segunda-feira, 31 de março de 2025

O Recôndito da Vida Cotidiana

No rastro tênue das manhãs nubladas,

O tempo escoa entre gestos banais,

Nos rostos mudos, sombras disfarçadas,

Segredos guardam seus tons desiguais.


O chá se entorna, o pão já se esfarela,

A rua ecoa o riso e a aflição,

Na mão que escreve e à tarde se flagela,

Há um vestígio oculto em cada ação.


O olhar perdido em vidros de vitrines,

Reflete o mundo e oculta a dimensão

Dos pensamentos vagos, clandestinos,

Que à noite assombram a imaginação.


No turvo fluxo dos dias inertes,

Há melodias de um tempo a ruir,

Que em gestos simples, calmos e discretos,

Sussurram vida a quem souber ouvir.

terça-feira, 25 de março de 2025

Tragédias Acontecem Em Dias Normais

No berço brando de um jardim sereno,

desabrochava um botão em luz.

Era tão jovem, tão doce e pequeno,

mal despertara e a vida o conduz.


O vento em riso lhe afaga os cabelos,

o sol em ouro lhe beija a cor.

A terra embala seus sonhos tão belos,

como quem canta um hino de amor.


Mas eis que um passo, um gesto ao acaso,

um vendaval sem porquê, sem razão,

apaga a chama, interrompe o laço,

silencia um riso, suspende a canção.


E o mundo segue assim, indiferente,

sem ver a ausência que ali ficou.

Mas sob a terra, num sono silente,

jaz um futuro que não se realizou.


No ar ressoa um riso distante,

eco de dias que não virão.

Na casa, um triste semblante,

vazio e frio como o chão.


Os pais se assombram ao ver na janela

um raio tímido a lhe sorrir,

como se a luz viesse em cautela

sua saudade de longe ouvir.


O tempo passa, e ainda assim,

o vento insiste em sussurrar

o nome doce que um dia, enfim,

ninguém mais há de recordar.


O tempo avança, mas nada apaga

a flor que o vento veio arrancar.

Pois na memória, em dor e em lágrima,

ainda bela insiste em desabrochar.

Nada desaparece de súbito

Nada desaparece de súbito,

não nasce sem mãe nem o diabo.

Quem dirá no mundo o fascismo,

contra o qual se exige sisífico trabalho?


No entanto, há no mundo um cinismo

que flerta todo dia com o fatal,

escancarando imenso egoísmo,

produzido e destinado ao capital.


Portanto, tudo segue uma estrutura,

que é profunda e mal observada;

por ela é moldada toda vida,

e contra ela, toda luta censurada.


Mas à toa aguardamos um cataclisma,

de viés, sem outro novo horizonte;

apesar de que muito se especula,

o real se apresenta indiferente.


De súbito, nada se cria nem se perde,

mas, na natureza, tudo se transforma.

E não importa o quanto se ignore:

o juízo final se impõe no agora.

Período Azul

Num dia,

tamanho é o espírito.

Noutro,

quer-se isolado,

breve, tácito

sozinho.


Num dia,

vai ao encontro

das multidões,

deseja paixões;

depois,

isolar-se.


Num dia,

quer-se aventuras,

novidade, perigo,

sede que arde;

noutro,

a cama até mais tarde.


Dialeticamente,

fogo que se consome,

insone, dialeticamente parte.

Sou como um pêndulo,

que tende apenas

à vaidade.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Sentimentos

Sentir é como o voo de um pássaro,

dom do ser terrestre, humano.

Sentir é o inferno estabelecido

num dia lindo, azul tamanho

a se perder no tempo.


Sentir é encher-se de graças

e alegrias infinitas, flores, sorrisos,

num sentimento que não cabe

em si, no tempo: infindo

a se regar no vento.


Sentir é ser sublime,

para o bem ou para o mal;

é estar radiante como o céu,

é ser autor e réu, afinal,

infinito num instante.


Sentir é dom, é tudo, é...

algo que nos torna mudos

ou faz querer dizer tudo, tudo

e não poder.

pois infinito num instante.

e nem com mil alto-falantes

poder dizer o que se quer

a se perder

no sentimento.


Sentir é o que nos faz querer

existir, ser, saber, viver,

amar, ir, chegar, sorrir,

de amores morrer

e não se abster.

terça-feira, 18 de março de 2025

Espelhos

Às vezes, precisamos das pessoas,

como de espelhos que nos revelam,

mostrando os contornos que nos definem,

dizendo quem somos além de nós mesmos.


E cada reflexo, em luz ou em sombra,

molda a certeza que em nós renasce,

pois quando me vejo nos olhos de alguém,

gosto ainda mais do que sou de verdade.

Aos pássaros do Passeio Público

Pardais e sabiás que a manhã enfeitam,

curiosos papagaios tagarelas,

entre as ramagens verdes se deleitam,

meus companheiros de asas tão belas.


Vim repartir convosco a minha lida,

trazer-vos versos como quem semeia,

na esperança de ver, na voz contida,

um céu que em vossos olhos ainda anseia.


E se a gaiola esconde a imensidão,

a natureza em vós ainda brilha—

pois nunca a mão do homem ou prisão

apagam da ave o céu de sua sina.


Cantai, irmãos! Que a vossa melodia

se espalhe além das grades e do tempo.

