A questão climática é, antes de tudo, uma questão moral. Muito além de estatísticas sobre aquecimento global e projeções de emissões de carbono, está em jogo o destino da vida humana em sua forma mais fundamental: a possibilidade de existência digna para as futuras gerações. Darrel Moellendorf, em Mobilizing Hope (2022), sustenta que o enfrentamento das mudanças climáticas deve ser orientado por um princípio ético robusto, que compreenda a interdependência entre justiça climática, erradicação da pobreza e o direito ao futuro. Ao abordar a moralidade do clima, o autor argumenta que o desafio ambiental deve ser compreendido como um dever ético transgeracional, cuja negligência compromete os fundamentos da justiça global.
No centro de sua proposta está o chamado Princípio Anti-Pobreza (Anti-Poverty Principle), que identifica como “perigosa” qualquer política climática que imponha ou prolongue a pobreza involuntária, sobretudo quando evitável (MOELLENDORF, 2022, p. 29). Essa concepção redefine os critérios morais pelos quais se avalia o perigo climático, afastando-se de meros cálculos técnicos e assumindo a centralidade da dignidade humana. Nesse contexto, a mitigação das mudanças climáticas é também um projeto de justiça social global, pois evitar o agravamento da pobreza nas próximas décadas implica impedir que milhões de pessoas sejam lançadas em um ciclo de miséria e vulnerabilidade agravado pelo colapso climático.
A justiça entre gerações é, nesse sentido, inseparável da ação moral presente. Moellendorf é enfático ao afirmar que o aquecimento global já observado — mais de 1°C acima dos níveis pré-industriais — compromete não apenas o agora, mas o amanhã: “Mesmo que nenhum outro CO₂ fosse emitido, o aquecimento continuaria por séculos devido à inércia térmica dos oceanos” (MOELLENDORF, 2022, p. 17). Tal constatação introduz um princípio de responsabilidade retroativa e prospectiva: cada tonelada emitida hoje não apenas contribui para eventos climáticos extremos imediatos, mas se torna uma herança tóxica para as futuras gerações, que terão de arcar com seus efeitos por séculos.
Negligenciar a ação climática imediata, portanto, equivale a violar o princípio ético da prevenção do dano evitável, comprometendo os meios de vida daqueles que ainda não nasceram. Como afirma o autor, “a identificação de políticas climáticas perigosas é, em última instância, um juízo moral” (MOELLENDORF, 2022, p. 29). Tal juízo exige não apenas um olhar científico sobre os riscos ambientais, mas sobretudo uma compreensão normativa sobre o que temos razão para evitar. A justiça intergeracional emerge, então, como uma extensão lógica da ética do cuidado: se temos obrigações morais com os que coexistem conosco no presente, temos ainda mais com aqueles cuja existência depende diretamente de nossas decisões agora.
A defesa da meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C encontra aí sua justificação ética mais urgente. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), citado por Moellendorf, a diferença entre limitar o aquecimento a 1,5°C em vez de 2°C pode significar que “centenas de milhões de pessoas escapem da pobreza até 2050” (MOELLENDORF, 2022, p. 26). Esse dado revela que os impactos da mudança climática são desproporcionalmente sentidos pelos mais pobres e que, ao contrário do que afirmam certos discursos desenvolvimentistas — como o de Bjørn Lomborg —, adiar a mitigação em nome do crescimento econômico apenas agravará os próprios problemas que alega querer resolver.
O argumento do autor, nesse ponto, é contundente: políticas que priorizam o crescimento econômico baseado em combustíveis fósseis, com a promessa de resolver o problema climático no futuro por meio de adaptação, são autoderrotantes. “A priorização da erradicação da pobreza global sem mitigação climática é uma estratégia fadada ao fracasso, pois o aquecimento não contido criará novas armadilhas de pobreza e comprometerá a adaptação” (MOELLENDORF, 2022, p. 25).
Ao problematizar os fundamentos da justiça climática, Moellendorf recupera a noção de esperança mobilizadora, inspirada por Ernst Bloch. Essa esperança, diferente do otimismo ingênuo, é racional e ancorada em possibilidades reais de transformação. Esperar por um futuro melhor, segundo o autor, é também um ato político: “A esperança é tanto causa quanto efeito de um certo tipo de política” (MOELLENDORF, 2022, p. 10). Ao alimentar uma visão de mundo sustentável, igualitária e solidária, mobiliza-se a sociedade para exigir de seus líderes o compromisso ético com o futuro comum.
