quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Clarão da lua

Clarão da lua,

que paira como mulher nua

sobre os telhados silenciosos,

desatando em prata os confins da matéria,


desces lenta,

como camisola que despe os ombros da noite

para revelar contornos ainda mais belos


Tuas mãos são frias e luminosas;

tocam-me a fronte

e, sem palavra alguma,

me abençoam

como se teu amado fora.

Ramo Caído

Meu coração: flor rútila e selvagem,

Que ao vento cresce em lânguida petulância,

Habita o azul das névoas — melancolia —

E sonha além da humana e vã paisagem.


Não teme a dor, nem curva a vã coragem

À fria lei que impõe tirania;

Rompe do chão da amarga travessia

E em rubra luz floresce na voragem.


Vermelha flor — ardente rosa do povo —,

Que do asfalto ergue o cálido perfume

E ao sol resiste, intrépida e sozinha;


Traz na seiva o pecado e o lume novo,

Bebe do amor o fel que a dor resume —

Das flores do mal, sou ramo caído de poesia.

Habitando o Instante

No estreito apartamento a noite arde e gira,

Entre bebidas e vozes desatadas;

A quarta expira em lâmpadas cansadas,

E a quinta, em branda aurora, já suspira.


Oh, doce exílio acima do cansaço,

Em que o relógio, tímido, se atrasa

E esquece a lei severa das rotinas!

Vivendo do instante que atravessa.


Aqui, a palavra é cálida carícia,

Que, ao abrir das bocas, funda um mundo

De íntimas pátrias por sentir e ver.


Bêbados — mas não só — embriagados da delícia

De descobrir, no sentir mais íntimo,

A alma jovem com sede de viver.


Escrito em 25 de fevereiro de 2026, no apartamento da Rua Amintas de Barros, entre amigos.

Ensaio para Michel (De l’amitié)

À Michel


Clichê seria dizer

Por que era ele, por que era eu... como disse aquele,

a partir do outro.


Qualquer coisa a um amigo, com ternura, é clichê,

pois todas as cartas de amor são ridículas, como disse o outro.

Também a palavra saudade, esse charme brasileiro.

Mas tua mensagem, que me atribui o coração selvagem,

faz-me querer dizer muitas coisas aqui de cima da serra,

para que as palavras escorram até o litoral, junto da chuva,

tão recorrente nesta cidade industrial, para que, sempre que, ao descer do céu

e atrapalhar-te em algum ofício, lembre que o amo, meu amigo,

e que muito aprendi ao teu lado, nas histórias e conselhos

de quem viajou por todo o mundo e suas filosofias,

para ensinar, com humildade, o dom da gentileza,

que tanto me fez te admirar.


Se Deus existir e for bom, há de ser causa de teu existir.


Posso dizer-te que sou quem sou,

pois tu foste, para mim, quem és.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Mimesis, ou de como faço poesia

Aprendo com poetas de outros tempos,

E tudo que se aprende se imita;

Busco o eco dos imortais alentos,

No clássico, naquilo que da história fica.


Não me prendo a esquadro nem compasso;

Mas a foice e o martelo é que almejo;

É a voz que, em meu lugar, se abriga,

Rasgando o mundo com os pensamentos.


Não copio, apenas me aproprio, enfim, da forma

Do estilo que a memória, como ondas, perpetua;

E nessa ponte, meu sujeito é subjetiva ideia,

Por outros feitos e pouco a mim afeita.


O verso antigo serve como vestuário,

Mas a alma é minha, inteira, nua;

E toda a poesia é ação complexa,

Como toda estrada que leva a outra rua.

Réquiem

Aqui jaz quem alma ousou espalhar,

Não cabe em si, não sabe de fronteiras;

Foi chama, mar e vento em marés inteiras,

Que quis no mundo inteiro se revelar.


Deu-se em luz, sem medo de fracassar,

Buscou no nada a essência verdadeira;

Fez do absurdo sua lei derradeira,

E em cada gesto quis se multiplicar.


Que fique o eco de seu ligeiro passo,

Que a vida inteira foi breve clarão;

Nada contém, mas do mundo fez o fado.


O ouro não foi, mas sim a intenção;

Se o mundo prova ser absurdo e vago,

Ali jaz quem fez do nada brotar paixão.

Desejo de Estender Minha Alma

Quem tem alma não dorme em paz consigo,

Nem cabe em si, nem basta ao próprio peito;

É chama que devora o seu abrigo,

É mar que se arrebenta no seu leito.


