sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Papa and Mama

The classics, oh, how valuable they are,

Like old books, natural selection survives.

The Kama Sutra, also a classic,

Indicates timeless poses, for us to intertwine.

But why not stray, just for fun,

Inventing moves under the sun?


For although old habits bring pleasure,

A new twist can feel so right.


The question, depending on the location

It’s about fitting in as best you can. 

at home, in the car, in the square, 

in the bathroom, in public, as a couple, 

on the roof, in the library, etc.. 


Not the pose, the form.

But the cause, the sex.


Seize the night, Carpe diem,

With classic grace, play the game.

However, the spark of newness

 lives in the passion involved.


not in the archetypal scene

but in the reciprocal drive.




Miss you, Miss M

Her black hair flows, a midnight path,

Moonlit skin, a bright moonbeam.

We melt into the summer of bodies,

Sweat and whispers, fire and kiss.


I still feel your arm around me,

Like I'm still on top of you in bed.


More than the touch, I miss your voice,

your smell enchanted me

Night conversations, our love, our gaze.

Now the city is cold and empty—

And you're not here.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

26/02/2025

A cidade não me conhece. Caminho por ruas onde ninguém pronuncia meu nome, onde os prédios não guardam memórias minhas e as esquinas não sabem de meus antigos atalhos. A solidão aqui não é apenas ausência de companhia, mas um silêncio concreto, uma falta que se espalha pelas avenidas.

A noite amplifica esse estado, torna tudo mais denso. As luzes dos postes desenham sombras alongadas, como se o tempo hesitasse entre seguir ou se curvar sobre si mesmo. Em algum café, alguém lê um livro. A letra dos livros voa, como canta Caetano, talvez buscando um destinatário que se perdeu na multidão. Mas onde está a amizade quando se precisa dela?

Houve um tempo em que os caminhos eram outros. O bar com vozes conhecidas, a casa dos amigos sempre de portas abertas, as risadas que preenchiam as noites sem que precisássemos marcar hora. Agora, o que há são ruas desconhecidas e uma saudade que se manifesta na forma de um pensamento recorrente: estamos sós?

Ando meio triste por aqui. As noites têm o tom de um filme melancólico, com ruas vazias e luzes difusas que ressoam em mim. Caminho devagar, atravessado pelo vento frio, espectador de uma cena sem roteiro onde a solidão se impõe. Os prédios altos, as janelas acesas, os vultos distantes — tudo me parece alheio, como se eu estivesse apenas de passagem. A saudade pesa um pouco mais.

Às vezes, tento me distrair com música, mas até ela se curva à melancolia dos postes amarelados. Imagino, como fazia na infância, as histórias por trás de cada janela iluminada. Quem vive ali? Que vidas se desenrolam sob aquelas luzes? Quando criança, eu criava enredos para esses desconhecidos. Hoje, esse hábito retorna, como se imaginar cada existência anônima me fizesse sentir menos só.

A cidade já sonhou outros sonhos antes de mim. Ela já foi palco de tantas chegadas e partidas, já testemunhou reencontros e despedidas. Minha solidão não é a primeira a vagar por essas calçadas, nem será a última. Mas há um consolo em saber que, mesmo na distância, a amizade resiste, urdindo laços invisíveis. Talvez seja assim mesmo: um dia, sem perceber, deixamos de ser estranhos. Passamos a conhecer os ritmos da cidade, seus silêncios e vozes. E quando menos esperamos, encontramos alguém que nos reconhece, um sorriso que diz sem precisar de palavras: você não está sozinho.

A amizade, afinal, é a única certeza que ecoa por toda cidade boa.

Não vejo muitos rostos por aqui. Saio para caminhar de manhã, volto a andar à noite, e, no intervalo — que ocupa a maior parte do relógio — fico diante da tela, imerso no trabalho. No almoço, sento ao lado de desconhecidos em um refeitório invariavelmente lotado, onde, paradoxalmente, a solidão parece ainda maior.

À noite, ao voltar para casa, depois de correr no passeio público e sentar para ler O Perfume, de Patrick Süskind, danço como um lunático. Ontem, dancei aquele álbum OK OK OK, do Gil, perdido no ritmo, alheio ao mundo. Depois, percebi a ausência de cortinas e me ocorreu que a vizinha do outro lado da rua poderia ter me visto. O que, em si, não seria um grande problema — ou pelo menos não tão embaraçoso quanto o que ela mesma já passou. Meus pais, na única vez em que vieram me visitar, a viram de calcinha na janela. Eu, lamentavelmente, perdi a cena.

