De linho escuro é feito o meu semblante,
bordado à mão com fio de pensamento.
Um gesto estranho guia-me adiante,
sem que eu conheça o rumo ou fundamento.
A cada passo, espetam minha carne
agulhas que não vejo, mas obedeço.
No fundo sei: não há quem mais desarme
meus próprios nós, senão o que padeço.
Não fui criado só por mãos alheias,
pois trago em mim o traço do artesão.
Entre as costuras, vozes são correias
de uma razão que dobra a contramão.
E sigo, sim, com garbo de guerreiro,
mesmo que os passos já estejam traçados.
Sou forma viva, espectro e feiticeiro,
meu corpo e alma andam amarrados.
Se penso, é pensamento que me guia,
mas sou também o fogo que o consome.
Sou mais que voz — sou verbo e sincronia,
sou nó, sou lâmina, sou o que me some.
Não nego os deuses, nem os seus caminhos,
mas nas veredas planto o que carrego.
Se sou destino, escrevo-o com espinhos,
e em cada dor que sinto, me navego.
Mas danço. E danço bem. Se sou cativo,
o sou de mim — do mito que escolhi.
E mesmo que o futuro seja escrito,
sou eu que vou, sorrindo, até ali.
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