sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

As Meninas

Quando pequeno, eu via as meninas,

seus risos soltos, suas mãos dançando,

um mundo à parte, de cores tão finas,

um mistério doce que eu ia admirando.


Tinham cadernos com capas floridas,

desenhavam nuvens de tons delicados,

segredos guardavam, histórias vividas,

em vozes que soavam como sinos encantados.


Elas trançavam o tempo em seus cabelos,

e os prendiam com fitas de um azul sem igual,

os pés, tão leves, quase eram novelos,

desfiando a terra num passo angelical.


Falavam de coisas que eu não entendia:

bonecas, estrelas, de sonhos serenos,

e eu, arteiro em minha ousadia,

sentia-me tolo, talvez tão pequeno.


Havia uma dança que era só delas,

um balé secreto ao vento da tarde,

entre saias rodadas miravam janelas,

onde a noite, encantada, o céu invade.


Eu invejava as palavras inventadas,

os risos cúmplices, o mundo escondido,

aquela magia que parecia sagrada

e me deixava ali, tão comovido.


Mas era uma inveja de cores sutis,

uma ternura que a infância permite,

como quem olha jardins tão gentis

e sente o perfume que a vida emite.


Hoje recordo, e ainda sorrio,

das meninas e seus universos tão vastos,

pois o que não alcancei, guardo comigo,

na memória eloquente de fragmentos castos.


Talvez por nunca ter sido meu,

esse universo me pareça tão lindo,

e, por isso mesmo, ainda me encante,

pois agora, ainda como um menino,

disso tudo sigo rindo, mesmo distante.

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