sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Deuses e Homens

Na abóbada que o artista pintou,

um dedo se estende, tocando o nada.

Adão descansa, feito do barro,

e Deus se ergue na luz inventada.


Mas diga: quem criou quem, afinal?

O traço não mente, é claro no quadro:

um Deus com rosto de homem banal,

cheio de medo e desejo moldado.


É homem o arquiteto do sagrado,

pois nos céus projetou seu espelho.

Os deuses nascem da mente que aflora,

e neles, nosso orgulho e receio.


Onipotente, mas frágil, caprichoso,

feito da mesma poeira em que pisamos.

Se os deuses são grandes, é pelas metades

que em nós mesmos vamos inventando.


Michelangelo, em traço certeiro,

revela o mito que a igreja contou:

Deus não toca Adão do alto do céu,

é Adão quem o erige como criador.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O Espírito do Cristianismo

No altar do mundo, o homem a Deus invoca,

Porém em Deus se vê, no espelho alçado;

Não é celeste o verbo que o provoca,

Mas seu anseio em mármore entalhado.


Projeta ao céu o que lhe falta em peito,

Virtudes que não tem, amor perdido;

E crê em um além que é seu preceito,

Sem ver que o sagrado é construído.


Não há divino fora do humano espelho,

Nem há poder além do que é pensado;

O céu é a máscara do nosso ensejo.


Ó homem, és o templo edificado,

A força e o mistério em ti se encerram,

Mas teus deuses, na ideia, te desterram.


Publicação de Primícias a Dionysus (2024)

 


Sob linhas tortas

Sob linhas tortas

Escrevo com sangue

Minha própria história.


Caracteres ao léu,

Que, desejantes do céu,

Rompem a aurora.


Ainda sobre as linhas,

Deus, ao escrever o "certo",

Vive preso em vãs memórias.


Preso a grilhões, como Prometeu,

Mas sem cumprir suas promessas,

Pois já certo de si mesmo.


Acomodado a suas sentenças,

Deus não move dedos contra a ordem,

Ainda que maligna seja.


Ainda que maligna seja

A sua ordem natural, que tanto oprime,

Suja e podre para uns, para outros, cristalina.


Assim, não mudará o mundo

Até que se anuncie contra si

Sua própria sentença divina.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Ode a Mefistófeles

Ó espírito astuto, sombra e luz retinta,

Ventre da dúvida e da negação,

Que a razão ensinas, sob forma distinta,

Na dança eterna da contradição.

Não temes a fé que tudo subjuga,

Ao dogma falaz de um manto sagrado;

Pois sabe o poder que aos cegos perjura,

Da cruz erguida num ouro dourado.


Ó sutil tentador das almas mortais,

Mefisto, rival das certezas divinas,

Desnudas segredos nos templos reais,

Onde o ouro, profano, as almas destina.

Quão bela a igreja, erguida ao céu limpo,

Porém podre em seu pilar corrompido,

Vende indulgências, fraudes do olimpo,

E aos pobres promete o sonho perdido.


Com ironia vestes de manto nobre,

Aquele que brada a fé sem ciência,

Mas sobre as preces do desvalido pobre,

Faz-se o altar da cruel negligência.

E tu, ó Mefisto, que ao homem instigas,

A ser consciente, no mundo cruel,

Ensinas que há forças que são inimigas,

E que a luz só fulge por trás de um véu.


Que tragicomédia é a fé mercenária!

Que circo, o rito de puro interesse,

A voz dos poderes que, em cena precária,

Pregam amor, mas com ódio em prece!

Tu ris, velho demônio, e teu riso sublima

Dançando entre hipocrisias e medo,

Pois sabes: a força que a mente ilumina

Surge do embate em que a sombra é enredo.


Ó Mefistófeles, eterno revés,

Antagonista da hegeliana lição,

Se és a negação, és também quem refaz,

A vida em sua dialética visão.

Entre o céu e a terra, na luta imposta,

A verdade só nasce no caos a contento;

E a fé cega, da igreja em sua aposta,

Desfaz-se inteira ao toque do teu argumento.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Olhos de Cão

Nessa confusão, meus olhos de cão

Observam o fio da vida se fiar,

Como canção que pretende ao violão,

Na madrugada, para a lua quer uivar.


