Em sete dias, diz-se, Deus tudo criou,
fez luz, estrelas, montanhas e mar,
e no sexto, o homem, que Ele amou,
mas, ao que parece, sobrou pra atazanar.
Entre flores e bichos, na obra acabada,
surgiu o mosquito, vil criatura.
Seria um erro? Uma ideia mal pensada?
Ou prova divina de Sua ironia pura?
Ah, Senhor, onipotente e bondoso,
que vê tudo e sabe o que virá,
como explicar um plano tão jocoso,
que põe no mosquito vilã astúcia?
Ele zune à noite, na escuridão,
ferindo a carne com sede ardente.
Se és amor, Senhor, e perfeição,
por que tal praga no meio da gente?
O Paradoxo de Epicuro me provoca:
se és tão bom, por que não o evitaste?
Se tudo podes, por que não o desfaz?
Ou será, no fundo, sua obra maligna?
Talvez o mosquito seja a penitência,
pequeno flagelo para nos lembrar,
de que a perfeição é pura aparência,
e nem na Criação se pode confiar.
Ou talvez, quem sabe, seja uma piada,
um teste de paciência celestial,
um serzinho inútil, de alma amaldiçoada,
que revela em nós o lado mais irracional.
E assim seguimos, entre preces e tapas,
enquanto o mosquito faz seu sermão.
Será que Deus, lá no alto, se escapa,
rindo de nossa eterna indignação?
Pois se para Ele, em tudo há motivo,
penso também, num sarcasmo divino:
foi por não querer a criatura encontrar,
que limitou seu voo ao terceiro andar.
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