1)
A sombra azul da noite nos invade,
fria, silente, estranha ao respirar.
Caminha o vento, sem deixar saudade,
e o chão, vazio, cansa de esperar.
Um passo ecoa em ecos sem alarde,
e o tempo, incerto, deixa-se arrastar.
Na curva dos minutos, só a tarde
ainda busca o sol para alcançar.
Os dois apenas, contra o céu desfeito,
somos vestígios frágeis do momento,
fantasmas sob a luz de algum motivo.
E calamos em nós, contra o tormento,
na fúria de existir, pois nos condena
o criador, e toda ordem que aliena.
2)
Se somos livres, nisso está contida
a liberdade vã de esculpirmos:
limitados a moldar nossa ferida
com ferramentas frágeis que vestimos.
Calcamos sob os pés a própria vida,
geografia e dor que não medimos.
O sonho é céu, mas sua luz perdida
se apaga enquanto ao chão nos repetimos.
Entre o instinto e a alma, essa cisão
nos faz metade fera, outra divinal,
um salto ao alto e a queda em solidão.
Oh, criatura, nossa angústia é o final:
um castigo que afronta nossa essência,
de ser divino, mas preso à concupiscência.
(Baseado em Fraga e Sombra de Drummond)
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