Saía da missa em uma manhã fria,
criança, meus pais comigo, o céu aberto.
No canto, um homem, rosto em agonia,
olhos famintos, peito deserto.
“Pai, me dá um troco, é pra comer”,
menti na prece, o olhar baixei.
E o dinheiro, sem hesitar,
na mão do pobre, enfim, deitei.
Ele chorou, a voz tão rouca:
“Que Deus te guarde, alma tão pura.”
Nos olhos dele, a dor se apaga,
ao ver na infância uma brandura,
que no mundo não se acha.
Meus pais, silentes, ao meu lado,
viram no gesto o bem que ensina.
E assim segui, coração leve,
com alma clara, quase divina.
O tempo me levou longe, por ruas e bares mil,
buscando nos prazeres algo mais viril.
De carro pela cidade, na noite a vagar,
vi o velho no passeio, deitado sob o luar.
A placa dizia "Trocadeiro", reluzindo em néon,
e a miséria ali dormia, esquecida por quem foi bom.
Enquanto a festa me chama, o riso me distrai,
o silêncio me pergunta onde a pureza foi,
o peso da existencia enfim em mim recai.
Os anos passam, cresci na pressa,
noites sem rumo, prazeres vãos.
Pelas esquinas, a vida balança,
resta apenas o vazio entre as mãos.
Naquele hotel, o Trocadeiro,
em sua porta, o chão de pedra,
vi o homem, já sem memória,
dormindo ali, sob sua alma.
Naquele instante, o peso veio:
quem eu me tornei no tempo então?
Será que ainda guardo comigo
a fé de outrora, a compaixão?
Hoje homem feito, diante do mundo.
A lua assiste, tão silenciosa,
e a noite envolve o velho hotel.
Entendo agora o que significa,
que só a criança entra no céu.
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