No fundo da noite, quando os ponteiros param e os ruídos do mundo se recolhem em suas próprias conchas, sou visitado por um rei. Ele não veste mantos, nem carrega coroa. Seus olhos são poços de miragem, e seus dedos, longas penas que escrevem no ar as fábulas que jamais ousamos viver.
Esse rei é meu hóspede. Ou sou eu o hóspede de seu reino? Ele me oferece vinhos inexistentes que embriagam mais do que qualquer absinto — vinhos destilados dos sonhos de crianças adormecidas e das promessas não cumpridas dos amantes.
Lá, no trono do Imaginário, não há governo senão o das nuvens, nem lei senão a da metamorfose. As pedras choram, os perfumes falam, e os espelhos não refletem: conduzem. Conduzem a terras onde as palavras se fazem carne e os silêncios têm cor.
Ah! Quantas vezes, nesse império sem mapa, me tornei herói de epopeias sem espada! Quantas vezes fui traído por ideias que criaram asas e voaram para longe, rindo de minha vã tentativa de contê-las no papel!
Mas o Imaginário também castiga. Ele sussurra mentiras doces como o pecado e me prende em jardins onde as flores devoram os que ousam colhê-las. Ele me faz amar sombras, desejar estátuas, acariciar quimeras que ruem em pó ao amanhecer.
E no entanto, todas as manhãs eu volto. Eu rastejo de volta ao palácio das fábulas, implorando ao rei que me deixe ficar mais um instante, mesmo que isso me custe a sanidade.
Pois, entre a dura pedra do real e o véu de seda do impossível, escolho o corte. Escolho o abismo revestido de poesia. Escolho o Imaginário.
Nenhum comentário:
Postar um comentário