A cada novo dia, o tédio — esse velho carcereiro sem rosto — arrasta suas correntes pelo assoalho da minha alma. Ele tem o hálito morno das repartições públicas, a cor desbotada dos relógios de parede, e o som repetitivo do gotejar que não se cala. Ele diz: “Sente-se, produza, não sonhe”. Ele exige documentos, senhas, metas, justificativas. Sua moeda é a rotina; sua moral, a repetição.
Mas há uma janela escondida — sempre há — atrás das estantes de livros não lidos e das pilhas de contas vencidas. Essa janela não dá para o mundo: dá para dentro. E ali mora Ela: a Loucura.
Ah, bendita sejas, Loucura, mãe dos visionários, irmã dos poetas, amante dos que perderam o mapa! És o único antídoto contra o insuportável cinza dos dias úteis. Em teus braços, não há mais calendário — há constelações de palavras, tempestades de imagens, sinfonias compostas por animais imaginários.
Em teus domínios, vesti a pele de um leão que lê Schopenhauer nas manhãs de domingo; dancei com fantasmas em becos iluminados por candelabros flutuantes; conversei com anjos bêbados e gargalhei diante de um espelho que me devolvia como palhaço, profeta e criança — tudo ao mesmo tempo.
Chamam-te delírio, desequilíbrio, desvio. Mas és liberdade, és chama, és o grito que nos resta quando todas as canções viraram jingle e toda paixão virou plano de celular.
Não quero a lucidez que faz filas e escreve relatórios. Quero a loucura que pinta no ar e sussurra segredos de planetas mortos. Como o Elogio à ela de Erasmo. Quero fugir para teus braços cada vez que o tédio vier com suas promessas de estabilidade.
Afinal, se viver é repetir o mesmo gesto até a morte, que ao menos eu o repita dançando — com um papagaio no ombro e meu brinco de ouro, feito pirata, um cravo vermelho no peito e um poema nos olhos, que ardem como trovões.
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