segunda-feira, 28 de abril de 2025

Nala e Lucie

No canto da aula, em traço sem propósito,

eu e Nala desenhávamos o professor.

Surgiu no tédio um pacto silencioso —

foi assim que nos conhecemos, no humor.


Lucie sentava ao lado, tão discreta.

Tinha um colar azul — delicadeza.

Notei que se falavam com afeto

e, num segundo, havia uma certeza.


Andávamos sem rumo e sem relógio,

por ruas onde o tempo se escondia.

Três sombras numa tarde sem litígio,

em cada passo, um riso que surgia.


Nos cafés, partilhamos a demora

de um mundo em suspensão, quase irreal.

Falávamos de tudo, e embora agora,

a vida ali cabia no banal.


Debruçados sobre livros e pesquisas,

entre os limites do real e o sonhar da ficção,

vivíamos as conversas e experiências

como se a vida coubesse na palma da mão.


Perdidos na tradução, tentávamos

traduzir de nós o intraduzível —

ver que tudo é sutil, mas filosófico,

e terminarmos no simples, no risível.


Há coisas que não cabem nas palavras,

havendo um dicionário intraduzível,

é pelo que se escapa, e nunca lavra

o mundo muito além do tangível.


Nem tudo que se sente se declara:

o som primeiro antes da voz precisa,

o olhar que, de tão cheio, já desliza,

e o silêncio que canta e não se aclara.


Assim também, naquela noite antiga,

como a dança de Nala em seu catarse,

e o burburinho das moças e a medida

das estratégias do segredo e do disfarce,


as pausas dizem mais que as palavras,

bordam no ar um fio que nos embriaga;

nascia o que nenhuma fala abriga:

a língua impossível encontra a alma.


A filosofia, em nós, ganhava corpo,

não mais em tom solene ou vertical —

mas no calor de um gesto e da amizade,

de uma palavra dita ao natural.


Recados do intraduzível sentido,

do gesto que se perde e se descobre,

do rumor, da dança, do não-dito,

da poesia que só existe no impossível.


Foi nos primeiros dias, quase aos ventos,

que o mundo enfim fez parte do momento.

Que a amizade é refúgio do absurdo,

e o acaso tem também os seus encontros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário