sexta-feira, 31 de março de 2023

Dialética

 A justiça hoje é assim.

A família hoje é assim.

A propriedade hoje é assim.

A verdade hoje é assim.

As coisas todas hoje são assim.

Mas amanhã poderão não ser;

Em cada momento, uma versão;

De uma razão, de um interesse;

Mas o que há, de real, é o conflito;

A verdade é dual, dialética;

A contradição vive e viverá;

Muito mais que o conteúdo;

de discursos, que passarão;

que fazem da justiça, hoje, assim;

e da família, assim também;

e da propriedade;

e da verdade;

e as coisas todas.

Mas amanhã, não-ser, poderão,

E o presente será a suprassunção.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Uma rosa na estrada do desencontro


Entre idas e vindas 

Uvas e vinhos 

Se não há caminho 

Qual será estrada?


Entre as flores de cores concentradas 

Há coisas que o amor me ensinou:

Que elas, as flores, são delicadas

Ainda mais quando nas mãos 

De quem as roubou


Mas, se o jardineiro a planta e se vai 

E, após isto, outro vem e a cultiva

De quem será então a flor nascida?

Dela mesma, e de ninguém mais!


Mas de que vale furtar mil jardins

Para roubar um sorriso apenas

Se ela não te olha na janela

Quando vai embora..


Regressas agora

em teu desencanto

Pela a mesma estrada

do desencontro


Erga tua bicicleta, 

regressas sem demora

para teu peito despido, de jovem

te despede da angústia


Ouça as vãs canções, e recorda:

No meio do caminho tinha uma rosa

Tinha uma rosa no meio do caminho

E uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa 


Encontrará talvez

 algo de novo

Talvez te tornes

 a rosa do povo

segunda-feira, 27 de março de 2023

Ensaio sobre as Flores

    


Amendoeira em Flor, de Vincent van Gogh (1890)

    Hoje vi um vídeo de um amigo meu, tocando no violão o hino da campanha da Fraternidade da Igreja Católica. Tenho saudade dele, e seu filho nasceu faz um tempo e ainda não fui vê-lo. Sou um péssimo amigo, péssimo em diversas coisas na verdade, como tocar violão ou ser católico, por exemplo. A questão é que Eduardo, desde que o conheci, me fez uma pessoa melhor. Virtude, para mim, é imitá-lo. E faz muito sentido pensar que me sinto mais péssimo por ter saudade dele, pois a saudade é também, de mim mesmo (com ele). Enfim, talvez ele tenha percebido que sou um péssimo amigo, ou em tantas outras coisas e não goste tanto mais de mim. 

    Eu vivo meio exilado das coisas, e muitas vezes da própria vida, fugindo ou abandonando tudo, como se elas não tivessem valor. Mas não é verdade.Vejo valor nelas mais do que há em mim. A razão talvez seja que, ainda me sentindo perdido, buscando me encontrar, me distancio de tudo o que realmente me importa. As pessoas têm suas famílias, seus rumos, seus fados. Também Eduardo, tem uma linda família. E é um Pai, que como o meu, gostaria de ter. 

    Agora ele frequenta missas, e toca o hino da campanha da Fraternidade como um samba de Caetano. Mas, nunca notei isso com nenhuma estranheza. Embora que, para quem não o conhecesse, poderia parecer algo estranho pela sua personalidade livre e progressista. Mas ele, para mim, sempre foi uma espécie de Cristo. Uma espécie de Oráculo de Delfos, com o qual compartilhava minhas angústias, reflexões e desilusões. Sinto falta disso. Mas assisti-lo cantar me fez recordar o quanto ele é especial. Recordei daqueles versos de Santo Agostinho “Tarde te amei”, como se fossem de sua autoria. Mas a verdade é que Eduardo não descobriu Deus na igreja, e só então o amou, como fez Agostinho. Ao contrário, Eduardo sempre me pareceu muito próximo e íntimo Dele.

    Hoje compreendo as coisas com maior lucidez, e há muito mérito dele nisso. Vi todas as coisas que há nas flores. E compreendi que, se Deus existe, lá está Ele: nas flores. Na voz de Eduardo, e em suas palavras. Na canção da campanha da Fraternidade, e na Fraternidade. Poderia concluir, como nos versos de Pessoa, dizendo que:


A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.


Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.


    Mas é muito além disso. As palavras não bastam, e elas nunca bastam. E é por isso que usamos as flores, quando amamos alguém. Talvez Deus não use palavras, e o fato de haver flores seja o verdadeiro sinal de sua existência. A beleza está aí, diante dos nossos olhos. Semeada na terra, guiada e sustentada pela luz, assim como a gente. O que seria de nós sem a esperança? Eu mesmo, péssimo e pessimista que sou, me vejo agora um péssimo pessimista. Devo isso também a Eduardo, e ele nem imagina. Não imagina o quanto sua beleza alcança. Assim como as Flores também não o sabem. Dostoievski certa vez escreveu que a beleza salvaria o mundo. Nesse instante, leio isso de outra forma. Creio melhor e mais lúcido, sabendo que serão as flores que lhe hão de salvar.




quarta-feira, 22 de março de 2023

Tese onze


Para tudo não ruir

Se esvair, como toda matéria 

Um novo ser terá de vir 

Para construir a nova era


Não o lobo do homem, Cristo de si

O Pantocrator, sempre por vir,

Mas a revolução da consciência 

Tornar-se-á fenômeno e real presença 


A miséria da filosofia é a miséria da vida 

Assim deverá ser substituída 

Eis a essência do jugo: superá-lo 


Os filósofos interpretaram o mundo 

Cada qual, a sua maneira; 

Mas a questão é transformá-lo

sábado, 11 de março de 2023

Os livros


Creio que vejo nos livros uma companhia

Agora, deitado no chão gelado reflito:

Quando tudo acaba é com eles que fico,

Meus mais fiéis, compreensivos amigos


Quando me percebo sozinho, nesse chão

Eles me acompanham e fazem companhia

Entre as multidões também estão comigo

Mas trata-se da minha condição, a solidão 


Pra que esse desejo imenso de ser ouvido?

Por que não calar, fechar-se consigo

Eis a questão, eis a angústia 

Entre a mulher amada e o retiro 


Eis a confusão, eis a busca!

Incessante e inerente à natureza

Contrariá-la: eis a destreza!

Ou será: enfim, nada?


Aquieto-me e volto a leitura 

A resposta permanece obscura 

O livro também não me responderá 

Mas a literatura me acompanha na angústia


Em histórias que outros estão a contar

Tristezas, emoções, sabores e aventuras

Outros tempos, estações, 

Dores, doces e travessuras

 

Cada qual em seu caminho, seguimos

Sem saber como ou para onde 

Sem saber se o caminho é curto

Ou se findará longe


Sabemos apenas, que devemos seguir

O tempo, narrador do mistério, dirá 

Até lá, o ser e o tempo terão de se unir

Sempre prestes a descobrir 

o que será que será