Ainda que presos, a vossa harmonia

liberta o mundo de seu tormento.


E se um acaso a sorte me convida

a repousar da minha inquietação,

basta um bater de asas na partida

para lembrar que há céu no coração.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Excessos

Toda embriaguez esconde uma sede,

todo grito cala o silêncio que antecede,

e a pressa feroz que corre do tédio

é medo oculto de estar perdido.


O riso que estoura espanta o luto,

a gula devora o que não se tem,

o verbo excessivo encobre o bruto

silêncio de quem não diz a quem.


Todos os excessos escondem uma falta,

o universal é sempre universal de alguém.

Quem quer tudo teme o nada

e a nada se detém.


Acende-se mil luzes para fugir da sombra,

inaugurando na luz uma nova cegueira

enfeita-se de glória, temendo o espelho,

na natureza crua, sem rodeio.


E assim segue-se, em ânsia e excesso,

querendo o todo sem ver a parte.

Assim, perde-se o sentido, antes intuído...

- lá em Eclesiastes -

No fim, percebe-se que tudo é vaidade.

quarta-feira, 12 de março de 2025

12/03/2025 - De volta à universidade

Mas o solitário é como uma coisa submetida às profundas leis. Ao sair para a manhã que aponta, ao olhar para a noite cheia de eventos, se chega a sentir tudo o que aí acontece, todos os encargos desprender-se-ão dele como de um morto, embora se encontre no meio vibrante da vida. (…) 

Não tendo nenhuma comunhão com os homens, procure ficar perto das coisas, que não o abandonarão. Ainda há as noites e os ventos que passam pelas árvores e percorrem muitos países. No mundo das coisas e dos bichos tudo está ainda cheio de acontecimentos de que o senhor pode participar. As crianças são ainda como o senhor era quando criança, tão tristes e tão felizes -e, quando pensar na sua infância, torne a viver entre elas, as crianças solitárias: os adultos voltarão a não ser nada, e suas dignidades não terão nenhum valor. 

(Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke, p.53)


Essa semana estive de volta à universidade, como mestrando em Filosofia, na Federal do Paraná. Há tempos esperei por esse momento, o qual, desde o fim do curso de Direito, aguardei ansiosamente, pois, apesar de frequentar espaços de grupos de pesquisa e especializações online, nada me instigava intelectualmente, exceto algumas conversas entre professores e conversas de bar. O ambiente universitário, ontem, escancarou minha ignorância, que há tempos não era posta à prova, ao menos não de forma tão abundante. E como eu amo esse sentimento! Essa angústia de me deparar com tanta coisa que não sei. Um misto de interesse e desespero ao mesmo tempo. Desespero não é bem a palavra, mas algo como estar diante da impossibilidade de conhecer todas as coisas, ler todos os livros, dominar todos os conceitos, ser como Deus (Fausto). Desejante e, apesar da impossibilidade, a ela fechar os olhos, e fazê-lo, ir, ler, conhecer, aventurar-se.

Sentia falta desse ambiente vertiginoso, dessa floresta simbólica, que, como em Baudelaire, se apresenta em caminhos infinitos.

Apesar de a primeira aula, na segunda-feira, ter sido uma enrolação, na qual o professor nos encaminhou para uma palestra de boas-vindas aos alunos do curso de Direito—daquelas aulas magnas prolixas, que estendem um simples "sejam bem-vindos" a um falatório sem fim—, apesar disso a fala foi boa. Embora endereçada a outro curso, nada tinha a ver com os objetivos do mestrado. Mas, a mim, se dirigiu minimamente bem, por ter cursado Direito e já conhecer a obra da professora Debora Diniz. No entanto, conheci pessoas que também se perderam pela Reitoria da Universidade, sem saber da palestra. Descobrimos juntos: um rapaz, jornalista e aluno especial de mestrado, e um casal do estado de Goiás, professores do Instituto Federal, que estavam para cursar o doutorado. Isso fez valer a pena a caminhada, pela boa conversa envolvida.

Ontem, a aula foi voltada à matéria de seminários, isto é, planejamento e apresentação dos projetos. Ali, ouvi diversas ideias a serem apresentadas, projetos dos mais variados e específicos em subjetividade. Foi divertido. Na saída, conversei com algumas pessoas, entre elas um rapaz que desenvolverá uma pesquisa sobre Ulysses de James Joyce e que tinha uma tatuagem igual à minha, e uma moça que se interessou pelo livro que eu lia, de Barbara Cassin, sobre a tradução, e contou haver um professor da universidade que foi orientando dela, o que me interessou conhecer. Outra moça pesquisa o Antropoceno, cujo tema havia acabado de desenvolver em um artigo. Senti-me envolvido por uma série de temas que já pesquiso e por oportunidades de conversa sobre outros que desconheço. Foi divertido.

Antes do início da minha aula, aproveitei o atraso da Professora para assistir, como um intruso cordial, a uma disciplina voltada aos doutorandos—um convite casual do Professor que a ministrava. Ele falava de forma descontraída, quase num tom de conversa de bar, sobre as bancas de qualificação, o processo de arguição, suas dinâmicas e, sobretudo, a vaidade que permeia tanto a apresentação das pesquisas quanto sua avaliação. Era impossível não perceber, nas entrelinhas, no sub-texto como em Stanislavski, uma referência implícita a Eclesiastes: "tudo é vaidade". Sua ironia não era amarga, mas lúcida, revelando uma espécie de desencanto afetuoso com o ritual acadêmico, ao mesmo tempo necessário e teatral. Chegou até em falar da vaidade como virtude, quando em termos virtuosos. Gostei dele. Falava sem pressa, sem a solenidade excessiva de quem se leva a sério demais. 

