quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

A Terceira Margem do Rio

Na beira do rio, a vida se enredava,

A água cantava seu canto de lonjura,

Mas o homem, de olhos perdidos e calados,

Sentia que, na margem, a dor se apurava.


Na mata, o vento contava segredos,

E o rio, que não sabe de horizontes,

Vira espelho de quem busca nas águas,

O que se esconde nos confins dos montes.


A terceira margem, vaga e não dita,

É um mistério no peito de quem sente,

Que na solidão, a margem infinita,

Se dissolve em silêncio, suavemente.


Quem vai pela margem, na busca de vida,

Esquece que o rio é redondo, fechado,

E no sussurro das águas, a alma perdida

Encontra o que é distante e mal encontrado.


Mas na curva onde a sombra se estende,

O homem se perde em busca do querer,

Não é na margem que ele entende,

Mas no que ele ignora, e vai aprender.


A terceira margem não é o além,

Mas o que se perde, e nunca se ganha,

É o que o rio traz e o homem tem,

No fim da viagem, onde o tempo se entranha.


E a terceira margem, oculta e apartada,

É o abismo onde o homem se vê,

Refletido no que já não é estrada,

Mas um rio que flui e não se percebe.


Na beira do rio, o silêncio é quem canta,

A água, que antes cantava seu lamento,

Como quem conhece o segredo, e agora se cala

Observando tudo ser carregado no vento.


O homem, que antes procurava entender,

Agora se perde nas margens do próprio ser,

Na terceira margem, onde o tempo não cede,

Ele encontra o que não se pode ter.


Ali, entre a água e a terra, se dissolve o querer,

E a alma, antes ansiosa, agora compreende

Que a busca é o rio que nunca cessa de correr,

Mas é também o abismo que nunca se sabe.


A terceira margem, não dita, mas vivida,

É a linha que separa o céu do chão,

É onde o mistério da vida se rende,

E o homem se vê, sem mais explicação.


E assim, nesse ínterim, o homem se reconhece:

Não é o que encontra, mas o que ele se torna,

Pois o rio é eterno, e a viagem não fenece,

Mas o sujeito, enfim, dissolve-se.

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