terça-feira, 30 de julho de 2024

Minhas Mães

Cada mulher é um ser em si, universo à parte,

Que não compreendo e, por isso mesmo, me interessa.

Cada mulher é como um navio que parte

Para algum lugar, sem roteiro, Curitiba-Itália.


Anas de Amsterdams e Francesas-Joanas,

Fulanas, Marias, Ciclanas e Cristinas,

Cabeças-sentenças que, a partir de memórias,

Moldam seus futuros no absurdo das vidas.


Antígonas, Bacantes e Balzaquianas

Cleópatras, Hipátias e Sofias,

Almas e corpos de todas as sortes

De uma terra e gênese só suas.


Toda mulher poderia ser minha mãe,

Ou talvez eu, sem nascer, aqui não estivesse,

Para dizer, sabe-se lá, como iria ser,

Sem essa mulher, sem a cor de seus olhos.


Sem sua malemolência no carnaval da Bahia,

Sem me gestar por nove meses e deixar nascer,

Para aqui ser e estar, e pensar quem seria eu

Sem suas paixões de mulher.


Sem seus legítimos desejos de moça,

Sem o batom retocado no banheiro,

Sem o corpo que encantou meu pai

E o genuíno ser em sua subjetividade.


Sem fumar, quem sabe, seu cigarro de filtro amarelo,

Como as figuras da moda em sua época,

Sem fazer tantas faxinas para ganhar seu dinheiro

E alimentar-se de sonhos, néctar da juventude.


Toda mulher poderia ser qualquer coisa,

A partir de si mesma, sem roteiro,

Sonhar seus sonhos e viver eternamente

Para realizá-los infinitas vezes.


Cada uma delas é um ser em si, universo à parte,

A parte de mim, ainda que próxima,

Dadas as circunstâncias da vida,

Do destino que se faz a todos indiferente.


Que ao parir apartado o parto do acaso,

Não se importa sobre os lares e os berços,

Aconchegos, abraços e beijos,

E o futuro, passado e o próprio fim.


Sem essas mulheres, eu nada seria,

Não teria dado atenção às paredes úmidas do orfanato,

Não teria dois apelidos dados pelas freiras,

Que me chamavam de Páris e estrelinha.


Sem essas mulheres, eu nada seria,

Não seria como Páris a fazer uma guerra por uma mulher

E legar a guerra ao irmão, ficando só com a parte boa,

Seria então, quem sabe, uma estrelinha no céu a se esquecer.


Sem essas mulheres, eu nada seria,

Não veria o sol poente, nem dias cinzas,

Não teria namorado nenhuma moça,

Não poderia viver.


Seria como, quem sabe, um espectro a pairar no cosmos,

A aguardar outra paixão, outro coração,

Outro ventre aberto à luz do mundo,

Outra sina e fado, em outra multidão.


Ou talvez nada, não existindo,

Nada diria, em tudo incompetente,

Sobre o sol poente ou dias cinzas,

Sem essas mulheres, eu não existia,

Literalmente.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Solilóquio para uma jovem atriz enquanto se maquia

Vou fazer o papel de uma jovem

que se maquia para sair e trabalhar

com coisas tolas, das quais não gosta,

mas precisa fazer para se sustentar.


Poderia ser costurar, pintar, cozinhar,

limpar, plantar e colher,

de preferência algo

que permitisse estudar, aprender.

Dançar, quem sabe, uma bailarina,

e fazer de Khachaturian e seu Spartacus

minha glória, minha sina.


Mas vou fazer o papel da jovem

e preciso me deslocar, subir a rua.

O trabalho é próximo, quinze minutos,

caminharei como se fosse livre,

como pássaro a voar para a arapuca.

Uso apenas cinco falas; outra, quem sabe, ouse.

Não cabe muito improviso em vida incerta,

além, claro, dos naturais de sobrevivência.

Quem passa fome teme a sorte,

não investe no acaso, mas com pouco se contenta.


Sou essa jovem, mas que já sonhou em ser atriz

e se maquiar para ser, a cada dia, algo novo,

como, quem sabe, uma bêbada

que vende os filhos em Paris,

nos tempos da Comuna.

