A cidade não me conhece. Caminho por ruas onde ninguém pronuncia meu nome, onde os prédios não guardam memórias minhas e as esquinas não sabem de meus antigos atalhos. A solidão aqui não é apenas ausência de companhia, mas um silêncio concreto, uma falta que se espalha pelas avenidas.
A noite amplifica esse estado, torna tudo mais denso. As luzes dos postes desenham sombras alongadas, como se o tempo hesitasse entre seguir ou se curvar sobre si mesmo. Em algum café, alguém lê um livro. A letra dos livros voa, como canta Caetano, talvez buscando um destinatário que se perdeu na multidão. Mas onde está a amizade quando se precisa dela?
Houve um tempo em que os caminhos eram outros. O bar com vozes conhecidas, a casa dos amigos sempre de portas abertas, as risadas que preenchiam as noites sem que precisássemos marcar hora. Agora, o que há são ruas desconhecidas e uma saudade que se manifesta na forma de um pensamento recorrente: estamos sós?
Ando meio triste por aqui. As noites têm o tom de um filme melancólico, com ruas vazias e luzes difusas que ressoam em mim. Caminho devagar, atravessado pelo vento frio, espectador de uma cena sem roteiro onde a solidão se impõe. Os prédios altos, as janelas acesas, os vultos distantes — tudo me parece alheio, como se eu estivesse apenas de passagem. A saudade pesa um pouco mais.
Às vezes, tento me distrair com música, mas até ela se curva à melancolia dos postes amarelados. Imagino, como fazia na infância, as histórias por trás de cada janela iluminada. Quem vive ali? Que vidas se desenrolam sob aquelas luzes? Quando criança, eu criava enredos para esses desconhecidos. Hoje, esse hábito retorna, como se imaginar cada existência anônima me fizesse sentir menos só.
A cidade já sonhou outros sonhos antes de mim. Ela já foi palco de tantas chegadas e partidas, já testemunhou reencontros e despedidas. Minha solidão não é a primeira a vagar por essas calçadas, nem será a última. Mas há um consolo em saber que, mesmo na distância, a amizade resiste, urdindo laços invisíveis. Talvez seja assim mesmo: um dia, sem perceber, deixamos de ser estranhos. Passamos a conhecer os ritmos da cidade, seus silêncios e vozes. E quando menos esperamos, encontramos alguém que nos reconhece, um sorriso que diz sem precisar de palavras: você não está sozinho.
A amizade, afinal, é a única certeza que ecoa por toda cidade boa.
Não vejo muitos rostos por aqui. Saio para caminhar de manhã, volto a andar à noite, e, no intervalo — que ocupa a maior parte do relógio — fico diante da tela, imerso no trabalho. No almoço, sento ao lado de desconhecidos em um refeitório invariavelmente lotado, onde, paradoxalmente, a solidão parece ainda maior.
À noite, ao voltar para casa, depois de correr no passeio público e sentar para ler O Perfume, de Patrick Süskind, danço como um lunático. Ontem, dancei aquele álbum OK OK OK, do Gil, perdido no ritmo, alheio ao mundo. Depois, percebi a ausência de cortinas e me ocorreu que a vizinha do outro lado da rua poderia ter me visto. O que, em si, não seria um grande problema — ou pelo menos não tão embaraçoso quanto o que ela mesma já passou. Meus pais, na única vez em que vieram me visitar, a viram de calcinha na janela. Eu, lamentavelmente, perdi a cena.
No entanto, essa semana instalei as cortinas nos dois quartos, o que me permite andar pelado pelo apartamento ao meu modo, mas tendo que passar rapidamente pelo corredor da cozinha ou me vestir toda hora que for pegar algo para comer ou beber. Logo arrumo uma cortina também para a sala, o que resolverá essa questão.
Ontem, percebi um senhor um tanto estranho me seguindo pelo passeio público, mas que parecia ter alguma deficiência mental. Quando me sentei para ler, próximo ao local das aves, ele parou à minha frente e ficou ali por uns cinco ou seis minutos, o que foi um tanto incomum. Três pessoas já me notificaram de que a praça que frequento para ler - aquela com o monumento do homem nu - é perigosa. Não achei tanto assim. Há muitos usuários de drogas, de fato, que são justamente quem praticam furtos e assaltos, mas todos muito acabados e aparentemente desvalidos para a prática de qualquer mal à força. De qualquer forma, evito dar bobeira e ainda tenho o costume de carregar uma faca no bolso.
Vai fazer uma semana que não bebo nada alcoólico nem consumo cafeína. Estou tendo uma espécie de refluxo estomacal que já dura alguns dias. Devo me cuidar nesse sentido e vou ao Pronto Atendimento hoje à noite. Amanhã terei minha primeira orientação do mestrado, e as aulas já começam no dia dez. Tudo vai ficar bem.
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