quarta-feira, 25 de março de 2026

Meu relógio no pulso indica que estou atrasado.

Meu relógio no pulso indica que estou atrasado.

Bebo o conhaque, fumo um trago,

ajeito a gravata, arrumo o cabelo,

mas a cara de desgosto

ao se olhar no espelho

sabe que a vida anda sem sentido

em meio a tantos sentidos que lhe dera:

profissões que tivera,

moças que namorara,

tantos livros que lera,

tantos que escrevera.

Deus nem Nossa Senhora virão

para lhe consolar.


Boceja no corredor, sem um amor,

entediado, mas cínico o suficiente

para ao escritório se dirigir

e agir, de modo eloquente,

nas vidas sem nenhum ardor;

com seu dissabor, sorri ao dizer,

com prazer: "E pra você, o que seria?

Que posso fazer para te resolver

essa coisa a qual chama de vida?"

Soneto Noturno

O vampiro, à noite, ergue seu cálice vazio,

E a lua — prata fria — lhe destila o licor raro:

Bebe a penumbra em goles homeopáticos,

Diluídos no tempo, amargos de desafio.


Nas esquinas, a boemia é sangue que escorre

Dos bares mal fechados, dos amores falidos,

Dos sambas que choram em versos esquecidos —

E ele, sedento, a tudo isso devora e morde.


Não quer a vida inteira, pesada de dia,

Mas o gole preciso, o instante, a magia

De quem sobrevive à morte em cada taça.


E assim, entre a rua e a madrugada vaga,

Vai sugando a cidade, gota após gota,

Até que a aurora venha — e ele se desfaça.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Moço cordial

Ô meu povo, escute o verso

Que eu canto sem cerimônia,

Sou da roça, meio disperso,

Mas não perco a parcimônia.


Parte caipira, é verdade,

Pouco estudo, pouca escola,

Mas carrego na humildade

Mais saber que muita tola.


Muito bonito — dizem elas —

(Num cochicho meio atrevido),

Mas se encanto as donzelas,

Não é culpa deste vivido.


Pouco humilde? Pode ser,

Mas também não sou pavão,

Só não nego o meu prazer

De gostar de um coração.


Não tão vaidoso, confesso,

Mas ajeito o meu chapéu,

Que um charme nunca é excesso

Debaixo desse meu céu.


Meio mulherengo? Ora essa!

Quem me acusa não entende:

Se o sorriso delas começa,

Como é que o cabra se defende?


Que culpa tenho eu, afinal,

Se elas tanto me procuram?

Se é pecado ser cordial,

São os santos que descomungam!


Sou matuto, sim senhor,

Mas com rima e com malícia,

Faço graça do meu amor

E ironia da cobiça.

terça-feira, 17 de março de 2026

Vontade Perfeita

Teria a Natureza, em sábio intento,

Concedido aos mortais a luz pensante,

Para que, erguendo o espírito hesitante,

Busquem na razão puro fundamento?


Seria a consciência o instrumento

Com que o mundo se vê, claro e vibrante,

E em nós — reflexo vivo e palpitante —

Se pensa a si no eterno movimento?


Assim, na mente, ardente e peregrina,

Ergue-se a ideia, austera e soberana,

De uma vontade exata e cristalina:


Agir conforme a lei que em nós se irmana,

Servir ao bem comum — meta divina —

E, na razão, cumprir a forma humana.

Do Sexo

O sexo tem na mente um proceder,

Um cheiro, um fogo, uma energia viva,

Que, ao vir, em nostalgia mais altiva,

Faz o pau tão logo se erguer.


E ao pensamento, súbito, conceber

A forma da mulher que lhe cativa,

Já pulsa o sangue, e a mente, em fantasia,

O gesto antigo da vontade de meter.


O corpo dela, ao toque, ora se amansa,

Ora desperta a fera que encarcera,

Mistura estranha de doçura e guerra.


E ao possuí-la: esse desejo impossível!!

É como, entre delírio animal e pura essência,

Tocar, com a força da natureza, o paraiso perdido.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Por Marx

Não foi por ouro vil, nem vã quimera,

Que ergueste a voz no pó das oficinas;

Mas porque a dor das massas peregrinas

Clamava ao céu na sombra da miséria.


Viste na História a marcha rude austera

De forças mudas, férreas e divinas,

Que, entre engrenagens, fomes e ruínas,

Tecem do mundo a trágica matéria.


E assim, sondando o abismo do trabalho,

Leste no ferro, no suor, foice e martelo,

O áspero livro da comédia humana.


Mas no fragor da luta pressentiste

Que a aurora nasce onde a ideia inside:

Qual rubra-flor brotando na matéria.

Poema-Máquina

 

Solto

o freio.


