No canto da aula, em traço sem propósito,
eu e Nala desenhávamos o professor.
Surgiu no tédio um pacto silencioso —
foi assim que nos conhecemos, no humor.
Lucie sentava ao lado, tão discreta.
Tinha um colar azul — delicadeza.
Notei que se falavam com afeto
e, num segundo, havia uma certeza.
Andávamos sem rumo e sem relógio,
por ruas onde o tempo se escondia.
Três sombras numa tarde sem litígio,
em cada passo, um riso que surgia.
Nos cafés, partilhamos a demora
de um mundo em suspensão, quase irreal.
Falávamos de tudo, e embora agora,
a vida ali cabia no banal.
Debruçados sobre livros e pesquisas,
entre os limites do real e o sonhar da ficção,
vivíamos as conversas e experiências
como se a vida coubesse na palma da mão.
Perdidos na tradução, tentávamos
traduzir de nós o intraduzível —
ver que tudo é sutil, mas filosófico,
e terminarmos no simples, no risível.
Há coisas que não cabem nas palavras,
havendo um dicionário intraduzível,
é pelo que se escapa, e nunca lavra
o mundo muito além do tangível.
Nem tudo que se sente se declara:
o som primeiro antes da voz precisa,
o olhar que, de tão cheio, já desliza,
e o silêncio que canta e não se aclara.
Assim também, naquela noite antiga,
como a dança de Nala em seu catarse,
e o burburinho das moças e a medida
das estratégias do segredo e do disfarce,
as pausas dizem mais que as palavras,
bordam no ar um fio que nos embriaga;
nascia o que nenhuma fala abriga:
a língua impossível encontra a alma.
A filosofia, em nós, ganhava corpo,
não mais em tom solene ou vertical —
mas no calor de um gesto e da amizade,
de uma palavra dita ao natural.
Recados do intraduzível sentido,
do gesto que se perde e se descobre,
do rumor, da dança, do não-dito,
da poesia que só existe no impossível.
Foi nos primeiros dias, quase aos ventos,
que o mundo enfim fez parte do momento.
Que a amizade é refúgio do absurdo,
e o acaso tem também os seus encontros.
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