quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Promessas de Bêbado

No balcão gasto da vida errante,

O vinho fala, a razão escuta,

E o bêbado, em tom delirante,

Promete o céu com voz dissoluta.


“Eu vou mudar! Juro, dessa vez!

Amor, te trago as estrelas do mar!

Amanhã cedo eu viro freguês

De academia... e paro de fumar!”


Entre risadas, mais um brinde soa,

O copo enche, e a coragem cresce:

“Eu vou ser rico! O mundo é à toa,

Quem duvidar, amanhã se confesse!”


Mas vem o sol, cruel e impiedoso,

Trazendo junto ressaca e calvário.

O herói da noite, agora indecoroso,

Troca seus planos por chá engavetado.


E assim se vai, promessa esquecida,

No ciclo eterno do trago sem lei:

O álcool faz dos mortais sem medida

Reis por instantes... e tolos por rei!


Mas vem nova noite, e novas promessas,

A todos e todas, inclusive ao dono do bar:

“Prometo um banquete, parcerias e festas,

E a conta pendente eu vou já saldar!”


“Vou virar santo, eu juro de pé!

Largo o boteco, procuro uma igreja,

Troco a cachaça por pão e café,

E o sermão do padre será minha peleja!”


“Vou ser um monge, ou talvez uma freira,

De hábito longo, a rezar sem parar.

Ou padre! Isso mesmo, abro uma paróquia inteira,

E divido o dízimo com quem me apoiar!”


No presbitério, também dizer besteiras,

E todas elas no púlpito santificar!

Aproveitar-me da pinta de pontífice

Pra, em nome do Pai, tudo justificar.


“Se Deus quiser, eu vou peregrinar,

Prometo ao santo largar a lambança.

Ano que vem, em Roma vou morar,

Mas hoje brindo a essa esperança!”


A fé é forte, mas mais forte é a birita,

E ao som do brinde, a ideia vacila.

“Se o céu não quer, azar, quem acredita?

Me deem um trago, a culpa é divina!”


E o bêbado, enfim, desiste do altar,

Já que ser tanso dá muito trabalho.

Melhor no boteco seguir a brindar,

Que o céu espera... e o vinho é seu atalho!

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