segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Caminhando no Escuro

O silêncio me abraça em noite sem morada,

Um vácuo onde o tempo dissolve a direção.

Minh’alma, navegante de dor enraizada,

Carrega o desalento em densa contramão.


Os passos são mais lentos, o peso é infinito,

E o eco do que fui consome o que serei.

No peito, um labirinto sem fim, ermo e aflito,

Onde a incerteza é tudo o que encontrei.


Mas vejo, na penumbra, um novo entendimento:

O vazio não oprime a quem ousar viver.

Na escuridão, há força, há lume no tormento,


Se a coragem fizer do nada um renascer.

Pois mesmo o breu profundo é casa e horizonte

A quem no próprio abismo erguer firme a fronte.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Corpo e Alma

O corpo e a alma são a mesma coisa,

unidos no conflito que os consome;

a carne, no instinto, busca a ausência,

a alma, o alto céu, que nunca some.


Quisera ser constante em minha essência,

ser puro, animal ou anjo, imutável;

mas sou livre, e esta é a minha queixa,

que erro e me refaço, indefinível.


Viver conforme a alma, em harmonia,

sem ceder à matéria e seus reclames,

é o desafio ao qual Deus se desafia.


Pois sob o véu desse dito livre-arbítrio,

estamos todos presos à mesma agonia:

de esculpir-se sem a forma que o defina.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Com as Forças de Meus Braços

Com as forças de meus braços, ergo o céu,

qual Atlas, que o peso aceita em desafio;

a vida dobra-se ao meu papel,

e o caos se ordena no que edifico.


Minha verdade é rocha, matéria e chama,

não há sentido além do que componho;

sou eu quem traça a curva da jornada,

sou meu presente, meu limite e destino.


Se a gravidade insiste em sua trama,

respondo em atos, lucidez severa;

a coerência é a que a tudo inflama,

e guia o passo, onde a incerteza impera.


E quando o tempo marcar minha fronte,

tornando os dias severos, quais laços,

terei firmado, com vigor, meu alicerce,

e erguido meu lar com a força dos braços.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Caminho (ou da série sobre como eu conheci sua mãe)

Há um amor que não tem explicação,

uma chama que arde sem razão,

é a ausência que se faz presente,

e é na falta que o coração sente.


A pessoa que rouba o teu querer,

mas com ela não podes, não podes ter,

é a que te marca sem dar explicação,

a que habita e desmonta a razão.


Não importa se o mundo é perfeito,

se ao lado dela te vês completo,

pois quem tem o poder de fazer sorrir,

sempre será a que faz a alma ir.


Não busques a lógica no que é sentido,

o amor é cego, ao vento perdido,

e quem, na vida, te faz mais forte,

te leva encontrar, a cada instante, o norte.


É a dor que te chama e te faz correr,

aquela que te obriga a entender

que não há razão, só um eterno jogo,

onde a alma se perde e volta ao fogo.


E no fim, mesmo longe e distante,

sempre voltarás ao amor constante,

pois quem roubou o teu ser, sem explicação,

é que ficará, eterno, no teu coração.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Discurso sobre a Tolerância

Que força é essa que nos faz julgar,

erguer as armas contra os nossos iguais,

quando a razão, no silêncio do pensar,

clama por paz e por direitos reais?


De que serve a fé que separa e divide,

se o mesmo sol nos banha em sua luz?

Deus, se existir, não manda que se agride,

nem prega o ódio que em nós se conduz.


O julgamento, essa vingança pequena,

é a preferida das almas limitadas,

que temem o outro, e nele, a condena,

em busca de suas falhas disfarçadas.


Tolerância, ao contrário, é a sabedoria,

que abraça a verdade na pluralidade;

não na imposição, mas na harmonia,

onde a mente se expande em liberdade.


Pois não é a moral que purifica o ser,

mas a aceitação da finitude humana;

e na aceitação, ao invés de perecer,

a alma transcende e se irmana.

Sal da Terra

É no estudo que o mundo se refaz,

na tensão dos contrários, o sentido;

do embate surge a força que é capaz

de transformar o velho em redimido.


