quarta-feira, 16 de abril de 2025

Mímesis e Póiesis

Todo ser, ao se criar,

Começa a imitar alguém.

Como espelho a se formar,

Copia o gesto que tem.


Observa o mundo a girar,

Vê que tudo vai também.

Tudo passa sem parar,

Nada ali se firma bem.


Nasce o ego na infância,

Morre no sábio ao refletir.

Pois a tal da "verdade"

Faz o ser se dividir.


Muda o ver e a substância,

Muda o ser sem resistir.

Surge nova caminhância

Que proíbe de fugir.


É pecado olhar pra trás —

Pois se volta ao velho inferno:

Como Orfeu, que viu demais,

Como o olhar de um moderno.


Como a mulher de Ló,

Que hesita ante o que foi,

Quem se apega ao pó do pó

Não verá o que constrói.


Mas se o mundo faz o olhar

E o olhar vê o que é mundo,

Eis que o ser pode mudar

O vazio mais profundo.


Primeiro, tudo é reflexo,

Sombra, gesto, repetição.

Mas depois, o que era anexo

Torna-se criação.


Quando o ser se reconhece

Já não vive só por ver.

Com o mundo se tece e cresce

Pra no fim o refazer.


Tudo é cópia, é tradição,

Vem de algum lugar maior.

Mas não é essa a questão:

Há um novo mundo em flor.


Pois da mímesis primeira

Brota a aurora do pensar,

Onde a vida, verdadeira,

É o que ousa se inventar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário