sexta-feira, 31 de outubro de 2025

She Departs

She gonna

run for the stars,

in my mind,

sleep on her bed.


And I, so alone,

in the same night,

trace her name

on the fogged window.


The moon hums softly,

her scent drifts slow —

a ghost of warmth

in the cold glow.


I reach, but she’s light,

already gone,

and silence sings

our fading song.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Moderna Morfina

Um sax sintetizado rasga o tempo,

coração eufórico lembra que bate,

alivia a dor de existir sem sentido —

a tudo atento, a consciência assiste.


Angústias diluídas em morfina,

mas não é desespero: é tédio,

lassidão de um fracassar à toa,

do existir coletivo, perdido no espaço.


O baixo marca o compasso,

a guitarra segue em acordes dissonantes — como as massas.

Clivagem de uma miragem: me chama a esfinge;

“Antes morrer de vodka do que de tédio”, ela brande.


A festa acabou.

E agora, qual é?


O contrário seria, sustentam os bons,

contentar-se com uma vida banal,

contando os dias até o fim de semana,

dias e dias fazendo algo sem sentido algum.


E tomar remédio pra dormir,

e querer não existir,

e à missa no domingo assistir,

pra ser convencido a seguir...


Mais uma semana. Mais uma.

Cada uma mais banal,

e no peito essa lacuna...

Até o Juízo Final.



Acabei de conhecer essa banda (Morphine) por recomendação do Professor Rodrigo Brandão — desde então, confesso, estou viciado (rs). A droga em si me evoca algumas referências imagéticas: meu Nono, pai de meu pai, ao morrer — demasiadamente drogado para sustentar as dores — subia pelas paredes, como dizem fazer as mulheres no cio, tendo alucinações com demônios que vinham buscá-lo com facas pontiagudas. Ele foi um bad guy, que batia seus filhos que cedo fugiram de casa, depois se tornou mais católico, na medida em que a morte vai se aproximando, e por sua vez, o medo do inferno. Tocava o sino da igreja para anunciar a missa. Tornou-se uma boa pessoa, ao menos para mim aparentava. Mas, pelo visto, não adiantou. Lembro que, quando eu era criança, descascava fumo de corda para que ele fumasse; às vezes escondia, mas nunca me bateu por isso — apenas me puxava as orelhas, e eu achava graça, repetindo para que as puxasse. Talvez seja por isso que eu seja tão orelhudo hoje em dia.

De qualquer forma, a morfina me interessa como essa droga dada a pacientes terminais irresolúveis, para sustentá-los por mais algum tempo (ou ad eternum) diante do fim e de seus demônios. Os opioides, em geral, têm uma história interessante. Isso, creio, diz muito sobre o mundo moderno.

Have a lucky day!!

terça-feira, 28 de outubro de 2025

O Bebedor de Vinho

No âmago da noite, só caminha

O bebedor, cuja alma se desfaz,

Entre aromas de vinho e de neblina,

Procura o que se encontra jamais.


Seus olhos, poços de melancolia,

Refletem o mundo em dissabor;

Em goles, a dor entorna poesia,

E o tempo dissolve-se em amor.


Há um riso que, no vinho, se desperta,

Um brilho breve, incerto como o céu,

Que sobre a noite solitária se projeta

E sobre o profundo deita-se ao léu.


É por isso que há no vinho a verdade,

Pois a verdade, meu bem, é uma loucura;

Mas, no coração que a ela se destina,

Entrega-se o bebedor à sua sina.

O espectro vermelho contorna o parlamento

Ouriques vs. Jones Manoel: comentário as cisões internas e o espetáculo da esquerda que não teme em desdizer seu nome 



A esquerda brasileira (revolucionária), ao longo das últimas décadas, tem demonstrado uma persistente dificuldade em articular suas forças políticas de modo a disputar efetivamente o espaço parlamentar com identitários e liberais (de direita e esquerda). As suas cisões internas, atualmente muito bem ilustradas no conflito entre lideranças como Nildo Ouriques e Jones Manoel, exemplificam essa tensão entre princípios ideológicos e prática política. Tais conflitos não se limitam a divergências retóricas, mas refletem disputas concretas sobre como e onde a esquerda deve posicionar-se diante do Estado e do Parlamento.