Mas os olhos de cão, diabólico

Atentos ao escuro, à dor e ao erro,

Veem o que o homem nunca ousaria:

O abismo que se esconde no espelho.


Meu mundo, um deserto a caminhar:

Trabalho, cotidiano; sonhos, lazer;

Mapas, candeeiros; pássaros e suas rotas.

Tanta possibilidade, tudo a se fazer.


Mas os olhos de animal, atentos ao nada,

Veem o que o humano não quer ver:

O que se perde no ritmo da estrada,

E o que se encontra, sem saber o porquê.


O acaso só é possibilidade não percebida,

O barroco invisível aos olhos da gente,

Que procura sempre, para tudo, a melhor saída,

E se vê acorrentado, como cão, tão de repente.

As Cidades Invisíveis

Pelas ruas da mente, um desfile encantado,

cidades de outrora, agora miragens,

onde gente se perde num sonho enfeitado,

de glórias passadas, em fina maquiagem.


Que beleza, me digam, viver o que foi,

fantasiar palácios de ouro e desejo,

no teatro do tempo, é fácil ser herói,

quando tudo é lembrança e nada é ensejo.


Ah, as grandes memórias, tão ricas, tão belas,

erigem arranha-céus de papel e ilusão,

mas quem tenta tocá-las, tropeça nas velas

de um navio que afunda sem tripulação.


E os rostos que vejo são todos turistas,

em becos sem vida, museus do talvez,

viajantes do nada, com mapas e listas,

de histórias que ecoam sem chão ou de vez.


Que ironia elegante, viver no passado,

em ruas sem lastro, castelos sem rei,

um banquete de névoa, tão bem preparado,

mas o gosto? É poeira, turva insensatez.


E os poetas que riem, com taças em brinde,

sabem bem dos milagres que a mente fabrica,

são guias sarcásticos, em versos que linde

esses sonhos antigos, já fora de época.


Pois na festa do tempo, há quem dance em delírio,

abraçando memórias num baile sem fim,

e se a vida é presente, que seja um martírio,

pois viver de passado é um truque chinfrim.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O si-mesmo e suas demandas

Querem de mim a poesia serena, afável,

Palavras que agradem, sem tons de espinhos,

Mas trago em meu peito, voraz e indomável,

A chama que arde, sem planos, sem trilhos.


Querem que eu seja do molde que exigem,

Vestir as máscaras, submisso, calar,

E há quem me queira, porém só se fingem,

De mãos que me guiem, sem voz a clamar.


Por ela, quisera ser menos errante,

Saber-me em seus olhos perfeito, ideal,

Mas ela, com gestos de régua constante,

Se ilude ao querer que eu me mude, afinal.


Sou pobre, não vim das riquezas douradas,

No trilho do sonho, preciso suar,

Inteligente, navego as jornadas,

Mas nunca é justo em mim mesmo pisar.


Serei quem sou, mesmo em rota sofrida,

E embora me molde ao que o mundo requer,

Não troco meu riso, ou minha alma destemida,

Por ter de fingir o que esperam, ser o que quiser.


Não quero obedecer aos caprichos vazios,

Nem seguir as regras de um jogo falaz,

Prefiro nadar contra mares bravios,

Rasgando os limites que o mundo me traz.


A lógica fria, engano imposto,

Tenta me prender numa cela de dor,

Mas quero viver, estudar cada rosto,

Buscar o saber que transcenda o supor.


Quero entender o que move as verdades,

Quero ser livre, sem medo ou senão,

Quero ser tanto, sem as falsidades,

Sem ser de menos pra mim, ou em vão.


Pra você, que desejo, preciso ser vasto,

Mas nunca apagando o que em mim quer brilhar,

Sei que é difícil, o caminho é nefasto,

Mas vale a pena, se é pra me encontrar.


O amor que me pede que eu seja perfeito,

Só vale se sou quem eu devo viver,

E mesmo que o sonho pareça imperfeito,

Prefiro o real a só obedecer.


