sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Uma Greve Contra a Morte

Todos nós devidamente bêbados, volto da pista, sento-me ao vosso lado — de minhas amigas, e sobretudo de minha musa. A fumaça do cigarro alheio mistura-se ao suor da noite, e, com a eloquência caricata de um Robespierre de bar, ergo a voz:

— A Morte é uma coisa bizarra, não é mesmo? Como fomos capazes de aceitá-la? Como ninguém jamais se insurgiu contra ela? Nem os juristas, nem o departamento de filosofia. Nenhuma greve foi feita!

Sorrio, inflamado de delírio e álcool, e concluo:

— Façamos uma greve de vida contra a morte.

O silêncio que se segue não é de reprovação, mas de encantamento. Há um instante em que cada olhar, mesmo embaciado pelo vinho barato, parece cogitar a insubordinação. A ideia, absurda e poética, paira sobre a mesa como uma bandeira improvisada.

Uma das amigas ri, outra me olha com a seriedade de quem gostaria de acreditar. Minha musa, porém, encosta o queixo na palma da mão e, com aquele gesto preguiçoso de deusa entediada, pergunta:

— E como seria essa greve, meu tribuno? Cruzar os braços diante da foice? Recusar o sono, que é o ensaio da morte?

Vacilo, mas a embriaguez me sustenta:

— Seria viver ao excesso, ao riso, ao desejo. Se divertir sem remorso, amar sem cálculo, dançar até a madrugada se esgotar. Uma recusa jubilosa, não um protesto triste. Uma insurreição que não pede reforma, mas se afirma.

Ela sorri de canto, como quem sabe que nenhuma revolução jamais começa senão em mesas assim, entre copos vazios e frases desmedidas.

— Divertir-se! Eis o único decreto verdadeiro. Viemos à vida para isso. O resto é invenção de padres, patrões e filósofos tristes.

Minhas palavras, atravessadas de insolência e ternura, flutuam entre nós. Alguns gargalham, outros se calam, mas minha musa me beija, mantém os olhos em mim, olhos que cintilam como se perguntassem em silêncio: terias coragem de viver de fato assim, sem pedir desculpas ao mundo?

— Foi o Luis Fernando Verissimo que disse que não concordava com a morte? Questiono. Pois é, morreu ontem. Lúcido, também disse: vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca.

Sento-me de novo, o copo entre os dedos, e percebo que o riso agora tem um gosto estranho, misturado de admiração e melancolia. A vida, que até pouco antes parecia um manifesto só nosso, escapa em lembretes sutis: escritores, amigos, ídolos, todos encolhendo-se diante da inevitabilidade, todos nos deixando pequenas frestas de absurdidade e futilidade.

Minha musa olha para mim, e no seu silêncio cabe a mesma pergunta que paira no ar desde sempre: para que todo esse furor, se a morte nos espera como espectro inevitável?

Mas eu, ainda com a embriaguez do delírio e da urgência, suspiro e digo, quase para mim mesmo:

— Pois é, e é justamente por isso que devemos rir mais alto, amar mais forte, dançar sem pensar. Que o inevitável nos encontre em pleno êxtase, em total insurreição. Que a morte nos veja vivos, e inveje.

A noite avança, as vozes se confundem, a música explode, e mesmo sabendo que amanhã, ou daqui a minutos, o mundo reclamará de nós, continuamos — talvez em desafio, talvez em pura necessidade — a nossa greve contra o que não se explica.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Canção para o destino

Muitos sóis e luas vão nascer,

Orvalhos nos campos a voar,

Todos nós a viver e morrer,

Ando ainda jovem a reparar.


Tenho muitos anos para chorar,

Um mar inteiro para vencer,

Bebo o gosto amargo do sofrer,

Pois sem destino, sentido e sem lar.


A ambição é vã, melhor colher,

A vida que se desfaz, sem semear,

Até que a voz perdida busque dizer,

Como uma chama ao vento a se apagar.


As folhas do outono voltam dançar,

Cada vez mais longe, a se viver,

Sou como a sombra, sinto sem ver,

Tudo assisto, até minha hora chegar.

Um lindo anjo triste em riste

Sou um lindo anjo triste que se propaga

como espectro de um azul-neblina.

