segunda-feira, 28 de julho de 2025

O que quer meu coração

Meu coração: um fuzil papo-amarelo

Quer atirar-se sobre a natureza,

sobre o vasto universo solitário

que paira ao redor do planeta.


Meu coração: uma viola seresteira

quer ser dedilhado por mãos femininas,

que lhe acolhem para se deitar

e esquecer de todo alheio e fora.


Meu coração: uma flor e seus espinhos.

Homem feito, atrevo-me a encarar a vida

a partir do que fizeram de mim,

a partir do que me é possível pensar.


Meu coração: carne que sangra,

demasiado humano no que anseia.

Não sabe nomear o que sente:

ama tudo, inteiro e imensamente.

terça-feira, 22 de julho de 2025

A Hora e a Vez do Jogador

O destino jogou com mão fechada,

bateu na mesa os trunfos do sofrer.

Fiquei calado, à beira do perder,

com alma rente à borda da encruzilhada.


Mas tudo tem seu tempo e sua estrada —

até o chão aprende a responder.

Agora é minha vez de amanhecer

no passo rude da alma levantada.


Não peço luz, nem sombra de milagre,

só lanço o lance certo, sem temor,

com fé na dor que forja o andar agreste.

Atravessa-se o tabuleiro num só galope.


Pois quem já viu de perto o próprio ardor

não teme mais o jogo, nem má sorte:

chegou, por fim, a vez do jogador.

Sou eu que faço nascer o sol ao norte.


quarta-feira, 16 de julho de 2025

Pôr do Sol

O sol se põe 
Diante de mim
E a noite vem
Logo a seguir

Eu sou tão só
Tão sozinho
Queria apenas 
Um carinho 

Alguém pra me ouvir
Que não seja eu mesmo
Estou preso em mim 
Estou tão sozinho 

E o sol se põe 
Diante de mim
E a noite vem
Já posso sentir

Eu sou tão só
Tão sozinho
Queria apenas 
Um amigo 

Alguém pra me ouvir
Que não seja o silêncio 
Estou preso em mim 
Estou tão sozinho 

E o sol se põe 
Mesmo assim

terça-feira, 15 de julho de 2025

Tu fostes para mim o divisor do mar

Tu fostes para mim o divisor do mar,

abris-te o chão no meio da tormenta,

meu passo, sem saber, quis te buscar

no abismo em que o silêncio se engedra.


Cruzando a dor, soube o que é desejar:

não a posse, mas a ausência que alimenta

o fogo que não cessa de queimar

a alma que se nega e se sustenta.


Tu foste Exu no limiar do meu caminho,

com riso ambíguo e verbo em negação,

rompeste a cruz que tracei com meu destino.


Se fui vencido, foi pela devoção que me redime:

pois teu olhar, mais que divino ou satânico,

revelou-me humano lindo, mais sublime anjo.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Tenho medo, Dionysus

Tenho medo de enlouquecer,

dessa dúvida ilimitada,

dos delírios por ela instaurada,

da lucidez num entardecer.


E me ver então no escuro,

sem bastião, cajado ou muro

com que possa me erguer,

tendo de viver nessas instâncias.


Não sei se banco o que minha cabeça pensa,

não sei se já sofro suas consequências —

tenho medo de enlouquecer.


Mas tu, que és o deus da loucura,

me cativaste ao vinho e à mulher nua

e me destes por esposa a lua cheia.

Cobras-me agora o preço deste pacto,


qual faz o diabo com a alma vendida;

e, por vê-la tão bela e redimida,

a põe em sacrifício ao cadafalso.


Tu me impões o caminho da loucura.

Já me vejo a cintilar na escuridão,

sem muro, cajado ou bastião,

mas na altitude dessa vã filosofia.


Tenho de dizer que compreendo,

e que, ao alçar voo em pena aurora,

soube que haveria a hora

em que viria esse momento.


Mas, se a loucura já me tomou conta,

tenho ainda uma única certeza:

de que sinto tudo em plena beleza —

e, se sinto, é real e verdadeira,


ainda que surja de ilusão.

Se tocar meu coração,

para mim, é verdadeiro,

pois agora sou inteiro.


Pois não sei ser de outra forma.

Calmo, me deito neste escuro,

orbitando, Dionysus, a ordem cósmica —

nu, sem nada compreender.


E então,

enlouqueço.

Cavaleiro da Esperança

Montado em sombras, vai por entre os ventos,

de olhar em brasa e peito em firme aço —

não teme o tempo, os muros, nem o cansaço,

pois sabe erguer-se após os desalentos.


É filho oculto de antigos testamentos,

de um povo em dor, de um sonho em cada espaço;

com sua fé, desata o duro laço

dos séculos presos a grilhões e intentos.


Por onde passa, a terra se levanta,

brota da pedra a flor da rebeldia,

nem mesmo a noite cala o som da utopia.


Seu passo faz cintilar a estrela guia:

cavaleiro de luz, alma que brada

contra o silêncio e contra a tirania.

