Quando criança, eu esperava minha mãe no ponto de ônibus, ao fim do seu dia de trabalho. O tempo se alongava enquanto eu contava os carros que cruzavam a rua e espiava as janelas dos edifícios, imaginando as vidas que ali se desenrolavam. Havia algo de fascinante nisso, uma recordação de que a vida tem inúmeras faces, e que elas seguem seu curso mesmo enquanto não olhamos. Essas lembranças me visitaram inesperadamente ao observar a moça que amo através da janela de seu apartamento, antes nosso, tentando apaziguar a saudade que insistia em permanecer. Era um olhar furtivo, cuidadoso, que almejava uma conversa, olhos nos olhos, mas que também não queria incomodar.
Como a criança de antes, eu queria compreender, mas com uma relevância nunca antes dada, a vida de uma pessoa muito específica e especial para mim. Queria saber como ela estava, como se sentia. Às 19h53, ela passou um pano na estante, onde ainda repousavam alguns dos meus livros. Sorri, lembrando de seu medo de lagartixas, e imaginei se talvez o gesto cuidadoso não fosse também uma cautela inconsciente contra uma possível presença desses pequenos répteis. Dois minutos depois, às 19h55, apagou as luzes da sala, e o cômodo escureceu.
A pausa breve no movimento parecia carregar mais do que a simples ausência de luz. Algo no ar sugeria que ela me via, ainda que sem palavras ou gestos explícitos. Quando, algum tempo depois, limpou o vidro da janela, suspeitei que me observava lá de cima, disfarçando a curiosidade sob o pretexto da limpeza. O vidro refletia seus gestos suaves, enquanto eu, cá embaixo, seguia apenas com o olhar. E com o segurança da faculdade ao lado, que me vigiava tanto quanto eu reparava a janela. Ela foi se banhar, e pude ouvir, como uma memória longínqua, o som da água caindo em seu corpo e seus gestos tão singulares, à vontade para ser quem é por saber-se amada, fazendo todo tipo de graça. A luz do banheiro apagou às 20h58.
Às 21h15, surgiu novamente na janela, já de pijamas, como quem pressente uma presença ao longe. Talvez me enxergasse, ou talvez fosse apenas minha imaginação desejosa. Mandei uma mensagem. Permaneci ali, impassível, preso àquele ritual silencioso, até que às 21h45, sem aviso, ela fechou as cortinas. E, com o fechar das cortinas, fechou-se também aquela cena, deixando-me às escuras, imerso na saudade que persistia, tendo que ir embora.
Como antes, a vida lá de dentro era indiferente ao meu olhar. Mas o meu fascínio por aquela mulher é eterno, e sonhei, ali naquele instante, toda uma vida. Sentia seu cheiro. Queria dançar com ela nas praias e nos metrôs, fazer surpresas à toa, carregá-la nos braços, olhá-la nos olhos, janelas da alma, e vê-la feliz, enxergando sua essência, que parecia só ser visível a mim. Nunca amei alguém assim.
Meu coração parece ter ficado naquele apartamento, junto dela. Mas tenho de ir embora, para dormir e logo em seguida acordar assustado, sem ela ao lado, procurando-a instintivamente. No caminho de volta reparo na cidade, o tempo se alonga enquanto vejo os carros que passam, e as luzes nas janelas que acendem e apagam. Permaneço como aquela criança, agora sonhando continuar um sonho antigo, de viver com essa mulher, da janela de seu apartamento, antes nosso, tentando apaziguar no tempo a saudade que insiste em permanecer.
Esse vazio infindo que habita o peito, diz a psicanálise, provém do espelho. De reconhecer a própria imagem, mas não só isso, de percebê-la alheia ao mundo, separada e, portanto, incompleta. Nesse sentido, intuitivamente, todos nós buscaremos fazer parte de algo—uma tradição, religião ou grupo—visando a certeza de não estar só, como uma existência perdida no mundo. O consumo direciona-se a essa realização; não são à toa os esforços das propagandas que sempre buscam anexar ao produto a imagem de um grupo, de um vir-a-ser que só se alcança através dele.
Mas, no fim, toda promessa é vã, pois desse mundo viemos e vamos em solitude. O mais racional, a princípio, parece ser reconhecer essa determinação e lidar com ela. Preparando-se para os adeuses. No entanto, parece impossível contentar-se em viver nesse estado e deixar de querer encontrar-se. Já dizia o velho Aristóteles: somos animais políticos, sociais por natureza, ou ao menos para sobreviver a ela. Mas não é necessária a mais elevada racionalidade para intuir isso; basta a experiência.
Quando se encontra esse lugar no mundo, encontra-se um tesouro, o bem mais precioso da vida. A certeza de uma felicidade plena, de um aconchego e serenidade. Acha-se a virtude da vida, de forma a fazê-la valer. Encontra-se o próprio encontro de si, numa amizade e intimidade perfeitas. Sente-se a vida em cuidado e dignidade.
Quando se perde o seu lugar no mundo, perde-se tudo. Perde-se a si mesmo. Quando não há um lugar para ir, e querer ficar, a vida toda desanda. Talvez seja essa a razão dos andarilhos nunca se fixarem em lugar algum: justamente para não lembrar que não há nenhum lugar para si. Mas quando perde-se esse lugar depois de encontrado em certeza, só se pode querer regressar a ele.