Vladimir Safatle já questionou se a esquerda, em seu estado contemporâneo, estaria “morta” ou apenas desorientada. Essa reflexão se revela pertinente ao observarmos que, em meio a debates intensos sobre a estratégia revolucionária, o que se produz frequentemente são rachas internos e disputas de interpretação histórica, em vez de ações concretas para intervir nas instituições e pautar o debate público. A fragmentação em correntes específicas — cada uma com seu dogma, sua narrativa e sua agenda moral — tem impedido a construção de um projeto de esquerda capaz de assumir o Parlamento como ferramenta de transformação, não como fim em si mesmo.

A tese da RB, reivindicada por Nildo é assertiva ao demonstrar que o trato midiático sobre temas centrais da realidade nacional e o caminho da Revolução Brasileira, quando mediado pelas mídias digitais, reproduz a mesma lógica dos monopólios de comunicação tradicionais: a busca incessante por audiência e repercussão imediata. Em vez de priorizar análise crítica, rigor teórico e aprofundamento político, a disputa nas redes tende a valorizar o espetáculo, o conflito e a polarização midiática. Nesse contexto, mesmo projetos ou correntes com compromisso genuinamente revolucionário veem-se pressionados a adaptar sua mensagem a formatos simplificados, sensacionalistas ou performativos, dissipando a densidade de suas propostas e reduzindo a política revolucionária a um consumo rápido de likes, retweets e compartilhamentos, sem impacto concreto sobre a estrutura institucional ou a consciência coletiva.

Não se pode, contudo, reduzir a crítica à mera análise acadêmica (por mais assertiva que seja), tampouco se deve renunciar aos meios de mobilização em nome de um rigor teórico extremo, que permanece restrito a grupos de estudo marginais — eternos esperançosos, no sentido da ingenuidade da esperança e do estar à espera da revolução, como os cristãos aguardam a vinda de Cristo. A práxis, em suas múltiplas vias possíveis, deve ser ao mesmo tempo objeto e instrumento da crítica: o sucesso de mobilização que Jones Manoel alcança nas mídias digitais, por exemplo, demonstra que é possível combinar discurso teórico com alcance prático — ainda que ele recorra a autores incompatíveis entre si, como aponta a crítica de Nildo. Entretanto, esse potencial se perde quando a prática se limita a debates sensacionalistas ou a conflitos de lideranças e projetos (e suas ausências), visíveis no PCB, PCdoB, PCBR, PSOL, PT e demais correntes. A unidade estratégica da esquerda revolucionária parece tanto impossível quanto indesejada, muitas vezes por motivações egoicas de lideranças que priorizam protagonismos pessoais em detrimento da construção coletiva de pautas revolucionárias. Assim, mesmo iniciativas que poderiam se traduzir em mobilização concreta acabam contornando o Parlamento e se confinando a espaços simbólicos, reforçando o problema que se propõe a criticar: uma esquerda capaz de rigor teórico, mas incapaz de se efetivar politicamente.

Diante disso, a crítica central não reside na existência de divergências, que são inevitáveis e saudáveis, mas na forma como estas se reproduzem: afastam a esquerda da ação política concreta e reduzem o Parlamento a um território contornado por debates internos, enquanto o único espectro que efetivamente ronda o espaço legislativo é o espantalho do comunismo, falácia brandida de forma arguta pela direita (não mencionarei os identitários, me limitando a centralidade da Revolução Brasileria). A ausência de estratégia coletiva para instaurar pautas revolucionárias no Legislativo limita a atuação da esquerda a comentários acadêmicos e manifestações simbólicas, sem repercussão material sobre o processo político real.

Critico, portanto, em última análise, os sucessivos ataques de Jones a Nildo, injustificáveis e redundantes, claramente orientados por um cálculo eleitoreiro que busca evidência por meio de polêmicas. Em contrapartida, não desconsidero a importância da atuação midiática; ao contrário, entendo que ela deve ser conduzida por agentes rigorosos, capazes de articular teoria e prática política sem negligenciar a estratégia de mobilização. Nildo, a meu ver, não incorre nesse erro, pois limita sua intervenção a responder, de maneira fundamentada, aos ataques que recebeu, preservando assim o equilíbrio entre rigor crítico e posicionamento público. Creio que Nildo poderia orientar Jones nesse caminho, mas lamento a cisão já dada. 

