sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Summa Culicidae (ou da razão de deus ter criado os mosquitos)

Em sete dias, diz-se, Deus tudo criou,

fez luz, estrelas, montanhas e mar,

e no sexto, o homem, que Ele amou,

mas, ao que parece, sobrou pra atazanar.


Entre flores e bichos, na obra acabada,

surgiu o mosquito, vil criatura.

Seria um erro? Uma ideia mal pensada?

Ou prova divina de Sua ironia pura?


Ah, Senhor, onipotente e bondoso,

que vê tudo e sabe o que virá,

como explicar um plano tão jocoso,

que põe no mosquito vilã astúcia?


Ele zune à noite, na escuridão,

ferindo a carne com sede ardente.

Se és amor, Senhor, e perfeição,

por que tal praga no meio da gente?


O Paradoxo de Epicuro me provoca:

se és tão bom, por que não o evitaste?

Se tudo podes, por que não o desfaz?

Ou será, no fundo, sua obra maligna?


Talvez o mosquito seja a penitência,

pequeno flagelo para nos lembrar,

de que a perfeição é pura aparência,

e nem na Criação se pode confiar.


Ou talvez, quem sabe, seja uma piada,

um teste de paciência celestial,

um serzinho inútil, de alma amaldiçoada,

que revela em nós o lado mais irracional.


E assim seguimos, entre preces e tapas,

enquanto o mosquito faz seu sermão.

Será que Deus, lá no alto, se escapa,

rindo de nossa eterna indignação?


Pois se para Ele, em tudo há motivo,

penso também, num sarcasmo divino:

foi por não querer a criatura encontrar,

que limitou seu voo ao terceiro andar.

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