Há coisas que não cabem no idioma,
no sentimento, a alma é sem fronteira.
O que há de mais real nunca se doma:
foge à palavra, signo e bandeira.
Assim, nas bocas, dança o que não toma;
rumores leves, pausas, a primeira
fagulha do que em nós acende o aroma
do amor que nasce sem razão inteira.
A moça que me encanta nem pressente
por que me inflama a fala que não diz;
e, bêbado, colhi — rindo, inocente —
flores que a parte sóbria viu feliz:
são vestígios de um sentir irreverente,
de poesia feita por um triz.
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