Amendoeira em Flor, de Vincent van Gogh (1890)
Hoje vi um vídeo de um amigo meu, tocando no violão o hino da campanha da Fraternidade da Igreja Católica. Tenho saudade dele, e seu filho nasceu faz um tempo e ainda não fui vê-lo. Sou um péssimo amigo, péssimo em diversas coisas na verdade, como tocar violão ou ser católico, por exemplo. A questão é que Eduardo, desde que o conheci, me fez uma pessoa melhor. Virtude, para mim, é imitá-lo. E faz muito sentido pensar que me sinto mais péssimo por ter saudade dele, pois a saudade é também, de mim mesmo (com ele). Enfim, talvez ele tenha percebido que sou um péssimo amigo, ou em tantas outras coisas e não goste tanto mais de mim.
Eu vivo meio exilado das coisas, e muitas vezes da própria vida, fugindo ou abandonando tudo, como se elas não tivessem valor. Mas não é verdade.Vejo valor nelas mais do que há em mim. A razão talvez seja que, ainda me sentindo perdido, buscando me encontrar, me distancio de tudo o que realmente me importa. As pessoas têm suas famílias, seus rumos, seus fados. Também Eduardo, tem uma linda família. E é um Pai, que como o meu, gostaria de ter.
Agora ele frequenta missas, e toca o hino da campanha da Fraternidade como um samba de Caetano. Mas, nunca notei isso com nenhuma estranheza. Embora que, para quem não o conhecesse, poderia parecer algo estranho pela sua personalidade livre e progressista. Mas ele, para mim, sempre foi uma espécie de Cristo. Uma espécie de Oráculo de Delfos, com o qual compartilhava minhas angústias, reflexões e desilusões. Sinto falta disso. Mas assisti-lo cantar me fez recordar o quanto ele é especial. Recordei daqueles versos de Santo Agostinho “Tarde te amei”, como se fossem de sua autoria. Mas a verdade é que Eduardo não descobriu Deus na igreja, e só então o amou, como fez Agostinho. Ao contrário, Eduardo sempre me pareceu muito próximo e íntimo Dele.
Hoje compreendo as coisas com maior lucidez, e há muito mérito dele nisso. Vi todas as coisas que há nas flores. E compreendi que, se Deus existe, lá está Ele: nas flores. Na voz de Eduardo, e em suas palavras. Na canção da campanha da Fraternidade, e na Fraternidade. Poderia concluir, como nos versos de Pessoa, dizendo que:
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Mas é muito além disso. As palavras não bastam, e elas nunca bastam. E é por isso que usamos as flores, quando amamos alguém. Talvez Deus não use palavras, e o fato de haver flores seja o verdadeiro sinal de sua existência. A beleza está aí, diante dos nossos olhos. Semeada na terra, guiada e sustentada pela luz, assim como a gente. O que seria de nós sem a esperança? Eu mesmo, péssimo e pessimista que sou, me vejo agora um péssimo pessimista. Devo isso também a Eduardo, e ele nem imagina. Não imagina o quanto sua beleza alcança. Assim como as Flores também não o sabem. Dostoievski certa vez escreveu que a beleza salvaria o mundo. Nesse instante, leio isso de outra forma. Creio melhor e mais lúcido, sabendo que serão as flores que lhe hão de salvar.