciência celestial,

um serzinho inútil, de alma amaldiçoada,

que revela em nós o lado mais irracional.


E assim seguimos, entre preces e tapas,

enquanto o mosquito faz seu sermão.

Será que Deus, lá no alto, se escapa,

rindo de nossa eterna indignação?


Pois se para Ele, em tudo há motivo,

penso também, num sarcasmo divino:

foi por não querer a criatura encontrar,

que limitou seu voo ao terceiro andar.

As Meninas

Quando pequeno, eu via as meninas,

seus risos soltos, suas mãos dançando,

um mundo à parte, de cores tão finas,

um mistério doce que eu ia admirando.


Tinham cadernos com capas floridas,

desenhavam nuvens de tons delicados,

segredos guardavam, histórias vividas,

em vozes que soavam como sinos encantados.


Elas trançavam o tempo em seus cabelos,

e os prendiam com fitas de um azul sem igual,

os pés, tão leves, quase eram novelos,

desfiando a terra num passo angelical.


Falavam de coisas que eu não entendia:

bonecas, estrelas, de sonhos serenos,

e eu, arteiro em minha ousadia,

sentia-me tolo, talvez tão pequeno.


Havia uma dança que era só delas,

um balé secreto ao vento da tarde,

entre saias rodadas miravam janelas,

onde a noite, encantada, o céu invade.


Eu invejava as palavras inventadas,

os risos cúmplices, o mundo escondido,

aquela magia que parecia sagrada

e me deixava ali, tão comovido.


Mas era uma inveja de cores sutis,

uma ternura que a infância permite,

como quem olha jardins tão gentis

e sente o perfume que a vida emite.


Hoje recordo, e ainda sorrio,

das meninas e seus universos tão vastos,

pois o que não alcancei, guardo comigo,

na memória eloquente de fragmentos castos.


Talvez por nunca ter sido meu,

esse universo me pareça tão lindo,

e, por isso mesmo, ainda me encante,

pois agora, ainda como um menino,

disso tudo sigo rindo, mesmo distante.

Em defesa de alguma coisa

Essa gente que grita e se afirma altiva,

que hasteia bandeiras sem sequer saber,

defendendo verdades a si lenitivas,

moldando o real ao seu bel-prazer.


Essa gente que se arrasta nesse buraco,

que se esfrega à própria ignorância,

defendendo sentenças de puro atraso,

moldando o real numa insignificância.


Erguem bandeiras com fúria fingida,

em defesa de causas que mal conhecem.

Gritam palavras de ordem vazias,

discursos comprados que nem se percebem.


São tantos, são todos, vozes tão iguais,

um coro disforme que ecoa no nada.

Repetem ideias das mais banais

e marcham unidos, sem rota traçada.


Olho ao redor e só vejo os navios,

fantasmas perdidos num mar de tolices.

Velas ao vento de ideias falidas,

guiadas por faróis de falsos messias.


O que defendem? Nem mesmo sabem.

A qualquer preço, uma identidade.

É o peso de existir sem essência,

vestindo qualquer roupa pra adequar-se.


E eu, sujeito, entre eles me afogo,

não na corrente, mas na solidão.

Sou ilha cercada de vozes confusas,

que gritam certezas sem convicção.


É torturante ser um entre poucos

que veem o fio da manipulação.

Enquanto dançam, felizes e cegos,

sem perguntar-se qual é a razão.


Ah, que tragédia ser consciente

num mundo onde o tolo reina absoluto.

Eles vivem num sonho de frases feitas,

e eu, no pesadelo de enxergar o absurdo.


Em defesa de alguma coisa, qualquer coisa,

erguem estandartes de identidades forjadas.

E eu, sozinho, não ergo mais nada,

a não ser a tristeza de ver o que me rodeia.


A não ser a razão que me desampara,

a não ser meu espírito que tudo questiona,

a não ser minha teimosia que não aceita,

a não ser este verso, que aqui mesmo se encerra.

O Corcunda da Rua XV

Na Rua XV, um homem caminha,

curvado, como quem carrega o peso do mundo.

Com sua vassoura, varre a calçada,

como se, por algum motivo, fizesse sentido.


Sempre o vejo, sempre no mesmo passo,

sem pressa, sem destino,

com olhos fixos no chão,

os mesmos de sempre, os mesmos movimentos,

a espalhar a poeira com uma vassoura.


Numa noite de Natal, saí sozinho,

a vagar, sem razão, sem companhia,

numa cidade que parecia dormir, sem ninguém na rua,

mas com luzes acesas nas janelas e piscas-piscas.


Nos encontramos, eu e ele, por acaso, na escuridão,

em frente a uma concessionária de veículos,

cuja propaganda dizia “Feliz Natal”.

Mas não houve palavras, nem gestos,

e o silêncio preenchia o espaço entre nós.


Foi então que percebi, sem querer,

que ele não era outro,

mas parte de mim,

carregando a mesma solidão,

varrendo as mesmas marcas invisíveis, sem porquê.


Não há redenção na noite de Natal,

nem algo a ser apagado ou consertado,

somente o vazio de seguir, noite adentro,

sempre em frente, sem saber para onde,

sem que a calçada, a poeira ou o mundo se alterem.


Sou como esse corcunda da Rua XV,

envolto numa escuridão que não se percebe,

a espalhar folhas sobre um chão que nos cinge,

com um corpo que se curva ao destino, mas não padece.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Lex Parsimoniae

Essa lâmina sutil do bom critério

Nos guia na fina agulha da razão.

Descarta o vão, erro e o mistério,

E busca a essência, clara solução.


O simples é mais forte e necessário,

É régua que organiza a vastidão.

Quem busca excesso torna-se precário,

E perde-se no turvo mar da confusão.


Que seja, pois, a mente comedida,

Cortando o que é demais, sem hesitar,

Mas sem fechar os olhos para a vida.


Pois no oculto há força a revelar,

Às vezes no disperso há luz contida,

Que ao simples não compete abarcar.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

