segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Milagres de Natal

Milagre um

Toca Tchaikovsky, Swan Lake Suite, conduzido por Sylwia Janiak-Kobylińska. No. 3, Swan Dance, Allegro moderato. Um jovem adentra a livraria de Aramis Chain para furtar um livro para presentear uma pessoa querida no Natal. Pensa nas opções, atravessa os corredores com um olhar de caçador. Olha através das estantes, absorto a todos os instantes, títulos, autores, temas. Considerando os interesses prévios do presenteado, pensa o presenteante e ladrão, a seu modo e viés, que o livro deve ser sobre psicologia, psiquiatria, em uma abordagem existencialista e filosófica. Pega outros dois, apresenta-se ao balcão e questiona quanto custa. Agradece à senhora atendente, que, muito embora não o tenha chamado de anjo, age como se o quisesse, com olhar meigo de avó e tarada, tudo ao mesmo tempo, dialeticamente. Vai até o fim do corredor, dirigindo-se aos livros de poesia, e namora-os lentamente, sorvendo versos de poetas virgens e libertinos, incluindo dois livros, aproveita para se presentear também, na bolsa, que naturalmente escorrega para dentro do paletó. Já tem reparado os espelhos convexos, as câmeras ocultas, todas as armadilhas possíveis do habitat de Aramis Chain; é preciso saber jogar no nível dos veteranos nazistas, pensa. E o jovem, obviamente, não seria o primeiro a cometer a grave impertinência criminal do furto de livros nesse estabelecimento. Tem notória ciência dos riscos que o envolvem, portanto. Inclusive, há uma matéria de jornal em que A. C. teria afirmado ter um pedaço de pau para bater em ladrões, e raro faro para descobrí-los, mas que também se sabe não ser usado para salvaguardar sua própria vida, pois apanharia ainda com o artefato em mãos. De qualquer modo, qualquer ladrão, bom ou não, sem citar a sua santidade, o Dimas, padroeiro da causa, mas sim os talentos da profissão, que definem as qualidades da atuação, pretende evitar o constrangimento de ser pego com a boca na botija, isto é, no ato ilícito, que definirá, portanto, seu insucesso. Volta ao meio do corredor. Vê-se o livreiro A. C. descendo as escadas, devidamente trajado como de costume, usando seu suspensório, sua bermuda, meias na altura dos joelhos e, como se subentende e se possa imaginar, uma calcinha fio dental rosa com adornos de pérolas brancas por debaixo da bermuda. O jovem olha seu arqui-inimigo e o cumprimenta com reverência; o cumprimento é devolvido. Vira-se à senhora atendente, tarada e avó, e pergunta-se o preço de um romance em bajubá, que é consultado enquanto se devolve o outro livro, antes consultado o preço na estante. Nesse instante, o velho A. C., que repetidamente perguntara ao jovem todas as vezes que o via, desde a primeira vez que entrara no recinto, se teria lido O Retrato de Dorian Gray, livro dos gays, ouvira falar, e o jovem dizia que sim, teria lido, nesse instante entorna outra pergunta: este livro que carregas é muito bom. O jovem o olha e devolve: qual? Ele apela tocando o palitó do Jovem na altura da bolsa: este. O Jovem dirige o olhar à altura onde foi tocado e diz: qual? Não entendi. Ele o gira como quem quer tocá-lo por trás; o jovem faz-se como quem está disposto a mostrá-lo o que ele deseja ver, mas não se deixar tocar. Ele nada acha e volta a querer olhar a bolsa. O jovem diz: tenho apenas um caderno, veja, e mostra a bolsa, que, como num milagre, um passe de mágica, dispõe de apenas um caderno, uma garrafa de água, muitas anotações. Nenhum livro. O velho franze a testa, olha curioso, pensativo. O jovem olha a todos que estão na loja assistindo ao caso, do velho inquisidor nazista de calcinha rosa, sim, todos sabem, como quem acabara de sofrer uma injustiça. O velho A. C. não tem muito pudor em relação a isso; ele e as gerações de A. C.s não teriam interesse algum em serem justos. Não seria nessas circunstâncias que tudo mudaria. Não sentia culpa. Sentia que perdera um jogo que se achava bom, talvez a única coisa que lhe restara em vida, além, claro, da fortuna que herdara dos A. C.s. Não poderia crer que o jovem, como num passe de mágica digno do Mágico de Oz, o teria vencido. Os truques dos mágicos, por sua vez, não podem ser revelados. O jovem, agora dispondo de seu caráter sobrenatural, volta-se ao caixa para saber o valor do romance em bajubá, cinquenta e nove reais, diz a atendente; o moço replica: muito caro. Volta-se a Aramis Chain, cumprimenta-o: passar bem Sr. Chain, e sai do recinto. Caminha pela calçada sem olhar para traz, como se a fim de salvaguardar Eurídice. Ao chegar ao apartamento, deita os troféus em sua poltrona podendo muito bem dormir em paz.