Traz no olhar um incêndio antigo,

Um clarão de infinito insatisfeito;

Quanto mais mundo alcança, mais mendigo

Se sente ante o horizonte ainda por feito.


Quero estender minhalma além do dia,

Fazê-la campo vasto, aberto e fundo,

Onde caibam minha dor e euforia;


Que ela se alargue em energia pelo mundo,

E, ao dar-se inteira em lúcida ousadia,

Prove ser nada, pois inteiro absurdo sem fundo.

Se Tiveres de Matar

Se tiveres de matar, que seja em arte,

fria a mão que aperreia o coração,

sem tremor, sem rumor, sem compaixão,

como lâmina exata que reparte.


Que o gesto não se quebre em qualquer parte,

nem turve o pulso a súbita emoção;

sê lápide no instante da ação

e fecha o mundo ao som que em ti se aparte.


Não chores; que o punhal não tem memória,

nem pesa a culpa à pedra indiferente

que ignora o sangue e ignora a história.


Se és noite, sê total e permanente

na mão que aperta e finda a trajetória

do outro — e segue mudo, simplesmente.

Embriagando-me com doses mancas de cavalo branco

Embriagando-me com doses mancas de cavalo branco

e tragos amargos de camelos amarelos,

são tardes horas, e já me quero à cama,

mas algo n’alma vem e me atravessa.


E então, o que quereis?, pergunta-me o poeta,

como esfinge assopra o vento que o cabelo leva.

É noite de verão em Curitiba, e a leitura

não me serve como antes para nada.


Quero a liberdade de Pessoa, doirar ao sol

ou, neste instante, como a música, banhar-me à lua,

deitar-me com a amada nua em êxtase.


Penso e existo neste instante, bêbado,

mas cuja alma a tudo se sobrepõe galante.

Sinto muito, e é apenas nisto que sou sublime.

Cor quo vado

Coração, para onde vou? Questiona a rocha altiva

— esfinge à beira-mar, solene e fria —

me fita cinza, muda, a fronte pensativa,

e indaga: “Que quereis, alma tardia?”


Lateja em mim febril clarão que aviva

no sangue a rubra e rútila folia;

sou sal e sol que doura carne convulsiva,

sou a turva ardente maré que me perfila.


De encontro ao céu, aos pés do penedo,

ergo meu rosto ao vento em sobressalto,

e ao longe o mar responde o meu apelo.


Qual Édipo ante a Esfinge, atento e triunfal,

decifro o enigma que me envolve cedo:

meu destino só pode ser de carnaval.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Ode a Castro Alves

Ó gênio em chamas! — quando ergueste a fronte,

Trovejou liberdade em cada verso;

Fez-se o teu canto um vendaval disperso

A sacudir as bases do horizonte.


No livro ardente — Espumas Flutuantes — cintilava

A febre azul de um sonho soberano;

E em Os Escravos o brado humano

Como maré de dor se levantava.


Que nau fantasma em pranto e sangue aberto

Rasgou o céu no épico lamento teu! —

Era o porão do mundo, em deserto,


Clamando a Deus no verbo que acendeu

A chama viva do oprimido incerto,

E ao jugo infame altivo se opôs, teu.


Salve! — se a morte cedo te colheu,

Não pôde a pá calar-te a voz sonora:

Vives no povo, em cada nova aurora,

Ó Castro Alves, que a História não esqueceu!


Foi teu poema imenso que rompeu

As sombras do açoite e do tormento,

E ao jugo infame altivo se opôs, teu.

Para que dos justos fosse em justo verso.


Salve, cantor que a morte assim venceu,

Pois vives no clamor que o povo entoa,

E a História em luz perpétua te coroa,

Tua poesia, no tempo, não se perdeu.


Sapere Aude Et Carpe Diem

!!

Ousa saber! — que a aurora te convida

A erguer da sombra a fronte altiva e pura;

Rasga do erro a venda escura e dura,

E bebe a luz que esplende à tua vida.


Colhe o momento! — a hora fugitiva

É rosa aberta em tênue formosura;

Se tarda a mão, desfolha-se na altura,

E o vento a espalha em cinza pensativa.


Sê sábio e audaz: no claro entendimento

Arde a centelha heroica do destino;

Quem pensa, forja o próprio firmamento.


