Sou no início uma faísca,
centelha viva, em expansão,
matéria bruta que se arrisca
no campo vasto da amplidão.
Nada há fora da substância,
pois tudo é um só fundamento;
corpo e mente, em consonância,
se movem juntos no momento.
O poeta, que a si se trama,
não é figura isolada e límpida;
nasce do mundo, onde se chama
à potência que irradia turva.
Não há alma desatada,
não há essência transcendida;
sou o corpo, sou a estrada
que se constrói na própria vida.
Deus não mora em altos céus,
nem se aparta da matéria;
Deus é tudo, em seus anéis,
é a natura em vida etérea.
A liberdade não é sonho,
nem é ausência de cadeias;
é o saber que, ao seu entorno,
abre-se as portas das ideias.
Entender o que nos move
é descobrir no outro a ponte;
não há falta que comprove
ser-se só, sem horizonte.
O afeto é a lei suprema,
força bruta, direção;
cada encontro em nós projeta,
tece o fio da amplidão.
Bem não é o que censura,
nem o mal que nos separa;
é o comum que, em força pura,
liga o ser a sua essência rara.
Se há lógica na existência,
é a da causa imanente:
somos todos, sem carência,
feixes vivos no presente.
Vibra em tudo o eterno um,
nada escapa ao ser profundo;
a substância, em seu comum,
é o que funda o próprio mundo.
No infinito nos fazemos,
não há fim nem separação;
quanto mais nos conhecemos,
mais nos tornamos criação.
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