Anjo Labirinto

Suas asas são labirintos de teus nomes,

onde te escondes para também poder voar

sobre as cabeças, sobre as altitudes

que só o ser pode querer, pode sonhar.


E para tanto abandona e absorve tanto,

tanto e descontroladamente,

que quer abrasar a brasa do sol

para cair de lá, ciente, anjo beija-flor.


És quem deseja a pureza inexistente,

quer o céu na terra, o esplendor.

Também és quem trai quem mais amou

e quer virtude, beleza, sem ser merecedor.


Tens na face o dom e o vício de contradizer-se:

buscar ser Deus, e ser o Diabo,

querer o bem, e ter com o mal

cotidianamente acordos tácitos.


És um labirinto encerrado em si,

como todos e todas, sobre todas as coisas.

E quer exteriorizar-se, também como a natureza impele,

mas percebe o segredo — e este é teu mal, anjo caído.

Sonnet of Vertigo

I am but vertigo, and nothing more,

for all is spin within, no ground, no frame.

A chaos born with neither cause nor aim,

a drifting soul with no clear shore or door.


The vertigo in me begins to rise,

like wind that heaves the ocean toward the skies,

or like the sun on glaciers, cold and bright—

a mirror cast from vulgar, fractured light.


I am the echo of a voice long gone,

the flesh that walks without a dream to keep,

a broken thread between the dusk and dawn.


Yet still I move, though tremble in the deep—

a spiral made of ruin, pressed upon,

but breathing still, where silence dares to sleep.

Gangster of the Abyss

Being and Nothingness—the higher flame

that learns to breathe where silence sears the bone,

becomes what is: a shadow with no name,

no morals, no abode, the road alone.


Upon the road, the being in the world

drifts through an evil globe with hollow grace;

and to survive, his black wings must unfurl—

becoming evil just to find a place.


No laws, no stars, no prayers to redeem,

no anchor but the weight of what he’s lost.

He walks as ruin, wrapped inside a dream

where every gain arrives with double cost.


The void became his home, his creed, his sin—

the gangster grins, abyss alive within.




quarta-feira, 9 de julho de 2025

Também sobre a casa dos budas ditosos

Tão tarada quanto uma divorciada,

gozando como vinte ambulâncias

desgovernadas.


Tão tarada quanto uma autora viúva,

desgovernada morrendo, e safada precisa

de vinte ambulâncias.


Tão tarada quanto uma das minhas ex-namoradas,

quase com vinte anos, e como o vinte ambulâncias desgovernadas

ela gozava.


E depois da quase morte, acontecia:

ela chorava ou ria, ria ou chorava,

descontrolada.


Eu ali analisava os motivos, procurava

algo de triste ou de risível, se havia.

Nada.


Concluía então que só estava apaixonada.

Por isso, a dor do amor, ou a alegria,

são tão próximas.


Clara como a questão da juventude,

que quer viver coisas proibidas,

transar às escondidas.


No mato, na praça, escondido na festa —

todas as aventuras são justas.

A ela.


Tudo para elas todas.

Por isso vim ao mundo:

para fazer gozar as moças.

Outros Carnavais

Se o calendário tivesse um único feriado,

que fosse o nosso, vosso, carnaval,

pois, sendo moço e, logo, idoso inevitável,

poderei dessas folias recordar, lá no final.


Que sejam tempos de euforia alegre,

píncaros enérgicos, esfinges de desejo.

Na qualidade de quem, morrendo cedo,

queima eterno enquanto a viver se atreve.


Que, ao findar o ano, se antecipe o pensamento

de que em fevereiro chega o tempo

onde a vida veste fantasias para sair às ruas,

onde a pele é só dourada e nua.


Onde esquecem-se das ordens das desordens,

e o compasso é ritmo de tambor.

Não mais a lógica do mundo em seus alforjes,

mas a leveza de quem transborda amor.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Vanguarda

A vida inteira ando — sem rumo ou meta,

qual sombra que perscruta o próprio chão;

um passo à frente, e a alma já inquieta,

no corpo exilam-se o sonho e a direção.


Não é um fim que me move, mas o devir,

o que sucede à chama ao se apagar.

Não busco o porto — sou mar, e o desalento

do ser que, ao ser, insiste em se deixar.


Por onde passo, a terra é provisória.

O que construo: disponho, disperso, inverto.

Meu rastro é rito, errância; a minha glória:

partir-se em mil — e, em cada, ser em si.


Não vivo: me sucedo. Fuga e jogo.

Desdobro-me no tempo, e o tempo rouba-me.

Cavaleiro num tabuleiro de xadrez, sem rumo,

salto de mim, sem casa, causa ou sonho.


E assim caminho, nu e inteiro,

despossuído do que nunca tive:

um nome fixo, um lar, um paradeiro —

somente a busca do que desconheço.


Somente o que extraí do que me deram,

a vã memória à beira do abismo;

apenas o anúncio por ele escrito

no meu coração que insiste: “avança.”