Mas goza o instante, ardente e peregrino:

Que a vida é breve sopro no tormento,

E o tempo, um deus severo e assassino.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Trovoada

Vem do fundo da serra um rumor de cascos,

não é tropa nem gente, é o céu que se move.

A tarde mastiga um silêncio de pastos

e a terra, morena, sua lágrima revolve.


Meu cavalo fareja o vento mudado,

baixo a aba do chapéu contra o clarão.

Cada raio riscando o campo alagado

é uma reza bravia cortando o chão.


Trovoada, irmã velha dos cerros,

bate o bombo do mundo no meu coração.

Teu tambor de água grossa nos ferros

lava a mágoa e tempera o facão.


Sou filho do barro, do pó levantado,

aprendi com o tempo a não recuar.

Se o destino é caminho fechado,

faço trilha onde o medo quer me amarrar.


Quando a noite desaba em espora e estalo

e o horizonte se parte em clarim,

canto baixo pra não assustar meu cavalo

e a tormenta faz ninho em mim.


Trovoada, não venhas por guerra,

vem molhar esta sede ancestral.

Que teu grito fecunde a terra

e me ensine o silêncio final.


Se amanhã o sol nasce lavado,

sobre o campo que a chuva domou,

fica um cheiro de mundo criado

como se Deus, de novo, legou.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A dialética conduz ao amor

 No atrito vivo das ideias opostas,

Onde a razão se afia em contradição,

Vai-se depurando a antiga ilusão

Que aos olhos prende em formas mal dispostas.


Cada negação, que o espírito encosta

Ao muro firme de outra afirmação,

Não visa à ruína, mas à ascensão

De um claro acordo entre verdades postas.


Assim caminha o pensamento austero,

Negando e erguendo, em círculo fecundo,

Até tocar o centro que não erra:


Pois toda ideia, ao fim do seu roteiro,

Descobre, ao se perder no mundo inteiro,

Que amar é a síntese de toda a vida.

Ascese

Jaz sob a Lei o gesto que se doma,

Um voto antigo sela a inclinação;

Insisto em crer que a regra tudo soma

Sob o silêncio exato da razão.


Se algo persiste além do que é dito,

Aceito-o em fé, não peço explicação;

Não nomeio o excesso que habito,

Cumpro a forma, guardo a oração.


E fica o resto — em Deus, ou não.

Soneto da Castidade

Quando te penso, ajoelho o pensamento,

Um voto faço à espera e à salvação;

Em mim, refreio a carne em devoção,

Renuncio o toque, detenho-me no pecado.


Ofereço a Deus o tempo do desejo,

Calo o impulso em nome da pureza;

Oro, e na oração disfarço a incerteza,

Mantenho o corpo, longe do que almejo.


Espero em Ti o selo prometido,

Rezo por força, fé e retidão;

Vigio o olhar, o sonho e o sentido.


Obedeço à lei da santa elevação:

Casto por fora, inteiro e comedido,

Êxtase oculto em forma de oração.

Contrição Perfeita

Prometi-te espera, zelo e vigília,

O passo lento, a mão em oração;

Disse que o amor se aprende na família

E que o corpo obedece ao coração.


Falei-te em altar, véu e paciência,

Em noite clara, em luz que não se apaga;

Que a carne é fraca, exige resistência,

E o desejo, em silêncio, se propaga.


Mas quando inclinas, mansa, a fé no ouvido,

E o teu perfume insiste em me converter,

Rezo mais baixo, já quase vencido.


Pois há pecados feitos pra se crer:

Perder-se inteiro, lento e consentido,

Como quem cai — só para gemer.

É preciso perder para vencer no amor

É preciso perder para vencer no amor:

Ceder o passo, orgulho e a primazia;

Quem tudo quer, empobrece o ardor do dia

E faz do afeto um cálculo menor.


Amar é consentir no dissabor,

É renunciar à posse e à tirania;

Só vence quem, no risco da agonia,

Aceita a dor secreta como flor.


Pois o amor não floresce em mão cerrada,

Nem vive onde a vitória é proclamada

À custa da rendição do coração.


Perde-se o eu, e nisso está a vitória:

Que só se escreve inteira essa memória

Quando se perde, em si, toda a razão.

Vencer no Amor

Vencer no amor é já perder-se em si,

Pois quem se entrega abdica do governo;

O passo é livre, e, livre, torna eterno

O doce erro em que a alma ousou cair.


O amor, que solta as rédeas do porvir,

Faz do querer um cárcere moderno:

Prende mais fundo quanto é mais fraterno

O laço invisível a nos conduzir.


