sábado, 27 de maio de 2023
quinta-feira, 25 de maio de 2023
Muitíssimo obrigado, Fran
A última vez que te vi foi no teatro
Por acaso, sem combinado
E lá estava você
Tanto havia para dizer
Nada disse
Me recomendou músicas hoje
Disse que gostaria de ouvir
E amei
Me conheces bem
Sem saber
Obrigado
Vou-me embora
Como na música
Em todas as nossas despedidas
Sem saber para onde
E essa é a graça
Que resiste, na última instância
Entre os desentendimentos
Que a vida causa
Mas os braços
e os meu braços
Só servem aos abraços
e apenas aos abraços
E para isso vivemos
Acordo sempre
desse sonho estranho
Obrigado,
Muitíssimo obrigado
Deixo os louros ao poeta
E a música, ao músico
Mas tomo os agradecimentos
Que te dedico, como amigo
Síntese e prelúdio
vidro e corte
De um obrigado,
Muitíssimo obrigado
Vou-me embora
Vou-me embora
Adeus, sem festa
quinta-feira, 18 de maio de 2023
Questão para Maiakóvski
O tradutor de poemas, junto do fiscal de rendas
Saíram de bar em bar, para dançar
E o poeta, embora morto, pois suicidou-se com um tiro no peito
Pediu-nos para ressuscitá-lo, e assim foi feito
Muito embora, se não fosse pedido, teria sido
Ressuscitado seria, e não demoraria muito
Nem mais que dois dias, um anjo o visitaria
Para beijar-lhe os pés, e o perfumaria
Com o cheiro dos céus, algo de mel
Incenso, algo do gênero, não sei o quê
E removeria a pedra de seu túmulo
Para notar o novo mundo, já posto
Atento voltado à terra inteira.
Algo como mistério-bufo, que mais cedo teria escrito
Não sei se desgosto, não sei se piedade
Não sei o que o poeta iria sentir
Vendo que presos aos nichos das casas
A família ausente de si
Na qual o pai não foi Universo,
Nem a mãe, pelo menos a Terra.
A revolução fora do eixo
E uns e outros a questionar
Se é redonda a maldita Terra
Mas na prisão há algum tempo
Existiu sob a Terra um Caetano a cantar sobre a Terra
Talvez gostaria de ouvi-lo
Amaria ouvir "Amor"
Interpretado por Renato Braz
Toca suas músicas, por vezes nos bares
Nos quais o tradutor de poemas, junto do fiscal de rendas
Bebem e dançam, sem medo
Talvez sem conceito e significado
Será?
Será que a poesia mata?
Matou Sergei Iessiênin.
Entre outros tantos
Como sintoma intraduzível
Como bebida intragável
Para ser mastigada sem o sabor verdadeiro
Não por ser russa, ou de outro idioma qualquer
Mas, pois, despercebida e assassina - por detrás da estante -
Em instantes sussurra amarga, ouça quem consegue ouvir
Ou aguarde o alarde do som de um tiro
Que ressuscitará onde tangencia o sangue
Regando a Terra de martírio
Rasgando o véu do intraduzível
Iluminando a alvorada, semeando o chão
Toda pessoa que deixa voluntariamente a vida
Leva consigo o mistério de sua decisão.
Dorme ó meu amigo poeta,
Vives no seio de quem cativas
Florece, desabrocha e transborda
És, tu mesmo, a própria Revolução
Quebra-mar
Estamos no ano de dois mil e vinte e três,
E a tempestade mal começou a soprar,
Mas já vi nascer a rosa dos ventos,
E o apito do navio já ouço ecoar.
Bem como disse o poeta, Vinicius
"A vida vem em ondas como um mar",
Como a pintura de Rembrandt, encarnada
Não deixarei meu destino se desviar.
Assim como não estará ao timão mãos alheias,
Jamais embarcarei na nau dos insensatos
Meu leme será a consciência de meus próprios atos
Viver é quebrar mar até se afogar,
E emergir novamente, no terceiro dia
Para o vasto oceano, se tornar.
quarta-feira, 17 de maio de 2023
Vermelho
Vou me vestir de vermelho
Cor do sangue dos pobres
Cor da capa dos livros
Cor que carrega meu nome
Vou me despir em vermelho
Como São Bartolomeu
Escrever mais mil sonetos
E dizer, enfim: "são todos meus"
Não chamarei filho meu de Lênin
Ou, quem sabe, Engels
Os navios já estão queimados
Não preciso disso.
Não me visto de general
Nem tenho fetiche em armas
Meu problema não é fálico
Meu caráter é revolucionário
Meu anseio: famélico
Indiferente aos mornos
Esses, que já são vômitos
Sem serem mastigados
O vermelho pulsa em minhas veias
Veias abertas de animal, anti-materiais
Cor lúgubre, neon, rubro-negra
Vou vestir-te, despindo-me de mim
Óh, Santo Sepulcro
Queres o lucro
Tens a espada
Vestes a púrpura.
Mas vedes as chagas
Repara o vermelho
Ele virá, do poço, prometo
Onde a verdade mora.
De pé ó vítimas da fome
De pé, famélicos da terra.
Que a filosofia vomite a miséria
Na luta de classes através da ideia
Da ideia a chama já consome.
Vermelha, rubro-negra, o novo mundo
Avance a crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo
segunda-feira, 8 de maio de 2023
Boldrin
Boldrin;
Entre todos os santos, diante dos serafins
Tua bandeira está hasteada
Graças a ti, tenho orgulho de mim
Naquilo que tenho de parecido contigo
Nas virtudes que tenho imitado
Sou melhor do que pareço
Eu juro
Em um tempo de fracassos
Não nego
A cultura se esvaindo
Outra nova surgindo
Mas a bandeira está hasteada
Flechada em corações
Glória a ti, nos altos céus
Deveriam cantar nas catedrais
Agradecendo as graças
Que deixas na terra
E que são reais,
concretas em sua realeza
Da modesta cultura
Imersa em beleza
Pura e suja de terra
Como um grão
Cheio de vida
Boldrin,
Foste para mim um amigo, um avô
E não saberás
É parte do que sou e me orgulho de ser
E não saberás
Vou me mudar para São Paulo
E não saberás
Levarei flores ao teu túmulo
E nem saberás
Não me ouvirás
Nunca lerás poema meu
Nem verás as flores que te levarei
Mas isso não me impede
Não me desanima
E nem saberás
terça-feira, 2 de maio de 2023
Prosa ligeira
Esteja dito:
Que labirinto é o infinito!
Coisa para se perder
E sejamos breves:
Que dor é a liberdade!
Coisa para se morrer
É isso que é lindo:
A ausência de respostas
E mesmo assim
Vale a pena viver
Ah, é gostoso viver
É doce a angústia
E a loucura, e gostoso o amargo
Desse eterno ser ou não ser
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A gente se cruza nas ruas, e fica a trocar olhar. Por que a gente não se encontra e marca de tomar um banho? Sei lá. Quem sabe nós dois nus ...