Em última instância, a disputa pelo conteúdo da revolução brasileira permanece à margem do Parlamento. Não é o local de confrontação de ideias apenas, mas de implementação de políticas e construção de hegemonia. Enquanto a esquerda revolucionária continuar a tratar o espaço institucional apenas como terreno simbólico, e não estratégico, continuará contornando o Parlamento em vez de ocupá-lo. A política, portanto, não pode ser reduzida ao eleitoral, mas deve utilizar o instrumento eleitoral para abrir caminhos de transformação estrutural, o que exige unidade mínima de ação e visão estratégica. Até que isso ocorra, o espectro vermelho permanecerá circundando o Parlamento, incapaz de transformar sua presença em força material capaz de disputar o futuro da revolução brasileira.

Devocional

Cede a mim teu incandescente gesto,

Permite-me saborear teu gosto

E todo o resto, em todo intento —

Aprecio tanto causar teu gozo.


Deliro em ver-te verter, fera enluarada,

Na chama brava dos teus desvarios;

Na carne, a selva ruge enamorada,

E o rio estoura em fúria entre o navio.


Na intimidade animal dos teus rugidos,

De quem obedece ímpetos selvagens,

À margem do que possa ser imaginado,

Quero ser matéria encarnada do teu íntimo.


Em toda fantasia, toda ânsia,

Em todo o sublime sublimado,

Eis o que desejo, eis meu fado:

Ser teu mais perfeito namorado.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Lua Mansa

Lua mansa

que me acolhe

em teu ventre,

nua, danças.


Ora noite,

ora dia,

quero a luz

que iluminas.


Sou quem sou,

menino das águas,

que em ondas

se dissipa.


E nelas mesmas

me carrego,

errante navegante

que caminha.


Passarinho

num céu sem fim,

buraco negro

a se fazer em mim.


Branda onça, roça,

e depois a cace,

entornando a lança

do lenho de acácia.


Do jarro de bronze

as criaturas jorrem,

e, como num milagre,

o vinho sorve.


Lua mansa, olha,

e um conhaque, bebe,

como se a mata adentre,

e com mulher, se deite.


Se deleite,

derrame o leite.

Lua mansa,

nua dança.

Puro êxtase. 

Garotinha

tua chegada, garotinha,

foi céu no fim de tarde,

como ave que se aninha

depois da tempestade.


como cavalo a galope em perigo,

me perdera em tua sina,

de mulher e de menina,

de teu namorado e amigo.


tua voz — doce cantiga —

trouxe paz à minha estrada,

como brisa que mitiga

a alma em flor desabrochada.


como a lua a iluminar o mundo

é o nosso amor que se ilumina,

hei de ser pura candura,

teu anjo e teu vampiro.


Como um frenesi, um puro êxtase,

lanço-me perfume ao teu encontro;

hei de estar a tua procura,

teu santo e teu bicho, num mesmo corpo.


e se o tempo testemunho

deste amor que se destina,

hei de ser tua aventura,

teu sossego e teu abrigo.

Obscura Candeia

O lugar mais triste do mundo, neste momento,

parece ser meu quarto, meu apartamento.

Sinto o peito vazio, e lá fora agora

o vento frio me atravessa e assombra.


Modesto, calo o que em mim se agita,

e o tempo passa em lenta despedida.

Só o silêncio — esse que me habita —

me faz lembrar que ainda estou com vida.


Me sinto triste; neste instante algo acontece,

talvez o amor, cansado, me esquecesse.

Ou quem sabe a esperança, em mim desfeita,


partiu sem se explicar, de alma alheia,

deixando em mim saudade que incendeia

o nada — e o nada em mim se faz candeia.


sábado, 18 de outubro de 2025

Delicadeza de Carol

Delicadeza é poder ser gentil,

no gesto manso, na palavra leve,

que toca o mundo e o torna sutil,

como a manhã que em paz o sol recebe.


