terça-feira, 15 de abril de 2025

Vida Adulta

Meu carro pifou na descida da serra,

uma curva e pronto: silêncio parado.

Nisso a conta do mês passou do limite

e o banco sorriu:

“Você está pré-aprovado para o fracasso.”


A geladeira parou,

a luz piscou,

o chuveiro queimou.

Tudo em mim entrou em curto

menos a paciência,

que já se foi faz tempo.


Sinto saudade de ser menino,

de cair e rolar sem boletos,

de correr sem destino,

de saber que alguém faria o jantar.


Sinto saudade de ser menino,

de repara o mundo em curiosidade,

acompanhando meu pai nas construções,

como pintor de rodapé.


A vida me empurra

num carrinho de supermercado torto.

Tento dar direção, ladeira abaixo

mas as rodas têm vontade própria.


Há dias em que penso:

“Hoje, ninguém morre.”

E ganho o direito de seguir.


Também há os momentos bons —

o café quentinho, a brisa da manhã,

quando o ônibus vem vazio,

quando alguém diz meu nome

com alguma ternura.


Então penso, quando tudo dá errado:

Calma, rapaz,

Tudo passa —

Inclusive você,

Como a sua infância.

Até os sonhos que você esqueceu de sonhar.


E então concluo:

Carpe diem, como disse o poeta

mas leve o guarda-chuva.

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