Meu carro pifou na descida da serra,
uma curva e pronto: silêncio parado.
Nisso a conta do mês passou do limite
e o banco sorriu:
“Você está pré-aprovado para o fracasso.”
A geladeira parou,
a luz piscou,
o chuveiro queimou.
Tudo em mim entrou em curto
menos a paciência,
que já se foi faz tempo.
Sinto saudade de ser menino,
de cair e rolar sem boletos,
de correr sem destino,
de saber que alguém faria o jantar.
Sinto saudade de ser menino,
de repara o mundo em curiosidade,
acompanhando meu pai nas construções,
como pintor de rodapé.
A vida me empurra
num carrinho de supermercado torto.
Tento dar direção, ladeira abaixo
mas as rodas têm vontade própria.
Há dias em que penso:
“Hoje, ninguém morre.”
E ganho o direito de seguir.
Também há os momentos bons —
o café quentinho, a brisa da manhã,
quando o ônibus vem vazio,
quando alguém diz meu nome
com alguma ternura.
Então penso, quando tudo dá errado:
Calma, rapaz,
Tudo passa —
Inclusive você,
Como a sua infância.
Até os sonhos que você esqueceu de sonhar.
E então concluo:
Carpe diem, como disse o poeta
mas leve o guarda-chuva.
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