Havia um certo prazer na desmistificação, como se, ao expor as engrenagens do jogo acadêmico, ele nos libertasse um pouco da ilusão de que a pesquisa é um caminho puro e incontaminado. Mas, antes que pudesse me aprofundar mais naquela conversa, minha aula finalmente começou, e tive de me despedir daquele breve intervalo de irreverência. Ainda assim, levei comigo aquela reflexão sobre vaidade. No fundo, o que buscamos ao escrever, apresentar, argumentar? A pesquisa é um exercício de conhecimento ou também uma forma de afirmação, de inscrever-se no olhar do outro? Talvez seja impossível separar uma coisa da outra. 

Nada novo sob o sol.

Ao fim do dia, caminhei pelos corredores da universidade com a sensação de reencontro—não apenas com o ambiente acadêmico, mas com a inquietação intelectual que sempre me moveu. Aquele breve contato com colegas, projetos e leituras abriu frestas para novas possibilidades de pensamento, confirmando que o retorno ao espaço universitário não é apenas uma continuidade, mas uma renovação do desejo de conhecer. Entre a vertigem do desconhecimento e o prazer da descoberta, percebo, ainda prematuramente, que estou exatamente onde deveria estar.

A universidade tem, para mim, esse vínculo de lar—não no sentido físico, mas como um espaço de pertencimento existencial. Em meio às incertezas sobre o futuro, sobre onde viverei, se estarei só ou acompanhado, quais horizontes se abrirão, ela permanece como um norte, uma referência constante. Quando tudo o mais parece instável, a universidade se mantém como uma possibilidade sempre almejada, preenchendo uma lacuna que não é apenas profissional ou acadêmica, mas profundamente existencial. Talvez seja por isso que, mesmo diante das mudanças inevitáveis da vida, continuo a encontrá-la como um refúgio, um lugar onde o pensamento pode se expandir sem a necessidade de respostas imediatas. Há uma segurança peculiar nesse ambiente, não por oferecer certezas, mas por acolher as dúvidas sem pressa de resolvê-las. Diferente de outros espaços, onde se exige prontidão e definições rígidas, a universidade permite o intervalo, o ensaio, o erro como parte do processo. Ela não dita caminhos, mas abre possibilidades, e é nessa abertura que reside seu valor. Assim, mais do que um destino, a universidade se torna uma espécie de constância—não apenas um lugar para se estar, mas um modo de continuar sendo.

Talvez seja essa sensação de permanência que faz da universidade um lar para mim—não um lar no sentido convencional, com paredes fixas e rotinas previsíveis, mas um território onde a solidão se transforma em companhia silenciosa. Porque, no fundo, há uma solidão inevitável no pensamento, no esforço de compreender o mundo e a si mesmo. E, ainda assim, essa solidão, dentro da universidade, nunca se fecha completamente. Ela se cruza com outras solidões, se reconhece no olhar disperso de um colega, na hesitação de uma pergunta feita em voz baixa, na troca de referências que por um instante nos tira do isolamento e nos coloca em uma rede invisível de afinidades.

Ao voltar ao apartamento, senti o vento frio da noite passar pelas árvores, e me peguei pensando na solidão do conhecimento—não como um isolamento ruim, mas como algo essencial para realmente aprender. A universidade, com toda a troca de ideias e debates, não apaga essa solidão, só a transforma em um jeito diferente de estar no mundo, mais atento, mais curioso. Como disse Rilke, “o solitário é como uma coisa submetida às profundas leis”: quando a gente se abre para sentir o que acontece ao redor, as pressões e cobranças vão ficando para trás, como algo que já não nos pertence. Caminhando por aqueles prédios antigos, por onde passaram tantos como eu, recordei que o mais valioso talvez não esteja só nas conversas ou nas aulas, mas naquilo que permanece—nos livros esperando para serem lidos, no vento que passa sem pedir licença, no simples ato de olhar para o mundo com outros olhos.

terça-feira, 11 de março de 2025

Nu com meu violão

Sozinho, eu canto pra lua cheia

Alheia, tu foste e eu fiquei sem rumo

Resumo, te vejo em qualquer esquina

Me nina, me nina

E sigo de peito aberto


Coberto de um lamento insone

Meu nome, esqueces na tua ausência

Demência, comprei uma pinga amarga

Me embarga, me embarga

A voz que te pede volta


E solta no vento a melodia

Seria consolo se fosse tua

Nua, minh’alma se faz morada

Trancada, trancada

No tom que me dói no peito


Perfeito seria se tu soubesses

Me desse um canto da tua boca

E louca, tu voltas sem mais aviso

Sorriso, sorriso

E o tempo me desengana


Me engana, me deixa, mas me nina

Menina, eu sigo com meu violão

Canção, sou nu e sou só promessa

Confessa, confessa

Que um dia de novo me beija.


