Na beira do rio, a vida se enredava,
A água cantava seu canto de lonjura,
Mas o homem, de olhos perdidos e calados,
Sentia que, na margem, a dor se apurava.
Na mata, o vento contava segredos,
E o rio, que não sabe de horizontes,
Vira espelho de quem busca nas águas,
O que se esconde nos confins dos montes.
A terceira margem, vaga e não dita,
É um mistério no peito de quem sente,
Que na solidão, a margem infinita,
Se dissolve em silêncio, suavemente.
Quem vai pela margem, na busca de vida,
Esquece que o rio é redondo, fechado,
E no sussurro das águas, a alma perdida
Encontra o que é distante e mal encontrado.
Mas na curva onde a sombra se estende,
O homem se perde em busca do querer,
Não é na margem que ele entende,
Mas no que ele ignora, e vai aprender.
A terceira margem não é o além,
Mas o que se perde, e nunca se ganha,
É o que o rio traz e o homem tem,
No fim da viagem, onde o tempo se entranha.
E a terceira margem, oculta e apartada,
É o abismo onde o homem se vê,
Refletido no que já não é estrada,
Mas um rio que flui e não se percebe.
Na beira do rio, o silêncio é quem canta,
A água, que antes cantava seu lamento,
Como quem conhece o segredo, e agora se cala
Observando tudo ser carregado no vento.
O homem, que antes procurava entender,
Agora se perde nas margens do próprio ser,
Na terceira margem, onde o tempo não cede,
Ele encontra o que não se pode ter.
Ali, entre a água e a terra, se dissolve o querer,
E a alma, antes ansiosa, agora compreende
Que a busca é o rio que nunca cessa de correr,
Mas é também o abismo que nunca se sabe.
A terceira margem, não dita, mas vivida,
É a linha que separa o céu do chão,
É onde o mistério da vida se rende,
E o homem se vê, sem mais explicação.
E assim, nesse ínterim, o homem se reconhece:
Não é o que encontra, mas o que ele se torna,
Pois o rio é eterno, e a viagem não fenece,
Mas o sujeito, enfim, dissolve-se.
Nenhum comentário:
Postar um comentário