Por fim, a moralidade do clima exige que repensemos a natureza de nossas obrigações. Proteger as futuras gerações não é apenas um gesto de altruísmo abstrato, mas um imperativo moral concreto que exige, agora, ação decidida e transformadora. Ao reconhecer o elo entre justiça climática, justiça social e justiça intergeracional, Moellendorf nos convoca a agir com a consciência de que esperança, neste caso, é sinônimo de responsabilidade.
Arguição Crítica I: O Silêncio Estrutural em Mobilizing Hope
A leitura de Mobilizing Hope (2022), de Darrel Moellendorf, suscita tanto admiração quanto inquietação. Trata-se de uma obra rigorosa, intelectualmente honesta e dotada de um nobre impulso: mobilizar a esperança política diante do desafio climático, especialmente no que tange à erradicação da pobreza e à proteção das gerações futuras. No entanto, não se pode ignorar uma insuficiência nítida em sua crítica às causas estruturais mais profundas da crise climática.
Moellendorf, ainda que demonstre simpatia por ideais progressistas e por uma ética redistributiva internacional, parece deliberadamente evitar enfrentamentos mais diretos com temas polêmicos, como as responsabilidades históricas do colonialismo, o papel do capitalismo como sistema produtor da catástrofe ambiental, ou a lógica de acumulação que naturaliza a exploração ilimitada de recursos e corpos. Seu foco, como o próprio título sugere, está em mobilizar esperança, o que o leva a adotar uma estratégia discursiva moderada, orientada à construção de consensos mínimos entre atores sociais e políticos diversos, inclusive contraditórios entre si.
É possível compreender essa escolha como uma tática de engajamento pragmático, pensada para catalisar alianças políticas mais amplas — especialmente diante da urgência da crise climática. Como o autor mesmo sugere, “a esperança é tanto causa quanto efeito de um certo tipo de política” (MOELLENDORF, 2022, p. 10), e, nesse sentido, sua escrita se orienta a não provocar rupturas discursivas que poderiam inviabilizar o diálogo com setores mais conservadores ou economicamente centristas.
Contudo, esse caminho mobilizador por meio do consenso também impõe limites significativos. O autor, por exemplo, não enfrenta as origens históricas da pobreza global dentro de uma perspectiva crítica do sistema-mundo. A pobreza não é apenas uma consequência contingente da desigualdade de acesso à energia ou de políticas climáticas mal calibradas — como o livro muitas vezes dá a entender —, mas resultado direto de séculos de espoliação colonial, financeirização global e subordinação de economias inteiras à lógica extrativista do capital. Ao omitir essas dimensões, Moellendorf reduz o debate climático à gestão técnica de riscos, enfraquecendo a potência de uma crítica mais transformadora.
A mesma lógica se aplica ao modo como o capitalismo é tratado na obra: praticamente como uma estrutura neutra, a ser corrigida pontualmente por meio de políticas de precificação de carbono, incentivo a tecnologias limpas ou mecanismos de compensação. Ainda que o autor reconheça os interesses do setor fóssil como entraves políticos centrais (MOELLENDORF, 2022, p. 13), ele não problematiza o fato de que o modelo de crescimento econômico contínuo, sobre o qual repousa o próprio capitalismo global, é estruturalmente incompatível com a preservação dos limites planetários.
Trata-se, portanto, de um projeto paliativo e adaptativo, voltado à mitigação de danos dentro da moldura do possível — e não à reimaginação radical do mundo. A crítica aqui não se dá por desprezo à relevância dos objetivos defendidos por Moellendorf — como a justiça intergeracional ou o princípio anti-pobreza —, mas sim por apontar que tais objetivos talvez sejam inalcançáveis sem uma transformação sistêmica mais profunda, cujos contornos o autor prefere não traçar.
A esse respeito, é oportuno retomar a crítica de Kohei Saito, que, em sua interpretação ecológica de Marx, insiste que a transição ecológica não poderá ocorrer dentro dos marcos do capitalismo. Para Saito (2023), a esperança de uma reforma verde dentro do sistema ignora a natureza estruturalmente destrutiva da lógica da acumulação. Ao priorizar o lucro sobre a vida, o capitalismo tende, inevitavelmente, a sabotar qualquer tentativa de coordenação ecológica de longo prazo. Dessa forma, quando Moellendorf propõe políticas climáticas baseadas em consensos morais e redistribuição mitigada, negligencia o fato de que tais propostas são rapidamente absorvidas e neutralizadas pelas dinâmicas de mercado.