Pois embalo meu peito na espera

Quimera, danças no meu pensamento

Lamento, mas sigo de verso em verso

Reverso, reverso,

E o tempo me vira as costas


As notas que toco te chamam mansa

Descansa, um dia me volto ao nada

Cantada, fizeste de mim brinquedo

Segredo, segredo,

Que a lua me conta ao longe


E foge meu sono, vigília amarga

Me embarga, a taça vazia e muda

Saúda meu pranto a madrugada

Dobrada, dobrada,

A dor me faz companhia


Vazia, na noite, balança a brisa

Precisa de ti, mas não me escutas

Me multas, se peço tua presença

Sentença, sentença,

No peito essa dor me pesa


A reza que faço ninguém responde

Aonde se esconde teu riso breve?

Me embebe, saudade no vinho forte

A sorte, a sorte

Que um dia te traga ao canto


No entanto, me enrosco em melodia

Tão fria, guitarra que geme rouca

E pouca me resta senão canção

Paixão, paixão,

Queria poder cantar


Te amar é delírio e não cansa

É dança, se faz um tango bêbado

Efêmero, é sombra, é ilusão

Canção, canção,

Meu pensamento se embala.


Desencana, me deixa, mas me nina

Menina, eu sigo com meu violão

Canção, sou eu e sou só promessa

Confessa, confessa

Que um dia de novo me beija.



Flores a Baudelaire

A ti, que bebeste o absinto da treva,

e viste no lodo um jardim de esplendor,

trago estas flores colhidas na névoa,

banhadas em tédio, regadas em dor.


Teu verbo é um cântico lúgubre e denso,

um fumo que enlaça os que ousam sonhar,

um vento de luto, fatal e imenso,

que impele os errantes ao fundo do mar.


No altar das sombras, queimaste incenso,

brindaste ao abismo com taças de fel,

e ainda nos versos, eternos, intensos,


teu riso ecoa, sarcástico e cruel.

Por isso, ó Mestre, com púrpura e espinho,

deponho estas flores no teu caminho.

Os Rigores da Paixão

Quem nunca amou sem medo e sem medida,

lançando ao vento o timbre da razão,

não sabe o gosto ardente desta vida,

nem viu dos céus ruir a proteção.


Que valem muros, âncoras, receios,

se o fogo pede entrega e perdição?

Se a sorte espreita, a rir, por entre anseios,

cega e cruel, mas cheia de emoção?


Queime-se a pele, rompa-se a esperança,

desfeita em cinza a doce ilusão,

pois vale mais a febre e a lembrança


do que uma paz sem risco ou exaltação.

E mesmo em dor, em sombra ou solidão,

resta o fulgor dos rigores da paixão.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Coração Taoísta

Flui o rio sem luta ou memória,

segue o vento sem dono ou razão,

no vão do tempo, a eterna história,

em vão se busca explicação.


O bambu se curva à tempestade,

não quebra, não teme, apenas se inclina.

Na ausência de pressa ou ansiedade,

a paz se esconde na brisa fina.


No peito, um eco — já não me apego,

não forço a rota, não prendo o vão.

Se não governo o mar em que navego,

sigo o curso, sou um só com a imensidão.

Amálgama

No ermo azul do peito abandonado,

sertão d’alma em febre e solidão,

ecoam vozes num tropel calado,

murmúrios densos de qualquer visão.


Se um rio há, é sombra em brasa fria,

corrente muda em leito sem razão,

não há nascente, apenas maresia,

de um mar sem cais, sem tempo e direção.


Mas sob a pele, a terra reverbera,

fagulha antiga, em fogo subterrâneo,

memória feita em lâmina e quimera,

raiz e vento, abismo do âmago.


E cada passo é rastro que me inventa,

luz e barro, ausência e plenitude,

sou tudo e nada, em guerra violenta,

sou um e mil na mesma inquietude.

Deus e o Diabo na Terra do Futebol

No grande estádio, o céu se fez fronteira,

divino jogo em tarde derradeira.

Com farda alva e olhar onipotente,

Deus apitou com pulso efervescente.


No outro lado, em listras carmesins,

Diabo armava os lances dos serafins.

Torcida em transe, hino e oração,

milagre ou desventura, tudo é invenção.


"Avante, irmãos!" – brada o pastor, vidrado.

"Aqui, não há empate no sagrado!"

"Fiéis, jamais!" – relincha o outro lado,

"Melhor cair de pé que ser domado!"


O povo grita, urrando em desatino,

deixando a vida ao pé do seu destino.

Quem crê na cruz e quem levanta o tridente

se abraçam, bêbados de um deus ausente.


No placar, cifras – não há mais surpresas,

vendem-se almas, vendem-se camisas.

Mas pouco importa a cor da idolatria,

se o mundo é um circo e a fé, bilheteria.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Míriades

Me apaixonei mil vezes,

ou talvez um milhão;

por sorrisos fugazes,

por olhos que diziam segredos

antes que os lábios os calassem.


Cada estação me trouxe uma imagem,

um perfume, um toque, um sentimento.

E cada adeus, uma ausência, uma viagem,

tecia, em fios de vento,

o mosaico de uma miragem.


Num deserto, mas sem desespero.


Amei nas esquinas da chuva,

nas madrugadas sem promessas;

meus próprios passos a seguir sem rumo,

em vozes que esqueceram meu nome,

uma filosofia inquieta.


Mas há um rosto entre tantos

que nunca se desfez na névoa,

um eco entre as míriades

que insiste em voltar

para uma noite infinita.