Ainda que eu abra a cortina,

também tudo lá fora é azul-cinza.


Arco-íris de azul anjo rebelde,

sinto que posso fazer qualquer coisa,

ser e estar em qualquer rotina.

Mas não quero ser só mais um nessa máquina;


Quero também o que a alma anseia,

nas sombras que a vida desdenha,

em sonhos que a realidade prende,

no silêncio que a esperança semeia.


E, nesse intento, perco-me.

Acabo por ser nada, ao ver-me,

com a voz embargada,

um nó na garganta.


É em vão:

sou um anjo triste.

Que, em riste, insiste

em ser margem,


em ser tudo

diante do nada,

em arquear-se

sobre a linha reta,


Em fazer cruzar as paralelas,  

no infinito, em um ato,  

desvelando a ordem oculta,  

onde o ser se enconde exato. 


em manifestar o sublime

num mundo néscio.

Vim ao mundo para negá-lo.

Sou um anjo-bicho de Exú.

Aliterações

Sussurram sombras,

silenciosas, suaves,

sangram sonhos

sobre solos soltos.


Ritmam rios,

rolam rochas, revolvem

raízes raízes rudes

rasgando rostos.


Ventos vêm, vozes vibram,

vagam vagos, vagam vastos,

valem vozes, varrem vontades,

vendo veredas vazias.


Escrevo poesias.

Sem título

Sou do acaso a secreta composição,

Tomo as rédeas e duelo com o céu.

O universo se encerra em meu coração,

Não sei aonde me conduzirá meu véu,

Minhas asas são a sombra da solidão.

Sou sossego, mas carrego o desatino,

Sou errante, sou arisco e sou carinho,

Sou o náufrago perdido em meu caminho.


Um violão ressoa e a alma quer chorar,

Um conhaque bebo: e o luar vem me saudar.

Trôpego tropesso em definir-me, sublime:

Sou sossego disperso em tanta ausência,

Que é o curso do infinito sem medida,

E, portanto, me redimo frente à vida.

domingo, 24 de agosto de 2025

PÁLIDOS ECONOMISTAS PEDEM CALMA E A LEGIÃO DE FAMINTOS SE ENGALFINHA: EM DEFESA DA FUNÇÃO SOCIAL DA ECONOMIA


Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo" de Salvador Dalí, criada em 1943.


O capitalismo é moral? Essa questão é a síntese, o cerne de relevância e título da entrevista de André Comte-Sponville, na qual o filósofo se viu obrigado a dizer o óbvio: não. Algumas questões, no debate público, se destacam não por sua complexidade, mas pela circunstância em que são postas. Não são todos os contextos que fazem emergir o relevante — muitos, pelo contrário, distraem-se com frivolidades, entretenimentos, crenças privadas e convicções particulares que têm mais de superstição que de razão. Outras, contudo, se impõem pela própria contundência do real, que não precisa ser inventado: basta ser percebido.

O capitalismo não é moral. Isto é, sem rodeios, evidente. Nada há de ético na lógica da concorrência, da acumulação, da usura, do egoísmo tornado virtude e elevado a dogma. A moralidade, entendida em seu sentido mínimo — a consideração pelo outro enquanto fim em si mesmo, e não mero instrumento —, não encontra guarida em um sistema que precisa converter todos os sujeitos em meios de produção ou em consumidores vorazes. E, no entanto, permanece o espanto: por que tantos moralistas — aqueles que apregoam a sacralidade da família, da virtude cívica, da moderação dos costumes — calam diante dessa obviedade?

Talvez porque criticar o capitalismo demande mais do que indignação: exige reconhecer a lei elementar de sua dinâmica, a das chamadas “leis gerais da acumulação”. E, convenhamos, tais leis não figuram nos sermões dominicais ou nos manuais de autoajuda que nutrem a boa consciência contemporânea. O capitalismo necessita, estruturalmente, da produção de miséria; precisa de um excedente de despossuídos para que a riqueza de poucos se realize. É uma equação simples, matemática até, mas de uma crueldade elegante: para que um banqueiro durma tranquilo, milhões devem perder o sono.