Com uma que seja, réplica.

Como a Revolução, 

cujos seios são visíveis na pintura

 a guiar o povo.


E precisa subir em uma torre, como no palco, para destruí-la,

sonhando ser livre, carregando uma bandeira,

Não mais tricolor, não mais burguesa,

Mas para todos, agora vermelha.

Tecida por seres de alma sublime.

gente que só o álcool liberta.

Não podendo libertar-me,

voltar-me-ei para o público.


Analisei as minhas seis réplicas como as seis balas no tambor do revólver,

que se lixa a numeração para encobrir a origem ilícita,

todas as origens possíveis, realidades ilícitas à vista 

de quem nada assiste além do espelho.

Pronunciarei cada uma com a melhor apresentação,

contra a ordem e contra todos os que me olham.


Se eu não refletisse, maquiar-me-ia simplesmente

como uma menininha

burra e decadente. Mas vou entrar em cena

como uma bela mulher que, sem sonhos mais,

guarda as marcas da ordem e do progresso

na pálida pele outrora macia e depois cheia de rugas,

outrora atraente e agora repelida,

para que ao vê-la cada um se interrogue: quem

fez isto?

Todos vocês! 

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Elegia feminina

Deixa que meu corpo avance e te toque,

Por cima e em meus braços te agarre,

O mundo novo, que meus olhos desvelem,

Ao despir as roupas, no fulgor te beije.


Meu tesouro raro, brilho cintilante,

Tua pele nua avisto ainda que distante,

Liberto-me ao desvendá-la na cama,

Onde toca minha mão, minha alma anseia.


Teus olhos, que ao toque a veste entrega,

Como alma pura, que o corpo aconchega,

Como véu que cai, revelando a essência,

De um paraíso inteiro a ser conquistado.


Que corpo, que desejo, os seios, os ombros,

O colo, as ancas, as trocas de olhares,

A expressão quando goza, como se sobre o divã,

E eu, como quem a estuda, analisa, não podendo sê-la.


Deixa que eu te toque, seja minha sorte,

De habitar teu ventre e não mais morrer,

Desde os olhos de um moço, diante da mulher,

que descobrindo-a ao descobri-la lhe admira.


Deixa que eu te beije, dos pés à cabeça,

Na certeza de lhe ter, sem certeza,

Essa certeza que não se pode ter,

Mas que não se pode deixar de querer.


E notar que há muito mais que o corpo,

Para encantar e de desejo extasiar-se

Descobrindo que há, ao anoitecer, 

uma vida a se dedicar, para lhe merecer


Teus olhos que ao toque a veste entrega,

Como alma pura que o corpo acomoda,

Como véu que cai revelando a essência,

De um paraíso inteiro a ser conquistado.


Deixa que eu te toque, seja minha sorte,

De habitar teu ser e não mais morrer,

Descobrir que há, ao amanhecer,

Em ti, moça-mulher, muito mais a se querer.


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Dois sonetos aos bodybuilders

1)

Nunca entendi do que adianta tanto esforço,

muito exercício e mais ainda picadas na bunda,

para tornar-se como uma imensa tartaruga,

e, com nada razoável na cabeça, crescer o corpo.


Ou além disso, tanto trabalho para chamar atenção

e não funcionar o tico, converter-se em meias-bombas.

Pois, parece fugaz e muito burro (e eles são),

aumentar bíceps ao custo de atrofiar as bolas.


Sem falar no demasiado orgulho de erguer peso,

e pela corpulência, destacar-se como "grande" idiota,

com, não raras, opiniões do "maior" imbecil


Mas a verdade é que esse que se enamora nos espelhos

e deseja pelo, entre todos, "mais másculo e viril"

amelja malhar os glúteos com o parceiro de treino.


2) 

Talvez todo maromba não saiba as respostas

e reprima aquilo que deseja no seu íntimo,

habitando o seu inconsciente, por isso mesmo,

mas transpira pelos poros aquilo que almeja.


Assim, todos aqueles que frequentam a academia

percebem, apenas ao passar à sua volta,

que todo bodybuilder tem algum problema,

do qual só o maromba não sabe a resposta.