Sem certezas, mas diante do luar.


E se o tempo dispersa as memórias,

se as faces se dissolvem no vento,

há sempre um olhar que retorna,

como um astro perdido a vagar,

indelével ao esquecimento.


Um brilho que insiste na noite,

traçando seu arco no peito.


Míriades de um único homem,

num olhar vago e soturno,

sozinho, diante do espelho.


Sem rumo, mas inteiro.


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Je pensais

Je pensais pouvoir tout effacer,

Ces vieux reflets du temps passé.

Je pensais que rien ne restait,

Des jours enfuis, de nos secrets.

Je pensais me tromper moi-même,

En murmurant que tout s’éteint,

Que l’ombre d’un amour qu’on aime

Ne marque plus le lendemain.


Mais ces silences me rappellent

Ces mots si tendres, quotidiens,

Ces gestes simples et fidèles,

Un doux « bonjour » au matin.

Le murmure avant le sommeil,

Un baiser posé sans détour,

Le café fumant sous le ciel,

Le journal et ton court séjour.


Les habitudes m’évoquent encore

Ces rires en foule, ces éclats d’or,

Les nuits tardives entre amis,

Les derniers pas vers notre lit.

Et puis l’étreinte avant l’oubli,

La chambre noire et nos soupirs,

Ces choses qu’on perd avec la vie,

Que seul le temps sait assoupir.


Et me voilà, seule, en errance,

Libre enfin, mais sans aisance.

La solitude a son vertige,

Sans toi, l’écho devient vestige.

Car comment fuir ces habitudes,

Quand même toi, dans l’infini,

Restes gravé dans l’attitude

De ce cœur qui n’a pas guéri ?




M

Maybe tonight won’t fade from my mind

A trace of your gaze, your body, your eyes

Because just a thought brings the craving anew

Ever since we met, I can’t help how I feel

Love, it may be, or a fleeting desire.

Maybe forgetting is not what I want.

And still, I wonder if we had a chance.

Beyond all the crowds, I search for your glance.

Even you once said, we made quite a pair.

Longing, I miss the warmth that we shared.

Maybe I like you, I’m losing control

All that I feel, I can’t seem to let go

Because I see your face every place that I go

Even if I try, you’re still in my mind.

Leaving behind all the words left unspoken.

Marked in my mind, your face in delight,

A gasp, your moans still burn in my skin.

Breathless, our bodies, sweat-drenched at night,

Enveloped in heat, in your scent so within.

Lust in your gaze, where love and sin blend.

Morning unfolds, your scent lingers still,

A touch, a soft kiss, the warmth of your skin.

Bare under sheets, time bending at will,

Eyes filled with laughter, our voices akin.

Lost in your presence, I crave you again.

Maybe I like you, more than I think 

And maybe I fell in love when we sleep 

But I can't get you out of my head 

Endless, I still live that night here

Love is a losing game, I know.



A QUESTÃO DA DÍVIDA PÚBLICA: OBSERVAÇÕES SOBRE A AUDITORIA CIDADÃ E A REVOLUÇÃO BRASILEIRA

 João Vitor Balbino

Texto encaminhado para o Ciclo Nacional da Formação da Revolução Brasileira 

INTRODUÇÃO

Apesar de frequentemente negligenciada, a dívida pública figura entre os temas centrais do debate econômico e político contemporâneo, especialmente em nações periféricas como o Brasil, onde sua estrutura e gestão exercem influência direta sobre as políticas públicas e o desenvolvimento nacional. Esta resenha tem por objetivo examinar a perspectiva oferecida pela Revolução Brasileira, no âmbito do curso promovido pela Auditoria Cidadã da Dívida (ACD), e das obras nele abordadas, assinadas por Maria Lúcia Fattorelli, economista e coordenadora da ACD. O propósito do curso é aprofundar a análise sobre a natureza do endividamento estatal, questionando sua legitimidade e os dispositivos que perpetuam um modelo financeiro subjugado a interesses privados. Em síntese, argumenta-se que a dívida pública tem operado como um expediente para a transferência sistemática de recursos ao setor financeiro, restringindo investimentos estratégicos e cristalizando desigualdades estruturais, corrompida desde sua origem. Por meio de uma abordagem crítica e embasada, Fattorelli defende a auditoria cidadã como um instrumento essencial de soberania popular e justiça fiscal. Contudo, no presente texto, busca-se situar essa temática dentro do escopo da Revolução Brasileira, ou seja, de uma solução de caráter revolucionário. Por fim, a resenha explora os principais argumentos da autora, ressaltando sua relevância para a compreensão das dinâmicas econômicas e políticas do país.

1. O SISTEMA DA DÍVIDA NO BRASIL E A NECESSIDADE DE AUDITORIA INTEGRAL

A dívida pública brasileira tem sido historicamente um dos principais entraves ao desenvolvimento socioeconômico do país. Essa é a principal tese da Auditoria Cidadã da Dívida. Os dados levantados pela auditoria, e comprovados pelo Tribunal de Contas da União em audiência pública, no Senado Federal, em junho de 2019, atestam que grande parte desse endividamento ocorre sem qualquer contrapartida em investimentos, servindo apenas como um mecanismo de transferência de recursos públicos para o setor financeiro. Apesar da determinação constitucional para uma auditoria integral da dívida pública, prevista no artigo 26 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição de 1988, essa medida nunca foi efetivamente implementada.