Não é irônico, portanto, que os defensores da meritocracia abstrata — essa quimera que confunde sorte hereditária com virtude — nunca se tenham perguntado: “Se todos forem ricos, quem construirá a riqueza?” É que a própria formulação já lhes soa herética. A crença liberal se sustenta, não na razão, mas na fé — fé cega na mão invisível, que, curiosamente, opera com a mesma invisibilidade dos milagres. Espera-se dela que distribua justiça onde só há trocas desiguais; que produza igualdade onde só impera a desigualdade. Nesse contexto, a mão invisível do mercado opera apenas um chicote no lombo dos desfavorecidos. 

É curioso que os conceitos, como de acumulação primitiva, exército de excedentes, mais valia, apesar da simplicidade de compreensão e visibilidade prática, ainda se insista tanto no invisível, no metafísico precedendo o físico. Mais curioso ainda é que, enquanto se debate a moralidade ou não do capitalismo, esquece-se de que tal discussão já nasce viciada. Perguntar se o capitalismo é moral equivale a perguntar se um terremoto é justo ou se um vírus é benevolente. O capitalismo não é moral nem imoral; ele é, antes, amoral — uma máquina cega, indiferente, cuja finalidade não é o bem, mas a valorização incessante do valor. A moral, nesse sistema, só entra como ornamento, como discurso legitimador, como anestesia coletiva.

Em última instância, talvez a verdadeira questão não seja “O capitalismo é moral?”, mas: por que ainda precisamos perguntar aquilo que a realidade responde todos os dias? Uma pergunta mais útil seria: Qual a função de um sistema econômico? 

Em última instância, talvez a questão decisiva não seja “o capitalismo é moral?”, pois a realidade, com sua contundência cotidiana, já oferece respostas suficientemente eloquentes. A persistência dessa interrogação revela menos uma dúvida legítima sobre a moralidade do sistema e mais um sintoma de nossa dificuldade em ultrapassar o horizonte que ele impõe. Talvez seja mais fecundo deslocar o foco e indagar: qual é, afinal, a função de um sistema econômico? Se aceitamos que toda forma de organização produtiva e distributiva deve servir, em primeiro lugar, às necessidades humanas, a resposta parece evidente: assegurar a vida digna, promover a liberdade material e ampliar as possibilidades de existência coletiva.

Contudo, o capitalismo, longe de cumprir essa função essencial, a subverte. Em vez de organizar a produção em torno da satisfação das necessidades sociais, subordina as necessidades humanas à lógica da acumulação privada. O resultado é uma inversão: o meio – a economia – torna-se fim em si mesmo, e o fim – a vida – é reduzido a meio descartável. A moralidade do sistema, portanto, não reside em um debate abstrato de valores, mas na materialidade das relações sociais que produz: miséria em meio à abundância, precarização em meio ao avanço tecnológico, exclusão em meio à promessa universal de inclusão.

Nesse sentido, perguntar pela moralidade do capitalismo equivale a ignorar o próprio movimento histórico que o desvela como sistema estruturalmente incapaz de cumprir as finalidades que justificariam sua permanência. Uma questão mais consequente seria perguntar pelas alternativas: como reorganizar a economia de modo que ela se reconcilie com sua função originária, que é servir à vida, e não o contrário?

Se os mais obstinados moralistas não se ocupam da crítica substantiva, cumpre, ainda que tardiamente, aos menos a responsabilidade de fazê-lo. Nesse horizonte, a obra Resgatar a função social da economia, de Ladislau Dowbor, adquire relevância particular, pois recoloca em pauta uma questão que deveria ser elementar: a economia não pode ser compreendida como uma engrenagem neutra de acumulação, mas sim como um instrumento voltado à realização de fins coletivos. O próprio subtítulo — uma questão de dignidade humana — opera como enunciação programática, pois desloca o debate da esfera meramente técnica ou contábil para a dimensão ética e social. Ao inscrever a dignidade no centro da discussão econômica, Dowbor resiste à naturalização da economia como campo autorreferente, restituindo-lhe sua essência de mediação social.

