quinta-feira, 24 de abril de 2025

Antropoceno, Capitaloceno e o que interessa?

Alguns se assustam com o termo "Antropoceno", considerando-o exagerado ou tentando se esquivar da responsabilidade humana diante de um futuro que parece irreversível, atribuindo a catástrofe ambiental a forças naturais ou fenômenos externos. Outros, no entanto, buscam entender a fundo a conjuntura atual e suas raízes, reconhecendo que as transformações profundas que estamos presenciando não são apenas um produto da ação humana genérica, mas de uma estrutura histórica e econômica específica que tem moldado nosso relacionamento com o planeta.

Um exemplo dessa investigação crítica é o livro Antropoceno ou Capitaloceno?, coletânea organizada por Jason W. Moore, que propõe uma inflexão crítica e radical ao conceito amplamente difundido de "Antropoceno", reivindicando, em seu lugar, a adoção do termo "Capitaloceno". Ambos os conceitos pretendem nomear a era geológica atual, marcada por transformações profundas na biosfera provocadas por ações humanas. No entanto, diferenciam-se profundamente em suas implicações epistemológicas, ontológicas e políticas. O termo “Antropoceno”, cunhado por Paul Crutzen e Eugene Stoermer no início dos anos 2000, propõe que a espécie humana se tornou uma força geológica, alterando de forma irreversível os sistemas da Terra. Essa narrativa, embora poderosa, é questionada por Moore e outros autores do livro por obscurecer as relações desiguais e estruturais que determinaram essas transformações. Ao falar em "humanidade" de modo homogêneo e abstrato, o conceito de Antropoceno despolitiza a crise ambiental, desconsiderando a centralidade histórica do capitalismo como modo de organização da vida que extrai, degrada e subordina tanto naturezas humanas quanto extra-humanas.

Ao propor o conceito de Capitaloceno, Moore desloca o foco da crítica ambiental da figura genérica do ser humano para a lógica específica de um sistema histórico: o capitalismo. O Capitaloceno designa não apenas uma era, mas um modo de relação entre capital, poder e natureza, estruturado a partir da colonização, da escravidão, da exploração do trabalho, do racismo e do patriarcado. Esse sistema, segundo Moore, é uma “ecologia-mundo” — uma configuração histórica que integra seres humanos e não humanos em uma rede dialética de (re)produção, dominação e acumulação. Diferente da abordagem dualista do Antropoceno — que separa sociedade e natureza — o Capitaloceno compreende ambos como co-constitutivos. A modernidade capitalista não apenas interfere na natureza, mas se constitui através dela, colocando a “natureza para trabalhar” como força produtiva fundamental. A "Natureza Barata", expressão desenvolvida por Moore, revela a tática capitalista de desvalorizar e tornar invisível o trabalho das mulheres, dos povos colonizados, das comunidades tradicionais, dos animais e dos ecossistemas, para transformá-los em insumos produtivos a baixo custo.

No decorrer do livro, diversos autores aprofundam essa crítica e ampliam os horizontes conceituais. Donna Haraway, por exemplo, propõe o “Chthuluceno” como uma alternativa ao Antropoceno e ao Capitaloceno. Em sua visão, trata-se de uma era baseada na simpoiese — ou seja, na criação conjunta da vida, numa lógica não hierárquica e multiespécie. Essa perspectiva ecoa uma crítica à visão moderna de mundo como algo ordenável, administrável e previsível, propondo, em vez disso, uma imaginação política que valorize o cuidado, a interdependência e a criação comum. Justin McBrien, por sua vez, elabora o conceito de “Necroceno” para descrever o capitalismo como um regime de acumulação baseado não apenas na produção, mas na extinção sistemática — de espécies, culturas, línguas, modos de vida. A extinção, segundo McBrien, é mais do que uma consequência colateral do capitalismo; é parte de sua engrenagem de expansão contínua, um modo de reprodução que acumula a morte para sustentar a vida mercantilizada.

Outros capítulos, como os de Elmar Altvater e Christian Parenti, trazem à tona a crítica ao papel do Estado moderno no Capitaloceno. Longe de ser apenas um regulador externo da destruição ambiental, o Estado é compreendido como um agente ativo na criação de ambientes, organizando o território segundo os imperativos do valor e da mercadoria. O Estado moderno, afirma Parenti, é um produtor de natureza, um organizador da extração e um distribuidor dos custos ambientais. Essa análise revela que não apenas as empresas, mas também os sistemas de governança política estão enredados na lógica da valorização capitalista, o que limita severamente suas capacidades de oferecer respostas transformadoras frente à crise ecológica.