O Tribunal de Contas da União (TCU) e dados do Banco Central confirmam que a dívida interna federal não está vinculada a investimentos produtivos, mas, sim, à manutenção de um sistema financeiro que perpetua juros abusivos e privilégios para grandes credores. Assim, o chamado "Sistema da Dívida" se estrutura a partir de mecanismos como a securitização de créditos públicos, uma prática considerada ilegal que gera passivos sem controle orçamentário e transfere recursos diretamente para intermediários financeiros. Além disso, o sigilo imposto aos dados sobre os detentores de títulos da dívida impede que a sociedade tenha clareza sobre para onde vão os recursos públicos.

A falta de transparência e controle sobre a dívida pública tem imposto ao país uma série de medidas de austeridade, como o teto de gastos, as metas de superávit primário e, mais recentemente, o arcabouço fiscal. Essas políticas limitam investimentos em áreas essenciais, como saúde, educação e infraestrutura, enquanto garantem o pagamento contínuo dos juros da dívida. Sem uma auditoria integral, o Brasil permanece refém de um modelo econômico que privilegia o setor financeiro em detrimento do bem-estar da população.

1.1. A RETROALIMENTAÇÃO DO SISTEMA DA DÍVIDA: UM CICLO DE EXPROPRIAÇÃO, ENDIVIDAMENTO E REFINANCIAMENTO CONTÍNUO

O funcionamento do Sistema da Dívida no Brasil caracteriza-se por um processo de retroalimentação contínua, no qual o próprio endividamento gera a necessidade de novas emissões de títulos, perpetuando a transferência de recursos públicos para o setor financeiro. Esse ciclo vicioso se mantém por meio de mecanismos que impedem a redução do estoque da dívida e garantem a sua expansão, independentemente das sucessivas amortizações realizadas.

A dívida pública deveria, em teoria, ser um instrumento para financiar investimentos estratégicos que impulsionassem o crescimento econômico, aumentando a arrecadação e permitindo sua amortização natural. No entanto, dados do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Banco Central demonstram que a dívida interna federal não tem servido para investimentos, mas sim para cobrir encargos financeiros e beneficiar grandes credores​

Essa ausência de contrapartida cria um cenário em que a única alternativa apresentada pelo governo para evitar o colapso fiscal é a emissão de novos títulos, gerando mais dívida para pagar os juros da dívida anterior. Assim, em vez de ser reduzido, o estoque da dívida pública se amplia constantemente, consolidando um modelo de dependência financeira que drena recursos do orçamento federal.

Outro fator crucial na retroalimentação da dívida pública é a política de juros elevados. O Brasil historicamente pratica uma das maiores taxas de juros reais do mundo, o que impacta diretamente o crescimento da dívida. A taxa Selic, definida pelo Banco Central, não apenas encarece o serviço da dívida, mas também atrai especuladores que lucram com a compra de títulos públicos, sem qualquer compromisso com o desenvolvimento nacional.

Esse processo aprofunda a desigualdade, pois, enquanto o setor financeiro se beneficia com ganhos elevados e isenção de impostos sobre rendimentos de dívida pública, a sociedade arca com cortes orçamentários e aumento da carga tributária regressiva para manter o equilíbrio fiscal. Em 2022, por exemplo, o Brasil destinou R$ 780 bilhões apenas para o pagamento de juros, valor que supera o orçamento combinado de áreas fundamentais como saúde, educação e infraestrutura​

Nesse contexto, o estabelecimento do teto de gastos pela Emenda Constitucional 95/2016 e reelaborado desde então reforçou esse ciclo de retroalimentação ao restringir os investimentos sociais e impedir a alocação de recursos para setores produtivos. Enquanto as despesas primárias foram congeladas por 20 anos, os gastos com a dívida pública permaneceram sem qualquer limite. O resultado foi um ajuste fiscal permanente que garantiu a expansão da dívida e a manutenção dos privilégios do setor financeiro​

Com a substituição pelo arcabouço fiscal (PLP 93/2023), a lógica se mantém: o crescimento das despesas sociais continua restrito, enquanto os pagamentos da dívida seguem livres de qualquer controle orçamentário. Isso perpetua a escassez de recursos para setores estratégicos e reforça a dependência do país em relação ao mercado financeiro.

1.2 A NECESSIDADE DE ROMPER COM A LÓGICA DA DÍVIDA PERPÉTUA

O modelo de endividamento adotado pelo Brasil não se sustenta como ferramenta de desenvolvimento, mas sim como um mecanismo de espoliação sistemática da economia nacional. A estrutura da dívida pública, sua ausência de contrapartida e a imposição de políticas de austeridade consolidam um ciclo de retroalimentação que apenas favorece o setor financeiro, enquanto agrava as desigualdades sociais e limita o crescimento do país.

A única alternativa para romper com essa dinâmica é a realização de uma auditoria integral da dívida pública, com transparência e participação social. Essa medida permitiria identificar e anular parcelas ilegítimas da dívida, garantindo que os recursos do Estado sejam destinados às reais necessidades da população. Enquanto o Brasil permanecer refém desse sistema, continuará destinando trilhões de reais ao setor financeiro, sacrificando o futuro de gerações e adiando a possibilidade de um desenvolvimento soberano e inclusivo.

