Todo ser, ao se criar,
Começa a imitar alguém.
Como espelho a se formar,
Copia o gesto que tem.
Observa o mundo a girar,
Vê que tudo vai também.
Tudo passa sem parar,
Nada ali se firma bem.
Nasce o ego na infância,
Morre no sábio ao refletir.
Pois a tal da "verdade"
Faz o ser se dividir.
Muda o ver e a substância,
Muda o ser sem resistir.
Surge nova caminhância
Que proíbe de fugir.
É pecado olhar pra trás —
Pois se volta ao velho inferno:
Como Orfeu, que viu demais,
Como o olhar de um moderno.
Como a mulher de Ló,
Que hesita ante o que foi,
Quem se apega ao pó do pó
Não verá o que constrói.
Mas se o mundo faz o olhar
E o olhar vê o que é mundo,
Eis que o ser pode mudar
O vazio mais profundo.
Primeiro, tudo é reflexo,
Sombra, gesto, repetição.
Mas depois, o que era anexo
Torna-se criação.
Quando o ser se reconhece
Já não vive só por ver.
Com o mundo se tece e cresce
Pra no fim o refazer.
Tudo é cópia, é tradição,
Vem de algum lugar maior.
Mas não é essa a questão:
Há um novo mundo em flor.
Pois da mímesis primeira
Brota a aurora do pensar,
Onde a vida, verdadeira,
É o que ousa se inventar.
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