Infante Terrível

Perdoem a febre — mas não pedi passagem,

entrei de rompante, rasgando o roteiro.

Minhas pegadas: carvão, lampejo inteiro

de um deus queimando em plena paisagem.


Comi o tempo cru, sem talher nem prato,

e bebi madrugadas feito veneno.

Cada rua era um pacto obsceno,

e eu assinava como acordo com diabo.


Terrível, sim — mas nunca indiferente:

carrego o mundo nos olhos errantes

e o erro pulsa na veia, incandescente.

De jovem de uma alma florescente. 


A loucura? Um modo de ser constante.

Se peço perdão, é por ser rio em torrente

num tempo de poças rasas e hesitantes.

onde a superfície é a regra do instante.


Não quero redenção, nem paraíso —

me basta o cio do agora, o instante bruto.

Se erro, é rindo, e bebo do insulto

como um profeta bêbado e impreciso.


Fiz do pecado um palco, um manifesto,

com versos lascivos e lascivos olhos.

Minha alma dança nua entre as moças,

e no inferno me chamam pelo gesto.


O mundo? Um teatro em combustão lenta.

Eu? Faísca. Transe. Elegante decadência.

Sou o Infanto — do caos sou herdeiro.

Cuja herança é vazia de todo sentido.


Eu quero viver, beber perfumes... impossível!

no seio selvagem que embalsama a sorte

De meus pulmões de infante terrível, 

Que não aceitam o tédio nem a morte.


quinta-feira, 3 de julho de 2025

A Locomotiva Caipira

O trilho range e chama;

no cio da serra, a fumaça inflama.

Vai zunindo a locomotiva,

de ferro, de fogo, de força viva.


Ressoam sinos da estação,

e o trem responde em ronco e pulsação.

As rodas, na cadência,

marcam o passo bruto da existência.


Bicho de aço e alma sertaneja,

rompe o mato, rasga a madrugada que seja!

Nos campos, o gado espanta o olhar

quando o apito vem longe a cantar.


O trem, no sopro da partida,

e o chão, no rastro da subida.

Vai serpenteando a curva da colina,

com cheiro de graxa e de gasolina.


Chicote de vapor, grito de açoite,

leva o destino em vagão na noite.

A criança acena, o velho tira o chapéu:

lá vai o trem, bufando contra o céu.


Cada gente, na função de sua sina,

segue seus caminhos — homem, mulher, 

menino e menina,  — e somem nas estradas,

nas cidades e casas, no tempo e destino.


A locomotiva vai embora,

levando o tempo em cada meia hora.

E, no batuque ritmado da esteira,

ressoa o hino da alma brasileira.

Poeta Maldito

Nasci com o selo negro entre os sentidos,

um sopro de enxofre em cada madrugada.

Meus versos vêm de antros esquecidos,

A caneta — embriagada e enforcada.


Não busco o céu, nem fé, nem absolvição,

me basta o fel que exalo por instinto.

Sou fruto de uma errante maldição,

cuspido aos risos de um anjo extinto.


Vi cores que jamais terão pigmento,

nas bocas mudas do delírio vão;

cantei com vinho, sangue e fingimento

nas cordas roucas da perdição.


Ó Vogal insana, teu clarão me invade,

Rimbaud — irmão de fuga e de escarcéu —

vi teu inferno feito claridade

e fiz do abismo um verso ao léu.


Sou réu dos deuses, mártir do abandono,

vagueio nu, feito de carne e cicatriz.

Nem morto escrevo — apenas me disponho

ao gozo vil de Outro verso que me diz.


Meu corpo é verbo, e o mundo: blasfemado.

Nele: sou poeta — maldito e consagrado.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Há Mar Ainda

Já faz tempo que fui embora

Há muito que segui meu caminho.

Achei que vivia bem sozinho —

e vivo bem só, mundo afora.


Mas acontece que eu pensei...

E, na verdade, não pensei em nada.

Achei que devia seguir pela terra,

traçar nela minha jornada.


Achei que estava em terra firme,

mas, na verdade, só vazio havia.

Sem você, a vida não é a mesma,

sem você, não há beleza na estrada.


A verdade é que há mar ainda —

muito mar, há mar inavegável.

E esse mar de amar me lembra —

muito amar, que há mar inalcançável.


E te ver de tão longe, sem te tocar,

só me faz sentir — e pensar —

que tristeza é viver sem você,

que triste é viver sem te amar.


E há dias em que o vento me devolve

um eco do teu nome entre as marés,

como se o tempo enfim se comovesse

e me soprasse aquilo que não és.


Já tentei lançar âncoras no peito,

fingir que a solidão é companhia...

Mas o coração, feito veleiro,

te busca em toda aurora que se inicia.


Pois a verdade é que há mar ainda —

muito mar, há mar inavegável.

E esse mar de amar me lembra —

muito amar, que há mar inalcançável.


E agora, que não mais toco teu cais,

recolho as velas, deixo o vento ir.

Nem todo mar se abre para voltar,

mas resta ao coração saber partir.