I
Num palco imundo, a peça se desenrola,
Figuras vãs desfilam tolas certezas,
A mente rasa no discurso se amola,
E o riso escorre em meio às asperezas.
São reis grotescos que ao trono se assentam,
Coroados por vozes sem consciência;
Dos cegos olhos, mil juízos inventam,
E erguem em trono a pura incompetência.
A falsidade veste a máscara mais bela,
Na pantomima aplaudem vil histeria,
Pois vale a pose, e não o que se revela.
E o mundo gira nessa volta sombria,
A estupidez, senhora de sua tela,
Encena o caos como obra de harmonia.
II
Este geoide perdido no espaço escuro,
Onde ninguém deixa de olhar pro umbigo,
Vagueia só num universo absurdo,
E cada qual só cuida do seu abrigo.
Uns bilionários sonham em ir pra Marte,
Enquanto outros nem têm o que comer;
Todos dividem o mesmo chão, sua parte,
Mesmo planeta, mesma trama a sofrer.
Uns riem, outros choram, todos na cena,
Aplaudem algozes, erguem capitólios,
Adoram farsas, vivem na plateia.
Eu só penso que, se Deus existisse,
Extinguir-nos seria sua prova mais célebre.
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