A embreagem

cede.


Engato

a marcha.


Piso —


no acelerador.


E o carro

obedece

ao milagre

domado


da combustão.



Coloco

cápsulas

no tambor.


Giro —


o revólver

engata

o destino.


Aperto

o gatilho —


explode


a pequena

teologia

da pólvora.



Termodinâmica!


Teu evangelho

arde

nos pistões.


Automação!


Teu pulso

atravessa

cabos,

satélites,

telecomunicações.


O transporte

das massas

lateja

nas artérias

de aço

do planeta.



Bioquímica.


Laboratórios

cozinhando

a própria vida.


Ciências todas

martelando

a bigorna

do real.



E o maior milagre —


não é o motor.


Não é o raio

domado

no fio.


É


o milagre

das mulheres,

dos homens

e daqueles

que não o são.


Ciborgues

erguendo,

com mãos frágeis,


máquinas

capazes


de refazer


a natureza


à sua

imagem

e semelhança,


como outrora.


Máquinas

de inteligências artificiais

interrogando-nos

como o diabo:


— E então,

o que quereis?

Hiperlucidez

 Estranha lucidez meu ser invade e doma;

Desperto em mim — mas tudo é quase nada.

A vida passa, lânguida e cansada,

Como um rumor que à névoa assoma.


Nem dor, nem júbilo a consciência assombra;

A tudo a alma assiste, resignada:

A perda, o ganho, a glória ambicionada —

Tudo se perde numa indiferença-névoa.


Vejo demais: e ver demais me cansa.

Pensar demais dissolve a própria esperança

Que outrora ardia em férvido torpor.


Pois quando o ser se vê tão claro assim,

A própria vida empalidece em mim

E tudo é nada — e nada tem valor.

Tanto Faz

Num lúcido torpor minh’alma se suspende,

Clareza fria em véu de entorpecida calma;

Mais penso — e mais o mundo, exausto, assim me rende,

Como se a vida fosse um eco vago n'alma.


Vejo tudo demais, e o excesso nada entende:

A dor, o riso, o bem — tudo se torna nada

De um gesto indiferente, onde o sentido pende

E o peso do real se dissolve e se acalma.


Ah! lúcida prisão que o ser em névoa envolve,

Onde a razão, cansada, o próprio ardor dissolve

E o pulso da paixão se exaure e brando jaz;


Pois tanto vê meu ser, que o ver se torna vão,

E a própria existência, em lânguida razão,

Cai na tranquilidade de um tanto faz.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Sobre a impossibilidade de dizer o amor

Falta o que dizer das coisas mais fundamentais.

De onde descendem, em cadeia, todas as palavras: moedas sem lastro.

Presas aos seus veios metafísicos, que só existem na diferença.


Presas fáceis do subjuntivo. Pressas ágeis do linguístico-labirinto.

Verbos que só existem ao se tornarem carne.

Como o amor: esse verbo que só se conjuga ao fazê-lo.


Falta o que dizer das coisas mais fundamentais.

Como diria L. Wittgenstein,

"daquilo que não se pode falar, deve-se calar".


Eu, no entanto, vos digo:

sobre aquilo que não se pode falar,

deve-se ousar ser poeta.

De Camões a Bocage, sobre o amor em língua portuguesa da elegância à safadeza

Nas ondas onde a Nau Catrineta arfa,

Camões cantou Amor em versos d'ouro,

Mas entre estrofes de divino louro,

Havia fogo que a túnica desgarra.


"Ouvi dizer que nunca amou quem ama" —

Mentira de poeta, falso chouro!

Que sabe ele do gozo, do tesouro

De mãos que desabotoam, pele que esparrama?


Eis Bocage, o sarcástico, o profano,

Que não fingia: amor era também

Suor, gemido, e alguns lençóis molhados.


Da Lusíada ao soneto libertino,

A língua portuguesa fez-se afano —

E no afano, meu bem, fomos sagrados.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Ser Lindo

Ser lindo é ser sensível: ter no peito

A chama que se acende à luz do mundo;

Ver, como um sol que acende no profundo,

A vida em beleza num puro sentimento.


É ter, no olhar, o assombro ainda perfeito

Da infância que se espanta a cada segundo;

E achar no instante breve e tçao fortuíto

Um milagre secreto e satisfeito.


Ser lindo é ser sensível no sentido

Assim, de quem ama o ocaso que declina

E ao céu crepuscular se inclina, aturdido,

Ao sentir n’alma uma música divina;


Pois belo é aquele, como infante surpreendido,

Sendo verdade aquilo que se afirmara outrora:

Apenas como criança se encontra o paraíso,

Mas que, qual ilha, só pode ser visto de fora.

quinta-feira, 5 de março de 2026

O maior privilégio burguês

Não vim de berço esplêndido à jornada,

Nem tive a lua dócil por destino;

Não me embalou o ouro peregrino,

Nem me sorriu fortuna anunciada.


