Caminho só por árvores em chamas,
mas não se queimam: brilham como o sal.
Um corvo prega amor em folhas mansas
e o chão respira, lento, vegetal.
As sombras dançam valsa com as raízes,
de cada tronco escorre um verbo azul.
Sibilam línguas mortas — cicatrizes
que abrem-se em flor num gesto tão sutil.
Há veados que rezam com seus olhos,
e orquídeas cospem vinho ao entardecer.
As nuvens descem, vestem os cipós,
e o tempo é bicho: morde sem doer.
Um rio fala em códigos de estrela,
seus peixes cantam fados em latim.
Brotam no ar relógios sem cautela
que marcam horas fora do jardim.
E eu, perdido, quase não respiro —
tenho pulmões de musgo e de cristal.
Meu nome? Esqueci num galho antigo,
no qual dormia um anjo do mal.
Mas sigo, pois um lobo me conduz
com voz de avô e dentes de marfim.
Ele me diz: “Teu mundo é uma cruz,
mas há perdão no sonho do jasmim”.
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