quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Derivação

Vivo nesse geóide azul,

a flutuar no vazio imenso

que engendrou a matéria.


Natureza, sou teu filho,

fruto de tuas vontades,

desejo de teu abismo aleatório,

circunstância de tuas ações,

gerado, não criado,

por tua sede.


Caos verdadeiro de Caos verdadeiro.


Meu peito é vazio,

como o espaço infinito

que te circunda.


Vivo com o meu coração no anzol,

a flutuar no vazio

que me tangencia.


Se o tempo me leva, não sei.

Sou brisa errante, espuma de onda,

faísca breve de um astro morto,

brilhando sem querer na escuridão.


Sou o eco da primeira explosão,

que deriva,

o ruído mudo do antes de tudo,

que deriva,

o pó que dança sem destino,

à deriva,

a fala incerta do cosmo,

à deriva.


E se canto, é porque o nada

também me fez cantador.


Professo um só mergulho

nesse abismo profundo,

para dissolução do eu,

para o todo atrelar e sentir.


E espero a reinvenção do acaso

e o eterno retorno do que há de vir.


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