Foste criança, sonho e sonhador,
Depois homem, e ansiou a mulher.
Era ódio e depois gentileza,
Pois viu os sonhos ruírem a todos.
Aprendeu os doze trabalhos de Hércules
Com o pai, a quem deve graças.
Dormiu nas avenidas caudalosas,
Ao lado e ao cheiro dos miseráveis.
Ouviu com atenção as putas e travestis,
Os malandros das noites e seus artífices.
Titulou-se em várias universidades,
Em suas grandes frivolidades.
Dos arranha-céus erguidos de costas ao mundo
E às custas dele.
Vestiu-se com ternos e máscaras,
Querendo andar nú.
Bebeu a bebida alcóolica,
Proibida nas ruas de Budapeste.
Entre whiskys e dry martines nas matinês,
Optou pelo suco das entranhas femininas.
Sorveu o suor do Sertão agreste,
Dos cavalos, para salgar a carne.
Foste herege de tudo,
Vilão e herói de si mesmo.
Por saber que nada existe,
Se desencantou.
Por saber que nada existe,
Fizeste tua lei.
Desejou engendrar no mundo a beleza
Que dele roubaram em função do lucro.
Quis desistir no desencanto do mundo,
Mas ergueu-se, e riu, demasiadamente
Se aliou ao Diabo, que tudo nega,
Pois nada se pode aceitar.
Roubou do caos a centelha de si mesmo,
E fez da sombra um altar silencioso.
Brindou com a lua e com o vento,
Sussurrou segredos às paredes da cidade.
No espelho, viu todas as faces do mundo,
E em cada rosto, o reflexo de sua lei.
Aprendeu que o vazio é fértil,
E que o desencanto é a argila dos que criam.
E perante os deuses do lucro e da moeda,
Riu-se, recusando-se a curvar-se.
Pois nada do que compram, vendem ou exploram
Pode domar o fogo que habita a alma.
Então ergueu-se, livre do peso das cifras,
E lançou sobre o mundo sua própria beleza —
Indomável, incorruptível, eterna,
Feita para incendiar de vida a terra arrasada.
Feita para devolver a alma a essas pobres máquinas,
Feita para dignificar a espécie em seu cerne.
E assim, fazer da vida algo de vivo,
Para que os deuses se redimam.
E, diante de nós, enfim se apresentem,
Pois detendo nós, então, os próprios destinos.