Dialética é o motor que impulsiona,

é o sopro que altera e recria o todo,

que ao desconstruir também posiciona

os alicerces de um futuro novo.


Não há progresso sem o questionar,

nem revolução sem resistência;

é no saber que o homem vai forjar

a substância viva da existência.


Sal da terra, substância em disputa:

a ideia só avança na ideia que o refuta.

Olhos marejados

Há uma beleza que nasce do pranto,

um brilho sereno que o sal reflete;

nos olhos marejados vive o encanto

de quem sente a vida demasiadamente.


A melancolia é sombra que abraça,

um véu de silêncio, doce e pungente;

não é vazio, mas curva que passa

no rio profundo de um ser consciente.


Chorar é tocar na alma mais funda,

é dar ao sentir a sua expressão,

é ouvir do tempo a nota profunda

que faz do existir uma composição.


Olhos marejados são faróis do ser,

beleza rara de quem insiste em viver.

Deus põe, o homem compõe

Deus põe a pedra, e o homem, a moldura,

cava na rocha formas do infinito,

dá nome ao caos, inventa a escritura,

e no vazio escreve o seu mito.


Põe Deus no alto, em tronos de quimera,

mas é da carne que lhe dá sentido;

cria-o à sua imagem, e assim opera

um deus que vive do humano perdido.


Religião, um espelho em névoa densa,

legitima a ordem que o homem reclama;

mas na fumaça dessa crença imensa,

o fogo queima onde o homem trama.


Se Deus existe, é só projeção:

a máscara feita por sua mão.

Deslubramento

Dormem todos sob o véu do costume,

de olhos fechados, seguem a vida,

não veem o brilho que o mundo resume,

nem ouvem a música que o ar partilha.


Pisam na terra, mas sem percebê-la,

correm no tempo, sem lhe dar valor;

vivem na pressa que cega a janela,

ignorando a vida ao seu redor.


Mas há os poucos, raros, despertos,

que olham o céu com o peito aceso,

veem no vazio os mistérios certos,

e vivem do mundo o puro desejo.


Esses deslumbram-se, sem se cansar,

pois tudo é novo a quem sabe olhar.

Até mais ver, caros amigos

Até mais ver, eu vos deixo agora,

não por desprezo ou cansaço vão,

mas porque a vida exige que se mora

onde o silêncio nutre a percepção.


Parto ao abrigo de um tempo sereno,

em que a palavra ceda ao pensar,

e o eco do mundo, embora pequeno,

me ensine o muito que há por buscar.


Não guardo rancor, tampouco tristeza,

apenas aguardo que o tempo abrigue

em vossas mentes a clara certeza

de que saber é libertar-se da rigidez antiga.


Até mais ver — e que este mais signifique

ver mais além, onde o saber se amplifique.

Minha pátria é a cultura brasileira

Não é de vidro ou aço a minha essência,

nem vem do além-mar o meu refrão;

minha pátria é o som da resistência,

é o canto que ecoa do sertão.


É a viola que chora em noites puras,

o samba que embala a madrugada,

o cordel que eterniza mil figuras,

e a dança da ciranda improvisada.


É a capoeira, dança de guerrilha,

o bumba-meu-boi nas noites de verão,

a história cantada na cancela,


que pulsa em cada nota da canção.

É o Brasil que habita a alma inteira:

minha pátria é a cultura brasileira.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

A CONSTITUINTE ENTRE O PRINCÍPIO E O FIM: UM ESTUDO SOBRE A INSTRUMENTALIZAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NA CARTA MAGNA DE 1988


