sexta-feira, 31 de maio de 2024

Os não-tolos vagueiam errantes

Aqueles de elevado espírito, calcados na contradição,

insubmissos ao inconsciente, elevados à suprassunção,

negam o ilógico, o tolo, fazendo dele o seu "imoral"

e sentam-se no trono de deus, cientes do bem e do mal.


Então, os não-pat(h)os vagueiam errantes, assim deve ser,

eternos andarilhos buscando algo a pertencer.

Não possuem lugar certo, pois em morada alheia

desejam a vida cientes da morte, e o céu, a morar na terra.


Ocupam o lugar divino, em sua indiferença,

na contradição de não fazer nada,

apresentando assim uma sentença,

ao acaso feita, nova sina anunciada.


Veem demais, de forma a doer os olhos,

em tudo reparam, e tudo absorvem,

algo sempre podem dizer, mas

vivem essencialmente sozinhos.


Indefinidos, entre animais e anjos,

tornam-se inadequados, insujeitos.

Filiam-se assim a um "Saint-Thomas",

a se perder em si, eternos Ulysses.


Seguem a sós um perpétuo luto,

a seguir seu próprio destino,

de não-tolo a vagar errante,

pois em um mundo caduco.




segunda-feira, 20 de maio de 2024

Mensagem na garrafa

Passam-se os anos como ondas no mar,

Seguem-se os dias, horas a fio, a sonhar.

Quem sabe, encontre a certeza em dia incerto,

Quem sabe, a paz possa nascer em meu peito.


Talvez tenha nascido errado, mal feito,

Talvez bem feito demais, para um mundo vão.

Por isso, tanto desejo em um só peito,

Por isso, tanta angústia em um só coração.


No entanto, se diante de tudo só o que resta é o gesto,

Aquilo que passa ligeiro diante de olhos desatentos,

Falhando a linguagem, que impõe os limites desse mundo,

a seguir presos meu olhar solto, julgando-o a todo momento.


Talvez, e por isso mesmo, não deva preocupar-me.

Se tudo é vaidade, se a saudade, se o céu me angustiar,

Não se curvar diante do efêmero fugaz, eis o charme,

Resta ser o que sou e, no gozo e na dor, me abraçar.


Ao longe, o horizonte chama, seduz,

Prometendo respostas no abraço da noite.

É no silêncio das estrelas que a alma reluz,

Desvendando mistérios, aliviando o açoite.


Deixar fluir, sem medo do amanhã incerto,

Abraçar o agora, sem temer o que há de vir.

Pois é na dança dos dias, no caminho aberto,

Que a essência se encontra, no eterno existir.


O tempo, maestro da sinfonia da vida,

Orquestra momentos de alegria e dor.

E é na aceitação, na entrega sentida,

Que o coração encontra seu verdadeiro valor.

Dando a volta por cima

Dando a volta por cima

Outrora, a volta por baixo

A vida indo e vindo

Em círculos, roda-viva.


Eis o escafandrista

No fundo do mar vazio

Rompe o silêncio anil

Não recebe anistia.


Caminha a esmo o ermitão

Dispara contra ele a memória

Eis a condição, ter vazias as mãos

E a cabeça radiantemente cheia.


Dança, a vida é bela

Repara a esperança

Tardes, infinitas, singelas

Beija tua garota, transe na beira do rio.


A noite é infinita, mais bela morada

A lua te vê e bendiz

Rapaz-angústia, beleza triste

Beija a ti mesmo, infeliz narcisista.


Tua consciência é tudo

Tua linguagem, teu mundo

Conversas mudo, pois sozinho

E ainda sozinho, infinito.


Peito de luar, afogado em mar

E afagado em seios e cheiros femininos

Encontra tua paz no agito sem término

Vive nesse tempo a eternidade.


Dando a volta por cima

Outrora a volta por baixo

Encontrando caminhos

Nas curvas do corpo feminino.


Angústia ali não existe

Não existe dor qualquer.

Tudo se apazigua

Na presença de uma mulher.


2)


O meu amor sabe me amar

Me põe na mesa, já de manhã

Meu sutiã, a desabotoar

Junto da sobremesa de maçã.


Me leva na mão, cuida de mim

Me leva no colo, despe-me

Eu o adoro assim, com todo fulgor

Em cima de mim, em fogo e amor.


Assim, por cima

Outrora, por baixo

Se entrelaçam os desejos

Em laço, quem sabe um nó.


O mundo lá fora

Segue em suas voltas

Mas os corpos indo e vindo

Tornam-se uma coisa só.


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Tudo o que eu queria ser

Quando a noite se transforma em madrugada

E as luzes vermelhas da cidade se destacam,

O moço se torna mulher metamorfoseada

E o que era ambíguo, se birfucam


Antes mesmo nascer do sol,

Surge Vênus no cabaré.

Tudo o que eu queria ser: uma mulher

Adorada como a virgem Maria.


"Vestir o feminino como se veste um espartilho"

Um desejo não contornado pela terapia,

Noite adentro, torna-se possível.

E ainda que em breve tempo, lhe acontenta.