Milagre dois


É curioso como as veias dilatadas de minhas mãos me recordam que o sangue que corre vermelho em meu corpo faz dele uma máquina. E é isso que sou: máquina, animal que pensa, muito pensa. E recorda ser animal em uma ceia de Natal, enquanto se fala do Menino Jesus.

Arma e bilhete

Allende ganhou de Fidel um presente,

depois de uma visita breve e formal:

uma arma entregue tal e qual,

junto de um breve bilhete.


Ganhara uma submetralhadora apenas;

quem dera ter sabido então usá-la bem:

talvez impedisse cair o teto sob as cabeças,

ou talvez não mudasse nada também.


O que pode conquistar a via democrática,

senão a impossibilidade já dada no início

a quem insiste em evitar o conflito?


E o que pode conquistar a via revolucionária,

senão a derrota que sempre retorna atroz

a quem, em eterna guerra, deseja a paz?


sábado, 13 de dezembro de 2025

De como levo a vida

Sob os ombros dos gigantes,

no dorso instável de um tigre.


Nas garras mansas de uma onça,

nas graças ternas de seus rugidos.


Eis por que sou lindo,

fruto do que me circunda.


Separo o joio do trigo

e vivo da pura beleza.


Acendo minha candeia nos escuros;

peço bênção aos meus pais, onde estiverem.


Desejo o bem a todos,

inclusive aos meus inimigos,


se os houver, se os houver.


Prezo pela gentileza,

mais ainda ante o desconhecido.


Que a vida seja boa

para você e também comigo.


E, se não for, tudo bem:

não vou morrer por isso.

Sem título

O tempo carrega a gente

entre outras coisas mais,

e como uma estrela cadente

entorna-nos em espirais.


Descemos por sonhos antigos,

outros tantos sempre atuais;

e mesmo que façamos desvios,

deles não nos perdemos jamais.


O mundo que nos tangencia nos aliena,

crava fundo o entorno que contorna,

como os dentes de uma fera que nos morde.


Quem quiser carregar a vida inteira

sem negar a visita da morte,

tome a rédea, tome nota, e boa sorte.

De que Vale a Vanguarda?

Quisera eu a vida em linhas retas,

Como quem soma e encerra o dia,

Sem sobressaltos, sem arestas,

Sem o excesso que nos desvia.


Mas ela insiste em nós oblíqua,

Em nós se dobra e se desfaz;

Cada escolha é sempre ambígua,

Cada passo perde a paz.


O gesto simples se complica,

O sim carrega um não oculto,

E o tempo, lento, nos explica

Que viver é sempre um tumulto.


Não há fórmula que baste,

Nem manual para existir;

Resta aceitar que o contraste

É o preço exato de sentir.


Quisera a oportunidade,

e defronte vejo a solidão;

mil contas a pagar me cercam,

do homem, hercúlea função.


Quisera tempo para a vida,

mas tenho o tempo ao trabalho;

o dia passa em dívida antiga,

e o corpo cede ao próprio talho.


Quisera um fado mais benévolo,

talvez o futuro permita;

pois de que vale estar à frente do tempo,

quando o presente nos limita?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

(Des)reificação

1

Há uma beleza em mim que ninguém sabe,

velada flor que ao vento não se inclina;

e assim me escondo, etéreo na rotina,

sombra que passa e o próprio passo perde.


Sinto-me ausente, o íntimo se abre

num vão silêncio, ausência que domina;

e sonho um rosto, miragem que ilumina,

de um eu que só em mim mesmo existe.


Pois desejo um lugar onde eu resista,

onde o que sou encontre algum sentido

no olhar que acolha aquilo em que persisto.


E, no entanto, o mais belo é não sabido:

quem sou no olhar alheio se despista,

e o meu melhor em mim jaz escondido.


2

Por isso habito o hiato entre livros e vinhos,

jardim suspenso que a vazia forma evita;

ali recolho os ecos de outras vidas

na solidão dos gestos mais mesquinhos.


Procuro abrigo em mínimos carinhos,

no verbo antigo, no silêncio dos astros;

e bebo a noite, lúcida e atroz,

para acalmar os sonhos que definho.


Ocupo assim meus próprios pensamentos,

tecendo em mim o que ninguém escuta,

uma presença à margem dos momentos.


E, enquanto a vida em torno se disputa,

eu me recolho aos íntimos fragmentos

e ergo do hiato a minha forma oculta.


3

No escuro em que me busco, sigo incerto,

tateando o vão das sombras que me escondem;

e os meus sentidos, tímidos, respondem

ao sopro antigo que me quer desperto.


Vivem em mim desejos sem concerto,

vozes que rasam m'águas e não cessam

senão a imagem muda, onde me afundam

os medos que guardava por deserto.


Mas há um chamado, íntimo oráculo,

que rompe o molde pífio e metódico,

e faz do abismo um rito necessário.


E ao me inclinar ao verbo mais simbólico,

ouço o que diz o templo do meu peito:

Modesto, torno-me, enfim, eu mesmo.