quarta-feira, 16 de abril de 2025

Hegel Materialista, Marx Idealista: Uma Nova Inversão Dialética em Visiting Hegel at Dusk, de Slavoj Žižek

A famosa provocação de Slavoj Žižek — “Hegel é um materialista e Marx é um idealista” — pode parecer, à primeira vista, um paradoxo. Mas, à luz do pensamento dialético de Žižek, essa inversão revela-se profundamente filosófica. O que ele propõe é uma reinterpretação radical dos conceitos de idealismo e materialismo, deslocando-os do senso comum (ou mesmo do uso ortodoxo marxista) para o campo da retroatividade hegeliana e da contingência histórica.

1. Hegel como materialista

Žižek insiste que Hegel, apesar de amplamente considerado um “idealista absoluto”, é, em essência, um pensador profundamente materialista — desde que se compreenda materialismo não como a primazia da matéria sobre o espírito, mas como a aceitação da contingência, da negatividade e da abertura radical do real. Hegel não parte de uma substância dada, nem de uma finalidade histórica (teleologia) fixa. Ao contrário, em sua lógica dialética, o sujeito só existe enquanto efeito de sua própria exteriorização, e a história se constitui por meio de contradições e fracassos.

No artigo Visiting Hegel at Dusk (2020), Žižek afirma que Hegel é o verdadeiro pensador do fracasso dos grandes projetos revolucionários: ele não acredita em um fim predestinado da história. Ele entende a realidade como estruturada por uma lógica retroativa — aquilo que parece uma causa é, na verdade, um efeito de seus efeitos. Essa noção, que Žižek chama de “absolute recoil” (recuo absoluto), é profundamente materialista porque recusa qualquer origem transcendental: o sujeito, o sentido, a história — tudo emerge de processos contingentes e autocontratuais​

2. Marx como idealista

Ao chamar Marx de idealista, Žižek não está dizendo que Marx acredita em ideias puras. Pelo contrário: ele está apontando que, mesmo em sua crítica radical da ideologia, Marx ainda conserva certa confiança teleológica de que a história caminha — ainda que por meio da luta — rumo à emancipação comunista. Ou seja, a história teria um sentido: a superação do capitalismo pelo proletariado. Para Žižek, isso representa uma forma de idealismo histórico, uma fé no “futuro melhor”.

Na entrevista, Žižek pontua que Hegel jamais teria aceitado a ideia de que a história aponta necessariamente para o comunismo. Para Hegel, qualquer projeto político — por mais emancipador — pode falhar tragicamente, como a Revolução Francesa que termina no Terror. Assim, a teleologia marxista, mesmo que crítica, ainda é idealista: deposita fé em um telos (fim histórico)​.

3. A inversão e sua força crítica

A inversão proposta por Žižek é, portanto, uma estratégia crítica. Ela nos força a reexaminar nossas categorias filosóficas e políticas. Se Marx é o idealista — no sentido de confiar em um “plano histórico” — e Hegel o materialista — no sentido de pensar a negatividade, o fracasso, a contingência como estruturantes — então talvez a verdadeira superação do idealismo esteja em Hegel e não em Marx. Para Žižek, compreender essa estrutura retroativa da realidade é essencial para formular uma nova forma de materialismo dialético, capaz de lidar com os impasses do século XXI.

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