O QUADRO HISTÓRICO SEGUNDO O HORIZONTE DA TEORIA DA DEPENDÊNCIA

   Numerosos pseudo-intelectuais tentam, frequentemente, explicar as causas dos efeitos atuais da economia global, das disparidades entre as riquezas das nações e suas misérias. No entanto, muitos deles o fazem sem uma compreensão profunda das raízes históricas que geraram tais fenômenos, ignorando os interesses que regem essas dinâmicas de poder. A tentativa de abordar o subdesenvolvimento sem considerar o legado das relações coloniais e os mecanismos que perpetuam a dependência global resulta em explicações rasas e descontextualizadas.
    Neste cenário, a teoria da dependência surge não como uma construção teórica autônoma, mas como uma tentativa de compreender uma obviedade histórica. Ela revela que a dependência econômica das nações periféricas não é um efeito posterior ao subdesenvolvimento, mas um fenômeno estrutural que precede e sustenta as disparidades globais. A teoria, ao se debruçar sobre a história e as relações de poder que moldaram o capitalismo mundializado, oferece uma chave de leitura para entender as persistentes assimetrias que definem o sistema internacional de hoje.
    Não há propriamente uma teoria da dependência enquanto construção teórica autônoma e sistemática; há, tão somente, a dependência como categoria inscrita na dinâmica das relações internacionais de força e poder. O que se convencionou chamar de teoria da dependência é, na verdade, uma obviedade histórica: uma tentativa de reelaboração conceitual do modelo neocolonial, cujas raízes remontam ao século XIX, período em que as nações hegemônicas impuseram às ex-colônias um novo paradigma socioeconômico e político de exploração, legitimado pelo discurso triunfalista do liberalismo.
    A questão crucial, no entanto, reside em perscrutar os contornos do modelo colonial contemporâneo, que veio a substituir o já exaurido esquema da divisão internacional do trabalho e da distribuição desigual da renda global. O capitalismo mundializado, ao consolidar-se, incorporou novos mecanismos de extração do excedente econômico das regiões periféricas, agora operados pelas corporações transnacionais e pelo sistema financeiro especulativo, frequentemente em aliança com as elites burguesas locais em ascensão.
    De um lado, as economias periféricas, marcadas por uma carência histórica de investimentos produtivos, viam-se incapacitadas de ampliar sua capacidade produtiva devido à ausência de acumulação interna, aos baixos níveis salariais e à exclusão sistêmica da maior parte da população dos mercados consumidores. De outro lado, a política de dependência estrutural — caracterizada pela importação de bens e serviços, pela contração de empréstimos externos para infraestrutura e modernização e pela atração de capitais estrangeiros — intensificava o processo de descapitalização e endividamento das nações periféricas. Tal dinâmica era agravada pelos encargos financeiros crescentes, pelas importações de matérias-primas e pelo constante repatriamento de lucros por parte do capital internacional, consolidando uma dependência externa cada vez mais profunda.
    O que raramente se aprofundava nesse debate era a potencialidade dos Estados nacionais em determinar os rumos de seu desenvolvimento econômico, bem como os limites de sua capacidade de intervenção soberana. Quão viável seria, por exemplo, a adoção de políticas que restringissem as repatriações de capitais a curto prazo, permitindo que uma parcela do excedente econômico fosse retida e reinvestida internamente? Essa questão, central para os países periféricos, lança luz sobre as limitações impostas pelas estruturas globais e pela hegemonia do capital transnacional, que cerceiam os esforços de autonomia e protagonismo no cenário internacional.
    A trajetória econômica e financeira dos países da América Latina, bem como de outras nações que compartilham o legado histórico de ex-colônias, é marcada por um padrão persistente de endividamento externo crônico e pela crescente submissão ao capital estrangeiro. O corolário desse processo é a completa internacionalização tanto do aparato estatal quanto do ainda incipiente setor privado, conduzindo à inquietante reflexão de que, sob a égide do atual ordenamento internacional, a própria noção de nação enquanto categoria histórica caminha para a obsolescência.
    Desde seus primórdios, a dependência encontra-se inscrita nas relações internacionais de dominação e subordinação que estruturam o sistema global de interdependências. Não é possível, portanto, sequer em termos teóricos, traçar uma transição direta da teoria econômica do subdesenvolvimento para uma teoria da dependência, uma vez que esta última precede historicamente o fenômeno do subdesenvolvimento.
    Tal constatação, embora evidente, não diminui a relevância dos esforços intelectuais que buscam compreender o desenvolvimento e o subdesenvolvimento à luz do processo histórico. Esses estudos, ancorados em diferentes matrizes analíticas, como as leis do capitalismo, os pressupostos marxistas ou as abordagens estruturalistas, oferecem interpretações valiosas sobre a dinâmica econômica e social das periferias do sistema-mundo, destacando as contradições inerentes à reprodução ampliada do capital nas margens do sistema internacional.
     As controvérsias intelectuais das décadas de 1950 e 1960, centradas na oposição entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, orbitaram em torno do papel do capital estrangeiro nas economias periféricas. Discutia-se, com especial acuidade, se os fluxos externos de capital contribuiriam para dinamizar as economias locais ou, ao contrário, configurariam entraves estruturais ao fortalecimento de seus capitalismos nacionais. Tal problematização inscrevia-se no chamado círculo vicioso identificado por Gunnar Myrdal. 

Soneto do Pé na Bunda (feat Cadu)

Quem nunca levou um pé na bunda,

Prepare-se, então, para levar,

Pois quando você menos espera,

É que a sua hora vai chegar.


Se tu te gabas por nunca ter passado,

Se tu te orgulhas de nunca ter sofrido,

Talvez seja por não ter tentado

E muito pouco na vida ter vivido.


Agora, se é tu quem dá o chute,

Se é tu quem perdeu a fé,

Não se culpe nem se enlute,

Mas faça só o que quiser.


O pé na bunda, para ambos tão fatal,

Pode ser apenas um pontapé inicial.


(7 de Janeiro de 2025, Bar do Zabot)

Promessas de Bêbado

No balcão gasto da vida errante,

O vinho fala, a razão escuta,

E o bêbado, em tom delirante,

Promete o céu com voz dissoluta.


“Eu vou mudar! Juro, dessa vez!

Amor, te trago as estrelas do mar!

Amanhã cedo eu viro freguês

De academia... e paro de fumar!”


Entre risadas, mais um brinde soa,

O copo enche, e a coragem cresce:

“Eu vou ser rico! O mundo é à toa,

Quem duvidar, amanhã se confesse!”


Mas vem o sol, cruel e impiedoso,

Trazendo junto ressaca e calvário.

O herói da noite, agora indecoroso,

Troca seus planos por chá engavetado.


E assim se vai, promessa esquecida,

No ciclo eterno do trago sem lei:

O álcool faz dos mortais sem medida

Reis por instantes... e tolos por rei!


Mas vem nova noite, e novas promessas,

A todos e todas, inclusive ao dono do bar:

“Prometo um banquete, parcerias e festas,

E a conta pendente eu vou já saldar!”


