No balcão gasto da vida errante,
O vinho fala, a razão escuta,
E o bêbado, em tom delirante,
Promete o céu com voz dissoluta.
“Eu vou mudar! Juro, dessa vez!
Amor, te trago as estrelas do mar!
Amanhã cedo eu viro freguês
De academia... e paro de fumar!”
Entre risadas, mais um brinde soa,
O copo enche, e a coragem cresce:
“Eu vou ser rico! O mundo é à toa,
Quem duvidar, amanhã se confesse!”
Mas vem o sol, cruel e impiedoso,
Trazendo junto ressaca e calvário.
O herói da noite, agora indecoroso,
Troca seus planos por chá engavetado.
E assim se vai, promessa esquecida,
No ciclo eterno do trago sem lei:
O álcool faz dos mortais sem medida
Reis por instantes... e tolos por rei!
Mas vem nova noite, e novas promessas,
A todos e todas, inclusive ao dono do bar:
“Prometo um banquete, parcerias e festas,
E a conta pendente eu vou já saldar!”
“Vou virar santo, eu juro de pé!
Largo o boteco, procuro uma igreja,
Troco a cachaça por pão e café,
E o sermão do padre será minha peleja!”
“Vou ser um monge, ou talvez uma freira,
De hábito longo, a rezar sem parar.
Ou padre! Isso mesmo, abro uma paróquia inteira,
E divido o dízimo com quem me apoiar!”
No presbitério, também dizer besteiras,
E todas elas no púlpito santificar!
Aproveitar-me da pinta de pontífice
Pra, em nome do Pai, tudo justificar.
“Se Deus quiser, eu vou peregrinar,
Prometo ao santo largar a lambança.
Ano que vem, em Roma vou morar,
Mas hoje brindo a essa esperança!”
A fé é forte, mas mais forte é a birita,
E ao som do brinde, a ideia vacila.
“Se o céu não quer, azar, quem acredita?
Me deem um trago, a culpa é divina!”
E o bêbado, enfim, desiste do altar,
Já que ser tanso dá muito trabalho.
Melhor no boteco seguir a brindar,
Que o céu espera... e o vinho é seu atalho!
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