Flor vermelha na lapela
com ternura carregara,
como fosse o coração
à vista de todo sonho vão.
Andara pleno na memória,
sem perguntar sobre o tempo.
Assim me vi no espelho
ao comprar jornal e cigarro.
O jornaleiro me disse:
“Hoje os peixes são de vidro,
e o céu mudou de estação —
agora chove por dentro.”
Fitei as nuvens do gesto
que fazia ao dar-me o troco:
um pássaro me escapava
do bolso feito de vento.
Na calçada um velho cofre
abria-se em mil relógios
que dançavam com formigas
vestidas de carnaval.
Dei um trago na saudade,
a fumaça desenhou
um rosto que me sorria
com dentes de girassol.
E eu, tonto da claridade
que brota dos absurdos,
segui florindo concreto
com passos de saltimbanco.
A cidade era um espelho
onde o tempo se despia —
e a ternura da lapela
me sangrava poesia.
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