terça-feira, 30 de setembro de 2025

Perdoai

Sou poeta menor, perdoai, senhores,

que a lira fraca em mim mal se levanta;

não sei cantar dos altos trovadores

a chama eterna, a glória que os encanta.


Meu canto é breve, errante entre as dores,

um sopro vão que o tempo logo espanta;

mas nele ardem discretos resplendores

de quem, na sombra, em sonho se adianta.


Se erro no método, aceitai-me o intento,

se falho na rima, é pura confissão:

meu verso é fruto apenas de tormento.


E se em mim não há grande perfeição,

ao menos deixo singelo argumento

de um coração que escreve em expiação.

Sentir é mutilar-se

Para Vitória


Um encantamento, em dor, me toma,

tão fundo que transpassa a própria alma;

não é assim que a vida nos desarma,

com chama oculta em cada leve soma?


E o peso cresce, a dor já se consuma,

mas traz no fardo a lúcida e alta calma;

o olhar se afina e dá a tudo a palma,

da sombra faz clarão que se entorna.


Por sentir a vida em súbita importância,

em cada gesto o abismo se revela;

na dor se oculta a força da esperança.


E, se é martírio a chama que se zela,

também nos guia, em trágica abundância,

ao dom cruel que, amando, nos flagela.

Vivo danado pra diabo ser

Sou poeta, mas queria

ser jagunço, destemido;

correr o espírito, atrevido,

qual cavalo em correria.


Nesse sertão tão profundo,

que na minh’alma se cria,

galopar em audaz ousadia,

não pedindo paz ao mundo.


Como viver sem paciência,

um diabo em sua lida,

com a poesia por vida,

cheio de ardor e consciência.


Tal é meu rosto candente:

de anjo guarda a figura,

mas nos olhos se mistura

o demônio incandescente.


Na sombra trago o cutelo,

sede bruta a me ferir;

rezo ao fogo, não ao céu,

pois as chamas sei sentir.


No abismo cravo a palavra,

como faca em carne aberta;

toda rima é sombra brava,

toda estrofe é porta incerta.


Sou jagunço de alma escura,

cavaleiro do pecado;

minha sina é tão dura,

meu destino envenenado.


Se no sangue escrevo a vida,

no silêncio faço o brado;

sou blasfêmia retorcida,

sou poeta desgraçado.


Tal é meu rosto, o semblante,

que a anjo se assemelha,

pois, nas asas da liberdade,

a vertigem é que rodeia.


E se o céu me não consente,

que o inferno me receba;

sou poeta e sou serpente,

na vertigem que me enleiva.


Entre o fogo e a quimera,

sem jamais poder deter,

sou jagunço, sou poeta:

mas vivo danado pra diabo ser.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Minha Lei

Foste criança, sonho e sonhador,

Depois homem, e ansiou a mulher.


Era ódio e depois gentileza,

Pois viu os sonhos ruírem a todos.


Aprendeu os doze trabalhos de Hércules

Com o pai, a quem deve graças.


Dormiu nas avenidas caudalosas,

Ao lado e ao cheiro dos miseráveis.


Ouviu com atenção as putas e travestis,

Os malandros das noites e seus artífices.


Titulou-se em várias universidades,

Em suas grandes frivolidades.


Dos arranha-céus erguidos de costas ao mundo

E às custas dele.


Vestiu-se com ternos e máscaras,

Querendo andar nú.


Bebeu a bebida alcóolica,

Proibida nas ruas de Budapeste.


Entre whiskys e dry martines nas matinês,

Optou pelo suco das entranhas femininas.


Sorveu o suor do Sertão agreste,

Dos cavalos, para salgar a carne.


Foste herege de tudo,

Vilão e herói de si mesmo.


Por saber que nada existe,

Se desencantou.


Por saber que nada existe,

Fizeste tua lei.


Desejou engendrar no mundo a beleza

Que dele roubaram em função do lucro.


Quis desistir no desencanto do mundo,

Mas ergueu-se, e riu, demasiadamente


Se aliou ao Diabo, que tudo nega,

Pois nada se pode aceitar.


Roubou do caos a centelha de si mesmo,

E fez da sombra um altar silencioso.


Brindou com a lua e com o vento,

Sussurrou segredos às paredes da cidade.


No espelho, viu todas as faces do mundo,

E em cada rosto, o reflexo de sua lei.


Aprendeu que o vazio é fértil,

E que o desencanto é a argila dos que criam.


E perante os deuses do lucro e da moeda,

Riu-se, recusando-se a curvar-se.


Pois nada do que compram, vendem ou exploram

Pode domar o fogo que habita a alma.


