segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Ética

Sou no início uma faísca,

centelha viva, em expansão,

matéria bruta que se arrisca

no campo vasto da amplidão.


Nada há fora da substância,

pois tudo é um só fundamento;

corpo e mente, em consonância,

se movem juntos no momento.


O poeta, que a si se trama,

não é figura isolada e límpida;

nasce do mundo, onde se chama

à potência que irradia turva.


Não há alma desatada,

não há essência transcendida;

sou o corpo, sou a estrada

que se constrói na própria vida.


Deus não mora em altos céus,

nem se aparta da matéria;

Deus é tudo, em seus anéis,

é a natura em vida etérea.


A liberdade não é sonho,

nem é ausência de cadeias;

é o saber que, ao seu entorno,

abre-se as portas das ideias.


Entender o que nos move

é descobrir no outro a ponte;

não há falta que comprove

ser-se só, sem horizonte.


O afeto é a lei suprema,

força bruta, direção;

cada encontro em nós projeta,

tece o fio da amplidão.


Bem não é o que censura,

nem o mal que nos separa;

é o comum que, em força pura,

liga o ser a sua essência rara.


Se há lógica na existência,

é a da causa imanente:

somos todos, sem carência,

feixes vivos no presente.


Vibra em tudo o eterno um,

nada escapa ao ser profundo;

a substância, em seu comum,

é o que funda o próprio mundo.


No infinito nos fazemos,

não há fim nem separação;

quanto mais nos conhecemos,

mais nos tornamos criação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário