Na Rua XV, um homem caminha,
curvado, como quem carrega o peso do mundo.
Com sua vassoura, varre a calçada,
como se, por algum motivo, fizesse sentido.
Sempre o vejo, sempre no mesmo passo,
sem pressa, sem destino,
com olhos fixos no chão,
os mesmos de sempre, os mesmos movimentos,
a espalhar a poeira com uma vassoura.
Numa noite de Natal, saí sozinho,
a vagar, sem razão, sem companhia,
numa cidade que parecia dormir, sem ninguém na rua,
mas com luzes acesas nas janelas e piscas-piscas.
Nos encontramos, eu e ele, por acaso, na escuridão,
em frente a uma concessionária de veículos,
cuja propaganda dizia “Feliz Natal”.
Mas não houve palavras, nem gestos,
e o silêncio preenchia o espaço entre nós.
Foi então que percebi, sem querer,
que ele não era outro,
mas parte de mim,
carregando a mesma solidão,
varrendo as mesmas marcas invisíveis, sem porquê.
Não há redenção na noite de Natal,
nem algo a ser apagado ou consertado,
somente o vazio de seguir, noite adentro,
sempre em frente, sem saber para onde,
sem que a calçada, a poeira ou o mundo se alterem.
Sou como esse corcunda da Rua XV,
envolto numa escuridão que não se percebe,
a espalhar folhas sobre um chão que nos cinge,
com um corpo que se curva ao destino, mas não padece.
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