Então ergueu-se, livre do peso das cifras,

E lançou sobre o mundo sua própria beleza —


Indomável, incorruptível, eterna,

Feita para incendiar de vida a terra arrasada.


Feita para devolver a alma a essas pobres máquinas,

Feita para dignificar a espécie em seu cerne.


E assim, fazer da vida algo de vivo,

Para que os deuses se redimam.


E, diante de nós, enfim se apresentem,

Pois detendo nós, então, os próprios destinos.

sábado, 20 de setembro de 2025

Flor Selvagem

Brotou, selvagem, uma flor no meu coração.

Insaciável, ousada, ela verte vertigens

de um descontentamento, busca e solidão.

Quer nascer, ferina, em montes e planícies.


Desejos de contradição, de viver o infinito,

correr riscos, lançar-se no desconhecido,

percorrer corpos, descobrir segredos,

fazer verter a flor daninha em seus mistérios.


Quero ver completa essa flor em mim,

colhê-la e erguê-la ao mundo que a proíbe,

escancarar a violência com que coíbem,

seu nascimento lindo em seu jardim.


Para que vejam todos, aturdidos,

a rosa do povo, o vermelho porém,

a encantar o mundo, desejante do além,

semente que há em todos, no mais íntimo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Dia Bom (com Diadorim)

O sol desponta lento e enganoso,

O diabo sorri no canto da rua.

Café fumega, o cheiro gostoso,

Ela dança onde a calma flutua.

Tranquilo demais para ser santo,

Quase perverso, mas irresistível.

Acordo cedo, leve, sem espanto,

E o mal sorri, discreto e irredutível.

Nos gestos miúdos ela se entrega,

Sussurra o risco, flerta obscena.

Na TV deliram pelo futebol,

Despe o biquíni, e nua vamos à praia.

Dá-me tua mão, beijo-te o canto da boca,

arde o desejo em chama gostosa,

e o instante se faz chama insone,

diabo sorri: o prazer não se esconde.

O riso ardente explode num arrebol,

Doce veneno que a rotina perfuma,

Do jeito que o diabo gosta, debaixo do sol,

Irresistível a vida se insinua.

Máquinas do desejo

Um caminhão azul,

Volkswagen de dois eixos,

carrega a terra de um outro lugar,

move montanhas com ou sem fé.


Gosto desse azul não-céu, pouco ontológico:

assim na terra, como em nós,

levando a terra que nos fundou

a mover montanhas, a sós.


Travessias assíduas assistimos —

mira e vê:

o que nos faz pulsar senão o ímpeto

inconstante e de viés,

o que desejas senão o livre arbítrio,

o que odeias senão vagar ao léu?


Sobre o desejo, recorremos à etimologia,

e vemos o abandono dos astros.

Mas a palavra é moeda sem lastro:

eis o legado de Saussure.


Estamos entregues a nós mesmos,

máquina como o caminhão azul:

a dirigir-se, a mover montanhas,

fantásticas ou não,

com ou sem fé,

mas cativo dos grilhões do próprio ser.


Viver é atravessar-se em mil termos,

enterrar-se em mil tomos,

acolher mil abandonos

e negar-se inteiro.


Reviver é sempre ser coisa outra,

rolar o ser sob o ente, cotidianamente...

e, no esforço sem fim, descobrir

entrever no instante a chance de ser contente.


E se a máquina insiste em seus destinos,

no azul de si, inventa seus caminhos.

Montanha erguida, pedra em desalinho,

ser é vagar — e isto basta para ser divino.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Três Travessias

Na beira do rio Sena,

recordei do meu lugar.

De Vitória tive ausência,

tristeza no peito a morar.

Sem amor o mundo é sombra,

com saudade o caminhar.


Na beira do Rio Jordão,

eu Santo me batizei.

Água corre, leva a dor,

mui melhor eu me tornei.

Com você sou mais feliz,

no coração me encontrei.


Na beira do São Francisco,

quis do amor a travessia.

Quem não quer viver amor

não quer bem viver a vida.

Nessa saudade de você,

bem-querer quis nossa sina.

O baião se dança a dois

O baião se dança a dois,  

É assim que deve ser.  

Se sozinho é só lamento,  

Com par é bom de se viver.  

Na sanfona e no zabumba,  

Meu destino é me mover.  


Quando a zabumba ressoa,  

O coração mais vai bater,  

E a sanfona me embala,  

No forró inté amanhecer.  

Se a morena me acompanha,  

Nada pode entristecê.


O amor dá rumo à vida,  

É o compasso do viver,  

Sem carinho a estrada é seca,  

Com afeto é florescer.  

Quem encontra a mão amada,  

Sabe o tempo bem tecer.  