No entanto, essa semana instalei as cortinas nos dois quartos, o que me permite andar pelado pelo apartamento ao meu modo, mas tendo que passar rapidamente pelo corredor da cozinha ou me vestir toda hora que for pegar algo para comer ou beber. Logo arrumo uma cortina também para a sala, o que resolverá essa questão.

Ontem, percebi um senhor um tanto estranho me seguindo pelo passeio público, mas que parecia ter alguma deficiência mental. Quando me sentei para ler, próximo ao local das aves, ele parou à minha frente e ficou ali por uns cinco ou seis minutos, o que foi um tanto incomum. Três pessoas já me notificaram de que a praça que frequento para ler - aquela com o monumento do homem nu - é perigosa. Não achei tanto assim. Há muitos usuários de drogas, de fato, que são justamente quem praticam furtos e assaltos, mas todos muito acabados e aparentemente desvalidos para a prática de qualquer mal à força. De qualquer forma, evito dar bobeira e ainda tenho o costume de carregar uma faca no bolso.

Vai fazer uma semana que não bebo nada alcoólico nem consumo cafeína. Estou tendo uma espécie de refluxo estomacal que já dura alguns dias. Devo me cuidar nesse sentido e vou ao Pronto Atendimento hoje à noite. Amanhã terei minha primeira orientação do mestrado, e as aulas já começam no dia dez. Tudo vai ficar bem.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Olhar Maternal

Creio que trago em mim o jeito

De quem fitou, ao vir ao mundo,

O olhar materno, calmo e feito

De um amor puro e profundo.

Creio que trago em mim o jeito,

De quem viu, ao nascer, o primeiro olhar,

Aquele que me disse tudo e fez do peito

Deixando-me a estrada procurar.

Nos olhos dela, um universo,

Um mar que embala, um céu que ampara,

Reflexo terno, luz em verso,

Que nunca some, nunca apaga.

Eva mitocondrial, genética do escopo.

Eu sou um sentimental, moldado no espaço,

De quem procurou algo em cada rosto,

Com o olhar perdido, ao buscar abraço,

Vagando ao mar, sem porto, 


Ao nascer, devo ter tido o espanto,

O mundo é vasto, frio e vão,

Mas esse olhar, num doce encanto,

Fez-se abrigo, fez-se chão.

E ao partir, na despedida,

Num último olhar ficou,

A dor, o tempo, a dura vida,

Mas seu amor se materializou.

Nove meses não serão vãos,

Se nove meses me gestou.

Como na história que ouvi,

Que viu no olhar de sua mãe

A vida breve, um triste adeus,

E fez da causa o próprio bem.

Talvez ferida aberta, que nunca constatei.

Fez de mim algo além,

Rompido no estante, 

Para ir adiante: da angústia, da calma, do amor, da dor.

E se fazer galante, pois de olhar perdido, 

Que a todas e todos interessa, curiosos. 

Pois naquele instante, me fez sozinho

Para sempre. 


Um Sentimental

Sou assim, um sentimental,

Que vaga à sombra do próprio querer,

Desejo algo além do trivial,

Um porto onde possa enfim me deter.


Que gostaria de algo, alguém,

Um lume aceso no frio da vida,

Que aquecesse a alma também,

Que fizesse a dor ser esquecida.


Algo para não viver em vão,

Sem dias banais, vazia existência,

Sem essa ausência que faz do chão

Um vasto abismo em alvoradas.


Sou feito de sonhos, de quimeras vãs,

De anseios que flertam no breu do olhar,

De versos que buscam, entre manhãs,

Algo, alguém, um cais para ancorar.


Que gostaria de um amor inteiro,

Daquelas paixões que não têm adeus,

De um lume aceso, firme e certeiro,

Que brilhe em mim, que brilhe nos teus.


Algo que faça a vida ter cor,

Que rasgue o véu do tempo banal,

Que cure o tédio, que afaste a dor,

Que faça a alma ser mais que um sinal.


Que vontade de chorar, confesso,

Mas guardo as lágrimas, sigo calado,

Talvez no tempo encontre o verso

Que faça o sonho ser encarnado.

