sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

O Corcunda da Rua XV

Na Rua XV, um homem caminha,

curvado, como quem carrega o peso do mundo.

Com sua vassoura, varre a calçada,

como se, por algum motivo, fizesse sentido.


Sempre o vejo, sempre no mesmo passo,

sem pressa, sem destino,

com olhos fixos no chão,

os mesmos de sempre, os mesmos movimentos,

a espalhar a poeira com uma vassoura.


Numa noite de Natal, saí sozinho,

a vagar, sem razão, sem companhia,

numa cidade que parecia dormir, sem ninguém na rua,

mas com luzes acesas nas janelas e piscas-piscas.


Nos encontramos, eu e ele, por acaso, na escuridão,

em frente a uma concessionária de veículos,

cuja propaganda dizia “Feliz Natal”.

Mas não houve palavras, nem gestos,

e o silêncio preenchia o espaço entre nós.


Foi então que percebi, sem querer,

que ele não era outro,

mas parte de mim,

carregando a mesma solidão,

varrendo as mesmas marcas invisíveis, sem porquê.


Não há redenção na noite de Natal,

nem algo a ser apagado ou consertado,

somente o vazio de seguir, noite adentro,

sempre em frente, sem saber para onde,

sem que a calçada, a poeira ou o mundo se alterem.


Sou como esse corcunda da Rua XV,

envolto numa escuridão que não se percebe,

a espalhar folhas sobre um chão que nos cinge,

com um corpo que se curva ao destino, mas não padece.

Nenhum comentário:

Postar um comentário