quarta-feira, 23 de abril de 2025

Sonho de Páscoa

Flor vermelha na lapela

com ternura carregara,

como fosse o coração

à vista de todo sonho vão.


Andara pleno na memória,

sem perguntar sobre o tempo.

Assim me vi no espelho

ao comprar jornal e cigarro.


O jornaleiro me disse:

“Hoje os peixes são de vidro,

e o céu mudou de estação —

agora chove por dentro.”


Fitei as nuvens do gesto

que fazia ao dar-me o troco:

um pássaro me escapava

do bolso feito de vento.


Na calçada um velho cofre

abria-se em mil relógios

que dançavam com formigas

vestidas de carnaval.


Dei um trago na saudade,

a fumaça desenhou

um rosto que me sorria

com dentes de girassol.


E eu, tonto da claridade

que brota dos absurdos,

segui florindo concreto

com passos de saltimbanco.


A cidade era um espelho

onde o tempo se despia —

e a ternura da lapela

me sangrava poesia.

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