É flor que nasce em meio ao redemoinho,

sem medo do rumor, do chão, da estrada;

é sol que se deita em fino caminho,

é canto doce em voz improvisada.


É Carol dançando por sua vez,

que ensina o tempo a ter mais leve andar,

e que na simplicidade há maior altivez.


Sendo minha irmã, me orgulha o desejar

existir tão belo quanto o seu ser,

para algo de belo poder lhe ofertar.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Soneto ao Sol da Tarde

O sol entra pela janela e toca a minha face,

me envolve em luz, em nome da existência,

e o mundo, mesmo em sua incoerência,

se aquieta um pouco, e em mim refaz-se.


Na pele, como fogo brando se dissolve,

mistério antigo em forma de clemência;

na vida — essa sutil irreverência —

tudo o que é ser se abranda e se envolve.


Embora o mundo seja um vão desvio,

e o universo, segredo em obscuro véu,

há paz no instante em que esse abraço veio.


Agradeço ao sol, por seu fulgor e estio,

que beija a carne e lembra o que é do céu,

que há vida em mim, e é por isso que o sinto.

Aprendendo a Viver

Preciso aprender a viver

Um dia de cada vez

Olhar para o bom da vida

Dar adeus à insensatez


Se o mundo mal me quer

Azar o dele

Eu vou bem viver a vida

Sou bem mais eu que ele


Quero sorrir, quero cantar

Acordar de manhã pra ir trabalhar

Beijar minha mulher e dizer que a amo

Abandonar qualquer desengano


Acordar meu amor com café na cama

E ouvi-la dizer que me ama

A cada dia me apaixonar

Em tudo que escolhia me tornar


Tenho que dizer

Sonho hoje

Mas esse dia vai chegar


Tenho de viver

Penso longe

Mas esse dia vai chegar


Tenho de aprender

A viver

E lembrar que o sol nascerá



[Intro]

G D/F# Em C Am7 D7 G


[Verso 1]

G D/F#

Preciso aprender a viver

Em7 C

Um dia de cada vez

Am7 D7

Olhar para o bom da vida

G D7/F# G

Dar adeus à insensatez


[Verso 2]

C D7

Se o mundo mal me quer

Bm7 Em

Azar o dele

Am7 D7

Eu vou bem viver a vida

G D/F# G

Sou bem mais eu que ele


[Verso 3]

G D/F#

Quero sorrir, quero cantar

Em7 C

Acordar de manhã pra ir trabalhar

Am7 D7

Beijar minha mulher e dizer que a amo

G D/F# G

Abandonar qualquer desengano


[Verso 4]

C D7

Acordar meu amor com café na cama

Bm7 Em

E ouvi-la dizer que me ama

Am7 D7

A cada dia me apaixonar

G D/F# G

Em tudo que escolhia me tornar


[Ponte / Final]

C D7

Tenho que dizer

Bm7 Em

Sonho hoje

Am7 D7 G

Mas esse dia vai chegar


C D7

Tenho de viver

Bm7 Em

Penso longe

Am7 D7 G

Mas esse dia vai chegar


C D7

Tenho de aprender

Bm7 Em

A viver

Am7 D7 G

E lembrar que o sol nascerá


[Final opcional — instrumental]

G D/F# Em7 C Am7 D7 G



domingo, 12 de outubro de 2025

Canção do Desamparo

(Tom: Am — Andamento lento e suave)


[Intro]

Am Dm G C

F E Am


[1ª parte]

Am Dm

Eu a amo — e acho,

G C

que ela me ama também.

F Dm

Eu sei... eu sei,

E7 Am

mas não posso ir além.


[2ª parte]

Am Dm

Minha dor é não poder amar,

G C

por ser pobre, sem ter nada.

F Dm

Sem dinheiro no banco,

E7 Am

sem sorte nem morada.


[3ª parte]

Am Dm

Tenho de arranjar um jeito,

G C

um modo de ficar rico.

F Dm

Pra poder amar quem amo,

E7 Am

sem tornar-me um desengano... cruel.


[Ponte – recitado com leve dedilhado]

F G

Desse desamparo,

C Am

desse desajuste,

F Dm

dessa incoerência,

E7 Am

mas tenho força e persistência.