Sonho de Pobre

Ser pobre é ser duplamente sozinho,

sem futuro à vista para oferecer a outro,

sem benesses, auxílios, mas sufoco,

que muitas vezes torna a alma oca.


Mas o pobre também quer sonhar,

com amores, com festas e risos,

com dias que não sejam cinza,

sem dedicar a vida a contas a pagar.


Quer o direito à esperança,

ao sossego que nunca repousa,

ao riso sem medo ou cobrança,

a um mundo que não lhe seja escusa.


Pois ser pobre não é não sentir,

nem deixar de querer ou de ser,

nem deixar de amar ou sonhar em amar,

mas sem futuro à vista para oferecer a outro.


Ser pobre é apenas ver o amanhã fugir

e insistir em viver, apesar de doer,

sem perguntar o porquê,

pois muitas vezes não há.


Amanheci triste

Hoje acordei triste, mal vi o sol nascer,

Amanheci azul, no tom mais melancólico,

A alma pesava, sem querer entender

O que se esconde no véu do simbólico.

Tão sozinho em meio à rotina,

O dia surge como um reflexo mundano,

Na solidão da mente, a dor se inclina,

Em silêncio, perdido entre o som profano.

O tempo corre, mas fico parado,

E o céu se veste de cinza e carmesim,

A alma se perde, num voo entristecido,

À procura de algo que nem sei enfim.

Tão sozinho, perdido nesse espaço,

Onde os sons ecoam, mas nada é ouvido,

A vida, alternância sem nenhum compasso,

E o coração, só, no vazio ressoa.

Caminho sozinho pela terra

Caminho sozinho pela terra,

Por todos os âmbitos e crenças,

Todos tribunais e sentenças,

No entanto, restringido a nada.


Se a sorte me empurra ou me emperra,

Se há leis que me exigem ofensas,

Não temo suas vãs recompensas,

Pois sou quem se perde e se busca.


E sigo, sem rumo ou medida,

No rastro de um sonho inconstante,

Tateando as sombras da vida.

Como no céu uma estrela perdida.


Mas eis que me vejo, adiante,

Sem chão sob a estrada esquecida,

Calculando os passos a cada instante.

Em busca de sentido que não se encontra.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Paris, Texas

Ele caminha.

Os pés rachados, o boné gasto,

o olhar perdido entre a poeira

e o horizonte que nunca se fecha.


Um nome, um sonho, um lugar no mapa—

Paris, Texas.

Não Paris das luzes, não Texas dos cowboys,

mas um vazio onde a memória se debruça,

No sertão d'alma, 

como um vento sem pressa

que esqueceu para onde soprava.


A estrada é longa,

e nele mora um silêncio de milhas,

um silêncio que pesa nos ombros

como o fardo de um nome esquecido.

Na curva do tempo,

uma mulher se desenha no vidro opaco,

uma voz distante,

um menino que carrega um rosto

que ele já não sabe chamar de filho.


Ele caminha.

Não busca retorno,

não sabe do fim,

mas segue,

porque há destinos que só existem na distância,

e ele mesmo já é uma estrada

que nunca chega.


Me vejo na tela, criança—aquele

cujos pais se foram sem saber por quê.

E vive, acolhido,

embora a esmo,

porque há destinos que só existem na distância,

e eu mesmo já sou uma estrada

que nunca chega.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Derivação

Vivo nesse geóide azul,

a flutuar no vazio imenso

que engendrou a matéria.


Natureza, sou teu filho,

fruto de tuas vontades,

desejo de teu abismo aleatório,

circunstância de tuas ações,

gerado, não criado,

por tua sede.


Caos verdadeiro de Caos verdadeiro.


Meu peito é vazio,

como o espaço infinito

que te circunda.


Vivo com o meu coração no anzol,

a flutuar no vazio

que me tangencia.


Se o tempo me leva, não sei.

Sou brisa errante, espuma de onda,

faísca breve de um astro morto,

brilhando sem querer na escuridão.


Sou o eco da primeira explosão,

que deriva,

o ruído mudo do antes de tudo,

que deriva,

o pó que dança sem destino,

à deriva,

a fala incerta do cosmo,

à deriva.


E se canto, é porque o nada

também me fez cantador.


Professo um só mergulho

nesse abismo profundo,

para dissolução do eu,

para o todo atrelar e sentir.