O livro é uma crítica contundente à hegemonia da economia financeirizada e uma defesa da necessidade de recolocar a dignidade humana como fundamento das práticas econômicas. A tese central de Ladislau Dowbor é a de que a economia, em sua configuração atual, perdeu de vista sua função originária de organizar os recursos sociais em benefício do bem comum e passou a operar como instrumento de concentração de riqueza e poder, a serviço de interesses privados em detrimento das necessidades coletivas .

Dowbor enfatiza que a economia não é uma realidade “natural”, mas uma construção social e, como tal, deve estar subordinada a finalidades humanas e sociais. Ao contrário do que propaga o discurso liberal, a autorregulação dos mercados não garante equilíbrio ou bem-estar, mas aprofunda desigualdades e desestrutura os vínculos comunitários. Nesse sentido, o autor articula três eixos principais:

Crítica à financiarização – O predomínio do capital financeiro deslocou a economia de seu papel produtivo para um funcionamento especulativo. Recursos que poderiam ser direcionados à inovação, ao trabalho e à sustentabilidade são drenados por circuitos improdutivos de acumulação. Isso agrava a desigualdade e compromete a autonomia dos Estados e da democracia, uma vez que políticas públicas passam a ser reféns dos mercados financeiros .

Função social da economia – Inspirado pela noção de dignidade humana, Dowbor insiste que a economia deve servir como instrumento de organização do bem-estar social. A ideia de função social rompe com a noção de que os mercados têm legitimidade em si mesmos e os subordina a princípios de justiça, equidade e sustentabilidade. Trata-se de recuperar a economia como espaço de cooperação e redistribuição, em que a produção e a circulação de riquezas respondam a necessidades sociais concretas .

Reorientação política e ética – Para que a economia volte a cumprir sua função social, é necessário um esforço coletivo de reorientação política, com regulação democrática das finanças, fortalecimento do papel do Estado na redistribuição de recursos e redefinição das prioridades do desenvolvimento. Dowbor propõe que a economia seja julgada não por indicadores abstratos, como crescimento do PIB, mas pela capacidade de promover vidas dignas, reduzir desigualdades e garantir sustentabilidade ecológica .

Assim, a obra não se limita a denunciar as contradições da economia globalizada, mas propõe uma redefinição de seus fundamentos normativos. Ao colocar a dignidade humana no centro, Dowbor converge com tradições críticas, inclusive marxistas, que apontam a necessidade de superar a economia como esfera autônoma regida pela lógica do capital. Sua contribuição, contudo, adquire caráter propositivo ao defender uma economia organizada em função da vida, e não da acumulação.

Um aspecto particularmente revelador no debate contemporâneo é o abandono da terminologia economia política como disciplina fundante da modernidade. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, de Adam Smith a David Ricardo, e mesmo em Marx, o termo indicava de forma explícita a inseparabilidade entre os mecanismos econômicos e as decisões políticas que lhes conferiam sentido e finalidade. A economia não era vista como uma esfera “pura” ou autônoma, mas como instância intrinsecamente vinculada à gestão do poder, à distribuição de recursos e às condições históricas de reprodução social. O deslocamento terminológico para o simples “economia” não foi, portanto, um detalhe semântico, mas um gesto ideológico de primeira ordem: buscou-se produzir a aparência de neutralidade, como se os processos econômicos se regessem por leis naturais, análogas às da física, e não por escolhas humanas e disputas sociais.

O abandono da economia política, nesse sentido, é parte da estratégia de despolitização da vida econômica. Ao dissociar a economia da política, constrói-se a ficção de que as práticas econômicas não resultam de interesses de classe, de decisões sobre quem deve pagar a conta da crise, ou de escolhas sobre quem deve usufruir dos frutos do progresso técnico, mas sim de um funcionamento objetivo e inevitável das “forças de mercado”. Essa operação semântica cumpre a função de interditar a crítica: se a economia é natureza, não há alternativa; se é política, há disputa.

No entanto, retomar o termo economia política significa resgatar o óbvio que o discurso dominante se empenha em ocultar: que toda economia é pensada, regulada e estruturada a partir de ideias, interesses e finalidades políticas. Como observa Dowbor, a economia contemporânea, capturada pela lógica financeira, não pode ser entendida senão como expressão de um projeto de poder que concentra renda e subordina as sociedades às dinâmicas especulativas globais. E, nesse sentido, insistir na dimensão política da economia é não apenas um ato de rigor conceitual, mas também um gesto crítico: desmonta-se a aura de neutralidade técnica para expor a economia como campo de lutas, atravessado por disputas de legitimidade e por escolhas éticas fundamentais.