“ESTE NORTE” EMMANUEL NASSAR,  RIO DE JANEIRO 2012

Este artigo tem como objetivo aprofundar a análise do caráter principiológico dos direitos fundamentais presentes na Constituição Brasileira de 1988, a partir de sua materialidade histórica. Para compreendermos plenamente o contexto histórico, é crucial destacar que a promulgação da Constituição ocorreu em um momento marcado por significativas aspirações de reformas sociais, iniciadas durante a presidência de João Goulart, as quais foram interrompidas abruptamente pela ruptura democrática com a ditadura de 1964. Nesse cenário, surge a hipótese de que, apesar do avanço evidente na garantia de direitos na Constituição de 1988, a concretização desses princípios foi propositadamente limitada, devido à influências políticas que podem ser verificadas historicamente, que encontram amparo na legalidade sob forma do neoconstitucionalismo. Diante disso, o estudo propõe uma reflexão a partir do materialismo histórico-dialético, calcada na historicidade brasileira sobre o papel dos princípios e, concomitantemente, sobre a necessidade de questionar a abordagem do neoconstitucionalismo. O objetivo final desta pesquisa é analisar a situação atual dos direitos fundamentais no Brasil e reavaliar sua relevância, considerando o contexto político e social que envolve sua implementação. Acredita-se que uma compreensão mais aprofundada dessa dinâmica é elementar para direcionar sua própria superação.

Palavras-chave: constituição brasileira de 1988, direitos fundamentais, neoconstitucionalismo, teoria dos princípios, reformas sociais.

Acesso ao artigo. 

Ética

Sou no início uma faísca,

centelha viva, em expansão,

matéria bruta que se arrisca

no campo vasto da amplidão.


Nada há fora da substância,

pois tudo é um só fundamento;

corpo e mente, em consonância,

se movem juntos no momento.


O poeta, que a si se trama,

não é figura isolada e límpida;

nasce do mundo, onde se chama

à potência que irradia turva.


Não há alma desatada,

não há essência transcendida;

sou o corpo, sou a estrada

que se constrói na própria vida.


Deus não mora em altos céus,

nem se aparta da matéria;

Deus é tudo, em seus anéis,

é a natura em vida etérea.


A liberdade não é sonho,

nem é ausência de cadeias;

é o saber que, ao seu entorno,

abre-se as portas das ideias.


Entender o que nos move

é descobrir no outro a ponte;

não há falta que comprove

ser-se só, sem horizonte.


O afeto é a lei suprema,

força bruta, direção;

cada encontro em nós projeta,

tece o fio da amplidão.


Bem não é o que censura,

nem o mal que nos separa;

é o comum que, em força pura,

liga o ser a sua essência rara.


Se há lógica na existência,

é a da causa imanente:

somos todos, sem carência,

feixes vivos no presente.


Vibra em tudo o eterno um,

nada escapa ao ser profundo;

a substância, em seu comum,

é o que funda o próprio mundo.


No infinito nos fazemos,

não há fim nem separação;

quanto mais nos conhecemos,

mais nos tornamos criação.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Lado "B"

Há um canto escondido em cada ser,

um véu de sombras, um porquê.

No palco claro, o que querem ver,

mas na penumbra, o lado "B".


Como a lua que se vira de costas,

mostrando ao sol só a face aceita,

há mundos em nós, histórias propostas,

na parte oculta que ninguém suspeita.


Um eco sussurra no breu do peito,

estrada sem mapa, mas que é lar.

Quem vê o brilho não sente o defeito,

quem busca o escuro aprende a amar.


Pois tudo que é mistério, é potência,

é vastidão que se faz pulsar.

Na face velada mora a essência,

no desconhecido, o verbo sonhar.


Reverencio o que não entendo,

o não dito, o que insiste em calar.

Na curva da alma, sigo aprendendo:

o lado escuro também sabe brilhar.

Trocadeiro

Saía da missa em uma manhã fria,

criança, meus pais comigo, o céu aberto.

No canto, um homem, rosto em agonia,

olhos famintos, peito deserto.


“Pai, me dá um troco, é pra comer”,

menti na prece, o olhar baixei.

E o dinheiro, sem hesitar,

na mão do pobre, enfim, deitei.


Ele chorou, a voz tão rouca:

“Que Deus te guarde, alma tão pura.”

Nos olhos dele, a dor se apaga,

ao ver na infância uma brandura,

que no mundo não se acha.