Os dados mais recentes sobre a Dívida Pública Federal (DPF) ilustram o caráter de retroalimentação do sistema da dívida no Brasil. Em janeiro de 2025, o estoque da DPF encerrou em R$ 7,253 trilhões, com uma leve redução de 0,87% em termos nominais em relação ao mês anterior, refletindo um resgate líquido de R$ 109,76 bilhões, parcialmente neutralizado pela apropriação de R$ 46,37 bilhões em juros​. Esse movimento demonstra como os pagamentos de juros continuam a manter a dívida em patamares elevados, mesmo quando há amortizações significativas.

A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), que representa a maior parte da DPF, registrou um resgate líquido de R$ 79,97 bilhões, mas, novamente, foi compensado por uma apropriação de R$ 63,97 bilhões em juros. Já a Dívida Pública Federal externa (DPFe) teve uma queda expressiva de 13,57%, encerrando o mês em R$ 301,81 bilhões​

. Apesar dessa redução momentânea, o padrão histórico do endividamento brasileiro demonstra que qualquer alívio temporário é rapidamente anulado por novas emissões e o contínuo acúmulo de juros. Os custos da dívida permanecem elevados, apesar de um leve recuo. O custo médio do estoque da DPF em 12 meses passou de 11,80% para 11,40% ao ano, enquanto o prazo médio da dívida subiu de 4,05 para 4,11 anos​

. Essa elevação no prazo médio sugere um alongamento da dívida, o que, por um lado, pode reduzir a pressão de curto prazo, mas, por outro, mantém a perpetuação do endividamento no longo prazo. Mesmo com essa dinâmica, o governo segue adotando políticas que favorecem a manutenção do sistema da dívida, como evidenciado pelo colchão de liquidez, que caiu de R$ 860,15 bilhões para R$ 743,92 bilhões, mas continua garantindo recursos suficientes para mais de seis meses de vencimentos à frente​. Isso indica que, apesar das amortizações momentâneas, a lógica do endividamento segue inalterada, com uma reserva substancial destinada exclusivamente ao pagamento da dívida, enquanto áreas sociais permanecem sujeitas a cortes e restrições orçamentárias.

Os dados do Tesouro Direto também reforçam esse cenário. Em janeiro, houve um volume recorde de compras por investidores, com vendas de R$ 8,76 bilhões e resgates de R$ 7,18 bilhões, resultando em uma emissão líquida de R$ 1,58 bilhão. O número de investidores ativos no Tesouro Direto atingiu 3,01 milhões, um aumento de 19,24% nos últimos 12 meses, e o número total de cadastrados chegou a 31,49 milhões​, o que demonstra o apetite crescente do setor financeiro por títulos da dívida pública, reforçando a concentração de recursos nessa esfera e reduzindo a margem para investimentos produtivos.

A análise desses dados evidencia a perpetuação do ciclo da dívida, no qual o Brasil segue emitindo novos títulos para cobrir vencimentos anteriores, sem que haja uma destinação real desses recursos para o desenvolvimento nacional. A dívida pública, portanto, não cumpre sua função original de financiar políticas de crescimento e bem-estar social, mas se mantém como um mecanismo de transferência de riqueza para o setor financeiro, em um modelo que se auto reproduz indefinidamente.

2. O MATERIALISMO HISTÓRICO COMO PANORÂMA DO REAL

A análise da dívida pública no Brasil, frequentemente negligenciada nas discussões políticas e econômicas, se revela fundamental quando observada materialmente. Assim, quando observada sob a ótica do materialismo histórico, revela não apenas um fenômeno econômico, mas um processo dialético de exploração e reprodução da dominação de classe. O endividamento estatal não é um acidente da política fiscal, mas sim um instrumento estruturante do capitalismo financeirizado, consolidado para perpetuar a concentração de riqueza e manter o Estado subordinado aos interesses do capital.

O materialismo histórico, ao investigar a base econômica das sociedades, evidencia que a dívida pública funciona como uma superestrutura que reflete e reforça as relações de produção e exploração. No Brasil, os dados demonstram que o Estado opera como um agente da burguesia financeira, direcionando uma fatia crescente do orçamento para o pagamento de juros e amortizações, enquanto impõe restrições severas aos investimentos sociais. O estoque da Dívida Pública Federal (DPF), que alcançou R$ 7,253 trilhões em janeiro de 2025​, ilustra esse processo de espoliação: recursos arrecadados da sociedade são sistematicamente canalizados para o setor financeiro, sem que haja contrapartida em investimentos estruturantes.

Esse mecanismo não é um desvio da política econômica, mas uma consequência inevitável da fase monopolista do capitalismo. A lógica da acumulação exige que o capital se valorize continuamente, como trabalho morto, e a dívida pública serve como um meio garantido de reprodução do capital financeiro, garantindo retornos elevados sem risco produtivo. O próprio funcionamento do sistema da dívida evidencia essa dinâmica: mesmo quando há resgates significativos, como os R$ 109,76 bilhões liquidados em janeiro de 2025, a apropriação de juros no mesmo período (R$ 46,37 bilhões) neutraliza parcialmente qualquer redução efetiva do estoque da dívida​. Esse ciclo de endividamento revela a natureza parasitária do capital financeiro, que não apenas acumula riqueza, mas também impõe limites estruturais ao desenvolvimento nacional.