Tenho que dizer, tenho que dizer,

Pra todos ouvirem, sem falsa ilusão:

Vou seguir meu caminho, sem medo de ser,

Na contramão dessa vã convenção.


Criticar o mundo com fina elegância,

É arte que trago no riso mordaz,

Desprezo as promessas da tal relevância

De uma vida burguesa, sem gosto ou paz.


Ah, que delícia é não ter de buscar

O conforto dourado de um sonho apagado,

Prefiro o suor que me faz acordar,

Que o luxo sem alma, bem mascarado.


Que sentido há em ceias de prata,

Se o vinho tem gosto com pessoas reais?

Prefiro as esquinas, a rua insensata,

Aos salões de vaidades e risos banais.


Não quero o relógio que dita o compasso,

De uma dança sem cor, sem essência ou querer,

Prefiro ironizar, com meu verso e meu passo,

O destino de quem vive só por viver.


Que entendam então: minha vida é um brinde

À contrariedade, ao ser sem censura,

Pois viver de verdades que ninguém compreende

É melhor que morrer numa mesmice obscura.


Quero viver, quero viver de verdade,

Navegar pelos mares do incerto e do vão,

Conhecer cada face, do bem à maldade,

Sentir o que é vida, sem ter direção.


Quero a ciência do erro e acerto,

Saber do que é vil e do que é virtude,

Beber da angústia, do cálice aberto,

E então, só então, ter a tal plenitude.


Que graça há em rotinas marcadas,

Em sonhos pequenos que o medo embalsama?

Prefiro as estradas, as noites caladas,

Perder-me no nada que o tudo proclama.


Caminhar pelas sombras, sem rumo ou controle,

Sentir que sou livre, que sou visceral,

Fugir do banal, do conforto que enrole,

Da vida que traz a ressaca moral.


Quero ser brisa que corta a cidade,

Desafio que escapa à regra do jogo,

Minha alma é chama, é pura vontade,

Que o mundo transforme em poeira ou fogo.


Quero sair, sair por aí,

Com calma elegante, sem rumo exato,

Buscar no silêncio o que vive em si,

Sem mapas que prendam ou planos de fato.


Na procura serena, a vida me ensina,

Que a busca é um jogo de sutil ironia,

Pois rir de si mesmo é a arte mais fina,

Na dança que trava com a filosofia.


“Conhece-te a ti mesmo” — que bela sentença,

Um peso, talvez, de sabor refinado,

O fardo que carrego com justa paciência,

Escrevendo com a vida um verso marcado.


O si-mesmo exige, com plena gravidade,

Um trato sereno, um pacto sutil:

A poesia que nasce da própria verdade,

E se molda, tranquila, no peito febril.


Quero sair, sair por aí,

Com a serenidade de quem bem conhece

Que o mundo, por vezes, não há de servir

Ao gosto irônico de quem se merece.


Anseio coisas geniais, é verdade,

E se as portas fecharem com ar imponente,

Talvez o inferno, com certa vaidade,

Receba meu riso, tão indiferente.


Dispenso apenas morrer de tédio,

Prefiro o absurdo, a certeza do incerto,

Meu destino é coisa minha, e penso

Que viver vale mais, se o risco é desperto.


Vou morrer, eu sei, sem cerimônia,

Sem promessas de um fim glorioso,

O meu destino é duvidoso,

Um enigma que ri da própria insônia.


Meu caminho nesse mundo, eu sei,

Vai ter um brilho incerto e louco,

Dos que nunca perdem pouco,

E jamais se contentam com pouco, eu sei.


Vivo assim, entre o riso e o risco,

Serenamente, com fina ironia,

Pois perder e ganhar, é a sina,

É o preço justo de um sonho bonito.






segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Da Angústia Divina, ou do Fogo dos Deuses

 No abismo em que me vejo,

onde o ar pesa, onde o som se esvai,

não há mais estrela, só escuridão a me rodear.

A liberdade, essa fera solta,

não me consola — não me afasta.

Ela me pesa, me arrasta pela garganta,

uma fome sem fim, que não sabe nome.