Meus pais, silentes, ao meu lado,

viram no gesto o bem que ensina.

E assim segui, coração leve,

com alma clara, quase divina.


O tempo me levou longe, por ruas e bares mil,

buscando nos prazeres algo mais viril.

De carro pela cidade, na noite a vagar,

vi o velho no passeio, deitado sob o luar.


A placa dizia "Trocadeiro", reluzindo em néon,

e a miséria ali dormia, esquecida por quem foi bom.

Enquanto a festa me chama, o riso me distrai,

o silêncio me pergunta onde a pureza foi,

o peso da existencia enfim em mim recai.


Os anos passam, cresci na pressa,

noites sem rumo, prazeres vãos.

Pelas esquinas, a vida balança,

resta apenas o vazio entre as mãos.


Naquele hotel, o Trocadeiro,

em sua porta, o chão de pedra,

vi o homem, já sem memória,

dormindo ali, sob sua alma.


Naquele instante, o peso veio:

quem eu me tornei no tempo então?

Será que ainda guardo comigo

a fé de outrora, a compaixão?

Hoje homem feito, diante do mundo.


A lua assiste, tão silenciosa,

e a noite envolve o velho hotel.

Entendo agora o que significa,

que só a criança entra no céu.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Queixa à Ausência de Boas Ideias Contrárias

Os sujeitos veem, mas não observam,

Leem, mas nada interpretam;

Vivem com medo do fim,

Perdem-se atrás de um serafim.


Buscam sem saber aonde,

Caçam sem saber o quê;

Adoram o altar da mesmice,

Rendem-se ao próprio desdém.


Ruminam ideias vazias,

Fingem que pensam profundo;

Ego inflado, gesto miúdo,

Fé exacerbada, pouco estudo.


Vestem-se de púrpura, chorosos,

Entoam hinos de glória melancólica;

E o véu sagrado lhes tampa os olhos,

Para a realidade porta afora.


Abraçados à Summa Theologica,

Que o próprio autor queimaria,

Pois, não vendo nela apreço lógico,

Em mistério divino tudo concluiria.


Fogem do novo, qual diabo da cruz,

E odeiam tudo que lhes é contrário.

Preocupam-se com a cor de Jesus,

E assim temem Ários novos.


Ergam, pois, seus tronos de tolice,

Que, com facilidade os desfaço,

Provo que a ideia é engano,

E que não passam de otários.


MIRE O VAZIO

WATCH THE GAP

(Para Gerald Thomas)


No chão está a inscrição:

"Watch the gap" — é o aviso,

Um buraco no caminho,

Entre o trilho e o destino.


Esse espaço que é vazio,

Mas carrega a decisão,

Entre o salto e o recuo,

Entre o medo e a decisão.


Olhe bem para o abismo,

"Do not fall, do not despair,"

Mas ao fitar o vazio,

Ele olha pra você, there.


O sujeito e sua angústia,

Diante de mil escolhas,

Entre o passo e o silêncio,

Entre o chão e as estrelas.


"Watch the gap," diz a estação,

Enquanto a vida ecoa como um trem,

Pois no vão de cada escolha

Há um mundo que a contém.


O que há entre esses trilhos,

Entre o ser e o tornar-se?

É o nada que nos guia

Ou a força de enfrentar-se?


Trilhos para atritos, faíscas e estopins,

Para correr a carga da existência,

Para tornar-se algo no próprio existir,

E brilhar no cosmos, sua pura essência.


"Mind the gap," o pensamento é consorte.

Como buzina, um grito ao além-mar,

Que pede ao ser seu passaporte,

Para enfim lhe recordar:


O trem se encaminha à morte,

E não há como descer ou parar.

Mas o abismo é o próprio norte,

E o salto permite a si mesmo alcançar. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Quinta Coluna para Nova Forca


Rebeldes destroem Imagem de Bashar al-Assad, na Síria • Reuters / Reprodução


Na areia deserta, onde ecoa

como grito rouco, a fé ressoa.