Saito vai além ao propor que o colapso ambiental é, antes de tudo, o colapso da imaginação política sob a hegemonia neoliberal. A alternativa, para ele, não está em moralizar o capital, mas em construir uma sociedade pós-capitalista fundada na suficiência, na redução da jornada de trabalho e no restabelecimento de vínculos metabólicos sustentáveis entre humanidade e natureza. Nesse sentido, Mobilizing Hope, apesar de seus méritos normativos, permanece aquém do necessário porque se recusa a enfrentar a tarefa radical do século: superar o capitalismo, ou ser destruído com ele (SAITO, 2023).
Em suma, Mobilizing Hope é uma obra valiosa, que cumpre seu papel ao fornecer argumentos ético-políticos poderosos para o engajamento climático. Mas sua escolha metodológica — evitar o confronto com temas estruturantes como o colonialismo, o extrativismo e o capitalismo como modo de produção — sinaliza mais os limites da política possível no presente do que os horizontes de uma justiça climática real e emancipadora.
Arguição Crítica II: A Moralidade Como Ilusão no Capitalismo Tardio
O projeto filosófico e político de Darrel Moellendorf, apresentado em Mobilizing Hope (2022), é ambicioso e admirável. Ao articular os dilemas das mudanças climáticas com os desafios da pobreza global e da justiça intergeracional, o autor reivindica uma ação moral global, enraizada no dever de proteger os mais vulneráveis — tanto os vivos quanto os que ainda virão. Contudo, a proposta de Moellendorf se vê profundamente limitada quando confrontada com a realidade concreta do sistema econômico que molda e regula o mundo contemporâneo: o capitalismo.
O problema de fundo reside na suposição de que seria possível mobilizar uma política moral contra as mudanças climáticas dentro de um sistema que, estruturalmente, opera à revelia de qualquer consideração moral. Como afirma André Comte-Sponville, em sua obra O Capitalismo É Moral? (2005), o capitalismo “não é moral nem imoral: é amoral” (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 21). O sistema capitalista não visa o bem comum, tampouco a justiça ou a sustentabilidade — ele visa, antes de tudo, o lucro e a acumulação. Seu critério é a rentabilidade; sua bússola, o mercado. Esperar que a lógica capitalista se submeta espontaneamente à moralidade, especialmente no que se refere ao enfrentamento das mudanças climáticas, é incorrer em uma espécie de idealismo político — que, embora bem-intencionado, não encontra amparo na realidade.
Essa lógica aparece de forma evidente quando se observa que os únicos mecanismos climáticos realmente adotados em larga escala por governos e corporações são aqueles que transformam o carbono em mercadoria. É o caso da economia dos créditos de carbono, que converte o direito de poluir em ativo financeiro, negociável em bolsas de valores. Trata-se, portanto, não de uma superação do problema, mas de sua subordinação à mesma lógica de mercado que o produziu. A emissão de gases de efeito estufa torna-se mais um dado na planilha de lucros — contornável por compensações, parcerias “verdes” e mecanismos contábeis, sem qualquer transformação estrutural.
É nesse ponto que a crítica de Mark Fisher torna-se particularmente relevante. Em Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo (2009), Fisher argumenta que vivemos em um regime de naturalização do capitalismo, onde toda alternativa fora do modelo vigente é considerada impossível, impensável ou utópica. O capitalismo não se apresenta apenas como uma forma de organização econômica, mas como um horizonte total de sentido, que captura inclusive as tentativas de resistir a ele. Como afirma o autor: “O realismo capitalista não consiste apenas na crença de que o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também na crença de que mesmo os problemas mais profundos do capitalismo não têm solução” (FISHER, 2009, p. 2).
A obra de Moellendorf, nesse sentido, embora valiosa, não rompe com os limites impostos por esse realismo capitalista. Ao propor soluções que operam inteiramente dentro do quadro institucional e econômico existente — como a precificação do carbono, a mobilização ética cidadã, ou o investimento em tecnologias “verdes” —, o autor aceita, ainda que tacitamente, as premissas estruturantes de um sistema que transforma toda crise em oportunidade de mercado. Ao evitar uma crítica mais frontal à lógica de acumulação, à financeirização da natureza ou à colonização do futuro pelo presente, Moellendorf parece reproduzir o próprio mecanismo que diz combater.
Talvez seja exatamente por isso que seu apelo à moralidade — por mais sincero que seja — soe impotente diante da magnitude da crise. Como é possível mobilizar uma moral universal dentro de um sistema global que opera de maneira sistêmica contra qualquer universalidade? Como falar em justiça climática num mundo em que as soluções são constantemente recodificadas como produtos e os direitos das futuras gerações são traduzidos em “ativos de risco”? Nesse contexto, a esperança torna-se uma moeda simbólica — inspiradora, sim, mas ainda submetida à lógica do capital.
