quarta-feira, 23 de abril de 2025

Nas Florestas Simbólicas

Caminho só por árvores em chamas,

mas não se queimam: brilham como o sal.

Um corvo prega amor em folhas mansas

e o chão respira, lento, vegetal.


As sombras dançam valsa com as raízes,

de cada tronco escorre um verbo azul.

Sibilam línguas mortas — cicatrizes

que abrem-se em flor num gesto tão sutil.


Há veados que rezam com seus olhos,

e orquídeas cospem vinho ao entardecer.

As nuvens descem, vestem os cipós,

e o tempo é bicho: morde sem doer.


Um rio fala em códigos de estrela,

seus peixes cantam fados em latim.

Brotam no ar relógios sem cautela

que marcam horas fora do jardim.


E eu, perdido, quase não respiro —

tenho pulmões de musgo e de cristal.

Meu nome? Esqueci num galho antigo,

no qual dormia um anjo do mal.


Mas sigo, pois um lobo me conduz

com voz de avô e dentes de marfim.

Ele me diz: “Teu mundo é uma cruz,

mas há perdão no sonho do jasmim”.

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