Primavera? Flor carmesim,

árabe sangue em chão sem fim.


Os jovens marcham, em esperanças,

para cair sob as mesmas lanças.

Bashar declina; em sua ruína,

no chão que ainda arde a chama.


Do trono cai o velho algoz,

mas quem nos salva olha pra nós

com olhos duros, passo mudo,

um novo espectro, mesmo escudo.


Al-Julani toma o dia,

esconde o ímpeto em ironia.

Liberdade? Já se gasta.

Outro jogo, mesma agenda.


O que está fora, cá reflete,

espelho turvo e mal-olhado.

Tiranos morrem, eis o enredo:

os vícios só trocam de trono.


Quinta coluna e nova forca,

o laço aperta, o ciclo enforca.

Pois nesta roda, a solução,

é nova máscara do mesmo cão.

Tique-taque-ando

O tempo passa, sutil, mascarado,

No tique-taque que mal percebemos.

Um fio tênue que nós desfazemos,

Enquanto a vida passa acelerada.


Corremos sempre, o olhar desatento,

Atrás de sonhos que nunca alcançamos,

E deixamos pra trás o que amamos,

Perdendo-nos no passar do tempo.


Ah, que tolice é viver de ausências,

Sem reparar no instante que cintila,

Na mão que toca e na voz que chama.


O tempo é breve, mas suas essências

Se tornam vastas, se o coração trilha

O dom de estar entre quem mais se ama.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

A beleza das obras simples

Hoje me surpreendi assistindo a um filme popular, originário de um desses best-sellers que jamais leria. Inclusive, não lembro da última vez em que li algo simples, um romance bobinho, coisas desse gênero. Assisti ao filme para uma conversa no trabalho. Não sei se estou emotivo nos últimos dias, mas o filme me pegou por várias razões. 


Fazia um tempo que não sentia isso, e foi extraordinário.

DIREITO E DEMAGOGIA: UMA CRÍTICA ONTOLÓGICA DO DIREITO A PARTIR DE HENRIQUE VIII DE WILLIAM SHAKESPEARE


Este artigo examina a relação entre literatura e direito, utilizando a peça "Henrique VIII", de William Shakespeare, como uma lente para explorar a fundamentação ontológica do direito a partir da materialidade histórica da narrativa. Argumenta-se que a literatura, ao retratar eventos históricos, desempenha um papel essencial na compreensão do direito, pois encapsula a subjetividade que constitui a narrativa jurídica. A peça, ambientada na Inglaterra Tudor, destaca como a religião influenciou a criação de leis e a definição da moralidade a partir de interesses específicos, que a história, bem como a arte que a retrata, são capazes de evidenciar. Nesse sentido, a pesquisa bibliográfica, por meio do materialismo histórico-dialético, baseia-se na materialidade histórica da narrativa como uma ferramenta elementar para compreender a base ontológica do direito e sua evolução, diante da hipótese de que a ontologia do direito está relacionada a materialidade dos eventos que moldaram sua “essência” e definiram seu caráter na sociedade. Concluiu-se que a base ontológica do direito é uma ficção que consiste,  mais especificamente, no uso da demagogia como método para o estabelecimento  do sistema jurídico e da manutenção de interesses privados sob o falseamento de  sua natureza real.

Palavras-chave: literatura; direito; Shakespeare; Henrique VIII; ontologia. 

Acesso ao artigo. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Noite Escura

Noite escura, céu sem astros,

Vento corta a mata densa;

Tudo é vasto, tudo é vago,

Em meu peito a calma imensa.


Sou a ponte e sou o rio,

Que nunca é o mesmo ao passar;

Talvez me apareça uma onça 

A qual possa abraçar .


Aqui há ordem, há destino:

O rio corre ao grande mar,

Folhas buscam luz divina,

Tudo encontra o seu lugar.


E eu, perdido, aqui me encontro,

Para nas águas me lançar;

Nos abismos da existência,

Reaprendo o meu lugar.


Rumo ao fundo, na cadência,

De uma essência mais serena,

Vejo o reflexo na corrente,

De quem sou—minha cena plena.