Trata-se de gostar muito de homem

e querer muito compartilhar a rosca direta,

se adorando uns aos outros inrustidos.


Mas há aí um problema matemático:

terá de haver algum ativo, e que funcione a tromba,

para que todos possam fazer amor de costas.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

No vinho a verdade

Há aquela famosa recomendação atribuída a Balzac: escreva com vinho, revise com café. Há ainda a também famosa expressão latina "In vino veritas" muito sugestiva, cuja forma completa adverte "in vino veritas, in aqua sanitas*". Acredita-se que o provérbio tenha sido atribuído a Caio Plínio Segundo, e sugere que pessoas sob efeito do vinho revelam verdades, como narrado pelo historiador Tácito, sobre uma cultura da Germânia, cujo povo se achava mais sábio bêbado.

As lendas em torno dessa expressão são inúmeras, e é difícil dizer quais delas poderiam conter algo de verdadeiro. Talvez todas, inclusive, pois a verdade está no vinho. Mas a expressão é antiga, e acredita-se que a origem seja grega, e remete ao poeta Alceu de Mitilene, mas também é mencionada no "Banquete", de Platão, que ensejou o ensaio filosófico escrito em 1844 por Søren Kierkegaard, cujo título carrega a expressão latina, e aborda a narrativa sobre os cinco discursos do amor presentes no texto platônico.

No Banquete de Platão o vinho revela a verdade, e é por isso que Alcibíades, ao beber, consegue expressar seu amor por Sócrates. Ao falar sobre seu amor por Sócrates, ele acaba elogiando não apenas um homem, mas a filosofia que, assim como o vinho, provoca aquela doença, aquela loucura especial que é privilégio dos livres. Por outro lado, é natural que Platão condene a embriaguez no Livro III da República, lá ela é declarada inconveniente, sendo até mesmo chamada, sem meio termo, de doença e desgraça. O amante do vinho (φιλοῖνος) aceita qualquer tipo de vinho por qualquer pretexto, embriagando-se continuamente e vivendo em um estado de excitação dos sentidos e embotamento da inteligência, similar ao estado das crianças. 

Nos poemas Alceu de Mitilene, possível gênese da expressão, como observado, há versos como "O vinho, meu amigo, e a verdade" (366 L-P) e "Porque o vinho é o espelho dos homens." (333 L-P). Nesse sentido, podemos supor que a verdade não costuma ser bela. Mas é inegavelmente curioso como essa ideia se materializa em diversas culturas. No Talmude (coletânea judaica de livros sagrados), por exemplo, encontra-se a máxima: נכנס יין יצא סוד, cuja tradução literal remonta ao acádio (também língua semítica) que significa "o vinho vem, o segredo sai". Também há a máxima em chinês: 酒後吐真言, traduzida literalmente como "depois do vinho, temos a palavra verdadeira".

Não pode ser atoa a razão do próprio Cristo transformar água em vinho, e este ser um de seus sinais de sua verdadeira distinção sagrada. Tampouco a opção de fazer do vinho seu sangue e do pão sua carne no milagre da transubstanciação. Mas os provérbios bíblicos (23: 20,21, tradução livre da vulgata) alertam: "não te ajuntes com os bebedores de vinho, com aqueles que devoram carnes, pois o ébrio e o glutão se empobrecem e a sonolência veste-se com andrajos." E ainda (31-35): "Não consideres o vinho: como ele é vermelho, como brilha na taça, como corre suavemente!. Mas, no fim, morde como uma serpente e pica como um basilisco! Os teus olhos verão coisas estranhas, teu coração pronunciará coisas incoerentes. Serás como um homem adormecido no fundo do mar, ou deitado no cimo dum mastro: “Feriram-me – dirás tu –; e não sinto dor!”. “Bateram-me... e não sinto nada. Quando despertei eu? Quero mais ainda!” 