[4ª parte]

Am Dm

Posso ser autor da moda,

G C

autor da roda, da roda,

F Dm

da roda, da roda...

E7 Am

me câ ni cá.


[Final – dedilhado lento]

F G

No fim me resta o violão,

C Am

e seu braço estendido a tudo.

F Dm

E, no intuito, entoo mudo

E7 Am

algo que poderia ser canção. (e é)


[Coda – suave]

F G

O mundo me quer de um jeito,

C Am

que não quer meu coração.

F Dm

Que é só solidão...

E7 Am

e na noite pensa em Vitória.


[Final]

Am Dm G C

F E7 Am…

Oração a Santa Dulce

Irmã Dulce, dos pobres, doce irmã,

estrela que ao alvorecer caminha,

te rogo o bem do meu incerto amanhã,

a paz que em corações pequenos vinha.


Nada possuo, e o peito quer amar,

mas teme, por ser pobre, sonhar alto;

meu pranto é súplica em teu altar,

onde teu gesto fez-se acalanto.


Dá-me um clarão, ainda que distante,

um raio de esperança que me guie,

e um lume, para o amor humilde e amante,

neste desamparo em que meu peito jaz.


Que em mim teu manto terno se irradie,

e o mundo, enfim, por ti, serene em paz,

na fé que em minha dor se desafie,

e o coração não cesse de amar jamais.

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Ofício Imperfeito

I

De mil coisas que escrevo, uma ou três

Talvez se salvem, o resto se condena.

Mas sigo, até que a língua, tendo pena,

Se condoa do fardo que lhe impus, talvez.


Escrevo até que o verbo em mim se fez

Matéria e forma, pura e serena,

E a palavra, em súplica pequena,

Entorne a pena e escreva em meu revés.


Se a técnica cala, a pulsão ainda impele,

Pois cada letra é intento, mesmo que breve

Se aninha em mim, pedindo algum lugar.


E assim, no vão ofício de insistir,

É a pulsão que dita e, antes de fugir,

Deixa o poeta em paz, por se encontrar.


II

Escrevo, pois, qual náufrago outra vez,

Que em alto mar se busca e se envenena;

Depois me leio e a alma, tão pequena,

Revê-se em cada linha que tracei.


Escrevo para ver no que me fez

O verbo, em sua febre tão terrena;

E, às vezes, do erro nasce a coisa plena,

Raro clarão do belo que não busquei.


Não quero a perfeição, não me flagelo

Por versos que não chegam ao mais alto;

Prefiro o risco, o gesto, o experimentar.


Pois quem escreve apenas por acerto

Não sabe o dom que nasce do deserto,

Nem sente a dor que faz o verbo amar.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Um jazz noturno de quem a sós caminha

Uma granada lançada ao amanhã,

uma garota deitada sob o divã,

uma palmeira e sua sombra em Itapuã;

tudo diz respeito a um só jeito e coisa.

O mundo quis sujeito e moça num lençol;

sóbrio jaz ao som do jazz, quer mais,

de tudo isso, fisgar-se como num anzol.

como aquilo que explode na manhã, tem mais…

como a fala é linda e tantas vezes vã,

e a sombra lisa e a palmeira áspera,

como se exasperam os gemidos de gozar num arrebol,

pelo qual se espera ansiosamente os corações,

como os sentidos dados, instintivos fados,

como o da palmeira a tapar o sol.

Como a truculência que pinta o céu de sangue e vinho,

se acende o rosto e a fala que se esvai,

como se o mundo fosse apenas um caminho

de granadas e palmeiras a se erguerem para trás. (Guerra e Paz)

E tudo o que se escreve é lume e sombra,

um traço vago, uma espera que não finda,

como se o amor, na carne que se assombra,

fosse o jazz noturno de quem a sós caminha.

Valsa de Vitória

Vitória que passa, Vitória que dança,

Vitória que gira na luz da lembrança,

Vitória nos olhos, no sopro, na face,

Vitória que fica, Vitória que parte.


Vitória que envolve, Vitória que inflama,

Vitória que nasce no lume da chama,

Vitória nos passos, no gesto, no riso,

Vitória que é sonho, vitória que é abismo.