Essa crítica dialoga diretamente com a tradição marxista, para a qual a economia nunca foi um “dado” ou uma ciência natural, mas sempre uma economia política, marcada por interesses de classe. Marx lembrava, com ironia cortante, que a economia burguesa se apresenta como descrição objetiva da realidade, mas, em verdade, não passa de legitimação teórica da ordem existente. O abandono da economia política é, assim, a vitória parcial desse movimento de naturalização: quanto menos se fala de política na economia, mais se assegura a reprodução silenciosa de seus fundamentos.

Diante do status quo, resta-nos o diagnóstico sombrio de Fukuyama: o “fim da história”, a derrota da dialética, a cristalização de um sistema que, longe de ser controlado pelo humano, dele faz seus servos. Os prognósticos convergem para a desesperança. Konder fala da derrota da dialética, Fisher sentencia que “não há alternativa” ao realismo capitalista, e o capitaloceno se apresenta como a consagração de um presente perpétuo, sem horizontes de superação. O que se evidencia, portanto, não é apenas a força de um sistema, mas a atrofia de nossa capacidade imagética, a incapacidade de sonhar para além do que nos é imposto como único possível. Nesse cenário, pálidos economistas pedem calma em meio à catástrofe, enquanto a legião dos famintos se engalfinha pela sobrevivência. A ironia maior é que até o sonho, motor simbólico de toda transformação, parece esvaziado, reduzido à tautologia amarga, como na canção de Chico Buarque: “Sonhos, sonhos são”. O sonho, desprovido de potência, torna-se apenas nome de si mesmo, mero enfeite lírico que não projeta mais nenhum futuro.

Contudo, é precisamente nesse esvaziamento que a filosofia de Ernst Bloch oferece uma chave para ressignificar o problema. Em O Princípio Esperança, Bloch insiste que o sonho não pode ser reduzido à mera fuga da realidade ou a um devaneio sem substância. Sonhar, em seu sentido mais radical, é antecipar o ainda-não, projetar o possível no seio do real, instaurando uma abertura contra o fechamento do presente. Se o realismo capitalista afirma que não há alternativa, o sonho, para Bloch, é a própria irrupção da alternativa, a presença latente de um futuro que insiste em emergir mesmo quando tudo parece bloquear sua realização.

Assim, é preciso reivindicar o sonho como categoria política fundamental. Pois sonhar não é apenas consolar-se; é pôr em movimento o desejo de transformação, é reinstalar a dialética onde a história pretendeu se encerrar. O sonho, nesse horizonte, deixa de ser apenas “sonho” e converte-se em práxis mínima, em horizonte utópico que poderá mobilizar a crítica e a insurgência. Sonhar é, portanto, um gesto de resistência: contra a naturalização da miséria, contra a fetichização do capital, contra a tautologia ideológica que reduz a vida à sobrevivência. Se o realismo capitalista insiste em que não há alternativas, o sonho responde com a recusa obstinada de aceitar o presente como destino. Sonhar, aqui, não é delírio: é a primeira forma de desobediência.


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Degraus a Galope

Me desloco

  como um cavaleiro num tabuleiro

    de xadrez —


cromático animal

  de saltos profanos,


onde o ar azul de éter

  de ventos e sentidos se dispersam


    em fractais de silêncio

      e cores mil.


Entre torres de âmbar

  e bispos de sombra líquida, lânguida,


cada passo é liturgia

  de um rito antigo, macabro mistério, vão também,


    a geografia da impossibilidade —


      a esfera que ressoa

        em ecos quebrados

          de um vazio total.


Sou a tessitura errante

  do labirinto cifrado,


a máquina de ouro

  que roda em hélices de sonho,


um fantasma anódino

  em busca do eixo perdido,


    tecendo nos lances

      a metáfora do não-ser e do talvez.


Máquina taciturna,

  boêmia noturna,


despreocupada, atenta

  ao caos e à miséria do caduco mundo,


    turvo, miope, jovem,

      calado,


mas atento até

  ao vento que carrega os pássaros.


A galope sempre,

  em busca de tempos perdidos,


fugindo de todo ruído,

  em busca de serenos tempos.


Tarado olha mulheres,

  gentil percorre seus gestos,


    um anjo percorre seus corpos.


Érotico em tudo,

  disfarça,


quer elegância,

  evita o luxo,


quer que o mundo

  não seja injusto,


    sonha todas as coisas

      como dever ser.


Pedaço de ausência

  no jogo dos homens.

To the Passenger

Through streets that blaze with neon, raw and wide,

You walk, a primal hymn in leather bound;

The pulse of night beats fierce within your stride,

A growl of truth that shakes the hollow ground.


Your voice, a jagged flame, consumes the air,

Yet warms the souls who dare to feel the fire;

In chaos’ arms, you find a temple there,

Where rage and rapture shape the same desire.


No mask can cage the eyes that see through fame,

No crown can bend the bones that dance to dust;

Your body’s art, unbroken, none can tame,

A vow to howl when silence turns to rust.


And so you ride, the passenger of flame,

Through life’s mad streets, still wild, and still untamed.

domingo, 10 de agosto de 2025

Navegar é preciso

Navego entre ideias,

mas preciso ser sereno,

controlar minhas velas,

manipulá-la aos ventos.


Preciso me guiar

nessa imensidão,

saber navegar por onde quer

meu coração.


Tomar as rédeas da vida,

beber de cálices escolhidos,

sem se deixar a esmo,

tão só, e tão perdido.


Preciso me encontrar,

e, para tanto, me perder,

mas preciso me encantar

até o dia em que morrer.

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Sobre o Abissal

Golpearon a mi puerta el 6 de agosto:
ahí no había nadie
y nadie entró, se sentó en una silla
y transcurrió conmigo, nadie.
Nunca me olvidaré de aquella ausencia
que entraba como Pedro por su casa
y me satisfacía con no ser:
con un vacío abierto a todo.
Nadie me interrogó sin decir nada
y contesté sin ver y sin hablar.
Qué entrevista espaciosa y especial!"

(Pablo Neruda - Sucede)




Para uma Ontoteologia do Deus-Abismo

Introdução

A reflexão filosófica sobre o divino, desde a antiguidade, apresenta-se como um campo marcado por tensões entre ser e nada, plenitude e ausência, determinação e indeterminação. A metafísica ocidental, notadamente com Espinosa e Hegel, busca compreender Deus como fundamento absoluto, seja enquanto substância infinita, seja enquanto processo dialético de devir. Por outro lado, tradições orientais, como o Taoismo, apontam para um divino que se manifesta no vazio, no indizível, no não-ser criador. A ontologia existencial de Sartre acrescenta uma perspectiva humana do nada como constitutivo da existência, tensionando o conceito de ser pleno. Este ensaio busca articular essas quatro linhas de pensamento para propor a figura do Deus Abissal, um Deus-abismo que integra infinitude e vazio, ser e não-ser, como núcleo ontológico do real.

1. Deus em Espinosa: Substância Infinita e Necessária

Baruch de Espinosa, em sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras, estabelece que Deus é "causa sui", isto é, a causa de si mesmo, existindo necessariamente e sendo infinito em seus atributos (Espinosa, 1677/2015, p. 41). Nada existe fora de Deus: "Tudo o que é, é em Deus, e nada pode ser nem ser concebido sem Deus" (Espinosa, 1677/2015, p. 47). O divino é, portanto, identidade entre causa e efeito, criador e criação, imanência absoluta.

A infinitude de Deus, no entanto, é incompreensível ao intelecto humano finito. Embora possamos deduzir sua existência e natureza a partir de princípios racionais, a totalidade de seus atributos excede toda representação. Aqui surge uma dimensão abissal: o infinito, ao ultrapassar qualquer determinação finita, é vivenciado como mistério, um "abismo de ser" inalcançável à compreensão plena.

2. O Tao e o Divino Vazio

No Tao Te Ching, Laozi afirma: "O Tao que pode ser dito não é o Tao eterno. O nome que pode ser nomeado não é o nome eterno" (Laozi, séc. VI a.C./2011, p. 1). O Tao é o princípio originário, anterior ao ser e ao não-ser: "Do Tao nasceram o Um, o Um gerou o Dois, o Dois produziu o Três, e o Três produziu todas as coisas" (Laozi, p. 42).