O livro, portanto, não apenas contrapõe o Antropoceno ao Capitaloceno; ele também busca fundar uma nova ontologia crítica, que supere os dualismos herdados da modernidade ocidental — especialmente o binarismo entre Natureza e Sociedade. Essa crítica se alinha com a emergência de movimentos sociais que desafiam não só a distribuição desigual da riqueza, mas também os modos capitalistas de atribuição de valor à vida e à matéria. Lutas por justiça climática, soberania alimentar e o direito à cidade são interpretadas pelos autores como expressões de uma “nova política ontológica” que reimagina as relações entre humanos e a teia da vida. Ao articular essas práticas com uma crítica radical ao capitalismo, o livro aponta para a possibilidade de uma ecologia-mundo socialista — uma reorganização sistêmica da produção e reprodução da vida, orientada não pela acumulação, mas pelo cuidado, pela sustentabilidade e pela justiça interespécie.

A proposta do Capitaloceno, portanto, visa mais do que uma renomeação; mas uma reconfiguração epistemológica e política que questiona profundamente as premissas do pensamento ambiental dominante. Enquanto o Antropoceno sinaliza um diagnóstico, o Capitaloceno propõe um horizonte de transformação. É um convite para repensar não só o que nos trouxe até aqui, mas sobretudo o que estamos dispostos a imaginar, abandonar e reconstruir para continuar habitando este planeta.

Nessa mesma direção, os estudos do economista francês Thomas Piketty sobre desigualdade social causaram um impacto significativo no debate contemporâneo sobre o funcionamento do capitalismo e seus efeitos sobre a economia, o meio ambiente e a democracia. Sua análise histórica e empírica, baseada em dados de mais de vinte países ao longo de várias décadas, desafiou a visão convencional de que o capitalismo seria, por si só, um motor de igualdade e mobilidade social. Pelo contrário, Piketty demonstra que a dinâmica do capitalismo contemporâneo tende a gerar uma concentração crescente de riqueza e poder, favorecendo uma elite econômica cujas fortunas são passadas de geração em geração, sem depender de mérito ou inovação.

A chave para entender essa concentração de riqueza está na relação entre o retorno do capital (r) e o crescimento econômico (g), onde, historicamente, o retorno sobre o capital tem superado o crescimento da economia, o que leva a um acúmulo cada vez maior de patrimônio nas mãos de uma minoria. Esse fenômeno, identificado por Piketty como r > g, aponta para a inevitabilidade da concentração de riqueza em um sistema sem intervenções fiscais ou redistributivas eficazes. A partir desse diagnóstico, Piketty coloca em questão o funcionamento das democracias modernas, argumentando que a extrema desigualdade econômica compromete o próprio exercício da soberania popular. Quando os mais ricos concentram uma parte substancial da renda, eles adquiriram também uma influência desproporcional sobre as decisões políticas, os meios de comunicação e as campanhas eleitorais. Isso gera uma distorção nos processos democráticos, pois as políticas públicas acabam atendendo principalmente aos interesses de uma elite econômica, o que enfraquece a confiança nas instituições e alimenta o descontentamento popular, muitas vezes explorado por movimentos populistas ou autoritários.

Além de suas análises sobre desigualdade social e política, Piketty amplia seu foco para a questão ambiental, estabelecendo uma conexão entre as disparidades econômicas e a crise climática. O economista observa que os mais ricos produzem um dano ecológico significativamente maior, contribuindo de forma desproporcional para os danos ambientais, enquanto as populações mais pobres, que menos impactam o meio ambiente, são as que mais sofrem com suas consequências. Ou seja os capitalistas são o problema.

No entanto, é interessante recordar o capítulo 4 do Livro I d'O Capital, no qual Marx apresenta a transformação do dinheiro em capital, expondo a fórmula geral do capital sob a forma D-M-D’ (dinheiro-mercadoria-dinheiro aumentado), que ilustra a lógica interna do processo de valorização no capitalismo. Aqui, o capitalista aparece não como figura autônoma e controladora, mas como personificação de uma lógica que o ultrapassa: ele é meio, e não fim. O sujeito do processo passa a ser o próprio valor, que se autonomiza e se torna sujeito automático da reprodução ampliada de si mesmo. Segundo Marx, “o valor se torna, aqui, o sujeito de um processo em que ele, por debaixo de sua constante variação de forma, aparecendo ora como dinheiro, ora como mercadoria, altera sua própria grandeza e, como mais-valor, repele a si mesmo como valor originário – valoriza a si mesmo” (MARX, 2017, p. 186)​

