segunda-feira, 28 de abril de 2025

Elogio da Tradução

Há coisas que não cabem no idioma,

no sentimento, a alma é sem fronteira.

O que há de mais real nunca se doma:

foge à palavra, signo e bandeira.


Assim, nas bocas, dança o que não toma;

rumores leves, pausas, a primeira

fagulha do que em nós acende o aroma

do amor que nasce sem razão inteira.


A moça que me encanta nem pressente

por que me inflama a fala que não diz;

e, bêbado, colhi — rindo, inocente —

flores que a parte sóbria viu feliz:


são vestígios de um sentir irreverente,

de poesia feita por um triz.

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