“Vou virar santo, eu juro de pé!

Largo o boteco, procuro uma igreja,

Troco a cachaça por pão e café,

E o sermão do padre será minha peleja!”


“Vou ser um monge, ou talvez uma freira,

De hábito longo, a rezar sem parar.

Ou padre! Isso mesmo, abro uma paróquia inteira,

E divido o dízimo com quem me apoiar!”


No presbitério, também dizer besteiras,

E todas elas no púlpito santificar!

Aproveitar-me da pinta de pontífice

Pra, em nome do Pai, tudo justificar.


“Se Deus quiser, eu vou peregrinar,

Prometo ao santo largar a lambança.

Ano que vem, em Roma vou morar,

Mas hoje brindo a essa esperança!”


A fé é forte, mas mais forte é a birita,

E ao som do brinde, a ideia vacila.

“Se o céu não quer, azar, quem acredita?

Me deem um trago, a culpa é divina!”


E o bêbado, enfim, desiste do altar,

Já que ser tanso dá muito trabalho.

Melhor no boteco seguir a brindar,

Que o céu espera... e o vinho é seu atalho!

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Crítica da Economia Política

A marcha infinda, a máquina do mundo,

Nos ferros frios molda o vil valor;

No tempo morto, o capital fecundo

Sugando a vida, ergue-se a seu senhor.


O homem vende a força e sua vida,

Constrói riqueza ao preço mais profundo.

De um lado, ouro; do outro, a miséria,

Dual espelho de um destino imundo.


Na troca injusta, a máscara do mundo,

O fetichismo que oculta a exploração,

Mercadoria para acumulação do lucro.

E para tanto ergue-se eterna opressão,


Mas no conflito o sonho mais augusto:

Do proletário romper o seu grilhão.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Anti-Parnasiano

Nos versos presos ao rigor eterno,

O texto é vida presa à moldura,

Cada sílaba cativa seu inferno,

Faz da verdade um eco numa cerca.


Forma, imaculada em seu alcance,

Não dá ao coração nenhum fôlego,

Limitando-se num delicado lance,

No qual a alma sofre em um silêncio.


Definir é condenar à estreiteza,

Onde a rígida régua mata a flor,

O verso, numa alçada de beleza,

Limita o poeta nesse seu rigor.


Por essa métrica, apaga-se o ser,

O sentir escrito se torna máscara,

Qual espírito, ao buscar descrever,

Nota o limite da própria carcaça.


Mas quem, nesse tolo engano, se detém,

A ti, poesia, não sabe o salto,

Pois, a rigidez que a mente contém,

Anula-se no olhar que perde o alto.

Homem Novo

Um homem novo ergueu-se altivo,

com o rosto firme e o passo audaz,

nas mãos, o fardo de um povo cativo,

no peito, a chama que se apaga jamais.


Não busca glórias, nem ouro, nem trono,

mas o torpor que irmana o querer,

fazendo do amor um gesto tão pleno,

que, ao dar-se ao outro, aprende a viver.


É o filho da luta, o irmão do futuro,

forjado no aço da revolução,

trazendo do sonho um mundo belo,

onde a justiça seja a suprassunção.


Homem novo, semente de um tempo,

brotado na terra que o sangue lavou,

teu fuzil é o verbo, teu ideal, o alento,

de um horizonte que o povo gerou.


És causa justa, livre pólvora e batalhão,

és a marcha que avança contra o sofrer,

um poeta que escreve com o coração

as linhas vermelhas do amanhecer.


No campo, nas fábricas, em cada palma,

ressoa a força do teu querer viver,

fazer do pão mais que sustento,

fazer do homem o seu renascer.


Homem novo, do povo és a face,

ergue bandeiras de humanidade;

não há vitória sem que se objetive

a busca comum da fraternidade.


Quando os impérios, enfim, desabarem,

e as mãos que oprimem forem cortadas,

e a riqueza deixar de ser prioridade,

cedendo espaço ao abraço de um irmão,


Quando a vida comum for mais preciosa

que o brilho frio de um ouro vil,

e o mundo livre, em sua grandeza,

impor a igualdade contra a vida servil,


Então, homem novo, faze o teu momento,

com passo firme, abra esses portais;

acenda para todos, da ciência, os castiçais,

iluminando o caminho para o socialismo.