Na fórmula D-M-D’, o capital não está interessado no valor de uso das mercadorias, mas sim em transformá-las em mais dinheiro, ou seja, em mais-valor. Diferente do ciclo M-D-M (mercadoria-dinheiro-mercadoria), que visa à satisfação de uma necessidade concreta, o ciclo D-M-D’ parte do dinheiro e retorna ao dinheiro, mas em quantidade aumentada, o que implica que o fim da circulação capitalista é o próprio crescimento do valor. Como aponta Marx, “o valor passa constantemente de uma forma a outra, sem se perder nesse movimento, e, com isso, transforma-se no sujeito automático do processo” (MARX, 2017, p. 186)​

Dessa forma, pode-se argumentar que os capitalistas não controlam o capital em sentido pleno, pois, no próprio exercício de suas funções, são compelidos pelas determinações internas da lógica capitalista, como a concorrência e a necessidade de valorização contínua. Como diz Marx, o capitalista “só é respeitável como personificação do capital. [...] no capitalista, [essa lógica] é efeito do mecanismo social, no qual ele não é mais que uma engrenagem” (MARX, 2017, p. 657)​. O capitalista, portanto, é controlado pelas leis imanentes do capital e atua, nesse sistema, como um meio pelo qual o capital se autovaloriza.

Nesses termos, o conceito de Capitaloceno revela-se não apenas mais apropriado do que o de Antropoceno, mas absolutamente necessário para compreender a crise ecológica e social contemporânea em sua raiz estrutural. A substituição do foco genérico na "humanidade" por uma crítica situada das formas históricas de dominação permite elucidar com mais precisão a lógica interna do sistema capitalista — e é justamente essa lógica que torna o Capitaloceno uma época em que não o ser humano enquanto espécie, mas o capital como forma social autonomizada, é o verdadeiro sujeito da história.

A partir dessa perspectiva, impõe-se uma pergunta decisiva: quem controla o capital? A resposta, à luz da crítica marxiana e da leitura de autores como Jason Moore, parece ser inquietantemente clara: ninguém. O capital, uma vez posto em movimento, opera como uma estrutura automatizada de reprodução e expansão, cuja força coercitiva não reside em uma vontade individual ou coletiva, mas na compulsoriedade sistêmica de sua autovalorização. Como já apontava Marx, o capital "adquire uma existência automática" (MARX, 2017, p. 186), funcionando como um “sujeito automático” que subjuga tudo — natureza, trabalho humano, instituições políticas — à sua dinâmica expansiva.

Nesse sentido, o capitalista individual não é o senhor do capital, mas seu funcionário — uma engrenagem cuja existência está subordinada à lei da acumulação. O capital, enquanto valor em movimento, operara à revelia; seu comando é estrutural, impessoal, e irresistível dentro de sua lógica interna. Os próprios capitalistas são compelidos a reinvestir, explorar mais, acumular mais, sob pena de serem expulsos do jogo. Trata-se de uma coação silenciosa, mas absoluta, que confere ao capital um caráter quase metafísico: um fetiche social que subordina os seres à aquilo que eles mesmos criaram.

Assim, o Capitaloceno não não se reduz a apenas uma denominação crítica, mas uma chave interpretativa para compreender como a crise ambiental e a crise de reprodução da vida derivam de uma lógica histórica determinada — e não de uma essência humana abstrata. Nesse contexto, explicita a inversão entre sujeito e objeto: não é o capital controlado pelos homens, mas são os homens — e com eles a Terra — que são controlados pelas exigências cegas do capital, cujo principio é a própria acumulação, e não a vida humana. Como consequência, essa lógica transforma as relações de produção e também a forma de vida, as subjetividades e os próprios limites ecológicos do planeta.

Essa inversão sujeito/objeto é um marco paradigmático, que remete à famosa questão hegeliana, de que a consciência que molda o mundo e o mundo que molda a consciência, no qual se compreende uma relação dialética. A resposta de Marx é prática e materialista: se a realidade forma a consciência, então deve-se transformá-la por meio da práxis revolucionária. Como escreveu em A Sagrada Família, “se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente” (MARX; ENGELS, 2002, p. 145)​. Esta afirmação desloca o ponto de partida da crítica idealista para a crítica materialista da realidade, fundamentando a possibilidade da transformação histórica como prática emancipadora.

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