Vitória que canta, Vitória que embala,

Vitória que fere, Vitória que sara,

Vitória tão perto, Vitória tão longe,

Vitória que é fonte, Vitória que é ponte.


Vitória que gira, Vitória infinita,

Vitória que insiste, Vitória que dita,

Vitória na noite, Vitória na aurora,

Vitória que é sempre, Vitória que é agora

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Soneto do Amor Presente

Viva ao lado de quem se ama, inteiro,

sem medo do que o tempo há de trazer,

pois cada instante é dádiva e é primeiro,

um lume breve em chama de viver.


Se o mundo é vasto e o fado é passageiro,

no peito arde o dom de se aquecer;

na voz querida, o canto verdadeiro

transforma a dor em júbilo e prazer.


Não há tesouro além do amor guardado,

nem céu maior que o gesto que se tem

quando o olhar se encontra iluminado.


E mesmo se o destino diz também

“há de findar”, o afeto é celebrado,

pois quem amou, viveu por mais além.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Voa, voa, Margarida

Na noite, o luar se inclina,

e o diabo passeia entre as sombras.

O amor, porém — chama divina,

nasce em atos sem altos juízos,

e acende segredos nas almas sombrias.


Voa, voa, Margarida,

sobre os telhados da cidade,

descalça, nua e atrevida,

com a chama da eternidade.


O gato já não mia…

silêncio desce pelas ruas,

a sombra se alonga e cria

mistérios que a noite insinua.


Voa, voa, Margarida,

valha-me Nossa Senhora!

Foi por amor à vida

que eu dela não fui embora.


O Mestre opera em silêncio,

seu livro arde, mas não se apaga;

e o destino, nesse sortilégio,

tece o fio que nunca rasga.


Voa, voa, Margarida,

acharemos a saída;

para esse dissabor,

ergue-se a luz prometida,

nos altares do amor.

Malmequer

O que eu tenho, eu devo a Deus,

ou seja: nada mais que nada.


Nasci num porém,

de tamanho desejo,

de impossível cultura,

mas sem dinheiro

pra pegar um trem.


Desejo o além,

não tem pra ninguém.

Como pode ser?

Não posso viver

à Deus dará.


E se Deus não der,

como vou ficar?

Como vou levar

meu bem, meu lar,

pra Copacabana?


Ou quem sabe ainda,

lá em Itapetininga,

Curitiba, Brasília,

Itamaracá, Maringá...

sei lá, sei lá.


Ela quer morar

em Copacabana.

Como sustentar

vontade tamanha,

se Deus não dá

as artimanhas

do capital?

pois é.


Que mal, que mal...

me quer.

A Lascívia

A lascívia é também o desejo e o amor

de unir os corpos, fonte de prazer,

um fogo oculto, vivo em seu calor,

que impele a carne inteira a se render.


No gesto ardente, pulsa o respirar,

e a chama acende em febre o coração;

no toque intenso, o mundo quer parar,

e o tempo curva à força da paixão.


Mas não é só pecado ou vil ardor,

há nele um sopro etéreo, divinal,

que torna em céu o instinto pecador.


E, quando a noite envolve corpo e alma,

nasce da carne um vínculo imortal,

onde o desejo transfigura-se em amor.

Transcendental

Lenin ainda caminha sobre Moscou,

e toda luz vermelha lembra meu amor.


Eu sempre estou por um triz,

e o amor de Maiakovski ainda pulsa em corações juvenis.


Pachukanis teoriza novas ordens

e suas possíveis ausências,

impertinências rumo a algo de sublime.


Para ser feliz não precisa de muito,

dizem os que muito têm.

eu só queria estar com meu bem,

e isso não é muito exigir

pra ser feliz também.


Meu coração é como um bicho —

um poema de Adélia.

Com uma faca cravada, olha:

todo mundo é uma quimera,

em gênero e espécie.


E eu, num Brasil

nascido em noventa e oito,

sei saber de nada,

e, sendo muito afoito,

quero amar e tenho sede de viver.


E o que há

é a poesia

do que resta

de transcendental,

afinal.


Lenin ainda caminha sobre Moscou...