O novo mundo exige um homem novo,

Logo, em solo fértil, rega a tua paz;

do teu suor, forja o fundamento,

e cria a terra onde não há rivais.

Um Novo Heautontimoroumenos

Sem pressa te acolherei,

Como a manhã abraça a flor,

Como o rio afaga o rumor

Do céu que nele vem se ver.


De tuas mágoas farei canto,

E o teu deserto hei de inundar

Com cada gesto a te amar,

Colhendo em riso o teu pranto.


Meu afeto é barco no teu mar,

Que, sobre as ondas da emoção,

Abraça em paz teu coração,

Navega o mundo a te cuidar.


Não sou acaso um som suave

Na eterna e doce melodia,

Graças à luz da empatia

Que renasce, como do sol a clave?


Em minha voz o amor sussurra,

E no meu sangue corre pleno,

Tingindo o instante mais sereno

De uma ternura que não satura.


Eu sou a mão e o toque terno,

Sou o espelho que te sorri,

Sou quem te vê e quem há de vir

Pra desbravar teu mundo interno.


Sou a fonte e sou o vinho,

Sou o abraço e a eternidade,

A calma em meio à tempestade,

Teu refúgio, teu caminho.


Sou um amante a transbordar,

Um desses que ao amor são dados,

E que, no peito iluminados,

Só sabem mais e mais amar.

C'est une leçon pour la suite

Dans le jeu des ombres et des masques,

L'ennemi cache son visage et son cœur.

Chaque masque, une nouvelle embuscade,

Dans ses pièges, des rires et des peurs.


Quand, enfin, il se multipliera,

Dans les échos du doute, il sera fort.

Mais souviens-toi, au moment de lutter,

Sa force est éphémère, son sort est mort.


Écarte-le sans la moindre hésitation,

Il n'y a pas de place pour les pleurs.

Son artifice est pure illusion,

Il perdra dans son propre tourment de peurs.


Et ne cherche jamais dans des grottes sombres,

Où les ombres séduisent et trompent.

Là-bas, parmi les fausses cendres,

La vérité s'effondre et l'esprit tombe.


C'est une leçon pour la suite, donc,

De ceux qui se cachent, mais ne sont jamais vainqueurs.

La lutte est sans fin, sans un seul son,

Mais le triomphe appartient à celui qui ne se leurre.




Vontade de anular a criatura

1)

A sombra azul da noite nos invade,

fria, silente, estranha ao respirar.

Caminha o vento, sem deixar saudade,

e o chão, vazio, cansa de esperar.


Um passo ecoa em ecos sem alarde,

e o tempo, incerto, deixa-se arrastar.

Na curva dos minutos, só a tarde

ainda busca o sol para alcançar.


Os dois apenas, contra o céu desfeito,

somos vestígios frágeis do momento,

fantasmas sob a luz de algum motivo.


E calamos em nós, contra o tormento,

na fúria de existir, pois nos condena

o criador, e toda ordem que aliena.


2)

Se somos livres, nisso está contida

a liberdade vã de esculpirmos:

limitados a moldar nossa ferida

com ferramentas frágeis que vestimos.


Calcamos sob os pés a própria vida,

geografia e dor que não medimos.

O sonho é céu, mas sua luz perdida

se apaga enquanto ao chão nos repetimos.


Entre o instinto e a alma, essa cisão

nos faz metade fera, outra divinal,

um salto ao alto e a queda em solidão.


Oh, criatura, nossa angústia é o final:

um castigo que afronta nossa essência,

de ser divino, mas preso à concupiscência.


(Baseado em Fraga e Sombra de Drummond)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

A Terceira Margem do Rio

Na beira do rio, a vida se enredava,

A água cantava seu canto de lonjura,

Mas o homem, de olhos perdidos e calados,

Sentia que, na margem, a dor se apurava.


Na mata, o vento contava segredos,

E o rio, que não sabe de horizontes,

Vira espelho de quem busca nas águas,

O que se esconde nos confins dos montes.


A terceira margem, vaga e não dita,

É um mistério no peito de quem sente,

Que na solidão, a margem infinita,

Se dissolve em silêncio, suavemente.


Quem vai pela margem, na busca de vida,

Esquece que o rio é redondo, fechado,

E no sussurro das águas, a alma perdida

Encontra o que é distante e mal encontrado.


