segunda-feira, 7 de abril de 2025

Gênese da Linguagem

No instante em que explodiu o firmamento,

o som primeiro foi total ruína:

um brado nu, sem nome ou fundamento,

que fez do tempo a mais cruel doutrina.


O som do início — eco do sem fundo —

vibrava em tudo, em pedra, bicho, gente.

Lembrava ao ser que o centro deste mundo

é só silêncio, errante e persistente.


E foi por medo — medo do estampido —

que os seres, juntos, forjaram a linguagem.

Pra não ouvir o abismo repetido,

cercaram-no de verbo e de miragem.


Cercaram a radiação cósmica com a palavra,

pra significar tudo — que veio do nada.

E assim, à sua imagem e semelhança,

ergueu-se deus no verbo que o retrata.


Criaram nomes: "árvore", "abrigo",

"amor", "destino", "vida", "fé", "cordão"...

Mas cada termo, ao vir, traz consigo

a angústia do vazio da imensidão.


A linguagem foi trincheira contra o nada,

um modo de esquecer que tudo cessa.

Por isso a voz é tanta e desvairada:

se cala, escuta a morte em sua pressa.


No fundo, o que se diz é só disfarce,

um som bordado em torno do terror.

Mas quem repara o abismo e não treme,

fala baixinho, e emudece de pavor.


Ainda assim, do medo faz-se abrigo,

e a fala, antes muralha, é travessia.

Pois nomear a dor é estar consigo,

e dar à solidão certa companhia.


Dizer "ternura" é já quebrar o gelo,

"saudade" acende o tempo que nos resta.

"Afeto" é o pão da noite em seu desterro,

"gentileza", a chama humilde de uma festa.


A linguagem foi morada para o nada,

um modo de viver onde tudo cessa.

Todos nós e inclusive a palavra,

quem sabe até a primeira causa originária.


Talvez não deus, mas o fulgor do espanto,

um sopro atônito entre o ser e o abismo,

primeira luz que acendeu, no infinito,

o verbo e o desejo de estar vivo.


Não era lei, nem dogma, nem resposta,

mas só o grito nu que se queria, som e fúria

eco — na pedra, no corpo, na voz posta —

como se o som bastasse à travessia.

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