E espero a reinvenção do acaso

e o eterno retorno do que há de vir.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Se trago o olhar de um anjo caído

Se trago o olhar de um anjo caído

Não é, pois, ser anjo, nem nada disso,

Mas por ter afastado de mim o paraíso,

Da crença frágil no apelo metafísico.


Sou, pois, um anjo, sim, parecido,

Mas melancólico demais para o céu,

A não ser a noite, dias cinza e chuvosos,

Nos quais vejo da janela ao léu.


Se trago o olhar de um anjo caído,

É por verem nela a pintura de Cabanel,

Não por existir anjo e diabo, inferno e céu.


Mas se há motivo, é minha revolta,

A rebeldia dos filmes de James Dean,

Mas que, de causa exata, contra ordem trama.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Além do Bojador

Parti só, a fim de viver as novidades,

Levando a febre estranha do saber.

No peito, a saudade das veras amizades,

Na alma, um vento ansioso por viver.


A noite estende o manto sobre a sala,

O livro aberto, a xícara esquecida.

E em cada linha, o pensamento embala

A dor de um sonho à margem da partida.


Quem busca além, desata os próprios laços,

E há de vagar por águas mais sombrias,

Sem cais, sem âncora e sem outros braços.


Mas, se há perigos, há também os guias:

No abismo, o céu se dobra em mil espaços,

E a luz se esconde além das maresias.


Para Marquinhos

Retornos

Há algum tempo aqui estive,

Nessa mesma rua e cidade.

Reparo, ao passar na avenida,

A mesma, e eu de outra forma.


É como se no tempo voltasse,

Regredindo o relógio em memórias,

Como se, destilando as histórias,

Me visse na avenida, sob a chuva.


Mas era um dia em que não chovia,

E, por conta disso, não me achava,

Como se no tempo voltasse.


Dei seis reais a um rapaz que precisava

Para pegar o ônibus e voltar pra casa,

Sem saber eu para onde ir.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

As Lutas Camponesas no Brasil

 Na terra seca, o pranto se espalhava,

No sulco rude, a fome florescia.

O latifúndio, fera que esmagava,

Tomava o pão, roubava a luz do dia.


Mas veio tempo da luz de sol nascente,

No verbo insubmisso de Francisco Julião

Que fez da luta o pão de sua gente,

E deu ao campo nova direção.


Nos olhos do camponês ardia o sonho,

Nos braços calejados, um porvir,

A foice contra o jugo tão medonho.


Por cada palmo, a guerra a resistir,

Pois quando a terra é o fruto do seu dono,

Não há senhor que a possa repartir.

Vestígio

A noite arrasta a sombra dos meus passos,

E o vento diz teu nome sem querer.

Vagando entre memórias e cansaços,

Eu busco o que já foi sem mais ser.


Os dias passam mudos, tão ausentes,

E em tudo há teu rastro e teu adeus.

No espelho, entre os traços recorrentes,

Ainda tenho a boca marcada por um beijo teu.


E o tempo, esse ladrão de eternidades,

Não apaga a febril recordação,

Nem leva embora as luzes da saudade.


Se volto a reparar a lua em solidão,

Teu cheiro mora ali, na claridade,

E dorme sobre o peito da ilusão.

Um amor do tamanho de um diamante do tamanho do Ritz

Amor tão raro, um prisma inatingível,

Brilhando além do tempo e da razão,

De pedra e luz, encanto indivisível,

Reflexo eterno em límpida ilusão.


Ergue-se altivo, acima dos mortais,

Soberbo e frio, à sombra do desejo,

Tesouro que os avaros querem mais,

Mas que, ao tocar, desfaz-se num lampejo.


Um amor que, como a esperança, sonha,

Tal qual um diamante cuja luz brilha

Com força tamanha.


Amor que, como a fé, ainda pequena,

Tal qual um grão de mostarda,

Move montanhas.

À Francesa

Perdão, caros amigos, se me ausento,

Sumindo ao fim da festa sem alarde.

Não é descaso, é só meu sentimento,

Que ao rito de adeus jamais se guarde.


Não tenho o dom formal da despedida,

Prefiro a dança, o passo imprevisível,

Pois tudo o que se vai não é perdida

Mas memória, promessa do intangível.


E quando enfim chegar meu derradeiro

Instante, que me leve a correnteza:

Sem lágrimas, sem véus, sem desespero.