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Cala-te, Sião

Cala-te, Sião, teu deus te exaspera,

com sangue de crianças faz fronteira;

tua lei não é lei, mas tragédia e farsa,

teu verbo não é paz, mas morte e erro.


Ergues muralhas sobre o pó sagrado,

escreves salmos no pranto hediondo,

e o templo que eriges não tem altar,

só cinzas, ruínas, gritos horrendos.


Se a terra é prometida, foi traída,

pois jaz sob o peso de vidas perdidas;

não há Messias que venha explicar

o preço da vida que ousas cobrar.


E a voz do Jordão, entre a tragédia e a farsa,

ecoará pelos séculos da partida:

quem semeia o ódio colhe desertos,

quem mata inocentes cava seus ermos.


Teu deus não é divino, não há segredo;

tua lei não tem honra, mas corrupta.

Com sangue de crianças faz tua guerra;

Olha-te, Sião, tua face envergonha.


Sepulcro caiado, caído sobre o muro das lamentações;

Babilônia de bronze,  das nações.

Lobo em pele de cordeiro, saqueador do santuário,

profanas o sangue justo com mãos de usura.


Tu que te dizes eleito, mas és Moloque insaciável,

ergues altares de fogo ao pranto das crianças.

Vergonha de Akenáton, falso profeta,

que troca o sol por trevas e idolatria.


Mira-te, Sião, teu deus te exaspera;

tua face envergonha tua diáspora e razão.

Jerusalém corrompida, filha de Jezabel,

tua coroa é cinza, tua glória, abominação.


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Caminho com gentileza sobre a terra

Caminho com gentileza sobre a terra.
A vida é sorte,
e adequação.

Caminho com gentileza sobre a terra:
nem triste,
nem feliz,
mas com elegância.

Caminho com gentileza sobre a terra,
pairando como espectro vermelho,
desejante do bem comum,
desejante de paz, de solidariedade.

E por isso contra o capital,
pois não seria gentil o contrário,
nem mesmo ético.

Caminho com gentileza sobre a terra.
A vida é sorte
e adequação.

Escrevo artigos jurídicos,
relatórios regulatórios de direito bancário.
Pinto paredes e tetos,
instalo fios elétricos, encanamentos.
Planto e colho fumo,
toco o gado,
sirvo bebidas.

Exerci as profissões de meu pai,
exerci os gestos de minha mãe,
de quem muito me orgulho.
Construí uma casa desde o fundamento.
Sinto que posso fazer qualquer coisa.
Tenho apreço em aprender,
mas também me sinto perdido no que fazer:
sentimento comum da minha geração.

Usino o metal,
entorto o aço,
entorno a lança,
escrevo poesia,
e muito mais,
e muito mais...

Penso que a gentileza é das coisas mais bonitas
entre todas as coisas bonitas.
A vida é acaso
e adequação.

Não condeno ninguém.
Não tenho luxo ao trabalho.
Não sou sommelier de nada.

Acostumado à marmita fria,
a ver passar os dias
sem me dar o luxo de sonhar.

E se um dia acaso, sem sorte,
não souber me adequar,
será tão somente
por caminhar com gentileza sobre a terra.

sábado, 6 de setembro de 2025

Passarinheiro

As aves que gorjeiam quando acordo

têm muito a dizer sobre este mundo,

na voz em que repousa um céu sem bordo,

no canto que atravessa o ar profundo.


Trazem notícias leves da alvorada,

segredos que só sabem as alturas,

o sopro que desperta a madrugada,

das dores que se escondem nas penumbras.


E quando se dispersam pela estrada,

parece que dissolvem minhas dúvidas,

tecendo no silêncio a caminhada,

das horas que se perdem tão fortuitas.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Bilhetim

A gente se cruza nas ruas,

e fica a trocar olhar.

Por que a gente não se encontra

e marca de tomar um banho?

Sei lá.


Quem sabe nós dois nus

poderíamos muito melhor nos olhar,

ou ainda, na cama,

melhor nos cruzar.


Queria mais de ti, e creio ser recíproco

pelo teu olhar.

Vamos marcar de se ver e namorar;

quem sabe assim fica mais fácil

todos esses sorrisos a me procurar.


Eu e você sem roupa,

beijando a boca, querendo se juntar.

Me permito me entregar, se

me permitir te atravessar.


Com todo o meu amor,

e calor,

fulgor.


Sei lá,

estava pensando nisso aqui,

e acho que você pensando lá.


Acabo de tomar uma ducha,

desço e vou pegar um sol.

Deixo a porta aberta,

é só chegar.

Avisei na portaria

que tu viria —

uma moça linda

para me namorar.


Com todo o seu amor,

e calor,

fulgor.


Vem cá.