quarta-feira, 23 de abril de 2025

Vodu Vodu

De linho escuro é feito o meu semblante,

bordado à mão com fio de pensamento.

Um gesto estranho guia-me adiante,

sem que eu conheça o rumo ou fundamento.


A cada passo, espetam minha carne

agulhas que não vejo, mas obedeço.

No fundo sei: não há quem mais desarme

meus próprios nós, senão o que padeço.


Não fui criado só por mãos alheias,

pois trago em mim o traço do artesão.

Entre as costuras, vozes são correias

de uma razão que dobra a contramão.


E sigo, sim, com garbo de guerreiro,

mesmo que os passos já estejam traçados.

Sou forma viva, espectro e feiticeiro,

meu corpo e alma andam amarrados.


Se penso, é pensamento que me guia,

mas sou também o fogo que o consome.

Sou mais que voz — sou verbo e sincronia,

sou nó, sou lâmina, sou o que me some.


Não nego os deuses, nem os seus caminhos,

mas nas veredas planto o que carrego.

Se sou destino, escrevo-o com espinhos,

e em cada dor que sinto, me navego.


Mas danço. E danço bem. Se sou cativo,

o sou de mim — do mito que escolhi.

E mesmo que o futuro seja escrito,

sou eu que vou, sorrindo, até ali.


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