terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Ela dorme logo ali

Os pneus deslizam no asfalto úmido,

Semáforos néon, luzes distraídas.

Dirijo sem pressa, sem rumo nítido,

Feito quem não busca mais saídas.


Mas ela dorme logo ali, eu sei,

No prédio com sua mãe, um terceiro sono.

Recordo nosso antigo cômodo,

Onde o tempo esculpia o que fomos.


Hoje, se remove o que restou de nós:

Móveis, retratos e todo o aconchego.

Desmontam memórias, ecoam as vozes,

Como fantasmas presos no tempo.


E as decisões confusas, a alma a naufragar,

No dilema de existir sem lugar no mundo.

Em busca de algo, sempre a aventura,

Para calar essa angústia tão profunda.


Mas a vida é tão enorme,

E às vezes me sinto me perdendo.

Mas tudo bem, meu bem,

Quando não se pode falar, deve-se calar.

E ela me diz para usar filtro solar.


A vida, talvez, seja isso: errar sem saber,

Em cada esquina, uma escolha a julgar.

Sigo perdido, mas posso entender

O peso do ser ou não ser.


A cidade me engole, mas já não me cabe.

Amanhã, outra rua, outro céu, outro chão.

E o que faço com tudo o que vive

Num peito afogado em imensidão?


Nas paralelas dos pneus, na água das ruas,

Trocam-se marchas, mantendo a cadência.

O rádio murmura canções

Que avançam sob a consciência.


A solidão não avisa, apenas sussurra,

Acostumei-me a esperar o pior.

A vida, entre curvas, me empurra

Para algum lugar, mas não guardo rancor.


Não sei para onde ir, qual bar,

Com quem conversar, solidão.

Avanço sinais, dirijo na contramão,

Eu vim só para dançar.


Mas a vida é tão enorme,

E às vezes me sinto me perdendo.

Mas tudo bem, meu bem,

Quando não se pode falar, deve-se calar.

E ela me diz para usar filtro solar.


Sem lugar no mundo, piso no acelerador.

A dor faz parte do amor,

Meu reino a essa terra não pertence.

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar,

E ela me diz para usar filtro solar.


Mas ela dorme logo ali, eu sei,

No prédio com sua mãe, um terceiro sono.

Recordo nosso antigo cômodo,

Onde o tempo esculpia o que somos.

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