segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Vontade de anular a criatura

1)

A sombra azul da noite nos invade,

fria, silente, estranha ao respirar.

Caminha o vento, sem deixar saudade,

e o chão, vazio, cansa de esperar.


Um passo ecoa em ecos sem alarde,

e o tempo, incerto, deixa-se arrastar.

Na curva dos minutos, só a tarde

ainda busca o sol para alcançar.


Os dois apenas, contra o céu desfeito,

somos vestígios frágeis do momento,

fantasmas sob a luz de algum motivo.


E calamos em nós, contra o tormento,

na fúria de existir, pois nos condena

o criador, e toda ordem que aliena.


2)

Se somos livres, nisso está contida

a liberdade vã de esculpirmos:

limitados a moldar nossa ferida

com ferramentas frágeis que vestimos.


Calcamos sob os pés a própria vida,

geografia e dor que não medimos.

O sonho é céu, mas sua luz perdida

se apaga enquanto ao chão nos repetimos.


Entre o instinto e a alma, essa cisão

nos faz metade fera, outra divinal,

um salto ao alto e a queda em solidão.


Oh, criatura, nossa angústia é o final:

um castigo que afronta nossa essência,

de ser divino, mas preso à concupiscência.


(Baseado em Fraga e Sombra de Drummond)

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