No contexto do materialismo histórico, a dívida pública assume o papel de engrenagem da reprodução ampliada do capital. O financiamento do Estado, longe de operar em favor da coletividade, se torna um instrumento de aprofundamento da desigualdade, consolidando uma estrutura social onde o setor financeiro detém poder político e econômico desproporcional. Isso explica por que medidas como o teto de gastos e o arcabouço fiscal são implementadas para restringir investimentos sociais, mas nunca para limitar o pagamento da dívida​. Essa seletividade orçamentária reflete a hegemonia do capital sobre o Estado, submetendo a administração pública aos interesses da burguesia financeira.

Assim, o materialismo histórico permite compreender que o endividamento estatal não é uma questão meramente técnica, mas um fenômeno político e histórico, que resulta da luta de classes e da necessidade do capital de extrair mais-valor de forma contínua. A perpetuação do sistema da dívida não se dá apenas por imperativos econômicos, mas também por meio de um arcabouço jurídico e ideológico que naturaliza esse processo, garantindo a sua reprodução sem contestação estrutural.

Romper com essa dinâmica exige, portanto, não apenas medidas paliativas como renegociações ou reformas fiscais, mas uma transformação radical na estrutura econômica e política do país. Somente uma auditoria integral da dívida, aliada a uma mudança profunda nas relações de produção, pode permitir que o Estado seja reorganizado em função das necessidades do povo, e não dos interesses do capital financeiro.

3. A AUDITORIA DA MISÉRIA É A MISÉRIA DA AUDITORIA: OS LIMITES DA AUDITORIA E A REVOLUÇÃO BRASILEIRA

A auditoria cidadã da dívida pública, ao trazer à tona as dimensões obscuras do endividamento estatal, desempenha um papel conscientizador imprescindível no cenário político brasileiro. Atua, pois, como um ponto de reflexão crítica sobre a forma como os recursos públicos são canalizados para os interesses do capital financeiro, enquanto investimentos sociais essenciais são suprimidos. Contudo, a conscientização gerada por essa auditoria, por mais relevante que seja, enfrenta um limite intrínseco: ela permanece no plano teórico e analítico, sem impactar efetivamente as estruturas de poder que sustentam o sistema. Em sua essência, a auditoria cidadã se limita à exposição de uma realidade desconfortável, mas não oferece soluções práticas ou alternativas revolucionárias para a transformação desse sistema.

Nesse contexto, a teoria, embora vital para a compreensão da dinâmica da dívida, carece de poder transformador sem práticas revolucionárias que realmente contestem as relações de classe e poder em sua base. A mera conscientização da população sobre a natureza da dívida pública não é suficiente para alterar o curso da história. O poder “não se desmancha no ar”, mas é sustentado por um aparato institucional, além de ideológico, que não se dissolve com discursos ou exposições de dados. A luta contra a dominação financeira exige uma mudança radical nas relações de produção, que só se concretiza por meio de um movimento revolucionário que reestruture o Estado e sua função teleológica na sociedade.

Portanto, a auditoria da dívida, embora fundamental para revelar as entranhas do sistema capitalista financeirizado, não pode ser vista como um fim em si mesma. Ela é apenas uma etapa dentro de um processo mais amplo de conscientização, que precisa ser acompanhado de práticas revolucionárias para que a transformação das relações de classe e a superação do sistema da dívida possam realmente acontecer. Assim, o materialismo histórico, lastreado em uma série de análise de dados, ao fornecer uma visão panorâmica do real, nos convoca a compreender que a luta pela libertação do povo brasileiro da espoliação do capital financeiro passa pela ação política concreta, não apenas pela análise teórica. À vista disso, torna-se cada vez mais elementar propor caminhos emancipatórios e suas vias práticas.  

4. REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Fazenda. Dívida Pública Federal encerra janeiro em R$ 7,253 trilhões. Brasília: Ministério da Fazenda, 27 fev. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/divida-publica-federal-encerra-janeiro-em-r-7-253-trilhoes#:~:text=O%20estoque%20da%20D%C3%ADvida%20P%C3%BAblica (R%24%207%2C316%20trilh%C3%B5es). Acesso em: 5 mar. 2025.

AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA. Cartilha: Auditoria da dívida pública – ferramenta fundamental para garantir transparência, correta aplicação dos recursos públicos e desenvolvimento socioeconômico do Brasil. Disponível em: https://auditoriacidada.org.br/conteudo/cartilha-auditoria-da-divida-publica-ferramenta-fundamental-para-garantir-transparencia-correta-aplicacao-dos-recursos-publicos-e-desenvolvimento-socioeconomico-do-brasil/. Acesso em: 5 mar. 2025.

AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA. Assalto aos cofres públicos: PL 3.877/2020, PL 9.248/2017, PLP 19/2019 e PLP 112/2019. Disponível em: https://auditoriacidada.org.br/conteudo/assalto-aos-cofres-publicos-pl-3-877-2020-pl-9-248-2017-plp-19-2019-e-plp-112-2019/. Acesso em: 5 mar. 2025.

AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA. O que é o sistema da dívida. Disponível em: https://auditoriacidada.org.br/conteudo/o-que-e-o-sistema-da-divida/. Acesso em: 5 mar. 2025.