O filósofo dirá, no entanto, que do cristianismo anseia apenas o vinho e o pecado. Mas se a virtude está no meio, como sustentava Aristóteles (mesótês), procurando o meio entre os extremos, na exata medida e encontro entre Dionísio e Apolo, a resposta mais assertiva que podemos intuir é que deve-se estar sempre meio* bêbado. E aí podemos falar ainda em eternidade, como afirmou Galeano em "A festa'' no Livro dos Abraços: "Somos todos mortais até o primeiro beijo e a segunda taça de vinho". Mas isso me remete de pronto ao poema de Baudelaire, "Enivrez-vous", que, na tradução de Aurélio Buarque de Holanda (1950) diz o que segue:

"É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

- É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor."

terça-feira, 2 de julho de 2024

Ensaio

Sei bem do que fujo, mas não o que busco

Não sou bobo da corte, mas não sou mudo;

É mais fácil ser virtuoso num século sujo,

Onde corta, ainda que sem corte, o que eu digo.


Não sou filósofo, nem o Santo de Assis,

Sem saber discernir entre o belo e o vil;

Mas quem anunciou a revolução de Paris,

Sei que foram os indígenas do Brasil.


Hoje em dia as coisas continuam mal:

Fazem rir não as loucuras, mas sim os tratados,

As democracias, os imperadores e os pontificados.


Nessa confusão em que me encontro, mas não saio,

Canto uma canção para a multidão, escrevo um ensaio,

Assobio algo e lavo minhas mãos, feito Pôncio Pilatos.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Efêmero cotidiano fugaz de um mundo vão, negado pela busca eterna de sentido, que se resolve no efêmero cotidiano fugaz de um mundo vão, negado pela busca eterna de sentido...

Numa noite nublada de inverno, eu caminhava pelas ruas movimentadas e caóticas de São Paulo, perdido em pensamentos que não se encaixavam, como peças de um quebra-cabeça feito para outra mente. A vida parecia-me uma sucessão interminável de instantes efêmeros, um cotidiano fugaz de um mundo vão. Por mais que buscasse sentido em cada passo, em cada rosto que passava por mim, encontrava apenas a negação constante da minha própria existência.

A cidade, em sua agitação noturna, era um espelho das minhas inquietações internas. A cada esquina, era confrontado com a decadência, não só das construções, mas da alma humana. Via nos olhos dos transeuntes uma espécie de resignação silenciosa, uma aceitação quase cínica do absurdo de viver. Sentia-me parte de um cenário construído para um drama incessante, onde cada ato começava exatamente onde o anterior terminava, sem nunca encontrar resolução.

Na Avenida Paulista, encontrei um velho conhecido, um filósofo de espírito quebrantado, que se perdera nas brumas do tempo. Seus olhos, outrora cheios de paixão, agora refletiam o vazio. "A vida é um ciclo, meu amigo", ele murmurou, "um efêmero cotidiano fugaz de um mundo vão, que se dissolve no efêmero cotidiano fugaz de um mundo vão." Suas palavras eram um eco da minha própria angústia, a síntese inevitável de nossa condição.

Passei horas conversando com ele, enquanto a noite caía e as luzes dos prédios lançavam uma aura neon sobre a cidade. Falamos da busca eterna de sentido, de como cada nova esperança parecia apenas negar a anterior, deixando-nos sempre à deriva. Era uma dança constante entre a tese e a antítese, uma luta incessante para encontrar um equilíbrio que nunca chegava. Naquelas horas sombrias, percebi que éramos como personagens de um romance inacabado, cujas vidas eram escritas e reescritas ao acaso.

A noite avançava e os faróis dos carros lançavam uma luz trêmula sobre as calçadas molhadas. Despedi-me do filósofo, mas suas palavras continuaram a ressoar em minha mente. A busca eterna de sentido, a resolução que nunca se concretizava, era o que definia nossa existência. E assim, voltei para meu quarto, sentindo que havia compreendido algo fundamental, embora intangível... e, portanto, negado pela busca eterna de sentido.


Fol. 279 of Codex Parisinus graecus 2327, a copy (made by Theodoros Pelecanos (Pelekanos) of Corfu in Khandak, Iraklio, Crete in 1478) of a lost manuscript of an early medieval tract which was attributed to Synosius (Synesius) of Cyrene (d. 412).

The text of the tract is attributed to Stephanus of Alexandria (7th century).