Só um olhar que sonha a sutileza

De um novo encontro, um tempo verdadeiro,

De todos nós com a própria natureza.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Exílio

Vai, meu canto, sem destino,

pela estrada tão vazia...

Cada passo é um desatino,

mas não há quem me desvia.


O que sei, me fez sozinho,

feito um barco sem cais.

Se há verdades no caminho,

quem as ouve só quer paz...


E eu quis ver além do véu,

quis tocar o tom do céu,

mas no alto fez-se o frio,

meu amor, eu sou sozinho...


Já tentei calar o peito,

dar ao mundo um outro tom,

mas pensar tem seu efeito:

é silêncio ao meu redor...


Se essa vida é um delírio,

se o que creem lhes convém,

quem desperta faz seu exílio

e não volta pra ninguém...


Sou sereno em quietude,

voz que cala no deserto.

Reparo o mundo n'amplitude,

como um filósofo desperto.


Pois quis ver além do véu,

quis tocar o tom do céu,

mas no alto fez-se o frio,

me fez livre num exílio...




terça-feira, 11 de fevereiro de 2025


 

Trabalho Morto

O capital é força apodrecida,

Que suga a vida e nega seu labor,

É sangue coagulando em lucro e dívida,

Mão invisível que toma sem pudor.


Valor que foi suprimido ao produtor,

Roubo forjado em torpe acumulação,

No giro infértil, rende ao especulador,

Que faz do mundo a sua expropriação.


Trabalho morto ergue sua sombra,

Mercadoria feita sem sentido,

Tornando o homem servo da penumbra,

Refém do câmbio, em morto convertido.


O tempo é presa do rentista insone,

Que compra o dia e doa a privação,

O lucro cresce e a miséria consome

Os sonhos cegos de uma geração.


No fluxo do caixa, a cifra admoesta,

A uns, o labor; a outros, a festa.

Transcende em névoa, fetiche e engano,

Rouba a existência do ser humano.


E tudo gira a se repetir, 

O fim da história em falsa liberdade,

O capital precisa falsear e subsumir, 

Ou não há mundo — só mercadoria e grade.

Ela dorme logo ali

Os pneus deslizam no asfalto úmido,

Semáforos néon, luzes distraídas.

Dirijo sem pressa, sem rumo nítido,

Feito quem não busca mais saídas.


Mas ela dorme logo ali, eu sei,

No prédio com sua mãe, um terceiro sono.

Recordo nosso antigo cômodo,

Onde o tempo esculpia o que fomos.


Hoje, se remove o que restou de nós:

Móveis, retratos e todo o aconchego.

Desmontam memórias, ecoam as vozes,

Como fantasmas presos no tempo.


E as decisões confusas, a alma a naufragar,

No dilema de existir sem lugar no mundo.

Em busca de algo, sempre a aventura,

Para calar essa angústia tão profunda.


Mas a vida é tão enorme,

E às vezes me sinto me perdendo.

Mas tudo bem, meu bem,

Quando não se pode falar, deve-se calar.

E ela me diz para usar filtro solar.


A vida, talvez, seja isso: errar sem saber,

Em cada esquina, uma escolha a julgar.

Sigo perdido, mas posso entender

O peso do ser ou não ser.


A cidade me engole, mas já não me cabe.

Amanhã, outra rua, outro céu, outro chão.

E o que faço com tudo o que vive

Num peito afogado em imensidão?


Nas paralelas dos pneus, na água das ruas,

Trocam-se marchas, mantendo a cadência.

O rádio murmura canções

Que avançam sob a consciência.


A solidão não avisa, apenas sussurra,

Acostumei-me a esperar o pior.

A vida, entre curvas, me empurra

Para algum lugar, mas não guardo rancor.


Não sei para onde ir, qual bar,

Com quem conversar, solidão.

Avanço sinais, dirijo na contramão,

Eu vim só para dançar.


Mas a vida é tão enorme,

E às vezes me sinto me perdendo.

Mas tudo bem, meu bem,

Quando não se pode falar, deve-se calar.

E ela me diz para usar filtro solar.


Sem lugar no mundo, piso no acelerador.

A dor faz parte do amor,

Meu reino a essa terra não pertence.

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar,

E ela me diz para usar filtro solar.


