Creio que trago em mim o jeito
De quem fitou, ao vir ao mundo,
O olhar materno, calmo e feito
De um amor puro e profundo.
Creio que trago em mim o jeito,
De quem viu, ao nascer, o primeiro olhar,
Aquele que me disse tudo e fez do peito
Deixando-me a estrada procurar.
Nos olhos dela, um universo,
Um mar que embala, um céu que ampara,
Reflexo terno, luz em verso,
Que nunca some, nunca apaga.
Eva mitocondrial, genética do escopo.
Eu sou um sentimental, moldado no espaço,
De quem procurou algo em cada rosto,
Com o olhar perdido, ao buscar abraço,
Vagando ao mar, sem porto,
Ao nascer, devo ter tido o espanto,
O mundo é vasto, frio e vão,
Mas esse olhar, num doce encanto,
Fez-se abrigo, fez-se chão.
E ao partir, na despedida,
Num último olhar ficou,
A dor, o tempo, a dura vida,
Mas seu amor se materializou.
Nove meses não serão vãos,
Se nove meses me gestou.
Como na história que ouvi,
Que viu no olhar de sua mãe
A vida breve, um triste adeus,
E fez da causa o próprio bem.
Talvez ferida aberta, que nunca constatei.
Fez de mim algo além,
Rompido no estante,
Para ir adiante: da angústia, da calma, do amor, da dor.
E se fazer galante, pois de olhar perdido,
Que a todas e todos interessa, curiosos.
Pois naquele instante, me fez sozinho
Para sempre.
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