Vivo nesse geóide azul,
a flutuar no vazio imenso
que engendrou a matéria.
Natureza, sou teu filho,
fruto de tuas vontades,
desejo de teu abismo aleatório,
circunstância de tuas ações,
gerado, não criado,
por tua sede.
Caos verdadeiro de Caos verdadeiro.
Meu peito é vazio,
como o espaço infinito
que te circunda.
Vivo com o meu coração no anzol,
a flutuar no vazio
que me tangencia.
Se o tempo me leva, não sei.
Sou brisa errante, espuma de onda,
faísca breve de um astro morto,
brilhando sem querer na escuridão.
Sou o eco da primeira explosão,
que deriva,
o ruído mudo do antes de tudo,
que deriva,
o pó que dança sem destino,
à deriva,
a fala incerta do cosmo,
à deriva.
E se canto, é porque o nada
também me fez cantador.
Professo um só mergulho
nesse abismo profundo,
para dissolução do eu,
para o todo atrelar e sentir.
E espero a reinvenção do acaso
e o eterno retorno do que há de vir.
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