Mesmo liberto, o amante se faz preso,

Cativo do prazer que o faz contente,

Vivendo o ardor que escolheu coeso.


Ama, e no amar repete, inconsequente:

Vencer no amor é naufragar ileso,

Perder-se inteiro, para ser presente.


*


Se no perder-se o amor se fez morada,

Já não desejo a intacta autonomia:

Prefiro a luz que dói, mas irradia,

À sombra de uma paz desabitada.


Pois quanto mais a alma é dominada,

Mais reina, estranhamente, em seu querer;

Serve ao amor — e aprende, ao se render,

Que a servidão pode ser coroada.


Não há vitória em ser senhor de si

Quando o coração, mudo e resistente,

Se nega ao dom que pede para ir.


Melhor cativo, lúcido e ardente,

Que livre e só, guardando o que perdi

Por não ousar amar suficientemente.


*


Vencer no amor é dar-se sem temor,

Não por fraqueza, mas por escolha inteira;

É passo livre em direção verdadeira,

Onde a coragem assume a forma do amor.


Não prende o amor quem ama com rigor:

Quanto mais solto, mais firme a maneira

Com que dois rumos, sem perder fronteira,

Se encontram plenos no mesmo fulgor.


Entrega livre não dissolve o eu,

Antes o expande em lúcida presença,

Como quem cresce ao partilhar o céu.


Vencer no amor é esta recompensa:

Querer o outro sem perder o seu,

Ser dois inteiros na mesma esperança.


*


Não trago a ti correntes nem promessas,

Mas o fruto exposto ao sol da estação;

Jovem e inteiro, alheio à contenção,

Que se mantém conforme o cultivas.


Teu gesto inclina o dia, e nele ingressas

Como quem muda o eixo ao caminhar;

Não me desfaço ao risco de ficar:

Mais claro sou por onde passas.


Assim, não perco o nome nem a voz,

Nem troco a forma íntima do ser;

Sou mais exato quando estamos nós.


E se há vitória, é simples de dizer,

Sem rodeios nem vãs filosofias:

Vencer no amor é amar você.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Um sinal vermelho assombra o mundo

Um sinal vermelho 

assombra o mundo


um sinal hot,

um sinal mudo


sinal, sinal, sinal

do novo mundo


tão velho

quanto novo


filho deste tempo,

criança quente


num vermelho

sinal

efervescente


de sangue azul,

sem rubra cor


um vermelho sinal

que não é amor


não é o sangue

dos pobres


não é a rosa

do povo


não é este

que assombra o mundo


mas outro


herdado em fetichismos

de labirintos de influências


de uma dinastia

que traz no nome a cor


e a usa

como escudo


do Mal


para se esconder

no escuro do dissabor


do Capital


o espectro escarlate 


do imoral


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Fla-Flu ou Ilmo Sr. Sogro Fluminense

Amigo sogro,

muito te venero,

mas quando é nesse terreno

sou pouco indulgente

com teu velho Flu.


Agradeces o boné

que te dei — é de fé,

foi gesto de boa gente;

mas veja, amigo:


Mas a camisa do Zico

não é mimo pequeno,

nem concessão.

Mas chama olímpica,

que passa em herança,

pra ver se, em plena esperança,

converte um coração.


Amigo antigo,

respeito o teu perigo:

esse pó de grená, quiçá,

que aprende a sofrer.

Mas quis o rubro,

porque te quero bem,

e o vermelho inteiro

pra me fazer crer 

na amizade cordial, eu te presenteio

no Flamengo, também de Jorge Ben,

na forma desse rubro manto e boné bordô

de saudoso guerreirinho e grave urubu.


Dei-te o manto sagrado,

mas guardei, lado a lado,

a paixão brasileira do Fla-Flu.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Ofício Capital

Escritório que me arranca o tempo inteiro

E a força de viver o que eu queria,

Que rouba, dia a dia, o meu canteiro

Onde o desejo em flor ainda surgia.


Guardo no peito, feito um jardineiro,

O sonho que cultivo e que me guia;

Busco fazer de tudo, honesto e inteiro,

Mas tudo custa mais do que devia.


No fim da tarde, exausto, já vencido,

Vejo o tempo escorrer, pobre e mesquinho:

O sangue foi sugado, consumido,

Por vampiros do preço de um destino,


Nesse ofício sisífico, Ulysses de um dia,

Moderno herói, vai fulminar a monotonia!