No instante em que explodiu o firmamento,
o som primeiro foi total ruína:
um brado nu, sem nome ou fundamento,
que fez do tempo a mais cruel doutrina.
O som do início — eco do sem fundo —
vibrava em tudo, em pedra, bicho, gente.
Lembrava ao ser que o centro deste mundo
é só silêncio, errante e persistente.
E foi por medo — medo do estampido —
que os seres, juntos, forjaram a linguagem.
Pra não ouvir o abismo repetido,
cercaram-no de verbo e de miragem.
Cercaram a radiação cósmica com a palavra,
pra significar tudo — que veio do nada.
E assim, à sua imagem e semelhança,
ergueu-se deus no verbo que o retrata.
Criaram nomes: "árvore", "abrigo",
"amor", "destino", "vida", "fé", "cordão"...
Mas cada termo, ao vir, traz consigo
a angústia do vazio da imensidão.
A linguagem foi trincheira contra o nada,
um modo de esquecer que tudo cessa.
Por isso a voz é tanta e desvairada:
se cala, escuta a morte em sua pressa.
No fundo, o que se diz é só disfarce,
um som bordado em torno do terror.
Mas quem repara o abismo e não treme,
fala baixinho, e emudece de pavor.
Ainda assim, do medo faz-se abrigo,
e a fala, antes muralha, é travessia.
Pois nomear a dor é estar consigo,
e dar à solidão certa companhia.
Dizer "ternura" é já quebrar o gelo,
"saudade" acende o tempo que nos resta.
"Afeto" é o pão da noite em seu desterro,
"gentileza", a chama humilde de uma festa.
A linguagem foi morada para o nada,
um modo de viver onde tudo cessa.
Todos nós e inclusive a palavra,
quem sabe até a primeira causa originária.
Talvez não deus, mas o fulgor do espanto,
um sopro atônito entre o ser e o abismo,
primeira luz que acendeu, no infinito,
o verbo e o desejo de estar vivo.
Não era lei, nem dogma, nem resposta,
mas só o grito nu que se queria, som e fúria
eco — na pedra, no corpo, na voz posta —
como se o som bastasse à travessia.
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