Cedo aprendi, na lida fatigada,

Que o pão se ergue do esforço matutino;

E sigo, entre incertezas, o caminho

Que a dura vida ao homem foi traçada.


Assim prossigo, austero, em desalento,

Sustendo o peso amargo da incerteza,

Que ao pobre a cada aurora se renova;


Pois grande é o luxo, caríssimo  privilégio:

Dormir sem temer o amanhã e a incerteza,

É esta a maior dádiva da vida burguesa.

Sobre o privilégio

Não tive o berço d’ouro da abastança,

Nem sonhos fartos à sombra da opulência;

Coube-me o pão que a rude circunstância

Pisa o diabo, em dissimulada irreverência.


Outros, porém, na plácida bonança,

Vivem sem dor, sem luta ou resistência;

Corre-lhes mansa a vida, em segurança,

Ensalada em tédio a fácil existência.


Mas qual o privilégio dessa sorte?

Nadar em mar de tédio, num rodeio,

Naquilo sem valor sendo tão caro?


Desse vão ridículo prefiro a morte!

Pois nem serve de triste o fútil fado.

E mastigo orgulhoso o pão do diabo.

quarta-feira, 4 de março de 2026

R. Wagner

Nas brumas do metal que ao céu se eleva,

Soa um clamor de bronze e eternidade;

É como se a paixão, feita vontade,

Erguesse um templo ardente na alma em treva.


A harpa do abismo, em lânguida cantiga,

Convoca amores trágicos e altivos;

E heróis que, em sonhos míticos e vivos,

Buscam no ardor do sangue antiga liga.


Ali o destino em música se escreve,

E o amor, febril, na morte se consuma;

Funde-se a dor na chama que o dissolve.


Tal qual relâmpago em noturna bruma,

Um beijo eterno o sofrimento envolve,

E a noite em alquimia musical se ouve.

Ao Modo do Velho Léo Ferré

Não venhas com louros fáceis à fronte,

Nem com a paz das almas resignadas:

O poeta é chama em noites fatigadas,

É vento rude a sacudir o horizonte.


Traz nos olhos o abismo e a madrugada,

E canta mesmo quando tudo se cala;

Pois sua voz, que a própria dor embala,

Faz da miséria humana uma alvorada.


Não tem repouso o que na lira escreve:

Ama demais o mundo e a sua ruína;

Ri-se da lei que a mediocridade urde.


E erguendo ao céu a taça peregrina,

Bebe o fel que a vida amarga verte 

E brinda à dor que a multidão não vê.


(Um brinde a Léo Ferré)

Atrabílis

Obscura têmpera, atrabílis contida,

Que em fel secreto o ânimo submerge,

E em torvo spleen taciturno converge

A seiva outrora em júbilo nutrida.


Saturnina muda, grave e entorpecida,

Que o lume da esperança aos poucos perde;

Lânguido estado em que a alma se despede

Num ermo interior, lôbrego se destina.


É bruma densa a sitiar a mente,

É visgo frio a reter-lhe o alento,

É acídia a corroer-lhe a claridade;

A patrística em mil patricídios.


Mas nesse abismo sem fim, fundo sem fundo,

Nasce um anjo triste, do útero, éterea supernova 

que só assim pode iluminar o mundo. 

Alimentando-o enquanto se devora. 



domingo, 1 de março de 2026

Suave é viver só

Suave é viver só, quando na aurora

A alma desperta em nívea claridade,

E, livre da impostura da cidade,

Conversa em si, serena e sem demora.


Suave é viver só, se o mundo afora

Não vai a teu encontro e não lhe acolhe;

Que a solidão é templo da verdade

Onde a ilusão de um ninho se evapora.


Não é desdém da turba ou desalento,

Nem fuga vil ao humano desconcerto:

É recolher-se no íntimo caminho.


Pois há doce força no silêncio certo,

E encontra o coração, sozinho,

O próprio sol em seu deserto.



Suave é viver só, depois da queda

Do sonho azul que o amor teceu outrora;

Que a rosa, ao fim da tarde, já não flora,

E o céu mais puro em sombra se envereda.


Suave é viver só, quando se enreda

A fé nas mãos da ausência que devora;

Melhor o ermo da alma que, sonora,

A falsa jura em lábio que a desmeda.


Não quero mais o lume que me ilude,

Nem a promessa vã, dourada e fria,

Que em doce fel coração invade.


Prefiro a paz austera da solitude,

Onde não sangra a antiga fantasia,

Nem chora o engano sob o nome “saudade”.