quinta-feira, 25 de maio de 2023

Muitíssimo obrigado, Fran


A última vez que te vi foi no teatro

Por acaso, sem combinado  

E lá estava você 

Tanto havia para dizer

Nada disse


Me recomendou músicas hoje

Disse que gostaria de ouvir 

E amei 

Me conheces bem 

Sem saber 


Obrigado 


Vou-me embora 

Como na música 

Em todas as nossas despedidas 

Sem saber para onde


E essa é a graça 

Que resiste, na última instância 

Entre os desentendimentos 

Que a vida causa


Mas os braços 

e os meu braços

Só servem aos abraços 

e apenas aos abraços

E para isso vivemos 


Acordo sempre 

desse sonho estranho

Obrigado, 

Muitíssimo obrigado


Deixo os louros ao poeta

E a música, ao músico

Mas tomo os agradecimentos

Que te dedico, como amigo


Síntese e prelúdio

vidro e corte

De um obrigado, 

Muitíssimo obrigado


Vou-me embora

Vou-me embora

Adeus, sem festa

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Questão para Maiakóvski

O tradutor de poemas, junto do fiscal de rendas

Saíram de bar em bar, para dançar

E o poeta, embora morto, pois suicidou-se com um tiro no peito

Pediu-nos para ressuscitá-lo, e assim foi feito

Muito embora, se não fosse pedido, teria sido

Ressuscitado seria, e não demoraria muito

Nem mais que dois dias, um anjo o visitaria

Para beijar-lhe os pés, e o perfumaria

Com o cheiro dos céus, algo de mel

Incenso, algo do gênero, não sei o quê

E removeria a pedra de seu túmulo

Para notar o novo mundo, já posto

Atento voltado à terra inteira.

Algo como mistério-bufo, que mais cedo teria escrito

Não sei se desgosto, não sei se piedade

Não sei o que o poeta iria sentir

Vendo que presos aos nichos das casas

A família ausente de si

Na qual o pai não foi Universo,

Nem a mãe, pelo menos a Terra.

A revolução fora do eixo

E uns e outros a questionar

Se é redonda a maldita Terra

Mas na prisão há algum tempo

Existiu sob a Terra um Caetano a cantar sobre a Terra

Talvez gostaria de ouvi-lo

Amaria ouvir "Amor"

Interpretado por Renato Braz

Toca suas músicas, por vezes nos bares

Nos quais o tradutor de poemas, junto do fiscal de rendas

Bebem e dançam, sem medo

Talvez sem conceito e significado

Será?

Será que a poesia mata?

Matou Sergei Iessiênin.

Entre outros tantos

Como sintoma intraduzível

Como bebida intragável

Para ser mastigada sem o sabor verdadeiro

Não por ser russa, ou de outro idioma qualquer

Mas, pois, despercebida e assassina - por detrás da estante -

Em instantes sussurra amarga, ouça quem consegue ouvir

Ou aguarde o alarde do som de um tiro

Que ressuscitará onde tangencia o sangue

Regando a Terra de martírio

Rasgando o véu do intraduzível

Iluminando a alvorada, semeando o chão

Toda pessoa que deixa voluntariamente a vida

Leva consigo o mistério de sua decisão.

Dorme ó meu amigo poeta,

Vives no seio de quem cativas

Florece, desabrocha e transborda

És, tu mesmo, a própria Revolução

Quebra-mar


Estamos no ano de dois mil e vinte e três,

E a tempestade mal começou a soprar,

Mas já vi nascer a rosa dos ventos,

E o apito do navio já ouço ecoar.


Bem como disse o poeta, Vinicius

"A vida vem em ondas como um mar",

Como a pintura de Rembrandt, encarnada

Não deixarei meu destino se desviar.


Assim como não estará ao timão mãos alheias,

Jamais embarcarei na nau dos insensatos

Meu leme será a consciência de meus próprios atos


Viver é quebrar mar até se afogar,

E emergir novamente, no terceiro dia

Para o vasto oceano, se tornar.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Vermelho

Vou me vestir de vermelho

Cor do sangue dos pobres

Cor da capa dos livros

Cor que carrega meu nome


Vou me despir em vermelho

Como São Bartolomeu 

Escrever mais mil sonetos

E dizer, enfim: "são todos meus"


Não chamarei filho meu de Lênin

Ou, quem sabe, Engels

Os navios já estão queimados

Não preciso disso.


Não me visto de general

Nem tenho fetiche em armas

Meu problema não é fálico

Meu caráter é revolucionário


Meu anseio: famélico

Indiferente aos mornos

Esses, que já são vômitos

Sem serem mastigados


O vermelho pulsa em minhas veias

Veias abertas de animal, anti-materiais

Cor lúgubre, neon, rubro-negra

Vou vestir-te, despindo-me de mim


Óh, Santo Sepulcro

Queres o lucro

Tens a espada

Vestes a púrpura.


Mas vedes as chagas

Repara o vermelho

Ele virá, do poço, prometo

Onde a verdade mora.


De pé ó vítimas da fome

De pé, famélicos da terra. 

Que a filosofia vomite a miséria

Na luta de classes através da ideia


Da ideia a chama já consome.

Vermelha, rubro-negra, o novo mundo

Avance a crosta bruta que a soterra. 

Cortai o mal bem pelo fundo



segunda-feira, 8 de maio de 2023


 

Boldrin

Boldrin;

Entre todos os santos, diante dos serafins

Tua bandeira está hasteada

Graças a ti, tenho orgulho de mim

Naquilo que tenho de parecido contigo

Nas virtudes que tenho imitado

Sou melhor do que pareço

Eu juro

Em um tempo de fracassos

Não nego

A cultura se esvaindo

Outra nova  surgindo

Mas a bandeira está hasteada

Flechada em corações

Glória a ti, nos altos céus

Deveriam cantar nas catedrais

Agradecendo as graças

Que deixas na terra

E que são reais,

concretas em sua realeza

Da modesta cultura

Imersa em beleza

Pura e suja de terra

Como um grão

Cheio de vida


Boldrin,

Foste para mim um amigo, um avô

E não saberás

É parte do que sou e me orgulho de ser

E não saberás

Vou me mudar para São Paulo

E não saberás

Levarei flores ao teu túmulo

E nem saberás

Não me ouvirás

Nunca lerás poema meu

Nem verás as flores que te levarei

Mas isso não me impede

Não me desanima

E nem saberás

terça-feira, 2 de maio de 2023



Prosa ligeira


Esteja dito:

Que labirinto é o infinito!

Coisa para se perder


E sejamos breves:

Que dor é a liberdade!

Coisa para se morrer


É isso que é lindo:

A ausência de respostas

E mesmo assim

Vale a pena viver


Ah, é gostoso viver

É doce a angústia

E a loucura, e gostoso o amargo

Desse eterno ser ou não ser