E quando o coração transborda,

Eu me torno o que há de ser:

Carne, verbo, luz disforme,

Aquietado em meu viver.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Deus ex Machina

Sobe a corda, desce o vulto,

um deus que paira sobre o enredo,

desfaz o nó, desfaz o insulto,

resolve a trama, dissolve o medo.


Entre os mortais, a cena tensa,

o caos estala, o drama inflama.

Mas eis que surge a força imensa,

do alto, máquina proclama.


Um guindaste alça o impossível,

sua engrenagem risca o céu.

A solução, tão inconcebível,

é ofertada, um justo véu.


De artifício nasce o mito,

do palco à vida, o improvável.

O homem, inventor bendito,

transforma o irreal, palpável.


O deus que desce, engenho e arte,

sua existência é obra humana.

De Eurípides até Descartes,

máquina que o mundo emana.


Que seja o aço o nosso canto,

e o guindaste, nosso altar,

pois é do artifício, o encanto,

que a trama há de se aclarar.

O Movimento

No princípio,

não havia forma.

Era tudo pulsação,

força sem contorno,

um grito em espera.


O verso, inquieto,

rompeu silêncios.

Dobrou o espaço,

esticou o tempo,

e dançou na folha branca.


Palavras se chocaram,

como faíscas na noite.

Do atrito, o fogo;

do fogo, a ideia;

da ideia, o mundo.


Mas o mundo não cessa.

Avança, recua,

inventa e destrói.

O poema é vida,

e vida é movimento.


E se ao fim há um descanso,

é no ritmo do compasso:


Nasce o sonho, toma forma,

vida em luta que transforma.

Segue o verso, em tom preciso,

sai da ordem, cria o riso.

Tudo é ciclo, eterno afã,

muda o mundo, faz o amanhã.

Impermanência

A folha que o vento leva,

não volta ao mesmo lugar;

é o tempo que lhe enterra,

o que noutra forma há de voltar.


O rio que escorre ao longe,

não guarda o que já passou;

sua pressa então esconde

o que a corrente levou.


Na chama que o lume alcança,

há cinzas por descobrir;

a vida é breve esperança

que arde para se extinguir.


O chão que hoje me sustenta,

um dia será mais pó;

e a carne que me alimenta

vem de um animal morto.


Se tudo é fim e começo,

sou barco em pleno torvelho.

Na mudança me confesso,

sou o instante diante do espelho.

Azul-Índigo

Não é azul, nem roxo,

não cabe no nome que lhe dão.

É quase,

um entre,

um talvez.


Se estende no céu

como um suspiro do sol que se foi,

e nos olhos do dia que vacila.

Desdobra-se em véus,

um rastro de cor que não quer ser presa,

apenas azul-índigo.


Não se pode dizer índigo.

Dizer é menor que sentir.

É mais como um silêncio que paira,

um olhar que atravessa o instante

e deixa o mundo em suspenso.


Se há beleza,

é porque escapa,

é porque se desfaz no toque,

como o eco do mar nas nuvens.

Geodésica

        Ponto.  

     Linha que parte,  

  curva que corta o vazio,  

esfera em dança que se reparte,

no centro, silêncio,

sutil,

frio.


 Cada vértice em tensão contida,  

cada aresta a pulsar caminhos,  

como teia em trama bem urdida,

ou galhos que buscam

seus desalinhos.


       Arco.  

     Tenso, côncavo,  

quase uma cúpula do invisível,  

num só desenho, simples e estável,

harmonia que embala o imprevisível.


     O todo gira,  

   plana, inclina,  

     ergue-se em leveza,  

um geóide que à mente fascina,  

 a forma, no caos,  

       é certeza.  


         Ponto.  

     O círculo volta.  

  Não há fim na linha do espaço,  

mas traços que brilham em formas soltas,

curvas perfeitas de

cada

passo.


dados por deuses,

ou pelo acaso?

tenho cede

passo. senão 

me atraso, agora

para o trabalho.