sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Trocadeiro

Saía da missa em uma manhã fria,

criança, meus pais comigo, o céu aberto.

No canto, um homem, rosto em agonia,

olhos famintos, peito deserto.


“Pai, me dá um troco, é pra comer”,

menti na prece, o olhar baixei.

E o dinheiro, sem hesitar,

na mão do pobre, enfim, deitei.


Ele chorou, a voz tão rouca:

“Que Deus te guarde, alma tão pura.”

Nos olhos dele, a dor se apaga,

ao ver na infância uma brandura,

que no mundo não se acha.


Meus pais, silentes, ao meu lado,

viram no gesto o bem que ensina.

E assim segui, coração leve,

com alma clara, quase divina.


O tempo me levou longe, por ruas e bares mil,

buscando nos prazeres algo mais viril.

De carro pela cidade, na noite a vagar,

vi o velho no passeio, deitado sob o luar.


A placa dizia "Trocadeiro", reluzindo em néon,

e a miséria ali dormia, esquecida por quem foi bom.

Enquanto a festa me chama, o riso me distrai,

o silêncio me pergunta onde a pureza foi,

o peso da existencia enfim em mim recai.


Os anos passam, cresci na pressa,

noites sem rumo, prazeres vãos.

Pelas esquinas, a vida balança,

resta apenas o vazio entre as mãos.


Naquele hotel, o Trocadeiro,

em sua porta, o chão de pedra,

vi o homem, já sem memória,

dormindo ali, sob sua alma.


Naquele instante, o peso veio:

quem eu me tornei no tempo então?

Será que ainda guardo comigo

a fé de outrora, a compaixão?

Hoje homem feito, diante do mundo.


A lua assiste, tão silenciosa,

e a noite envolve o velho hotel.

Entendo agora o que significa,

que só a criança entra no céu.

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