terça-feira, 22 de abril de 2025

Solilóquio de uma árvore em cena

Sou a árvore em cena

de sua peça de teatro,

da sua vida, quase nada,

algo perdido no tempo.


quem me dera te ver

por um momento qualquer —

um sorriso, um olhar —

é tudo que posso querer.


me faz falta, e é quase como

uma dor de ausência,

um sufrágio impossível,

uma ferida aberta ao mundo.


bebo uma água, penso um pouco.

não resolve. ocupo a cabeça

com leituras ao acaso, outras nem tanto,

mas gostaria de saber como está.


o tempo passa, e o mundo gira,

para mim, em torno de você.

ainda, nesse instante, o teatro

em que sou a árvore em cena.


queria lhe dizer coisas,

contar tudo o que me aconteceu.

mas árvores não têm falas:

fico apenas a sentir o vento.


queria lhe dizer coisas,

protagonizar ao menos uma cena —

um café, um vinho ou uma cerveja...

fico apenas a sentir o vento.


protagonizar ao menos uma cena:

eu e você, falando sobre a vida,

como fazíamos — e era bonito.

vejo os passantes, as luzes noturnas, sinto o vento.


vento, vento, noite adentro,

é como se passasse por dentro de mim,

nesse vazio imenso por onde o vento

pode passear — e passeia.


ao menos não me falta ar.

a noite é fria,

e a minha sina —

qual será?


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