Os deuses… se existirem,

murmuram em algum canto distante,

tão distantes quanto o eco de minhas próprias dúvidas,

como vultos fugidios em um sonho que não se realiza.

Será que eles também sentem o frio

do vazio, onde tudo se dissolve e nada se constrói?


E este fogo que arde em mim,

será meu ou já queimava antes de eu existir?

Ah, como ele arde, mas não purifica,

não liberta, apenas consome,

como se, ao tocar-me,

me ensinasse a ver tudo por um instante,

só para depois apagar a visão

com a cegueira da dúvida.


Eu, que sou carne, que sou medo,

caminho entre os restos de um céu que caiu.

Os deuses, se fossem humanos,

teriam seus castigos, mas

aqui, no fundo, nada há

senão o eco do meu próprio pensamento,

o grito sem som, o peso sem forma.


Liberdade, tu és a cruel ironia

de estar vivo e não saber onde me encaixo.

Tu me ofereces a chave,

mas sou prisioneiro da porta

que não sei abrir, e nem quero.

Que dor habita esse espaço sem nome,

onde os deuses, se existirem, se perdem,

e nós, humanos, com a mesma solidão,

nos buscamos em uma eternidade que não acontece.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Filósofo Sem Cabeça: A Maximilien Robespierre

Onde está minha cabeça? Onde mora o coração?

Se não sei para onde ir, sem sentir meus pés no chão.

Na incerteza do destino, descubro só o meu caminho,

preso à própria consciência e pulsões de sonho incerto.


Rumo a qual tesouro, nesse arco-íris vão?

Perguntas que perseguem o filósofo entusiasta,

prestes a pagar o preço de sua tão cara filosofia,

que ao mundo nada vale, nem sequer um tostão.


Mas a filosofia hoje lhe auxilia a viver indiferente

a quase tudo, e a quase todos, como se inexistente,

até o dia em que, ao povo, sua voz se opina,


e, por pensar demais, de maneira irreverente,

termina o filósofo, num ato vil e contundente,

com a cabeça tombada, sob a lâmina da guilhotina.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Amor: palavra de luxo

Amor: essa palavra de luxo

E como o luxo, tantas vezes vã,

Que sobre o significado absurdo

Se ausenta, ainda que sobre o divã.


Amor: essa palavra que diz,

À toa, banal ou radiante e bela;

Nunca diz, e quando, por um triz,

Falta dizer, tenta, mas sempre erra.


Os amores, filósofos catalogaram;

Outros viveram em romances,

Outros, ainda, mal lograram,

Tendo-os à vista, mas distantes.


Sobre a palavra, teses e antíteses,

Sobre o sentir, não é possível dizer

Ou, ao menos, tecer precisas sínteses,

Ainda que, com todo o coração, querer.


Amor é uma coisa para os gestos,

Para as ações e reações da vida,

Que, como a natureza, silencia

Para só então cantar seus versos.


Versos que só se pode ouvir,

Parando tudo o que há para fazer,

Tendo o coração diante de si,

Como no instante de morrer.


Versos que apenas se compreende

Por um instante, e depois outro,

Ao amar, assim, tão de repente,

Matar a sede e se afogar no poço.


Como se na travessia de um portal,

Caminho elementar para viver;

Sem o qual, tudo seria alfabeto e numeral,

E um poema bastaria para dizer:


Ama-se aquilo que se pode perder,

Ama-se aquilo que desejas ser,

Ama-se, ama-se e ama-se.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Bar do Zabot

No Bar do Zabot, brilham as paixões,

nos olhos dos presentes, traços de alegria;

ali o povo entoa as suas canções,

e todas as vozes se tornam uma.


A mesa é altar de ritos e saudades,

onde a vida se assenta, riso franco;

se erguem brindes por felicidades,

num ritual de amigos, quase santo.


Violões, cantos, batuques de improviso, (não obstante)

desfilam notas de um samba qualquer,

tecendo o tempo em laço delirante.


Ali, o mundo esquece o seu dever,

e eu sinto, enfim, num raro instante,

que a arte salva-nos de um vão viver.