Sou a árvore em cena
de sua peça de teatro,
da sua vida, quase nada,
algo perdido no tempo.
quem me dera te ver
por um momento qualquer —
um sorriso, um olhar —
é tudo que posso querer.
me faz falta, e é quase como
uma dor de ausência,
um sufrágio impossível,
uma ferida aberta ao mundo.
bebo uma água, penso um pouco.
não resolve. ocupo a cabeça
com leituras ao acaso, outras nem tanto,
mas gostaria de saber como está.
o tempo passa, e o mundo gira,
para mim, em torno de você.
ainda, nesse instante, o teatro
em que sou a árvore em cena.
queria lhe dizer coisas,
contar tudo o que me aconteceu.
mas árvores não têm falas:
fico apenas a sentir o vento.
queria lhe dizer coisas,
protagonizar ao menos uma cena —
um café, um vinho ou uma cerveja...
fico apenas a sentir o vento.
protagonizar ao menos uma cena:
eu e você, falando sobre a vida,
como fazíamos — e era bonito.
vejo os passantes, as luzes noturnas, sinto o vento.
vento, vento, noite adentro,
é como se passasse por dentro de mim,
nesse vazio imenso por onde o vento
pode passear — e passeia.
ao menos não me falta ar.
a noite é fria,
e a minha sina —
qual será?
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