Ando meio errante, à revelia,
Nesses excessos quentes do verão.
O carnaval mal chegou na melodia,
E eu já me perco em confusão.
Meu violão se queda em Curitiba,
Meu coração vagueia em Joinville,
A voz que outrora forte se mantinha
Já se dispersa e sob a sombra se aninha.
Palavras fogem, turvas, sem sentido,
Na boca amarga da recordação,
E o que restou de um sonho desvalido
Se perde em outra interpretação.
Os pés errantes buscam novo norte,
Mas cada rua é senda sem final.
O tempo dança à míngua de uma sorte,
Um tango rígido e descompassal.
Olhando o céu sem mapa ou coordenada,
A lua embriaga a solidão,
E em cada rastro de palavra errada
Se escreve a minha tradução.
Nova janela se abre ao horizonte,
mil outras portas tombam pelo chão.
Ando sozinho, estranho neste monte,
nova morada, igual solidão.
Outra paisagem corta a minha estrada,
outra cidade, igual multidão.
Nova memória, a mesma sombra errada,
velhas palavras, nova translação.
Outro idioma pesa em minha fala,
mas sigo mudo entre os sons do cais.
A cada verso que o vento embala,
perco o sentido um pouco mais.
E o sentir que quer traduzir-se,
nada é capaz ao que pretende,
como uma vida inteira a luzir-se,
mas ainda ao ventre incipiente.
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