Mas no vestindo apertado, algo está em riste

Os homens se espantam a vista disso

Sentem-se menos, e por isso, mais raivosos

Reclamam o engano ofendidos, eis o chiste.


Querem briga, estão também erguidos

Ameaçam ataques, jogam garrafas

tudo por um simples, mal entendido

Do desejo antecipado, agora conhecido.


Tudo para nascer uma Vênus mais triste..

E a melancolia lhe recordar no dia seguinte 

A vista de sua pele nua, uma glória só sua: 

Je suis artiste.

Que dizem os rostos?

1)

Qual pintor nunca pintou rostos?

Quem com eles nunca se perdeu em devaneios?

Quem nunca se encantou em se encantar?

E o que dizem eles sobre nós?

Que, sem dizer, comunicam-se pelo olhar?


São as feições do inconsciente?

Características ocultadas?

Significam algo além de nossos nomes?

Ou seja: algo além de nada?


Dizem o idioma dos anjos?

Ou trocam gestos de libras,

no gesticular das sobrancelhas?

Será, talvez, como a chama da candeia,

que, abaixo do alqueire, ao se consumir se queima.


O que dizem os rostos sobre seus donos?

Algo sobre seus sentimentos?

Que trazem eles somado às lembranças,

Além das marcas do tempo?


O rosto triste não afirma a razão do lamento

Nem tampouco o feliz, aponta o momento feliz

Não diz o porquê, nem se interessa em dizer


Todos tão diferentes

Todos tão iguais

Nos campos

Nas cidades

Na televisão e nos jornais


O que dizem os rostos na alternância do tempo?

Apenas que a vida é feita de momentos


Nada mais.


2)


Os rostos nada dizem

Mas se comunicam

Choram, olham e sorriem

Temem, tremem e pensam


Se os olhos são a porta da alma

Os rostos são as paredes da casa


Como disse Padre João Maia

Ao bradar a Deus em líricas portuguesas:

“Que as linhas do meu rosto verdadeiro. 

Só Tu podes, Senhor, compreendê-las”.


Algo pensa em mim.

Nem meu rosto, nem meu corpo

Sobre isto, algo diz

Ou saberia dizer

Sobre isso, explicar


Entre tantos, morrerei sendo apenas isto:

O reflexo mal visto de uma faísca,

De um vasto fogo que não deixa se apagar.

Ainda que eu falasse a língua dos anjos (Lamento de um anjo caído)

Ainda que eu falasse a língua dos anjos,

Teria de abandonar a vida mística.

Não saberia falar senão da práxis

E odiar senão a metafísica.


Meu discurso, embora alienado à linguística,

Tenta fugir da prosa e poesia lírica.

Mas herdei o lirismo lusitano

E as pulsões de um coração indígena.


Herdei também heterônimos

Que não ouso nomear.

Sarcásticos e irônicos,

Eles pretendem me matar.


Meus versos não podem pavonear-se

E frequentemente estão a se contradizer.

Goste ou não, ame-os ou deixe-os,

São risíveis, e não me importarei.


Visto que minha poesia não se rende

Ao frágil paladar de um freguês.

Não tenho tempo para defender ideias,

Pois estou entretido em conhecê-las todas.


Pois aprender é correr contra o tempo

Numa jornada impossível.

É sentir-se sempre, e inevitavelmente,

Em busca do tempo perdido.


Portanto, ainda que eu falasse a língua dos anjos

E o mundo todo soubesse me entender,

Me colocaria a cantar,

Pois nada saberia dizer.


Museu de Artes de Joinville, 2016.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

“Espírito de Contradição”

 



O documentário “Espírito de Contradição”, dirigido por Fernando Severo, aborda a vida e obra do filósofo e matemático Newton da Costa, que se tornou famoso internacionalmente quando criou uma lógica que admite contradições: a Lógica Paraconsistente. As teorias deste pensador brasileiro se tornaram referência em universidades do mundo inteiro e encontram aplicação em vários campos da ciência, sendo objeto de estudos e seminários em diversos países. Ele formulou também o conceito da Quase-Verdade, que permite a convivência de teorias científicas logicamente incompatíveis. Seu prestígio internacional pode ser medido pelas palavras dedicadas a ele por importantes órgãos da imprensa brasileira:

“O mais proeminente filósofo brasileiro nos círculos acadêmicos internacionais” (Folha de S. Paulo) 

“Ele é o pensador brasileiro mais respeitado mundialmente, reconhecido pelo desenvolvimento da Lógica Paraconsistente, hoje utilizada em diversos sistemas computadorizados" (O Estado de São Paulo)

“Trata-se de um nome brasileiro de reputação internacional, um gênio que inspira teorias e projetos em sua área, além de ser um defensor ferrenho da educação e da pesquisa” (Época)

Newton da Costa nasceu em Curitiba em 1929 e tem três graduações pela UFPR: engenharia civil , bacharelado e licenciatura em matemática. Tornou-se doutor em análise matemática e análise superior em 1961, tendo sido professor da UFPR, da USP e da Unicamp. A estreia do filme em outubro de 2019 comemorou os 90 anos desse grande pensador brasileiro.