Mas ela dorme logo ali, eu sei,

No prédio com sua mãe, um terceiro sono.

Recordo nosso antigo cômodo,

Onde o tempo esculpia o que somos.

Estradas de um sonho

As estradas de um sonho são confusas,

pois nascem de águas turvas, sem razão.

Carregam ecos, sombras tão difusas,

perdidas na mais caótica transmutação.


Há um pouco de tudo: luz e espanto,

imagens vagas, rasgos de visão.

Mas até o lúdico, em seu encanto,

não passa de fugaz ilusão.


Ou será que não? Pois no delírio,

o que se inventa pode ser real.

Se o tempo é bruma, sombra ou martírio,

qual a verdade e qual seu sinal?


Esse caminho, incerto e errante,

por onde o sonho ousa se lançar.

Se as vias somem, sigo adiante...

Talvez sonhar seja apenas buscar.

Perdido na Tradução

Ando meio errante, à revelia,

Nesses excessos quentes do verão.

O carnaval mal chegou na melodia,

E eu já me perco em confusão.


Meu violão se queda em Curitiba,

Meu coração vagueia em Joinville,

A voz que outrora forte se mantinha

Já se dispersa e sob a sombra se aninha.


Palavras fogem, turvas, sem sentido,

Na boca amarga da recordação,

E o que restou de um sonho desvalido

Se perde em outra interpretação.


Os pés errantes buscam novo norte,

Mas cada rua é senda sem final.

O tempo dança à míngua de uma sorte,

Um tango rígido e descompassal.


Olhando o céu sem mapa ou coordenada,

A lua embriaga a solidão,

E em cada rastro de palavra errada

Se escreve a minha tradução.


Nova janela se abre ao horizonte,

mil outras portas tombam pelo chão.

Ando sozinho, estranho neste monte,

nova morada, igual solidão.


Outra paisagem corta a minha estrada,

outra cidade, igual multidão.

Nova memória, a mesma sombra errada,

velhas palavras, nova translação.


Outro idioma pesa em minha fala,

mas sigo mudo entre os sons do cais.

A cada verso que o vento embala,

perco o sentido um pouco mais.


E o sentir que quer traduzir-se,

nada é capaz ao que pretende,

como uma vida inteira a luzir-se,

mas ainda ao ventre incipiente.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Rosas de Sodoma

Ainda dúvidas, senhora do prazer,

com que ardor hei de honrar tua vontade?

Em teus domínios, me deixo envolver,

sem leis, sem freios, sem castidade.


No púrpuro leito, a febre incendeia,

línguas em chamas percorrem a pele,

em gozos e gritos, luxúria sem peia,

cálida dança que o tempo repele.


Rosas de Sodoma, rubras, abertas,

gotejam seiva, veneno e mel,

carnes rendidas, vontades despertas,

delírio e sombra no mesmo papel.


Teus dedos cravam meu peito arfante,

teu corpo impõe-me o jugo exato,

nos jogos febris, sou teu semblante,

escravo e rei no mesmo ato.


Que mais exiges, senhora minha?

Que dor, que gozo, que nova lei?

Se a vida é um rito que o corpo adivinha,

tecendo orgias de dor e prazer.


E quando a aurora romper na cortina,

teu gosto em mim há de perdurar,

pois mesmo que o dia a fúria defina,

à noite, em trevas, volto a te amar.



Baseado na obra de Marques de Sade

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

A Filosofia na Alcova

No sentido estendido, a doutrina sussurra,

onde o desejo é lei e o corpo, razão,

na carne, a ideia se rasga e murmura,

na febre dos lábios, se esvai a ilusão.


Aqui não há culpa, nem jugo celeste,

a virtude é um mito, o prazer, a verdade,

o toque é um verbo que o tempo investe,

no altar do instinto, jaz a piedade.


Como Justine, que ao tormento se rende,

ou Juliette, que no desejo ascende,

a alma se vê na paixão que excede,

onde o desejo, imortal, tudo dissolve.


Pois a vida é um jogo sem réu nem juízo,

e os muros da regra são feitos de pó,

só vale o instante, só pesa o sorriso,

pois nada há puro onde tudo é, e só.


E se ao final sobra apenas um vazio promíscuo

se o gozo é um grito que no abismo finda ,

melhor que a alma se perca, encantada,

no seio da fêmea e seu orgasmo múltiplo.