terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Perdido na Tradução

Ando meio errante, à revelia,

Nesses excessos quentes do verão.

O carnaval mal chegou na melodia,

E eu já me perco em confusão.


Meu violão se queda em Curitiba,

Meu coração vagueia em Joinville,

A voz que outrora forte se mantinha

Já se dispersa e sob a sombra se aninha.


Palavras fogem, turvas, sem sentido,

Na boca amarga da recordação,

E o que restou de um sonho desvalido

Se perde em outra interpretação.


Os pés errantes buscam novo norte,

Mas cada rua é senda sem final.

O tempo dança à míngua de uma sorte,

Um tango rígido e descompassal.


Olhando o céu sem mapa ou coordenada,

A lua embriaga a solidão,

E em cada rastro de palavra errada

Se escreve a minha tradução.


Nova janela se abre ao horizonte,

mil outras portas tombam pelo chão.

Ando sozinho, estranho neste monte,

nova morada, igual solidão.


Outra paisagem corta a minha estrada,

outra cidade, igual multidão.

Nova memória, a mesma sombra errada,

velhas palavras, nova translação.


Outro idioma pesa em minha fala,

mas sigo mudo entre os sons do cais.

A cada verso que o vento embala,

perco o sentido um pouco mais.


E o sentir que quer traduzir-se,

nada é capaz ao que pretende,

como uma vida inteira a luzir-se,

mas ainda ao ventre incipiente.

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