Dessa forma, se a obra Mobilizing Hope tem o mérito de propor um horizonte normativo poderoso e necessário, também encontra seus maiores limites justamente por não problematizar a base estrutural do sistema que pretende reformar. O capitalismo, como lembra Comte-Sponville, pode até tolerar valores morais como adorno — mas “não é seu papel promovê-los; isso cabe à política e à ética” (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 65). Porém, quando a política está refém do capital — como bem diagnosticou Mark Fisher —, resta apenas a simulação de moralidade, esvaziada de força transformadora.
Arguição Crítica III: A Inutilidade da Moral e a Eficácia do Capital — Por Uma Estratégia Climática Realista
Embora o projeto ético de Darrel Moellendorf em Mobilizing Hope (2022) tenha como mérito recolocar a moralidade no centro das decisões sobre o clima, é preciso reconhecer que sua proposta se apoia em uma ferramenta fraca demais para enfrentar um sistema estruturalmente insensível à ética. O apelo à responsabilidade moral, ao dever de justiça intergeracional ou à solidariedade global, ainda que nobre e coerente, não possui eficácia real diante de uma ordem regida pela lógica da acumulação ilimitada, da competição desenfreada e da instrumentalização de todas as esferas da vida em função do lucro.
Como afirma André Comte-Sponville, o capitalismo “não é moral nem imoral: é amoral” (COMTE-SPONVILLE, 2005, p. 21). As instituições que orbitam esse sistema compartilham da mesma natureza, operando não por valores éticos, mas por interesses econômicos e geoestratégicos. Logo, esperar que tais instituições priorizem a moralidade — especialmente em detrimento da rentabilidade — é um gesto de fé mais do que uma estratégia política eficaz.
Nesse cenário, talvez a aposta de Moellendorf na mobilização ética de cidadãos e governos seja, se não ingênua, pouco pragmática diante das formas reais de ação do sistema vigente. Dado que o capital não responde à moralidade, uma estratégia mais eficaz talvez fosse pensar a preservação ambiental como um ativo econômico e simbólico, operando exatamente como o capitalismo já opera: por meio de incentivos fiscais, sanções diretas, engenharia institucional e, sobretudo, doutrinação simbólica via cultura de massa.
É nesse ponto que os filmes hollywoodianos desempenham um papel crucial. Eles não apenas refletem o espírito do tempo, mas ensinam como desejar. Já se pode observar, por exemplo, uma reconfiguração dos símbolos de luxo: não mais o carro esportivo movido a gasolina, mas o veículo elétrico silencioso e tecnológico; não mais a mansão ostentadora de consumo, mas a casa autossuficiente, coberta de painéis solares e revestida de consciência ecológica. Hollywood não ensina moral — ensina estilo. E ao fazê-lo, doutrina o público a consumir de novas formas, sob a mesma lógica de distinção de classe e prestígio que sempre moveu o capital.
Filmes como Pantera Negra (2018), ao retratar Wakanda como uma utopia tecnológica integrada à natureza, transformam a sustentabilidade em símbolo de civilização e sofisticação. Outros, como Elysium (2013), mesmo ao criticar a segregação ecológica, acabam por reforçar a noção de que o futuro "verde" é privilégio de poucos. Já Não Olhe Para Cima (2021) satiriza a inação política e, paradoxalmente, mostra que as saídas para o colapso são capturadas por elites que compram o futuro.
Essa doutrinação estética e simbólica funciona de modo mais eficaz que qualquer apelo ético, pois molda o desejo de consumo e prestigiação. A preservação ambiental torna-se desejável não por ser moral, mas por ser “cool”, moderna, futurista — e, portanto, comercializável. Essa reprogramação da libido social — o redirecionamento do desejo — é muito mais eficaz em larga escala do que a apelação à racionalidade ética, sobretudo quando se trata de massas.
Nesse ponto, A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset (1930), oferece uma chave valiosa: as massas não se mobilizam por ideias complexas ou compromissos abstratos — elas seguem modelos, tendências, hábitos impostos de cima para baixo. Portanto, tentar engajá-las moralmente pode ser um erro de diagnóstico. O capitalismo, ao contrário, já doutrina cotidianamente, moldando gostos, padrões de consumo e imaginários de pertencimento — e é por isso que tem tanto sucesso. Se quisermos ser eficazes em termos de mobilização climática, talvez devamos agir como o próprio sistema: reprogramar desejos, doutrinar pela estética, premiar financeiramente e sancionar socialmente.
Já se observa, aqui e ali, uma tentativa de reconfigurar os símbolos de luxo: em vez do carro esportivo movido a gasolina, ganha prestígio o veículo elétrico, silencioso, limpo e repleto de tecnologia embarcada; em lugar das mansões ostentatórias, despontam casas autossuficientes, equipadas com painéis solares e design sustentável. No entanto, essa estética da sustentabilidade ainda não está consolidada: trata-se de um projeto em curso, restrito às camadas mais altas e progressistas da sociedade, e frequentemente capturado como nicho de mercado. Por isso, a tarefa não é apenas descrever essa mudança — é promovê-la ativamente. A preservação ambiental precisa ser reposicionada, não como sacrifício moral, mas como símbolo de distinção, modernidade e poder, transformando o consumo consciente em objeto de desejo. O capitalismo, que sabe como moldar os sonhos das massas, pode — e deve — ser forçado a operar nesse sentido, inclusive por meio de políticas públicas, incentivos fiscais e uma cultura midiática orientada.
Contudo, essa reconfiguração simbólica e material do desejo social — que visa transformar a sustentabilidade em um novo vetor de sofisticação e prestígio — não pode se realizar espontaneamente nem por força exclusiva do mercado. Ela exige um projeto de desenvolvimento nacional articulado e soberano, capaz de combinar política industrial, incentivos fiscais, regulação cultural e educação simbólica de massas. No entanto, tais projetos são raros em tempos de globalização neoliberal e desmonte do Estado planejador. Ainda mais difícil é fazê-los prosperar de forma isolada: para funcionar em escala planetária, essa transformação exige conexão entre múltiplos projetos nacionais, ancorados em objetivos comuns de justiça climática, reindustrialização verde e combate à desigualdade. Em outras palavras, não se trata apenas de reformar o consumo, mas de imaginar uma nova pactuação civilizatória, cujo motor esteja nas alianças entre Estados, movimentos e blocos regionais comprometidos com um futuro viável — econômica, social e ambientalmente.
Moellendorf reconhece que “a política climática depende da mobilização de grandes coalizões” (MOELLENDORF, 2022, p. 10), mas parece não perceber que tais coalizões não se formam pela moralidade, mas por conveniência, prestígio, medo ou desejo moldado por símbolos. Se a preservação ambiental quiser competir com o capital fóssil, ela precisa aprender com seu adversário: não com ética, mas com estética; não com valores, mas com marketing; não com princípios, mas com propaganda e incentivos.
Diante do impasse ecológico e civilizacional, impõe-se uma pergunta decisiva: o capitalismo será capaz de se superar por si mesmo — ou caminhará, em sua rigidez sistêmica, rumo à própria destruição? Essa pergunta ultrapassa o debate econômico tradicional e toca o coração de um dilema existencial: estamos diante da possibilidade concreta do fim da vida humana tal como a conhecemos. A catástrofe climática, ao contrário de uma distopia literária, é uma curva já traçada, alimentada por um sistema que depende da expansão permanente, do consumo ilimitado e da extração contínua de recursos — naturais e humanos. A contradição é evidente: ou o capitalismo se transforma estruturalmente, subvertendo sua lógica de acumulação infinita e de captura total da vida, ou seguirá operando como um motor suicida, levando consigo as bases mínimas da habitabilidade planetária. O paradoxo, contudo, é que não há hoje um “fora” visível ao capitalismo, como observa Mark Fisher (2020): o sistema totalizou o horizonte do possível e colonizou até mesmo os projetos de sua crítica. Portanto, talvez a única chance realista de superação esteja em forçá-lo a inverter a si mesmo, valendo-se de suas ferramentas — mercado, desejo, consumo, propaganda — para produzir novas formas de organização da vida, mais racionais, equitativas e sustentáveis. Se falhar nesse esforço, a alternativa não será outra ordem — mas a desordem definitiva, a desintegração climática, social e política. A história, neste ponto, não perdoará indecisões.
Referência:
COMTE-SPONVILLE, André. O Capitalismo É Moral?. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
FISHER, Mark. Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
GASSET, José Ortega y. A Rebelião das Massas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
SAITO, Kohei. O ecossocialismo de Karl Marx: capital, natureza e a crítica inacabada da economia política. Tradução de Alexandre Martins. São Paulo: Boitempo, 2022.
MOELLENDORF, Darrel. Mobilizing Hope: Climate Change and Global Poverty. New York: Oxford University Press, 2022.
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