Esse fundamento é caracterizado como vazio: "O Tao é como um vaso vazio: usamo-lo e ele nunca se enche" (Laozi, p. 11). O divino, aqui, não é uma substância positiva, mas ausência fértil, não-ser que engendra a multiplicidade dos entes. Diferentemente de Espinosa, cujo Deus é plenitude racional e necessária, o Tao é o inominável, o indeterminado, que só se revela quando a linguagem e o pensamento conceitual são suspensos. O vazio não é carência, mas potência criadora, abismo do qual brota o ser.

3. Hegel: Ser, Nada e Devir

Na Ciência da Lógica, Hegel inicia sua exposição com as categorias mais simples: ser e nada. O ser puro é indeterminado, sem qualidade ou conteúdo, e por isso indistinto do nada puro. Ambos se encontram em uma indiferença absoluta que, no entanto, não permanece estática: "O ser puro e o nada são o mesmo. Sua verdade é, portanto, este movimento do imediato desaparecer de um no outro: o devir" (Hegel, 1812/2016, p. 83).

O fundamento do real, para Hegel, não é uma substância estática, mas um processo dialético no qual ser e nada se interpenetram incessantemente. Essa negatividade interna ao ser faz dele algo dinâmico, em constante autossuperação. A ideia do divino, nessa perspectiva, pode ser compreendida como um abismo processual, um movimento no qual a infinitude se dá como negação e reintegração do nada, como um eterno devir.

4. Sartre: O Ser e o Nada na Existência Humana

Jean-Paul Sartre, em L'Être et le Néant (1943), afirma que a consciência humana é "nada". O ser-para-si, diferentemente do ser-em-si (as coisas), é uma fenda no ser, uma negatividade: "A consciência é aquilo que não é o que é e é o que não é" (Sartre, 1943/2015, p. 108).

Essa negatividade é constitutiva da liberdade humana: somos seres que projetam possibilidades, que não estão fixados numa essência. O nada, longe de ser simples ausência, é o espaço ontológico no qual a existência se dá como abertura. O divino, se pensado a partir da experiência humana, não pode ser apenas ser absoluto, mas deve incluir o nada que nos atravessa, o abismo de indeterminação que é o núcleo da existência.

5. O Abissal: Deus como Abismo Totalizante

Unindo as concepções anteriores, podemos nomear o divino como Abissal, o Deus-abismo. Este Deus não é ente supremo, nem sujeito pessoal, nem mera substância positiva. É imanência infinita (Espinosa) que se expressa como vazio criador (Taoismo), movimento dialético entre ser e nada (Hegel), e experiência existencial de negatividade (Sartre).

O universo totalizante é, nesse sentido, um abismo ontológico: a infinitude não se apresenta como soma de predicados, mas como vertigem, aquilo que excede toda determinação, que é ao mesmo tempo tudo e nada. O infinito só pode ser infinito porque contém o nada; o nada só pode ser nada porque se abre ao ser. O Deus Abissal é o nome desse paradoxo fundamental, desse horizonte onde o real se perde para se encontrar.

6. Conclusão

A partir da aproximação entre Espinosa, Taoismo, Hegel e Sartre, propõe-se a figura do Deus Abissal, um Deus que é ao mesmo tempo plenitude e vazio, ser e nada, movimento e mistério. Esta ontoteologia do abismo recusa tanto a transcendência absoluta quanto a positividade plena do divino, concebendo-o como fundamento vertiginoso do real. O universo totalizante não é apenas presença, mas inversão infinita em direção ao nada. Pensar o divino é, portanto, mergulhar nesse abismo, onde ser e não-ser se confundem, e onde o infinito só se revela como silêncio e vertigem.

Referências

ESPINOSA, B. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2015 [1677].

HEGEL, G. W. F. Ciência da Lógica. Petrópolis: Vozes, 2016 [1812].

LAOZI. Tao Te Ching. Tradução de D. C. Lau. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

SARTRE, J.-P. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 2015 [1943].