Mas na curva onde a sombra se estende,

O homem se perde em busca do querer,

Não é na margem que ele entende,

Mas no que ele ignora, e vai aprender.


A terceira margem não é o além,

Mas o que se perde, e nunca se ganha,

É o que o rio traz e o homem tem,

No fim da viagem, onde o tempo se entranha.


E a terceira margem, oculta e apartada,

É o abismo onde o homem se vê,

Refletido no que já não é estrada,

Mas um rio que flui e não se percebe.


Na beira do rio, o silêncio é quem canta,

A água, que antes cantava seu lamento,

Como quem conhece o segredo, e agora se cala

Observando tudo ser carregado no vento.


O homem, que antes procurava entender,

Agora se perde nas margens do próprio ser,

Na terceira margem, onde o tempo não cede,

Ele encontra o que não se pode ter.


Ali, entre a água e a terra, se dissolve o querer,

E a alma, antes ansiosa, agora compreende

Que a busca é o rio que nunca cessa de correr,

Mas é também o abismo que nunca se sabe.


A terceira margem, não dita, mas vivida,

É a linha que separa o céu do chão,

É onde o mistério da vida se rende,

E o homem se vê, sem mais explicação.


E assim, nesse ínterim, o homem se reconhece:

Não é o que encontra, mas o que ele se torna,

Pois o rio é eterno, e a viagem não fenece,

Mas o sujeito, enfim, dissolve-se.

Os rios que desaguam em mim

Nasci do barro e da mão calejada,

Dos gestos simples, de olhar tão profundo,

Onde a enxada traça as linhas do mundo

E a vida é arte, na viola cantada.


Meu pai, um rio sereno, transparente,

Desbravou terras com passos de esperança,

Na alma trazia a fé de uma criança,

Nos braços, a força que move a estrada.


Minha mãe, nascente oculta na serra,

Guardava o sonho na mão calejada,

Fazia do pouco uma vida bordada,

De amor semeado na áspera terra.


Sou feito de rios que nunca se aquietam,

Das águas humildes que moldam a essência,

Sou caipira em verso e em consciência,

Um filho das margens que em mim se completam.


Carrego o Brasil em ideias simbólicas,

A viola que chora, a saudade que invade,

O tempo em meu rosto revela a verdade:

Sou um curso que flui, entre diversas histórias.


E quando deságuo, encontro no mar

A vastidão que me faz recordar

Que minhas raízes, de homens varonis,

São os rios femininos que desaguam sutis.




Pêndulo

Oscilo, entre extremos, na corda da existência,

Entre a festa que explode e o silêncio que fere.

A alegria me chama, mas a angústia interfere;

Sou cúmplice e refém dessa eterna resistência.


Num instante, sou chama que o vento não apaga,

Uma fúria de vida que insiste e recria;

Mas logo vem o peso de uma sombra vaga,

Que sufoca a esperança e a vontade esvazia.


De manhã, vejo o mundo com olhos de desejo,

O futuro me canta promessas de alívio;

À noite, me consumo no abismo que vejo,

Entre o salto do sonho e o retorno ao cativeiro.


Sou a pulsão que anseia por tudo que falta,

Mas também sou a queda que tudo ressalta.

Um ímpeto voraz, que no vazio tropeça,

O jogo de forças que a alma atravessa.


Nasço no impulso que o horizonte almeja,

Morro na ausência que o próprio ato enseja.

E assim sigo oscilando, no eterno compasso,

Entre criar o caminho e perder-me no espaço.


O desejo me impele, mas nunca se basta,

É sombra e clarão, ao mesmo tempo afasta.

Entre o que almejo ser e o que temo perder,

Sou o pêndulo vivo que não se pode deter.

Ao crepúsculo ergue o voo a sábia ave

Ao crepúsculo ergue o voo a sábia ave,

no silêncio onde o mundo adensa a essência;

seu olhar desvenda o tempo e sua chave,

no limiar da sombra e da consciência.


Não canta a aurora, mas da noite extrai,

do real já feito, a trama inevitável;

do agir humano, o sentido se refaz,

pelo rigor de um pensar implacável.


A filosofia, filha do seu tempo,

surge ao encontro do que já é vivido;

é luz tardia que revela o momento,

pois lê no mundo o espírito esculpido.


Assim contempla, ao findar da madrugada,

a forma exata que ao espírito é dada.